Ponto de Vista de Celina:
O cheiro de antisséptico do quarto do hospital grudou em mim, mesmo depois que me deram alta. Meu corpo doía, um lembrete constante da crueldade de Jeremias. Mas a dor em meu coração havia se endurecido em algo frio e afiado. Eu tinha um novo propósito.
Meu telefone tocou. Era Alec Peters, o ex-sócio e rival de Jeremias. Ele vinha me ajudando discretamente há meses, desde que comecei a confidenciar a ele sobre as rachaduras em meu casamento. Ele tinha visto a verdadeira face de Jeremias muito antes de mim.
"Celina, você está bem? Fiquei sabendo o que aconteceu", a voz de Alec estava cheia de uma ternura que eu não ouvia há anos. Ele não perguntou "o que aconteceu" de forma casual, ele sabia exatamente. Ele tinha fontes em todos os lugares.
"Eu vou ficar", eu disse, minha voz plana. "Mas preciso da sua ajuda, Alec. Estou pronta para lutar."
Ele não hesitou. "Qualquer coisa que você precisar. Estou aqui. Sempre estive aqui." Suas palavras, simples e verdadeiras, foram um bálsamo para minha alma ferida. Ele me amava, eu sabia disso. Era um amor quieto e constante, um contraste gritante com a obsessão volátil de Jeremias. Um amor para o qual eu ainda não estava verdadeiramente pronta.
"Preciso ir embora", eu disse a ele, as palavras com gosto de liberdade. "Permanentemente. E então preciso garantir que Jeremias perca tudo."
A resposta de Alec foi imediata. "Vou providenciar a papelada de imigração. Podemos acelerar o processo. Pense nisso como um novo começo, longe de tudo isso."
Sua oferta era mais do que apenas logística; era uma promessa de um futuro, um vislumbre de esperança na escuridão. Eu assenti, embora ele não pudesse me ver. "Obrigada, Alec."
Após nossa ligação, voltei para a casa, um mausoléu do meu casamento morto. Eu precisava pegar algumas coisas. Enquanto arrumava uma pequena mala, minha mão roçou em um compartimento escondido na antiga mesa de Jeremias. Estava habilmente disfarçado, algo que só ele saberia. A curiosidade, afiada e insistente, me corroeu. Eu o abri.
Dentro havia um envelope selado. Nele, com a própria caligrafia de Jeremias, estavam as palavras: "Celina – Acordo Pré-nupcial". Meu estômago revirou. Ele havia guardado isso. Por quê? Eu o rasguei.
O documento era datado de dias antes do nosso casamento. Meus olhos percorreram as cláusulas, um sorriso cínico tocando meus lábios. "Em caso de divórcio, se qualquer uma das partes for considerada culpada de infidelidade, a parte infratora perde todos os direitos sobre os bens compartilhados e renuncia a qualquer propriedade ou ações na 'Nexus Innovations' e em todas as empresas subsidiárias."
Infidelidade. Jeremias realmente havia assinado isso. Sua crença arrogante de que nunca seria pego, ou que eu nunca o deixaria, era impressionante. Ele estava tão confiante, tão seguro de seu controle sobre mim. A ironia era quase risível. Rapidamente tirei uma foto de cada página e enviei para meu advogado, com uma breve mensagem anexada: "Inicie o processo de divórcio. Use isso."
A resposta do meu advogado veio quase instantaneamente: "Entendido, Celina. Isso muda tudo."
Quando eu estava prestes a fechar o compartimento, meus dedos roçaram em outra coisa presa lá dentro. Um pequeno e elegante disco rígido. Não tinha etiquetas, nenhuma indicação de seu conteúdo. Meu coração martelava contra minhas costelas. Isso era Jeremias. Tinha que ser algo.
Eu o conectei a um laptop antigo que mantinha escondido. A tela piscou e acendeu. Pastas. Milhares delas. Todas rotuladas com datas. Cliquei na mais recente. Minha respiração ficou presa na garganta.
Era um vídeo. Jeremias. E Helena. Em detalhes íntimos. O cenário era familiar: seu escritório particular, o mesmo cômodo onde ele ordenou que minha pele fosse arrancada. Eles estavam rindo, se beijando, se tocando. As datas abrangiam anos, quase desde o início do nosso casamento. Meu estômago revirou. A evidência física de sua traição, exposta.
