ALEXANDER
Uma mulher pequena, pálida, jovem, de cabelos longos e moldada perfeitamente em um vestido elegante e cinza me encarava de cima a baixo ao passo que ignorava minha apresentação.
Era completamente ao contrário do que pensei ao imaginá-la – velha, carrancuda, talvez um pouco fofinha e com cabelos brancos. Seu cabelo longo e brilhante ofuscava meu olhar assim como a forma graciosa como cruzava as pernas. Pensei que iria me afogar em tanto brilho. Tinha lábios vermelhos, olhos maquiados de preto e unhas pintadas de marrom. Usava óculos de grau e era dona de um olhar arrogante, profundo e incrivelmente intimidador.
Sempre desconfiei que o demônio tivesse tal aparência, tão tentadora e maravilhosa.
Após me examinar alguns segundos, ao invés de dizer algo, a chefona simplesmente abriu uma gaveta e dela puxou um envelope grande. De lá, tirou um papel e o postou em frente ao rosto. Lendo, me encarou novamente quase bizarramente nervosa. Suas bochechas coraram enquanto abaixava o papel e apertava um botão ao lado do telefone, certamente chamando sua secretaria.
- Sim, senhorita Bern. Alice falando. - A voz do outro lado me foi prontamente familiar. Era a Alice, do RH.
- Vocês, seus incompetentes, mandaram um homem para a minha seleção? - Molly disse com a voz calma, quase como uma canção - Aqui no currículo, por acaso, não está constando que ele é homossexual!
Cruzei os braços um tanto indignado, porém intrigado com a postura daquela mulher. Era tão pequena e tão durona, tão linda e tão azeda, tão sexy e tão bloqueada. Olhava-me como se desejasse me incinerar e estudasse cada reação de meu corpo.
Era a contratante e eu o contratado, mas não precisava me fuzilar a cada segundo.
- O candidato em questão não é homossexual, senhorita Bern, e obviamente a senhorita sabe que isso não se consta em currículos. Não me lembro da senhorita ter especificado sobre a orientação sexual do contratado, muito menos sobre o gênero dele. Se me recordo, a senhorita apenas desejava alguém capacitado e o currículo do senhor Alcady trás boas referências e qualificações.
Considerei a explicação plausível de Alice.
Pisquei para a chefona quando me olhou nos olhos pela primeira vez. No mesmo momento, adotou uma postura diferente e cheguei a pensar que iria me arremessar o telefone na cabeça, tão nervosa que parecia estar com Alice.
- Entendo-me com você depois, Alice. -Molly desligou a ligação me encarando atentamente por trás dos óculos redondos - Sente-se, senhor Alexander Alcady. - Leu meu nome e pegou o currículo novamente, intrigada.
- Com licença. - Me sentei na cadeira a sua frente, aguardando qualquer reação e contemplando a forma linda como seus olhos percorriam o papel lentamente. Olhos escuros e fatais.
Molly Bern era definitivamente bonita e poderia significar um grande problema para mim, caso realmente desejasse fazer de minha vida um inferno. Eu precisava daquele emprego e jamais imaginei que uma chefe durona e extremamente sexy fosse significar qualquer impedimento para que eu chegasse a consegui-lo.
ALEXANDER
Molly analisava meu curriculo em suas mãos e eu não conseguia parar de reparar em como era bonita, principalmente quando estava séria, em uma postura de profissional impecável.
- Vejo que é formado em moda... - Sussurrou para si mesma e prosseguiu lendo - Formado também em administração e trabalhou anos para marcas como Chanel, Gucci e Louis Vuitton... - Parecia não acreditar no que lia e me encarou novamente. Jogou o currículo sobre a mesa - Posso saber o porquê foi demitido do último emprego, senhor Alcady?
- Não fui demitido, senhorita. Apenas desisti de um emprego para ir para o outro quando as oportunidades surgiam. - Respondi percebendo que o que essa pequena megera mais queria era me intimidar - Em minha mais recente passagem pela Vuitton fiz algumas desavenças e tive de deixar o cargo.
- Você tem ótimas recomendações... - Assentiu, com a mão apoiando o queixo fino e delicado - Porém, porque é formado em moda, se não exerce a profissão?
- Serei sincero com a senhorita... - Me aproximei um pouco mais, para falar um pouco mais baixo - Moda é minha satisfação pessoal. Aprecio tudo o que é bonito de se ver, sem esquecer, é claro, do conteúdo - Pisquei - Porém, por acasos da vida, entrei na administração da Gucci e trabalhei para a marca algum tempo. A partir dai surgiram convites irrecusáveis. Vi na Delux uma oportunidade de juntar moda e administração e agora está tudo em suas mãos. É isso.
Nos encaramos em silêncio por um tempo. A megerinha tamborilava as unhas marrons pela superfície da mesa e vi em seus olhos um brilho estranho. Suspirou.
- Minha resposta é não! Sinto muito, mas não quero você na Delux. Não serve para mim porque não tem o perfil que busco para minha empresa, senhor Alcady. - Respondeu seriamente e me olhando ainda do mesmo modo ameaçador e recatado - Obrigado por se candidatar.
- O que? - Pode ter sido um reflexo ou sei lá, mas me espantei com seu comportamento repentinamente feroz. Meu currículo era impecável e minhas formações são nas melhores faculdades! Obviamente Molly Bern queria me intimadar e por isso prossegui encarando-a, perplexo por sua postura.
- Foi o que ouviu! Fora! - Silabou de vagar e apontando para a porta com um aceno leve de cabeça. Abriu uma revista, ignorando totalmente minha presença após me descartar.
- Sabe que isso é discriminação de gênero, correto? É claro que não quer me contratar porque sou um homem heterossexual! - Molly me encarou com deboche por detrás dos óculos redondos.
- Dê queixa na policia, então. Tenha um bom dia, senhor Alcady.
Fiquei parado por alguns segundos até entender que estava sendo dispensado.
Oh não, nenhuma mulher nunca me dispensou e muito menos fui recusado em um emprego! Engoli o orgulho e me coloquei de pé repudiando a megera em mente.
- Não perderei meu tempo. Você também não serve para mim, senhorita. - Molly ergueu os olhos em minha direção por detrás da revista, curiosa ao me ouvir - Adeus Molly Bern, rainha da Delux! - Ironizei e sai da sala sem olhar para trás.
Chegar até Molly seria mais difícil do que eu esperava.