Capítulo 2

Na noite em que me casei secretamente com Hugo Gordon, a sua madrasta, Vanessa, apareceu na minha porta. Ela usava um vestido de seda preta que realçava a sua figura, e o seu sorriso era tão afiado quanto a noite fria de Coimbra.

"Juliette Hayes, a famosa fadista," disse ela, a sua voz suave, mas cheia de desprezo. "Parabéns pelo casamento."

Eu não respondi. O meu coração batia forte. Eu sabia quem ela era. Hugo tinha-me contado sobre a sua ex-namorada de infância que o tinha deixado para se casar com o seu pai rico.

"Não tenhas medo," continuou Vanessa, entrando na casa como se fosse dela. "Não vim para lutar contigo. Vim para te fazer uma proposta."

Ela sentou-se no meu sofá, cruzou as pernas e olhou para mim com uma confiança que eu não possuía.

"Vamos fazer uma aposta," disse ela. "Eu dou-te 19 oportunidades. Dezanove noites para seduzires o Hugo, para o fazeres teu. Se conseguires que ele te toque, que ele consuma este casamento, uma única vez, eu desapareço da vida dele para sempre."

Eu olhei para ela, chocada.

"E se eu falhar?" perguntei, a minha voz a tremer ligeiramente.

Vanessa sorriu, um sorriso vitorioso.

"Se falhares as 19 vezes, anulas o casamento e sais da vida dele. Sem escândalos, sem dramas. Simplesmente desapareces."

Eu amava Hugo. Amava-o desde o primeiro dia em que o vi numa adega no Douro, tão sério e dedicado ao seu trabalho. Ele era o herdeiro dos Gordon, os nossos rivais de negócios, mas eu não me importava. Eu acreditava que o nosso amor podia superar tudo.

"Aceito," disse eu, com uma confiança que não sentia. A minha ingenuidade era a minha maior fraqueza.

Nas 18 noites seguintes, a humilhação tornou-se a minha companheira constante.

Todas as noites, eu tentava. Vesti as minhas melhores roupas, cantei os fados mais apaixonados, cozinhei os seus pratos favoritos. E todas as noites, Hugo rejeitava-me.

"Juliette, para com isso," dizia ele, a sua voz fria. "Não sejas vulgar. Uma mulher da família Gordon deve ser tradicional, reservada."

Ele exigia tradição de mim, enquanto mantinha um caso secreto e ardente com a mulher do seu falecido pai. A ironia era esmagadora.

Na 19ª noite, eu estava desesperada. Fui a uma ervanária e comprei um frasco de um suposto afrodisíaco. As minhas mãos tremiam enquanto o misturava no vinho do Porto que servi a Hugo.

Ele bebeu. Vi os seus olhos escurecerem, um desejo que nunca tinha visto antes brilhar neles. Por um momento, pensei que tinha conseguido.

Mas ele levantou-se abruptamente, o seu rosto uma máscara de fúria e autocontrolo.

"O que é que puseste nisto?" gritou ele, atirando o copo contra a parede. O vidro estilhaçou-se, tal como a minha última esperança. "És doente! Eu vou resolver isto."

Ele saiu porta fora, batendo-a com força. Eu sabia para onde ele ia. Para a quinta de Vanessa. Para a mulher que ele realmente desejava.

Na manhã seguinte, Vanessa apareceu novamente. Ela trazia um sorriso triunfante e um envelope na mão.

"Bom dia, querida," disse ela, a sua voz a pingar sarcasmo. "Parece que perdeste a aposta."

Ela colocou os papéis de anulação na mesa à minha frente. "O Hugo passou a noite comigo. Ele precisava de 'resolver' o problema que tu criaste. Ele disse que nunca te tocaria, nem que fosse a última mulher na Terra."

O meu coração partiu-se. Naquele momento, a névoa da minha paixão cega dissipou-se. Vi a verdade com uma clareza dolorosa. O meu casamento era uma farsa. Eu era apenas uma fachada, um escudo para proteger a relação doentia dele com a sua madrasta.

"Eu assino," disse eu, a minha voz vazia de emoção. A dor era tão profunda que se tinha transformado em dormência.

