Capa do Romance Ele não é meu pai!

Ele não é meu pai!

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Aos 20 anos, a rebelde Lara Sinclair é forçada a se casar com Marlon Shert, o melhor amigo de seu pai. O que deveria ser um acordo de honra entre um homem maduro e uma jovem ousada torna-se um jogo perigoso de sedução. Enquanto Marlon luta contra o desejo proibido, fantasmas do passado ressurgem: a lembrança de Mary Andersen e o rancor de Danuza, sua companheira por oito anos. Entre segredos e traições, a lealdade de Marlon é testada pelo fogo de uma paixão imprevista.

Ele não é meu pai! Capítulo 1

Lara Sinclair

A marcha nupcial ecoa pelo espaço sagrado, e o som dos primeiros acordes estremece as paredes centenárias da igreja. O lugar é imponente, erguido em pedra clara, com vitrais altos, arranjos de rosas brancas e lírios que perfumam o ar com sua pureza delicada.

O perfume doce das flores parece se misturar com o peso que aperta meu peito…e mesmo com tanta beleza ao meu redor, tudo dentro de mim parece prestes a desmoronar. 

Cada passo ao lado do meu pai parece segurar o tempo pela garganta. Ele segura meu braço com uma doçura que tenta esconder o que o corrói por dentro. A mão dele treme, não de emoção, mas de algo que o está vencendo.

Sempre fomos nós dois.

E hoje… ele me entrega porque já não pode me proteger por muito mais tempo…

Marlon Shert me espera no altar, imponente, impecável e inalcançável.

O melhor amigo do meu pai, o único homem em quem ele confia a minha vida.

O homem que me viu crescer. Nunca me olhou como mulher, e não olha agora.

O meu primeiro e único amor.

Meu pai para diante dele. A voz falha, pesada como despedida:

— Marlon… cuide da minha menina. Você sabe por quê. Só você pode protegê-la.

Minhas pernas vacilam. Quando ele solta minha mão, sinto como se arrancassem uma parte de mim. Marlon a segura em seguida, firme. A frieza de quem cumpre um dever e não um desejo.

Digo “SIM” com a alma tremendo.

Ele diz “SIM” com o coração blindado.

E quando o juiz declara que agora somos marido e mulher… 

Marlon beija minha testa.

Uma carícia paternal. 

Um gesto público de... rejeição? Humilhação?

Eu passei a vida inteira esperando que ele me visse… e hoje, ele olha para mim como se eu fosse uma obrigação.

O sorriso que eu mostro para as câmeras é só fachada. 

Um aperto no peito, seguido por um arrepio que não vem do frio, é a minha intuição avisando, baixinho, que tem alguma coisa errada chegando…

Tento sorrir, parecer feliz. Mas por dentro, a sensação de vazio me esmaga. Fotos. Brindes. Cumprimentos. Apenas aparências.

E então começa a valsa.

Marlon coloca a mão em minha cintura e me guia pelo salão como se conduzisse uma peça rara, com respeito e ternura. 

Ainda assim, por um segundo, permito-me acreditar. Fingir que existe algo ali, mesmo vendo nitidamente a tormenta nos seus olhos azuis.

Mas então vejo ela.

Uma mulher parada ao fundo.

Olhar afiado.

Uma presença tão intensa que atravessa o salão e corta minha pele.

Ela não me encara.

Ela o encara.

Marlon.

E o ódio que sai dos olhos dela é tão puro que chega a me gelar.

Os convidados logo se juntam a nós na pista, depois, lanço o buquê… mas aquela mulher não sai da minha mente.

Após todas as formalidades, finalmente chega a hora de fugir. Marlon segura a minha mão com firmeza e diz em tom baixo:

— Está na hora, precisamos sair daqui.

O caminho até a mansão é tenso. Ele dirige como se fugisse de si mesmo. 

Quando o carro para, diante da mansão Shert, iluminada por refletores e rodeada por jardins perfeitos, sinto aquele arrepio percorrer meu corpo mais uma vez. 

