Capítulo 2

Sou o Líder do Comando, conhecido por todos como Lorde. Assumi o comando depois que meu pai foi em cana. Poucos sabem o meu nome, apenas os mais confiáveis.

    Sou Gabriel, o líder mais jovem que o comando já teve. Mas não se engane, não alcancei essa posição por ser filho do antigo líder e sim pelo que sou.

    Em meio ao caos da invasão dos botas, eles levaram o meu pai e minha mãe, foi morta por eles. Foi um golpe avassalador.

    Na reunião subsequente, fui designado como líder do comando e dono da Rocinha. Já era um homem frio e calculista, mas a perda da minha coroa intensificou essa faceta.

    Para o mundo, sou considerado o próprio satanás. Mas as coisas mudam dentro de casa, com minha irmã, ainda sou o Gabriel. Conheço o sofrimento pelo qual ela passou com todas essas mudanças, e é por isso que nossa ligação é inquebrável. Protejo-a tanto quanto ela me protege, pois somos os únicos que realmente conhecem o peso do fardo que carregamos.

    A responsabilidade pesa nos meus ombros e cada decisão é uma jogada estratégica. O respeito não vem apenas do título, mas das ações e da lealdade conquistada. Nas vielas do comando, onde a vida é medida em cada passo, eu trilho meu caminho enfrentando desafios que moldam a minha liderança e definem o futuro do morro.

    Sei muito bem em quem posso confiar e comigo não há segunda chance para pilantragem. Aqui, vagabundo não tem vez.

    Dizem que sou frio e que deveria ser mais carismático, mas isso é parte da minha essência, algo que não mudaria por nada e nem ninguém.

    Não sou de me apaixonar, na verdade, nem me lembro quando foi a última vez que isso aconteceu. Comigo, é uma experiência única e nada mais, não gosto de repetir.

    Hoje vai rolar um churrasco maneiro no Complexo do Alemão, e o King me chamou. Dizem que a filha mais nova dele está voltando depois de anos.

    Quem é ela? Não faço ideia, não me lembro dela.

    A parte complicada de ir para o morro do Alemão é ter que lidar com Larissa e Talita. Não vou mentir, já me envolvi com as duas, e agora elas quase se matam, achando que uma delas será minha fiel.

    Chego no morro trajado na beca. Usando uma bermuda preta da Burberry, camiseta branca da Balenciaga, uma corrente de ouro no pescoço e um relógio de destaque no pulso.

    Assim que me vêem, as meninas se entreolham e logo se aproximam, me cumprimentando, passando as mãos pelo meu corpo.

    Distancio-me delas, indo em direção ao King para cumprimentá-lo. Pego um whisky, acendo um fininho e mergulho na atmosfera do churrasco no Complexo do Alemão.

    O funk alto e as minas jogando a bunda no chão, até que é uma visão boa de onde eu estou. Enquanto sorvo meu whisky, uma mina que eu nunca havia visto, morena e dona de uma bunda maravilhosa vem até mim, já sentando em meu colo. A cara de cu e desgosto das filhas do King, chega até ser engraçado.

    Observando a agitação e ouvindo murmúrios sobre o gelo acabando, percebi minha oportunidade para sair por um tempo.

    - O gelo tá acabando? - Pergunto, como quem não se importa muito.

    - Sim, mas já vou acionar os crias para ir buscar.

    - Precisa não, deixa que eu vou. - Comentei, virando o restante da minha dose. - Tenho que comprar uns bagulhos pra mim também, já aproveito a viagem.

    Dirijo-me até o carro, solto a marcha em direção ao bar do seu Zé, onde pego o que preciso e ao sair, avistei uma mina loirinha, com ares de patricinha, subindo o morro. Dois soldados, Fumaça e G3, a acompanham. Me surpreendo pois já faz alguns anos que não via fumaça.

    A mina, por mais atraente que seja, parece não ter brilho nos olhos, como se não enxergasse o que está acontecendo à sua volta. É um fenômeno difícil de explicar.

    Seu Zé, como todos no morro, observa a cena, deixando-me ainda mais confuso.

    - A vida não foi fácil para ela, e aqueles olhos são a prova disso. - Diz seu Zé, ficando ao meu lado.

    - Quem é ela? - Pergunto curioso.

    - É a filha mais nova do King. Não deve estar sendo fácil voltar para cá depois de tanto tempo. Minha menina tinha um sorriso tão lindo em seu rosto, seus olhos brilhavam como duas esferas. Ao olhar para o passado, é possível até ouvir sua gargalhada gostosa pelo morro... mas agora, eu não encontro mais aquela menina. - Ele diz, indo para dentro da cozinha, preparar algo.

    Eu permaneço ali, hipnotizado pela cena intrigante.

    Olho em direção ao seu Zé, que retorna com milkshake de ovomaltine em suas mãos.

    - Maitê! - Ele grita de dentro do bar. - Venha, minha menina, tenho algo que vai gostar.

    A mina abre um pequeno sorriso, como se alguma memória fosse ativada em sua mente e em passos pequenos, ela caminha em direção ao seu Zé. Abraça-o sem dizer uma palavra e sem olhar na minha direção.