"Ótimo," disse Vanessa, satisfeita. "Tens 10 dias para arrumar as tuas coisas e desaparecer. Ninguém precisa de saber sobre este pequeno casamento embaraçoso."

Ela virou-se para sair, mas parou à porta.

"Ah, e Juliette," disse ela, olhando para mim por cima do ombro. "Não penses que o Hugo alguma vez sentiu alguma coisa por ti. Para ele, tu és apenas uma fadista de Coimbra. Uma distração conveniente. O amor da vida dele... sempre fui eu."

As suas palavras ecoaram na sala vazia muito depois de ela ter saído. Eu estava sozinha, derrotada. Decidi que não ficaria em Portugal. A minha família tinha contactos no Brasil. Eu iria para lá. Recomeçar. Longe de Hugo, longe de Vanessa, longe desta humilhação. Tinha 10 dias. Dez dias para apagar Hugo Gordon da minha vida.

Capítulo 3

Nos dias seguintes, a minha dor transformou-se numa frieza cortante. Hugo parecia perturbado com a minha indiferença, mas não o suficiente para perguntar o que se passava. A sua mente estava sempre noutro lugar. Com Vanessa.

Chegou o dia do grande festival de vinhos do Douro, um evento crucial para a família Gordon. Hugo esperava que eu ficasse em casa, como uma esposa dócil e invisível.

"Eu vou contigo," anunciei, para sua surpresa.

Ele olhou para mim, confuso com a minha súbita assertividade.

"Juliette, não é necessário. Será um dia longo e aborrecido."

"Eu insisto," disse eu, a minha voz firme. "Sou tua esposa, afinal. Pelo menos por mais alguns dias."

Ele cedeu, contrariado.

No festival, o ar estava carregado de aromas de vinho e conversas de negócios. Vanessa estava lá, claro, agarrada ao braço de Hugo como se fosse a verdadeira senhora Gordon. Ele apresentava-a aos investidores, sorria para ela, sussurrava-lhe ao ouvido. Eu era uma sombra ao lado deles, completamente ignorada.

A humilhação era pública, palpável. Todos viam a dinâmica. A poderosa madrasta e o herdeiro devoto. E a jovem fadista, uma peça estranha no puzzle.

A certa altura, um grupo de investidores estrangeiros tornou-se demasiado insistente com Vanessa, os seus olhares cobiçosos e as suas mãos atrevidas. A raiva brilhou nos olhos de Hugo. Ele, que se orgulhava da sua abstinência e autocontrolo, pegou numa garrafa de vinho do Porto e bebeu diretamente dela, desafiando os homens.

"Deixem-na em paz," rosnou ele, a sua imagem de homem de negócios austero a estilhaçar-se.

Na confusão que se seguiu, enquanto Hugo se apressava para proteger Vanessa, o seu braço empurrou-me com força. Perdi o equilíbrio e caí, o meu pulso a torcer-se dolorosamente contra o chão de pedra.

Uma dor aguda subiu pelo meu braço. Hugo nem sequer olhou para trás. Os seus olhos estavam fixos em Vanessa, garantindo que ela estava segura. Ele afastou-a da multidão, a sua mão protetora nas costas dela, deixando-me no chão, ferida e invisível.

Levantei-me lentamente, o meu pulso a latejar. Olhei para eles à distância. Ele a acalmá-la, ela a encostar a cabeça ao ombro dele. Naquele momento, a futilidade do meu amor atingiu-me com a força de um golpe físico. Eu tinha sacrificado a minha dignidade, a minha família, o meu fado, por um homem que me empurraria para o chão para proteger outra mulher.

Mais tarde naquela noite, de volta a casa, sozinha, com o pulso inchado envolto em gelo, tomei uma decisão. A frieza que sentia não era apenas dor, era raiva. Uma raiva fria e calculista.

Peguei no meu telemóvel e fiz uma chamada anónima para as autoridades fiscais. Dei-lhes o nome de Vanessa Gordon e sugeri que investigassem as suas "atividades suspeitas" e as suas fontes de rendimento pouco claras. Se eu ia cair, não ia cair sozinha.

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