Capítulo 2

O cheiro a queimado acordou-me.

Abri os olhos e vi fumo a entrar por baixo da porta do quarto. O alarme de incêndio soava estridente, um barulho agudo que parecia perfurar o cérebro.

A minha mãe, que tinha vindo passar a semana comigo por causa da minha gravidez avançada, entrou a correr no quarto, a tossir.

"Eva, fogo! O prédio está a arder!"

O pânico gelou-me. A minha barriga de nove meses pesava uma tonelada, dificultando cada movimento.

"Mãe, a porta principal está bloqueada pelo fumo. Temos de ir para a varanda."

Arrastámo-nos para a varanda, fechando a porta de vidro atrás de nós. O ar lá fora era mais respirável, mas o caos na rua era assustador. Viam-se chamas a sair das janelas do andar de baixo.

Peguei no telemóvel com as mãos a tremer e liguei ao meu marido, Leo. Ele era bombeiro. Ele saberia o que fazer. Ele salvar-nos-ia.

A chamada foi atendida ao segundo toque.

"Leo!", gritei, a minha voz embargada pelo fumo e pelo medo. "O nosso prédio está a arder! Estamos presas na varanda do nosso apartamento, no quinto andar!"

Ouvi sirenes do outro lado da linha. Ele já estava aqui. Um alívio momentâneo percorreu-me.

"Eva, mantém a calma," disse ele, a sua voz estranhamente distante. "Já sei. Estou no local."

"Vem depressa, por favor! O fumo está a ficar mais denso!"

Houve uma pausa. Depois, ouvi outra voz ao fundo, uma voz feminina, a chorar histericamente. Era a Sofia, a minha meia-irmã.

"Leo, o meu gatinho! O Mimo ainda está lá dentro! Não o posso deixar!"

A voz do Leo suavizou-se instantaneamente.

"Não te preocupes, Sofia. Eu vou buscá-lo. Fica aqui com o meu colega."

O meu coração parou.

"Leo?", chamei, a incredulidade a tomar conta de mim. "O que é que estás a dizer? A tua mulher grávida e a minha mãe estão presas no quinto andar!"

"Eu sei, Eva, mas a Sofia está aqui em baixo, em pânico. O apartamento dela é no segundo andar, o fogo ainda não chegou lá com força. É mais rápido. Vou lá num instante e depois subo."

"Mais rápido? Leo, nós estamos em perigo real! O fumo..."

"Para de ser dramática, Eva! Tu estás no quinto andar, o fogo sobe devagar. Tens tempo. A Sofia está sozinha e assustada. Tenho de a ajudar primeiro."

Ele desligou.

Olhei para o telemóvel, incrédula. Ele tinha desligado. Ele escolheu salvar o gato da sua meia-irmã em vez da sua mulher grávida de nove meses.

A minha mãe agarrou-me no braço, o seu rosto pálido de terror.

"O que é que ele disse, filha?"

As lágrimas que eu não sabia que estava a segurar começaram a rolar pelo meu rosto.

"Ele foi salvar a Sofia. E o gato dela."

O mundo pareceu desabar. O fumo já não era a coisa mais sufocante. Era a traição.

Capítulo 3

Não sei quanto tempo passou. Perdi a noção de tudo, exceto do fumo cada vez mais espesso e do som da minha própria tosse.

Quando finalmente uns braços fortes me agarraram, não eram os do Leo. Eram dois bombeiros que eu nunca tinha visto na vida. Eles puseram-nos máscaras de oxigénio e guiaram-nos por uma escada de emergência.

No hospital, o cheiro a antissético substituiu o cheiro a queimado. Colocaram-me numa cama e ligaram-me a monitores. A minha mãe estava na cama ao lado, a receber tratamento por inalação de fumo.

Uma médica com uma expressão séria veio ver-me.

"Senhora Eva, o seu nível de oxigénio no sangue estava perigosamente baixo. O stresse e a inalação de fumo causaram contrações."

O meu coração afundou-se.

"O bebé... o bebé está bem?"

A médica hesitou. "Fizemos uma ecografia. O ritmo cardíaco do bebé está fraco. O sofrimento fetal é agudo. Temos de agir rapidamente."

Naquele momento, a porta do quarto abriu-se. Era o Leo, com a Sofia a reboque. Ela tinha os olhos vermelhos de chorar, mas fora isso, parecia perfeitamente bem. Nos seus braços, estava o gato, Mimo, a ronronar.

O Leo nem olhou para a minha mãe. Veio direto até mim.

"Eva, estás bem? Fiquei tão preocupado."

A sua hipocrisia era tão espessa que me dava náuseas.

"Preocupado?", a minha voz saiu rouca. "Foste salvar um gato, Leo."

"Não fales assim," disse ele, baixando a voz. "A Sofia estava a ter um ataque de pânico. Ela não tem ninguém. Eu era o único que a podia acalmar."

A Sofia começou a chorar de novo.

"Eva, desculpa. Eu não queria causar problemas. Fiquei com tanto medo pelo Mimo."

Olhei para ela, depois para o Leo. Ele estava a olhar para a Sofia com uma preocupação que nunca me tinha dirigido.

"O nosso filho pode não sobreviver, Leo."

As palavras saíram frias e sem vida.

A cara do Leo ficou pálida. "O quê? O que é que a médica disse?"

"Sofrimento fetal agudo," repeti, a voz a tremer. "Por causa do fumo e do stresse. Porque o pai dele decidiu que um gato era mais importante."

"Isso não é justo, Eva! Eu sou bombeiro, tenho de tomar decisões difíceis! Salvei dezenas de pessoas hoje!"

"Mas não a tua família."

A médica, que tinha assistido a tudo em silêncio, pigarreou.

"Senhor, a sua mulher precisa de calma. E nós precisamos de a levar para uma cirurgia de emergência."

O Leo olhou para mim, finalmente com um pingo de medo nos olhos.

"Eva, eu..."

"Quero o divórcio, Leo," interrompi-o. O quarto ficou em silêncio. "Quando isto tudo acabar, quero o divórcio."

Continue lendo
Apoie o autor e inspire mais histórias incríveis Moboreader
Desbloquear todos
Capítulo
Personalizar
Próximo Capítulo
Minishorts Logo
Leia web novels, ficção online e histórias românticas em alta no MiniShorts. Descubra romances de bilionários, fantasia de lobisomens, drama e novelas de fantasia, além de conteúdos selecionados de dramas curtos inspirados nas tendências de narrativa mais populares.
MiniShorts YouTube
PRODUTOS E SERVIÇOS
Sobre nós
support@minishorts.com
©2026 MiniShorts Todos os direitos reservados. CHASINGTOP HK LIMITED