Capítulo 2

Caio finalmente soltou meu rosto. Ele empurrou minha cabeça para longe com um movimento brusco. Meu pescoço estalou para trás.

Ele se virou de mim. Seus olhos encontraram a parede coberta com meus Post-its. Seu rosto se contorceu em um desprezo.

Ele chutou a parede. O som foi alto. Alguns bilhetes voaram para o chão.

"Que lixo é esse?", ele rosnou. "O manual de instruções da sua vida? Não me diga que você precisa de bilhetes para respirar também."

Ele começou a arrancá-los. Um por um. Ele os lia em voz alta, sua voz pingando sarcasmo.

"'Lembrar de tomar café da manhã.' 'Tomar remédio às 8h.' 'Carlos liga na terça.'"

Ele rasgou outro. "'Esta é a sua casa.'"

Ele riu, um som cruel e áspero. "Você precisa de um lembrete de onde mora, Juliana? Que gênio. Ou tudo isso faz parte da encenação? Para conseguir simpatia?"

Meus Post-its. Eles eram minhas âncoras. Meu bote salva-vidas em um mar de momentos esquecidos. Eram minha prova de que eu ainda estava aqui.

Tentei me levantar da cadeira. Minhas pernas pareciam gelatina. Escorreguei para o chão.

"Por favor", grasnei. "Não. Não os rasgue."

Rastejei de quatro. Tentando juntar os pedaços de papel espalhados. Eram minhas memórias. Minhas instruções. Minha vida.

Caio me observava. Um olhar frio e distante em seus olhos.

Ele pisou. Bem em cima de um pequeno bilhete amarelo. Minha mão tentou alcançá-lo, mas seu sapato era muito pesado.

Ele se abaixou. Lentamente. Ele pegou o bilhete de debaixo do pé.

Era um antigo. Tinta desbotada.

"'Feliz aniversário, Caio'", ele leu em voz alta. Sua voz era monótona. "'Você é o meu sol.'"

Ele fez uma pausa. Apenas por um segundo. Seus dedos se apertaram em torno do pequeno papel.

"Ainda guardando isso?", ele zombou. "O quê, planejando usar na sua próxima vítima? Para lembrá-los da minha estupidez passada?"

Então, com um movimento deliberado, ele rasgou o bilhete em pedacinhos. Ele os segurou no alto. O confete de papel flutuou para baixo. Pousando no meu cabelo. Nos meus ombros.

Minha mão ainda estendida. Tentando pegar os fragmentos. Mas eles escorregaram por entre meus dedos.

Lorena deu um passo à frente. Ela gentilmente pegou o braço de Caio.

"Caio, querido", ela arrulhou. Sua voz era suave. "Não se estresse por causa dela. Ela é patética. Como um cachorro de rua."

Ela se virou para as câmeras que haviam aparecido de repente. Eu nem as tinha notado. Elas estavam por toda parte.

"É exatamente disso que estou falando", disse Lorena para a câmera. Sua voz estava cheia de falsa simpatia. "Ela está tão perdida. Tão quebrada. É realmente de partir o coração."

Ela olhou de volta para Caio. "Viemos aqui para ajudar, lembra? Para mostrar a todos o seu espírito generoso. O seu perdão."

"Um reality show", ela sussurrou para ele. Mas foi alto o suficiente para eu ouvir. "Vamos chamar de 'Redenção em Volta Redonda'. Uma história de um bilionário compassivo voltando para casa para salvar uma alma perdida. É ouro, Caio. Ouro puro."

Caio olhou para Lorena. Um brilho de algo em seus olhos. Então ele assentiu. Um sorriso lento e predatório se espalhou por seu rosto.

Ele olhou para mim. Ainda no chão, cercada por papel rasgado.

"Levanta, sua inútil com o cérebro danificado", ele rosnou. Ele chutou um bilhete perdido perto da minha cabeça. "Você vai ser uma estrela. Todos verão a bagunça que você é. E verão como eu, Caio Moraes, vou te salvar."

Ele se virou e saiu, com Lorena agarrada ao seu braço. As câmeras os seguiram.

Fiquei ali por muito tempo. A parede vazia me encarava de volta. Silêncio. Mas minha cabeça. Minha cabeça estava gritando.

Na manhã seguinte, acordei com uma dor surda na cabeça. Um Post-it no meu pulso dizia: "Comer aveia. Tomar pílulas."

Arrastei-me para a cozinha. Minha casa parecia vazia. As paredes estavam nuas.

De repente, a porta da frente se abriu com um estrondo. Bateu contra a parede. O som me fez pular.

Caio entrou. Atrás dele, uma equipe de pessoas. Luzes. Câmeras. Microfones.

Lorena também estava lá. Seu braço entrelaçado no de Caio. Ela sorriu para as câmeras. Um sorriso largo e deslumbrante.

Um homem com um fone de ouvido deu um passo à frente. Ele segurava uma prancheta.

"Juliana Souza?", ele perguntou, sua voz retumbando. "Eu sou o Marcos, o diretor de 'Redenção em Volta Redonda'. E esta é a sua chance de virar o jogo!"

Ele gesticulou para Caio e Lorena. "Estes dois filantropos incríveis, Caio Moraes e Lorena Pontes, voltaram para sua cidade natal. Eles querem retribuir. Ajudar os menos afortunados."

