Ponto de Vista: Laura Mendes
O airbag tinha gosto de poeira e borracha queimada, áspero na minha língua.
Meus ouvidos zumbiam — um chiado agudo e perfurante que abafava a chuva batendo no teto do meu carro virado.
Eu estava pendurada de cabeça para baixo. O cinto de segurança cravava no meu peito, um torno esmagando minhas costelas. Meu braço esquerdo estava dobrado em um ângulo que me deixava enjoada só de olhar. A dor irradiava do meu ombro em ondas quentes e pulsantes, roubando meu fôlego.
"Laura!"
Ouvi meu nome. Parecia distante, filtrado pela água.
"Laura, você consegue me ouvir?"
Pisquei, lutando contra os pontos pretos que dançavam na minha visão. Através do para-brisa em teia de aranha, vi botas. Botas de couro caras.
Heitor.
Ele estava aqui. Ele tinha vindo por mim. Um alívio me invadiu, anestesiando momentaneamente a dor. Ele não quis dizer o que disse ao telefone. Não podia ser. Ele estava aqui para me salvar.
"Heitor...", grasnei. Minha garganta parecia cheia de cacos de vidro.
"Ela está aqui!", gritou Heitor. Mas ele não estava olhando para mim. Ele estava olhando para além do meu carro, seus olhos selvagens.
Tentei virar a cabeça, ignorando o grito de protesto do meu pescoço. A alguns metros de distância, outro carro estava amassado contra um poste. Um conversível vermelho.
O carro de Júlia Valente.
"Júlia!", gritou Heitor. Ele passou correndo pela minha janela. Nem sequer parou. Não olhou para o sangue escorrendo da minha testa.
"Heitor, por favor", sussurrei. A dor no meu braço explodiu, aguda e ofuscante.
Observei, impotente, enquanto meu noivo arrancava a porta do conversível vermelho com um rugido de adrenalina. Ele puxou Júlia para fora. Ela estava chorando, agarrada a ele. Parecia bem. Nenhum arranhão marcava sua pele perfeita e bronzeada.
"Meu pescoço", ela lamentou. "Heitor, meu pescoço dói."
"Eu tô aqui, meu bem", disse Heitor. Sua voz estava carregada de pânico. Pânico real. O tipo que ele nunca demonstrou por mim. "Eu tô aqui. A ambulância está chegando."
Ele a embalou em seus braços, beijando seus cabelos desesperadamente.
"E ela?", Júlia apontou um dedo trêmulo na direção do meu carro.
Heitor olhou para mim. Por um segundo, nossos olhos se encontraram.
Não vi nada em seu olhar. Nenhum amor. Nenhuma preocupação. Apenas irritação. Como se eu fosse uma mancha em sua camisa favorita — um inconveniente a ser esfregado.
"Não se preocupa com ela", disse Heitor, alto o suficiente para eu ouvir. "Ela é forte. Ela tá bem."
Ele me deu as costas.
A escuridão se infiltrou nas bordas da minha visão. A dor era demais. A dor no coração era pior.
Eu me entreguei.
*
Quando acordei, as paredes eram brancas. O cheiro forte de antisséptico ardia no meu nariz.
"Ela acordou", disse uma voz. Firme. Irritada.
Malu.
Tentei me sentar, mas um gesso pesado imobilizava meu braço esquerdo. Minha cabeça latejava com uma dor surda e rítmica.
"Não se mexe", disse Malu, correndo para o meu lado. Seus olhos estavam vermelhos. "Você teve uma concussão e uma fratura exposta. Ficou em cirurgia por seis horas."
"Heitor?", perguntei. O nome escapou antes que eu pudesse impedir. Velhos hábitos custam a morrer.
O rosto de Malu endureceu como pedra. "Ele não está aqui, Laura."
"Ele se machucou?"
"Ele está ótimo", cuspiu Malu. "Está atualmente na suíte VIP no último andar. Com *ela*. Aparentemente, a senhorita Valente torceu o pulso. Uma tragédia."