    Ela senta em uma das mesas e começa a saborear o milkshake.

    Vejo Fumaça falando algo que não consigo ouvir e depois, se dirige a mim.

    - E aí, Lorde! Quanto tempo, parceiro? Como tu tá?

    - Ah, achei que não viria me cumprimentar. - Digo dando uma risadinha. - Tô suave, e tu?

    - Em primeiro lugar, a segurança dela. - Aponta discretamente em direção a loirinha. - Depois, eu cumprimento os parceiros, é bom estar no Brasil após tanto tempo fora. - Ele diz, rindo. - Tudo firmeza, também. - Quando olho para a menina, nossos olhos se encontram, trazendo uma sensação estranha no peito.

    Fumaça, sempre com seu jeito direto, traz uma descontração ao ambiente tenso. Enquanto mantemos a conversa, observo Maitê saboreando o milkshake, sua expressão distante revelando um misto de sentimentos.

    - Maitê, esse é o Lorde, nosso líder do comando. - Fumaça me apresenta, tirando ela de seus pensamentos.

    Ela levanta os olhos e fixa o olhar em mim por um momento, como se tentasse decifrar algo. Cumprimenta-me com um aceno de cabeça, mas suas palavras permanecem ausentes.

    - Lorde, essa é Maitê, a filha mais nova do King. Voltou hoje depois de um bom tempo fora. - Fumaça explica.

    - Bem-vinda de volta, Maitê. - Expresso de maneira cortês, mas sua presença evoca uma atmosfera peculiar. - Novamente, ela apenas acenou com a cabeça, como se pouco se importasse. Uma energia desconhecida paira entre nós, alimentando a curiosidade e a perplexidade diante da situação.

    O clima tenso persiste enquanto Maitê permanece mergulhada em seus próprios pensamentos, sem revelar muito sobre seu retorno ao morro. Fumaça, percebendo que ela ficou estranha, decide se afastar e retornar à sua posição de segurança.

    A indiferença de Maitê em relação à minha presença, destaca-se de todas as interações que estou acostumado. Pela primeira vez, não percebo qualquer sinal de curiosidade ou atenção vinda dela. Essa atitude inusitada me incomoda mais do que eu poderia ter previsto, desafiando a dinâmica habitual das relações no morro.

Capítulo 3

Assim que a aeromoça anunciou que chegamos ao Brasil, uma mistura de sentimentos me invade. Lembro-me da adolescência, quando nunca quis sair do Brasil, contrastando com os motivos que me levaram a sair.

      Descemos do avião e depois de pegarmos nossas bagagens, nos dirigimos aos carros, onde logo avistamos o G3, e entramos no veículo. Ao longo do caminho, observo o Rio e sua beleza encantadora, que só é encontrada aqui.

      Após alguns minutos no carro, percebo que estamos nos aproximando da barragem do morro. Fecho os olhos e respiro fundo, sentindo como se estivesse sufocando a cada minuto dentro do veículo.

      Ao passarmos pela barreira, noto algumas mudanças no morro. Mas a maior parte, ainda está igual. Vejo crianças brincando na rua e as velhas fofoqueiras continuam no mesmo lugar. Uma pequena lágrima escorre pelo meu rosto.

      - Você... pode, por favor, parar o carro? - Perguntei num sussurro, sem saber ao certo se podia ser ouvida.

      - Está tudo bem? - Fumaça pergunta, me olhando preocupado, mas já sinto o veículo sendo parado.

      - Sim, só quero ir andando. - Sem dizer mais nada, eles descem e também me ajudam a fazer o mesmo. G3 pede para que outro homem leve o carro até a casa do meu pai.

      Ao sair, o ar do morro invade meus pulmões. A atmosfera familiar, misturada com a tensão da minha volta, me deixa emotiva.

      Caminho pelas ruas que um dia chamei de lar, observando as mudanças e, ao mesmo tempo, os elementos que permanecem intocados pelo tempo. As lembranças surgem como fantasmas, ecoando pelas vielas e becos.

      Uma enxurrada de lembranças paira sobre mim, a cada passo que dou pelo morro. As boas memórias, especialmente aquelas com meu irmão, me fazem parar no meu caminho. Ao olhar para cima, percebo a realidade de onde estou, e uma vontade avassaladora de gritar e expressar o quanto odeio estar ali novamente, acaba tomando conta de mim.

      Contudo, como sempre, engulo o grito que ameaça escapar. A cada rua percorrida, mais lembranças ressurgem, tanto as alegres, quanto as dolorosas.

      Até que ouço uma voz familiar.

      - Maitê! - Ele grita.

      Ergo meus olhos e vejo o seu Zé à minha frente. É como se, mesmo que eu não dissesse nada, ele soubesse que eu precisava sair da bolha que estava prestes a me engolir. Como um farol, meus olhos encontraram os dele e caminho em sua direção a pequenos passos, tentando controlar minha respiração.