Cada vídeo, cada foto, era uma ferida nova, torcendo a faca mais fundo em meu coração já partido. A maneira casual como ele a tocava, as palavras suaves que ele sussurrava – palavras que ele uma vez reservou para mim. Minha visão ficou turva com uma mistura de lágrimas e pura, inalterada fúria. Ele não apenas me negligenciou; ele me traiu ativamente, alegremente, enquanto mantinha uma fachada de devoção. Todos os pequenos gestos, os elogios falsos, os momentos fugazes de ternura aos quais eu me agarrei – eram todos mentiras. Tudo por ela.
Senti uma onda de náusea. Ele não era apenas um homem com falhas. Ele era um monstro, um manipulador calculado. Ele me usou, me descartou e depois me puniu por suas próprias inseguranças distorcidas.
Copiei tudo para um servidor seguro na nuvem e depois limpei o disco rígido. Isso não era apenas evidência para um divórcio. Isso era munição. Eu queimaria seu império até o chão. Ele havia destruído meu mundo; agora eu destruiria o dele.
Assim que terminei, a porta da frente se abriu com um estrondo. Helena. Ela estava lá, um sorriso triunfante no rosto, acompanhada por dois homens corpulentos.
"Finalmente indo embora, não é, Celina?", ela ronronou, seus olhos me percorrendo com desdém. "Ótimo. Jeremias quer as coisas dele fora." Ela acenou com a mão displicentemente. "Comecem a empacotar o lixo dela, rapazes."
Meu sangue gelou. "Esta é a minha casa", eu disse, minha voz surpreendentemente firme.
Helena riu, um som áspero e irritante. "Não mais, querida. Jeremias declarou este seu ninho de amor. Você é notícia de ontem." Ela observou enquanto os homens começavam a jogar bruscamente meus pertences em caixas. Um delicado vaso de vidro, um presente da minha avó, caiu no chão.
Algo estalou dentro de mim. A raiva, fervendo sob a superfície, explodiu. Peguei o objeto pesado mais próximo, uma estátua de latão, e a balancei com toda a minha força. Ela atingiu a têmpora de Helena. Ela gritou, um som agudo e surpreso, agarrando a cabeça enquanto o sangue brotava entre seus dedos. Seu rosto perfeito e presunçoso se contorceu em choque.
"Sua vadia venenosa!", eu cuspi, minha voz tremendo, mas minha determinação era dura como ferro. "Este não é o seu ninho de amor. É uma jaula, construída sobre mentiras e sonhos roubados. E você, Helena, não passa de uma prostituta barata sem dignidade, mentindo para entrar na cama de um homem com heroísmos fabricados!"
Os olhos de Helena se arregalaram, um lampejo de medo genuíno finalmente cruzando seu rosto. Ela tropeçou para trás, agarrando a cabeça. Os dois homens hesitaram, sem saber o que fazer.
Nesse momento, Jeremias entrou furioso, seu rosto contorcido de fúria. Seus olhos foram instantaneamente para Helena, depois para o sangue. Ele nem sequer olhou para mim.
"Helena! O que aconteceu?" Ele correu para o lado dela, embalando seu rosto. "Meu Deus, seu rosto lindo."
Helena, sempre a atriz, desabou em lágrimas, apontando para mim. "Ela me atacou, Jeremias! Ela tentou me matar! Ela está completamente descontrolada!"
O olhar de Jeremias finalmente pousou em mim, queimando com puro ódio. Ele não pediu meu lado da história. Ele nem sequer considerou. Ele apenas viu as lágrimas de Helena, a dor de Helena.
"Sua vadia louca", ele rosnou, dando um passo à frente. Ele agarrou meu cabelo, puxando minha cabeça para trás, e bateu meu corpo contra a parede. O impacto enviou uma onda de dor através das minhas costelas já machucadas. "Eu te avisei, Celina! Não ouse tocar nela!"
Ele gritou ordens para seus seguranças. "Tirem-na da minha vista! Joguem-na para fora! E certifiquem-se de que ela entenda a mensagem."
Os homens, agora encorajados, desceram sobre mim. Socos e chutes choveram. Tentei me encolher em uma bola, protegendo minha cabeça, mas eles eram implacáveis. Cada golpe era um novo lembrete de sua crueldade, seu total desprezo pela minha existência. Através da névoa de dor, eu vi Jeremias, seu rosto gravado com preocupação, limpando gentilmente o sangue da têmpora de Helena, sua outra mão acariciando o cabelo dela. O contraste era agonizante. O homem que uma vez jurou me amar e proteger agora presidia minha brutalização, tudo por uma mulher que não passava de uma mentira manipuladora.
Minha visão começou a nadar. Senti o gosto de sangue, engoli-o e senti uma queimação na garganta. É assim que termina? Espancada, descartada, como lixo?
