Capítulo 2

Elara POV:

Voltei para a suíte principal, meus movimentos tão silenciosos quanto os de um predador se aproximando de sua presa.

Minhas mãos não tremeram quando peguei meu celular da mesa de cabeceira. Meus dedos estavam firmes enquanto eu rolava até o contato criptografado.

Evandro atendeu no terceiro toque, sua voz grossa de sono. "Elara? O que foi? É madrugada. Você está segura?"

As palavras ficaram presas na minha garganta, um nó de navalhas. Eu não conseguia falar. Não conseguia forçar a traição a passar pelos meus lábios.

Sua suposição imediata foi sobre o Don. "É o Breno? Aconteceu alguma coisa com ele? Ele está ferido?"

"Ele está bem", consegui dizer, minha voz plana, desprovida de toda emoção. Parecia pertencer a uma estranha.

"Ele está perfeitamente bem." Uma risada amarga ameaçou escapar, um som que teria quebrado a quietude. "Evandro... eu preciso da excisão."

Houve uma inspiração aguda do outro lado da linha. "Elara, já conversamos sobre isso. É uma hipótese. É radical, irreversível. Pode desencadear uma perda de memória em cascata. Você pode esquecer anos da sua vida. Você pode esquecer quem você é."

"Esse é o ponto", sussurrei. "Eu não quero mais ser essa pessoa. A pessoa que sente isso."

Lembrei-me de nossas conversas de anos atrás, quando sua pesquisa ainda era teórica, financiada por uma das minhas bolsas de pesquisa legítimas. "E o Protocolo Tábula Rasa? Aquele que você apenas teorizou. A ruptura total."

Sua voz ficou séria, a sonolência completamente desaparecida. "Meu Deus, Elara. O que você fez?"

"Estou me voluntariando", disse eu simplesmente. "Serei seu primeiro teste em humanos. Diga o seu preço."

"Esta não é uma decisão a ser tomada às duas da manhã, alimentada por sabe-se lá o quê", ele insistiu, seu tom suplicante.

"É a única decisão", contrapus, a finalidade em minha própria voz me surpreendendo. "Já está tomada."

Ele ficou em silêncio por um longo momento. Eu podia ouvi-lo respirando, pesando a ética contra a oportunidade científica de uma vida.

"Meu laboratório", ele disse finalmente. "Amanhã à tarde. Prometa que não fará nada drástico até lá."

"Eu prometo", menti.

Desliguei o telefone no momento em que a porta do quarto se abriu com um rangido. Breno entrou no quarto, uma sombra se movendo com furtividade praticada, como se tivesse feito isso mil vezes.

Ele deslizou para a cama ao meu lado, de costas para mim, e soltou um ronco suave e fingido. Uma nuvem enjoativamente doce pairava em sua pele — o perfume de Késia, um cheiro tão barato que era um insulto. Uma onda de náusea revirou meu estômago.

Fechei os olhos e a contive, minha determinação se endurecendo em algo frio e afiado.

Amanhã, eu começaria o processo de apagá-lo.

Capítulo 3

Elara POV:

Na manhã seguinte, Breno era todo sorrisos e arrogância casual durante o café da manhã. Ele sentou-se à minha frente na cabeceira da longa mesa de mogno, desempenhando o papel de marido dedicado à perfeição.

"Você parece cansada, mia regina", disse ele, com um sorriso de canto enquanto passava manteiga em uma torrada. "Pesadelos?"

Eu apenas tomei meu café.

"Algo assim."

Ele estendeu a mão sobre a mesa, seus dedos roçando os meus. Tive que lutar contra o instinto de recuar.

"Você nunca me deixaria, não é, Elara? Você sabe que é a única que realmente entende este mundo."

Encarei seu olhar, moldando minha expressão em uma máscara perfeita de calma. "Tenho uma reunião de negócios esta manhã", disse eu, levantando-me da mesa. "Uma nova iniciativa de caridade."

Seu sorriso se alargou. "Claro. Minha esposa brilhante e generosa."

Eu mesma dirigi. Não em um dos sedãs pretos blindados que a Família usava, mas no meu conversível pessoal, aquele que Breno me comprou em nosso aniversário.

Levei-o ao submundo da cidade, a uma loja discreta escondida em um beco sujo na Rua 25 de Março, chamada "Documentos & Duplicatas".

O falsificador era uma lenda no submundo — o melhor que existia. Encomendei uma nova identidade impecável: "Júlia Benevides". Nova certidão de nascimento, CPF, passaporte.

Paguei em dinheiro de uma conta privada que Breno não sabia que existia.

Naquela tarde, encontrei Evandro em seu laboratório estéril e branco. O ar cheirava a antisséptico e ozônio.

Expus os detalhes da traição de Breno com Késia, minha voz clínica e distante, como se estivesse descrevendo a aquisição de um negócio que deu errado.

"Ele fez isso em nossa casa", concluí. "Com minha protegida. Não há como voltar atrás."

Evandro ouviu, seu rosto sombrio. Ele não discutiu. Não tentou me convencer do contrário. Ele viu o aço em minha espinha, a finalidade absoluta em meus olhos. Ele sabia que não havia como me dissuadir.

"O Soro Nulo", disse ele em voz baixa. "É um composto de duas partes. O componente final é instável. Chegará em três dias."

Três dias. O aniversário de Breno.

A ironia era tão potente que era um gosto amargo na minha língua.

"Vou comprar a passagem", disse eu.

Quando voltei para a mansão, Breno estava no grande hall de entrada, andando de um lado para o outro como um tigre enjaulado. No momento em que me viu, o alívio tomou conta de seu rosto, rapidamente seguido por suspeita.

"Onde você esteve?", ele exigiu, sua voz tensa. "Seus seguranças disseram que você os despistou."

Seus olhos passaram por mim para a entrada, onde duas grandes caixas com minhas roupas estavam esperando para serem recolhidas.

"Apenas limpando meu armário", menti suavemente, sem perder o ritmo. "Para a campanha de caridade que te falei."

Ele acreditou. A ansiedade desapareceu de seu rosto, substituída por uma ternura enjoativa.

Ele me puxou para seus braços, enterrando o rosto em meu cabelo. "Nunca mais faça isso", ele murmurou. "Nunca mais me assuste assim. Prometa que nunca vai me deixar."

Fiquei perfeitamente imóvel em seu abraço, meu corpo rígido.

"Eu prometo", disse eu ao homem cuja memória estava prestes a obliterar.

No dia seguinte, levei minha aliança de casamento a um joalheiro conhecido por sua discrição. O diamante era uma pedra enorme e impecável, um símbolo de seu poder e da minha posição.

"Quero que o aro de platina seja derretido", disse ao joalheiro. "Vou ficar com a pedra."

Saí com uma pequena caixa forrada de veludo. Dentro estava o diamante solto e um pedaço disforme e feio de metal cinza.

Ao chegar ao portão principal da propriedade, vi dois dos sedãs pretos da Família estacionados logo adentro. Breno estava conversando com dois de seus Soldados, sua expressão tensa.

Quando ele viu meu carro, seus ombros relaxaram. Ele se aproximou enquanto eu saía, seus olhos fixando-se imediatamente na pequena caixa preta em minha mão.

"O que é isso?", ele perguntou, a curiosidade aguçando seu tom.

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