      Sento-me à mesa, a mesma que sempre sentava com meu irmão, e logo ele traz um milkshake de ovomaltine, meu preferido. Sinto que, mais uma vez, voltei ao tempo. Olho para a cadeira em minha frente, e quase posso ver  meu irmão sentado ali, como nos velhos tempos. A voz dele soa em meus ouvidos.

      - Nada melhor que, após um dia cansativo, poder tomar um shake desses. - Dizia Viktor, com um sorriso lindo em seus lábios.

      Sinto meus olhos queimarem, segurando o máximo que consigo o choro que está travado em mim. - Você não tinha o direito de morrer antes de mim. - Digo baixinho para mim mesma.

      Um olhar se fixa sobre mim, como se queimasse minha pele. Ergo a cabeça e o encaro, mas logo desviei de seus olhos, olhando para o nada.

      É quando Fumaça vem até mim, acompanhado dessa mesma pessoa, e diz que ele é o líder do comando. Olho para ele e apenas cumprimento com a cabeça.

      As coisas mudaram mesmo em quatro anos, pois o líder do comando que eu conhecia era o Morte. Sem querer realmente saber o motivo, acabo pensando no que deve ter acontecido com ele.

      O novo líder se apresenta, mas nem ao menos eu consegui dizer algo. É como se eu fosse uma grande filha da puta...

      Essa revelação sobre o novo líder do comando ecoa em meus pensamentos, mas as palavras ficam presas na garganta. Morte, é o meu padrinho, e pensar na possibilidade de sua morte corrói a minha alma.

      Porque todos que eu amo morrem?

      Indago em pensamento. Vejo Fumaça se afastando do líder do comando e vindo em minha direção. O mesmo, antes de sair do bar de seu Zé, dá mais uma olhada para mim e entra em seu carro.

      Volto a me deliciar com meu milkshake, quando G3 quebra o silêncio.

      - Temos que ir, pequena. Seu pai está te esperando. - Fala, tentando parecer calmo. Respiro fundo e concordo com um aceno, me levantando da mesa, deixando o copo de milkshake pela metade. Os sentimentos tumultuados se entrelaçam, enquanto sigo G3 em direção a casa de meu pai.

      Chegando perto da casa, percebo como está lotado e a vontade que tenho, é de fazer o mesmo caminho que fiz para chegar aqui e ir embora.

      - É sério mesmo que achou que eu ficaria feliz com a casa cheia de gente estranha? - Digo em uma gargalhada sem emoção.

      Ao entrar na casa, meus olhos se encontram novamente com os do líder do comando. Antes que eu erguesse minha cabeça, Larissa e Talita correm até mim e me abraçam. Retribuo sem dizer nada.

      - Meeeeu Deus! Que saudades, pequena... nos conte tudo. - Elas falavam como se eu acabasse de voltar de um intercâmbio. - Olha lá, aquele de branco. Escrito Balenciaga na blusa, é dele que a gente sempre te fala, nosso futuro marido. - Elas dizem, empolgadas.

      Então, lembro-me de onde já havia visto fotos dele. As doidas das minhas irmãs ficam com o mesmo homem e ainda acham que vão casar com ele algum dia. Chega a ser hilário.

      Vejo meu pai no canto, me olhando, e não consigo sentir nada ao encará-lo. Ele caminha até mim, mantendo um olhar firme.

      - Não vai cumprimentar o seu pai? - Questiona.

      - Achou mesmo que fazer um churrasco para a minha chegada, com pessoas desconhecidas era a melhor opção?

      - Uma hora ou outra, você terá que se acostumar com eles. - Ele diz friamente.

      - Engraçado, como todos vivem suas vidas, como se meu irmão não tivesse sido ninguém.

      - Chega, caralho! - Ele grita, chamando a atenção de todos ao redor. - Faz quatro anos que seu irmão morreu e você ainda não superou? Nada do que você fizer vai trazê-lo de volta, porra! - O grito de meu pai ecoa na sala, silenciando momentaneamente o ambiente carregado de tensão. Seus olhos refletem uma mistura de frustração e mágoa, enquanto ele enfrenta a minha resistência em aceitar a realidade. - Chega, Maitê. - Ele repete, desta vez num tom mais contido. - Você precisa seguir em frente, se agarre às lembranças boas que temos do seu irmão.

      Meus olhos, secos e imperturbáveis, encontram os dele. Uma troca de olhares que carrega anos de desentendimentos não resolvidos. Em meio à multidão, as palavras não ditas entre nós parecem pesar mais do que qualquer choro ou desabafo.

      Um silêncio pesado paira no ar, enquanto meu pai e eu encaramos um ao outro. As palavras não ditas parecem criar uma barreira entre nós, e eu me vejo incapaz de quebrar esse muro de ressentimento.

      - Você precisa seguir em frente, Maitê. A vida continua, mesmo que a gente não queira. - Ele suspira, tentando transmitir uma compreensão que parece distante.

      Sem uma palavra, viro-me e me afasto dos olhares que me cercam, buscando um lugar para me esconder dos olhos intrigantes das pessoas ao nosso redor. Me pergunto como é possível seguir em frente, quando o passado ainda se agarra a mim como sombras indeléveis.

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