Ele se inclinou conspiratoriamente, mas sua voz ainda era alta. "Ouvimos sobre suas dificuldades, Juliana. Sua... condição. Queremos documentar sua jornada. Para inspirar outros. Para aumentar a conscientização. E, claro, para conseguir a ajuda que você desesperadamente precisa."

Capítulo 3

Eu me encolhi na cadeira, tentando me fazer pequena. As palavras de Marcos giravam ao meu redor. Eu não conseguia entendê-las. Por que Caio iria querer me ajudar? Foi ele quem rasgou meus bilhetes. Foi ele quem me chamou de lixo.

Meus olhos se desviaram para a parede vazia. Minha mente parecia em branco, assim como o gesso. Sem bilhetes. Sem instruções. Apenas um espaço vasto e vazio.

Caio deu um passo à frente. As câmeras deram zoom. Suas lentes eram como olhos famintos.

"Juliana", ele disse. Sua voz era áspera. "Sete anos. E você ainda não consegue cuidar de si mesma? O que você fez da sua vida?"

Eu olhei para ele. Lembrei-me de seu rosto. Aquele que rasgou minha vida. Aquele com o sorriso cruel. Mas o nome dele... ainda era um borrão.

O rosto de Caio escureceu. Ele odiava ser esquecido.

Lorena imediatamente se colocou na frente dele. A mão dela em seu peito. Um olhar preocupado em seu rosto para as câmeras.

"Caio, querido, não fique bravo. Ela não pode evitar. A memória dela é... frágil." Ela deu um tapinha no braço dele. "Não leve para o lado pessoal."

Então, ela se virou para as câmeras. Seu rosto se suavizou em uma performance de pena.

"Ouvimos sobre a situação da Juliana", explicou Lorena para a lente. "Quero dizer, nós realmente pensamos que ela estava bem. Sete anos atrás, nos disseram que ela partiu para... uma vida melhor."

Ela fez uma pausa, balançando a cabeça tristemente. "Nunca imaginamos que ela acabaria assim. Tão sozinha. Tão vulnerável."

"Caio sempre sentiu um profundo arrependimento", ela continuou, sua voz cheia de emoção. "Ele se culpava. Achava que não era bom o suficiente para ela. Foi por isso que ela o 'deixou', entende."

"Quando voltamos, a primeira coisa que ele quis fazer foi encontrá-la. Para fazer as pazes. Para dar a ela uma segunda chance." Lorena engasgou com um soluço falso. "Nós só queremos consertar o que foi quebrado."

Algumas pessoas da equipe murmuraram palavras de aprovação. "Que homem generoso", alguém sussurrou. "Que história linda."

Minha cabeça latejava. As vozes deles. Os rostos deles. Era demais. Eu só queria que eles parassem.

Eu me levantei. Precisava fugir. Voltar para o meu quarto. Voltar para o silêncio.

A mão de Caio disparou. Ele agarrou meu pulso. Seu aperto era como ferro.

"Onde você pensa que vai?", ele rosnou. Seus olhos estavam frios. "Você é a estrela do show agora, Juliana. Você não pode ir embora."

"Você não era tão quieta antes", ele zombou. "Sete anos atrás, você tinha muito a dizer. Muita garra."

Ele me empurrou de volta para a cadeira. Com força. A madeira velha gemeu.

"Comecem a filmar!", ele gritou para Marcos.

Marcos assentiu ansiosamente. As câmeras giraram. As lentes focaram em mim.

"Podemos fazer um tour pelas instalações?", perguntou Marcos. "Mostrar aos espectadores as condições de vida dela? Realmente destacar sua luta?"

Caio acenou com uma mão desdenhosa. "Vá em frente. Filme o que quiser. Ela não tem nada a esconder. Nada sobrando, de qualquer maneira."

A equipe invadiu minha pequena casa. Eles filmaram meu sofá puído. Minhas cortinas desbotadas. Minhas xícaras de chá lascadas.

Eles filmaram minhas roupas, penduradas em um varal para secar. Pálidas e gastas.

Eles filmaram a lata de sopa pela metade na minha mesa.

Eles filmaram minha cama. A colcha remendada em uma dúzia de lugares.

Então, os vizinhos começaram a se aglomerar. Atraídos pela comoção. Atraídos pelas câmeras.

Dona Elza, da casa ao lado, abriu caminho até a frente. Ela apontou um dedo para mim.

"Olha para ela agora!", ela gritou, sua voz estridente. "Costumava ser uma coisinha tão bonita. Achava que era boa demais para esta cidade. Boa demais para o Caio."

"Fugiu com um velho rico, disseram. Vadiazinha interesseira. Achou que tinha tirado a sorte grande."

"Bem feito para ela, eu digo! O jeito que ela largou o Caio, praticamente no altar. Deixou ele de coração partido. Agora olha para ela. Aqui se faz, aqui se paga."

"Aquele homem rico provavelmente a usou e a jogou fora", outro vizinho interveio. "Agora ela não tem nada. O cérebro se foi. Fica olhando para o nada o dia todo. Se os pais dela não tivessem deixado esta casa para ela, estaria mendigando nas ruas."

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