Essa será minha nova casa. A casa de um homem que acha que me conhece...

Ele abre a porta para mim e entra à frente, a postura ereta, quase militar. Eu o sigo, meu coração bate tão alto que tenho certeza de que ecoa nas paredes.

E ele nem olha para trás ao dizer:

— Esse é o seu quarto. O meu é ao lado.

Meu riso é incrédulo.

— Na noite de núpcias?

Ele engole seco.

— É melhor assim. Evita... confusões.

Mas quando peço ajuda com o vestido, ele congela. Vejo sua luta interna. Sua hesitação. Sua vergonha. Ele abre o zíper devagar, como se o toque queimasse. E talvez queime mesmo, em nós dois.

Assim que termina, foge. Literalmente.

Sozinha, escolho uma roupa confortável, retoco a maquiagem, solto os cabelos e desço.

A noite está silenciosa, a luz da piscina tremula na água, e Marlon está lá, segurando um uísque como se fosse escudo.

— Aceito uma dose — digo, quebrando a distância.

Ele ergue os olhos para mim, visivelmente surpreso.

— Você?

— Pois é...  me sirvo, levando o copo aos lábios sem medo. — Tem muita coisa sobre mim que você ainda vai descobrir.

Se ele finge frieza, eu finjo coragem.

Ele inclina a cabeça, intrigado.

— Nunca imaginei você desse jeito.

— A vida gosta de pregar peças.

Por alguns segundos, o silêncio paira, apenas quebrado pelo som da água na piscina. Finalmente, ele ergue o copo e diz:

— Que seja, então... brindemos ao inesperado.

— Ao inesperado — repito, brindando com ele.

Brindamos.

E ele me puxa num abraço inesperado, forte, quente, e quase desmonto por dentro.

— Lara... eu sei que não foi o casamento dos seus sonhos, mas eu quero que saiba de uma coisa. Eu vou cuidar de você. Vou te proteger, aconteça o que acontecer.  

As palavras me envolvem.

Eu quase acredito.

Quase.

Então…

Um barulho.

Uma voz que corta a noite como uma lâmina.

— Então é isso?!

A mulher.

Da igreja.

Da valsa.

Furiosa, como se a raiva a trouxesse até aqui.

Ela avança, os olhos arregalados num ódio tão intenso que parece febre.

— Marlon! — ela grita, apontando para mim. — É essa palhaçada?! Essa garotinha mimada?! Ela tem idade para ser sua filha!

Meu sangue ferve.

A humilhação sufoca.

A raiva acende inteira.

— ELE NÃO É MEU PAI!!!

O tapa sai antes do pensamento.

Senti o calor ardente na palma. Não sabia se era da força… ou da coragem que finalmente encontrei.

Ela cambaleia e cai na piscina, afundando com o peso do próprio ódio.

A água explode.

Ela emerge cuspindo insultos, o rosto distorcido, ensopado, monstruoso.

Marlon fica imóvel.

A expressão dele… é de choque e culpa, e me atinge como faca.

A mulher apoia as mãos na borda, respirando fundo, e me encara com um sorriso rachado.

Os olhos dela são de alguém que perdeu algo e quer destruir tudo ao redor para recuperar.

— Você… — ela sussurra, a voz vazando veneno. — Você acha mesmo que entende quem ele é?

Meu coração erra o compasso.

Ela vira o rosto para Marlon.

E ele… dá um passo para trás.

O ar parece ficar pesado, um cheiro de álcool e traição misturados.

Um passo.

Um único.

Mas suficiente para destruir algo dentro de mim.

— Você acha que se casou com um homem?

Ela anda de um lado para outro, ri, um som quebrado, doentio.

O olhar dele escurece por um segundo, como se um monstro antigo despertasse.

Então ela finaliza:

— Pede para ele te contar o que fez comigo.

— Se ele tiver coragem.

O silêncio parece vivo… e Marlon calou-se.

Mas se até o silêncio dele me fere… o que acontece quando eu finalmente descobrir do que, exatamente, eu deveria ter medo?

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