A lembrança da ligação voltou, fria e nítida. *Patrimônio. Passe livre.*
"Ele planejou", sussurrei, a ficha caindo como chumbo no meu peito. Lágrimas brotaram nos meus olhos. "Ele queria fingir amnésia."
Malu congelou. "O quê?"
"Eu ouvi. Antes do acidente. Ele estava falando com o Léo. Ele me chamou de patrimônio dele."
Malu agarrou a grade da cama, seus nós dos dedos ficando brancos. "Aquele filho da puta. Eu te disse. Eu te avisei sobre os Lacerda. Eles não amam, Laura. Eles possuem."
Nesse momento, a porta se abriu.
Não era Heitor. Era um homem de terno cinza. Eu o reconheci instantaneamente. Dr. Monteiro. O advogado da família Lacerda.
"Senhorita Mendes", disse ele, sem fazer contato visual. Ele colocou uma pasta na mesa de cabeceira com um baque suave.
"Onde está o Heitor?", perguntei.
"O Sr. Lacerda está... indisposto", disse Monteiro suavemente. "Ele sofreu um trauma de memória significativo devido ao acidente. Ele não se recorda dos últimos sete anos."
A mentira. O roteiro. Ele estava realmente fazendo isso.
"Mas ele se lembra da Júlia Valente, não é?", desafiou Malu, colocando-se entre mim e o advogado como um escudo.
Monteiro a ignorou. "O Sr. Lacerda me instruiu a cuidar de seus assuntos enquanto ele se recupera. Como a senhorita não é legalmente da família, o patrimônio Lacerda não cobrirá suas despesas médicas."
"O quê?", gritou Malu. "Ela sofreu um acidente envolvendo ele! Ela é a noiva dele!"
"*Ex*-noiva", corrigiu Monteiro, seu tom desprovido de calor. "Como o Sr. Lacerda não tem memória do noivado, ele está efetivamente nulo e sem efeito."
Ele bateu na pasta com um dedo bem cuidado.
"Esta é uma notificação de despejo do apartamento. O contrato de aluguel está no nome do Sr. Lacerda. A senhorita tem quarenta e oito horas para desocupar o imóvel."
"Ela não consegue andar!", gritou Malu. "Ela acabou de sair de uma cirurgia!"
"Quarenta e oito horas", repetiu Monteiro. Ele virou nos calcanhares e saiu.
Eu encarei a pasta.
Meu braço estava quebrado. Minha cabeça girava. Meu coração estava estilhaçado em um milhão de pedaços.
E o homem que eu amava tinha acabado de me jogar fora como lixo para dar lugar à sua amante.
Ponto de Vista: Laura Mendes
A dor, eu percebi, traz uma clareza terrível.
Por sete anos, eu vivi numa névoa de pétalas de rosa e poesias cuidadosamente selecionadas.
Eu havia confundido a possessividade de Heitor com paixão. Eu havia interpretado seu silêncio melancólico como profundidade.
A notificação de despejo na mesa de cabeceira foi um balde de água fria no meu rosto.
"Laura?", a mão de Malu pairou sobre a minha mão ilesa, seu toque gentil. "A gente pode lutar contra isso. Conheço um advogado. Podemos processar pelas contas médicas, pelo sofrimento..."
"Não", eu disse. Minha voz estava rouca, como uma lixa sobre pedra, mas estava firme.
Olhei para o teto branco e estéril. Em minha mente, tracei o brasão estampado no selo de cera da notificação. O leão segurando a rosa.
O leão não havia protegido a rosa. Ele a havia devorado.
"Se eu processar, continuo presa na órbita dele", eu disse. "Continuo sendo a vítima dele. O patrimônio dele."
"E daí? Você vai simplesmente deixar ele se safar?", perguntou Malu, seus olhos arregalados de incredulidade.
"Não." Virei a cabeça para encará-la, o movimento rígido. "Vou deixá-lo acreditar que venceu. Heitor é arrogante. Ele acha que sou frágil. Ele espera que eu implore."
Tentei me levantar. O quarto inclinou-se perigosamente, mas cerrei os dentes até a tontura diminuir.
"Me fale sobre as regras, Malu. Aquelas sobre as quais você sempre sussurra. A Omertà."
