Grávida.
Camila Perin estava grávida do filho de Caio.
O homem que vingou meu aborto com uma brutalidade tão teatral estava dormindo com minha agressora o tempo todo. O homem que me abraçou enquanto eu chorava por nosso bebê perdido estava criando uma nova vida com a mulher que o matou.
Um ácido amargo e corrosivo encheu minha garganta. Cambaleei para trás, afastando-me da porta, minha mão instintivamente indo para minha própria barriga lisa. Uma dor fantasma latejava fundo dentro de mim, um eco oco do que eu havia perdido.
A memória era visceral. A cãibra súbita e aguda. O jorro de calor. A visão do vermelho, tanto vermelho, manchando meu vestido branco, formando uma poça no chão de mármore frio. Um teste de Rorschach do meu inferno pessoal.
Lembrei-me da fúria de Caio. Tinha sido épica, aterrorizante, uma força da natureza.
"Eu vou fazê-la pagar", ele rugira, o rosto uma máscara de fúria. "Vou amaldiçoá-la aos poços mais profundos do inferno pelo que ela fez a você, ao nosso filho."
Lembrei-me dele ordenando a seus homens que quebrassem as pernas dela. Lembrei-me da satisfação fria em sua voz quando descreveu o tatuador marcando seu rosto. Lembrei-me de ver a reportagem, uma foto borrada de uma figura desgrenhada sendo expulsa para as favelas, e sentir um doentio e culpado alívio.
Era tudo mentira. Uma performance. Uma peça elaborada e sádica encenada para meu benefício.
Uma única lágrima quente de pura raiva escorreu pela minha bochecha. Eu a enxuguei com as costas da mão, meus dedos se fechando em um punho.
Um sorriso esticou meus lábios, mas era uma coisa morta, fria e desprovida de qualquer calor. Era o sorriso de um predador.
Por tanto tempo, eu interpretei o papel da noiva gentil e amorosa. Eu busquei uma vida tranquila, uma vida normal, longe do caos do meu passado. Eu me permiti ser suave, maleável, confiante. Eu enterrei a garota que sobreviveu à selva, a garota que sabia ser implacável.
Eu havia esquecido que uma loba encurralada é o animal mais perigoso de todos.
E eu acabara de ser encurralada no canto do universo.
Virei-me e me afastei do escritório, meus passos medidos e silenciosos.
"Senhorita Paes?" uma jovem empregada perguntou, seus olhos arregalados de surpresa ao me ver. "Está tudo bem? Posso pegar algo para a senhorita?"
Meu olhar passou por ela, para a magnífica peça central do grande salão. Suspenso no teto, brilhando sob a luz suave dos lustres, estava meu vestido de noiva. Um modelo exclusivo de Martha Medeiros, vindo de Alagoas, adornado com milhares de pérolas costuradas à mão. Era um vestido de conto de fadas, um símbolo do futuro perfeito que Caio havia me prometido.
Lembrei-me do dia em que chegou. Eu havia girado na frente do espelho, rindo, me sentindo como uma princesa. Caio me abraçou por trás, o queixo no meu ombro, sussurrando: "Você será a noiva mais linda que o mundo já viu."
Agora, a visão dele me dava vontade de vomitar. Cada pérola era uma mentira. Cada fio era um ponto na teia de enganos que ele teceu ao meu redor. A bela seda branca era uma mortalha, não um vestido de noiva. Era uma ferramenta projetada para me humilhar, para cimentar a vitória de Camila.
Um gosto metálico e forte encheu minha boca. Eu havia mordido o interior do meu lábio, com força. A dor era uma força de ancoragem no caos turbulento da minha mente.
"Senhorita Paes?" a empregada repetiu, uma centelha de preocupação em sua voz.
Virei-me para ela, meu sorriso frio ainda fixo no lugar.
"Aquele vestido", eu disse, minha voz tão calma e plana quanto um lago congelado. "Está sujo."
"Sujo? Mas... está perfeito."
"Livre-se dele", ordenei. "Queime-o. Não quero vê-lo nunca mais."
Ela me encarou, a boca aberta em descrença.
"Mas... Senhorita Paes... o casamento é amanhã..."
Não me dei ao trabalho de responder. Simplesmente me virei e subi a grande escadaria, deixando-a ali, uma estátua de choque e confusão, sob um vestido de noiva que já era um fantasma.
Ignorei os sussurros frenéticos e os suspiros chocados da equipe enquanto subia a escada. As opiniões deles eram irrelevantes. Eram peças em um tabuleiro que eu estava prestes a virar.