Malu puxou uma cadeira para mais perto, as pernas de metal raspando no linóleo. Ela me olhou de forma diferente agora. A pena estava evaporando, substituída por um brilho de respeito genuíno.
"Omertà não é só silêncio", ela explicou, sua voz baixa. "É sobre ordem. Um Don protege os seus. Ele mantém seu caos a portas fechadas. Ele não lava roupa suja em público para humilhar seu sangue ou seus parceiros jurados."
"E o Heitor?"
"Ele está sendo bagunceiro", disse Malu, balançando a cabeça. "Fingir amnésia para desfilar com uma influencer? É desleixado. Falta disciplina. A velha guarda, os homens que se sentavam à mesa com o pai dele... eles não vão respeitar isso. Se descobrirem que ele está mentindo, ele parece fraco. E neste mundo, se ele parece fraco, ele perde o território."
Um plano começou a se formar nos cantos nebulosos da minha mente. Não era sobre vingança. Ainda não. Era sobre sobrevivência.
"Eu preciso desaparecer", eu disse. "Não apenas mudar de apartamento. Preciso sumir completamente."
"Para onde?"
"Curitiba", eu disse. Foi o primeiro lugar que surgiu na minha memória. Chuva. Céus cinzentos. Café. Um mundo distante do brilho neon de São Paulo.
"Ainda tenho aquele diploma de design que nunca usei. Posso recomeçar."
"Você precisa de dinheiro", Malu apontou pragmaticamente. "Ele cortou seus cartões há uma hora."
"Eu tenho algo", eu disse, uma determinação fria se instalando no meu peito. "No apartamento. Escondido."
*
Recebi alta na manhã seguinte, assinando os papéis contra a recomendação médica.
Malu me ajudou a entrar no carro dela. Cada buraco na rua enviava uma onda de fogo líquido pelo meu braço, mas eu mordi o interior da minha bochecha até sentir o gosto de ferro, recusando-me a fazer um som.
Quando chegamos ao apartamento, parecia que eu estava entrando em um mausoléu.
O ar estava viciado. Minhas roupas ainda pendiam no armário, silhuetas fantasmagóricas da mulher que eu costumava ser. Os convites de casamento estavam na escrivaninha, a cera vermelha endurecida como sangue seco.
Fui direto para a estante de livros.
"O que você está procurando?", perguntou Malu, pegando malas freneticamente e jogando minhas roupas dentro delas.
"Vantagem", murmurei.
Ignorei a caixa de joias e peguei uma cópia antiga de *O Grande Gatsby*. Era oca por dentro.
Lá dentro, não havia dinheiro, nem diamantes. Apenas um pequeno caderno de couro.
Era o diário de Heitor da faculdade. Antes que o título de "Don" pesasse em seus ombros. Antes que a máscara se fundisse à sua pele.
Eu não o lia há anos. Eu o guardei porque achava romântico — um pedaço de sua alma que só eu possuía.
Agora, eu o segurava como uma arma.
Não o abri. Ainda não. Apenas o enfiei fundo na minha bolsa.
"Precisamos ir", insistiu Malu, lutando para fechar uma mala. "O Monteiro disse quarenta e oito horas, mas ele mandou uma equipe de limpeza mais cedo. Eles já estão no saguão."
Dei uma última olhada no apartamento. A gaiola dourada.
"Vamos", eu disse.
Estávamos prestes a alcançar a maçaneta quando um punho pesado bateu na madeira.
*Bang. Bang. Bang.*
O som vibrou pelo assoalho.
"Laura!", uma voz grave bradou. "Abra."
Era Marcos. O chefe de segurança de Heitor. O homem que costumava me levar ao spa, que costumava sorrir e me chamar de "Dona Laura".
Agora, sua voz carregava o peso de uma ameaça.
"Ele sabe", sussurrei para Malu, meu coração martelando contra minhas costelas. "Ele sabe que não estou chorando em uma cama de hospital."
Apertei a alça da minha bolsa com mais força. A borda dura do diário pressionava minha lateral.
"Abra a porta, Laura!", gritou Marcos.
"O Sr. Lacerda quer a aliança de volta."