Eu estava em nosso quarto, olhando para as luzes da cidade, quando Caio finalmente entrou. Já passava da meia-noite. Ele se moveu silenciosamente, um predador em sua própria casa, e envolveu seus braços ao meu redor por trás, enterrando o rosto no meu pescoço.
"Senti sua falta", ele murmurou, a voz um ronronar baixo.
Fechei meu celular, desligando a tela que exibia um arquivo de vídeo nítido e claro que acabara de ser enviado por um investigador particular. O arquivo estava rotulado: Caio & Camila. O Escritório. Esta Noite.
"O que é essa história de você querer queimar seu vestido de noiva?" ele perguntou, o tom leve, provocador.
Não me virei. Mantive meu olhar fixo no fluxo interminável de faróis lá embaixo.
"Estava sujo", eu disse, as palavras secas. "Algo o... contaminou."
Ele ficou imóvel. Pude sentir a mudança nele, a tensão súbita em seus braços. Ele era um mestre em ler pessoas, e sabia que algo estava errado.
"Elisa, meu bem, o que foi? Você está tendo dúvidas?" Ele me virou para encará-lo, suas mãos segurando meu rosto. "Não fique nervosa. Somos só você e eu."
Ele se inclinou para me beijar.
A imagem dele beijando Camila, de suas mãos no corpo dela, brilhou em minha mente. O cheiro do perfume dela, uma fragrância enjoativa e doentia que eu agora reconhecia, agarrava-se ao seu terno caro. Era fraco, quase imperceptível, mas para meus sentidos aguçados, era como uma agressão física.
Uma onda de náusea tão poderosa que dobrou meus joelhos me atingiu.
Engasguei, um som seco e arquejante.
Eu o empurrei, cambaleando para trás.
"Não me toque", ofeguei, as palavras com gosto de bile.
Outro espasmo violento sacudiu meu corpo. Tapei a boca com a mão e corri para o banheiro da suíte, mal conseguindo chegar ao vaso sanitário antes que meu corpo expelisse violentamente o conteúdo do meu estômago. Vomitei e solucei, meu corpo tremendo, até não restar nada além de um vazio cru e ardente.
Quando finalmente saí, fraca e trêmula, a cena do quarto havia se transformado. Caio não estava mais sozinho. A governanta e uma dúzia de outros empregados estavam em fila, com as cabeças baixas, os rostos pálidos de medo.
Caio estava recostado em uma poltrona, polindo calmamente um abridor de cartas de prata com um lenço de seda. Seu rosto, no entanto, estava tudo menos calmo. Era uma nuvem de tempestade de fúria controlada.
"Então", ele começou, a voz perigosamente suave. "Nenhum de vocês pensou em verificar sua patroa? Nenhum de vocês notou que ela não estava bem?"
A casa dos Alexandre funcionava com base no medo. Caio pagava salários exorbitantes à sua equipe, mas o preço por qualquer erro, por menor que fosse, era severo. Um único deslize poderia significar demissão instantânea, lista negra e, em alguns casos, uma viagem a uma discreta "instalação correcional" da qual as pessoas voltavam... mudadas.
"Senhor", a governanta, uma mulher que estava com ele há uma década, gaguejou. "Nós... estávamos preocupados com... a situação do vestido. A saúde da senhorita Paes é nossa maior prioridade, o senhor sabe disso."
A mão de Caio disparou, agarrando a governanta pelos cabelos e puxando-a para frente. Ele pressionou a ponta do abridor de cartas em sua bochecha.
"Não minta para mim", ele sibilou.
Ele não precisou fazer mais nada. Dois de seus guarda-costas pessoais se materializaram das sombras, agarraram a mulher que gritava e a arrastaram para fora do quarto. A pesada porta de carvalho se fechou, cortando seus apelos.
Um silêncio sufocante desceu. Ninguém ousava respirar.
"Parece que todos vocês precisam de um lembrete de seus deveres", disse Caio, seu olhar varrendo a equipe restante. "Talvez um mês de salário descontado para todos? Ou algo mais... memorável?"
"Caio, pare", eu disse. Minha voz estava fraca, mas cortou o silêncio.
Ele estava ao meu lado instantaneamente, sua expressão mudando de fúria fria para preocupação terna tão rapidamente que me deu vertigem. A performance era impecável.
"Meu amor", ele sussurrou, puxando-me para um abraço do qual eu não conseguia escapar. "Você vê como eles a negligenciam? Não posso permitir." Ele virou a cabeça para a equipe aterrorizada. "Sua patroa intercedeu em seu favor. Vocês estão poupados... por enquanto. Saiam."
Eles saíram correndo do quarto como se o próprio diabo estivesse em seus calcanhares.
Na manhã seguinte, todos os empregados da mansão haviam sido substituídos.