A última coisa que me lembro foi a voz de Jeremias, fria e distante: "Ela não vale nada, Helena. Não se preocupe. Ela não nos incomodará novamente."
Então, escuridão.
Acordei em uma cama de hospital estéril, meu corpo gritando em protesto. Minha cabeça latejava, minhas costelas pareciam vidro quebrado e meu rosto era uma paisagem de hematomas. Uma enfermeira entrou apressada, sua expressão uma mistura de pena e profissionalismo.
"Você tem sorte de estar viva, Sra. Chase", disse ela suavemente, ajustando meu soro.
Sorte? Eu me sentia tudo, menos sortuda. Ela me entregou um tablet. "Seu marido divulgou uma declaração."
Jeremias. Eu me preparei. A manchete gritava para mim: "Esposa do bilionário de tecnologia Jeremias Chase hospitalizada após surto violento – Fontes próximas a Chase alegam instabilidade mental."
Instabilidade mental. Ele já estava girando a narrativa, me pintando como a agressora, a louca. Ele até anexou uma foto da têmpora levemente inchada e enfaixada de Helena. Não havia foto do meu rosto espancado, é claro. Minha humilhação estava completa, espalhada por todos os veículos de notícias. Ele não estava apenas tentando se livrar de mim; ele estava tentando me apagar.
Meus dedos se apertaram ao redor do tablet. A dor em meu corpo não era nada comparada à fúria fria que se instalou profundamente em meus ossos. Ele achava que tinha me quebrado. Ele estava errado. Ele apenas me forjou em algo mais forte, algo muito mais perigoso.
Ponto de Vista de Celina:
Os sussurros me seguiram, mesmo nos corredores estéreis do hospital. "Você viu o que Jeremias Chase disse sobre a esposa dele?" "Tão triste, uma mulher perdendo a cabeça assim." "Pobre Helena, o que ela deve ter passado." Suas palavras, como pequenas agulhas, picavam as feridas abertas da minha alma. Meu corpo era uma tapeçaria de dor, cada hematoma um testamento da brutalidade de Jeremias. Minha mente, no entanto, era uma paisagem fria e clara de determinação.
Assinei os papéis de alta eu mesma, minha mão ainda rígida, mas firme. Ninguém veio me buscar. Ninguém ligou. Meu marido rico, o homem que uma vez me prometeu o mundo, me abandonou para me curar sozinha.
Enquanto eu caminhava pelo longo corredor, uma voz familiar veio de uma porta aberta. Helena. E Jeremias. Meus pés, como se possuídos, me levaram para mais perto. Pela fresta da porta, eu o vi, segurando a mão de Helena, sua cabeça baixa, sussurrando palavras suaves. O rosto dela, embora ainda machucado, estava radiante.
"Helena, meu amor, sinto muito por tudo que Celina te fez passar", murmurou Jeremias, sua voz grossa com uma ternura que eu nunca tinha realmente ouvido dirigida a mim. "Ela nunca te mereceu. Você é a única para mim. Sempre foi."
Helena sorriu, um pequeno sorriso de conhecimento. "Eu sei, Jeremias. Estaremos juntos agora, não é? Assim como sempre deveríamos ter estado. Sem mais obstáculos."
"Sem mais obstáculos", ele ecoou, e então a beijou, um beijo longo e apaixonado que roubou o ar dos meus pulmões. "Celina foi apenas um meio para um fim. Um mal necessário pelo dinheiro. Você, minha querida, você é meu verdadeiro destino."
As palavras me cortaram, afiadas e precisas, deixando uma ferida aberta. Um meio para um fim. Mal necessário. Seu verdadeiro destino. Todo esse tempo, eu fui um peão, um recipiente para sua ambição. A traição foi tão profunda, tão absoluta, que arrancou os últimos vestígios da minha esperança.
Eu tropecei para trás, um soluço engasgado escapando dos meus lábios. O corredor do hospital ficou embaçado. Eu me virei e corri, o baque rítmico dos meus passos dolorosos ecoando no corredor vazio. A chuva caía lá fora, espelhando a tempestade em meu coração. Eu andei sem rumo, a água fria encharcando minha fina camisola de hospital, me gelando até os ossos. Cada gota de chuva parecia uma lágrima, lavando os últimos resquícios do meu amor ingênuo.
Eventualmente, me encontrei de volta à casa que não era mais minha. Os seguranças haviam partido, mas a porta da frente estava aberta, um convite zombeteiro. Entrei, meus passos pesados, e encarei os destroços da minha vida. Minhas roupas ainda estavam em pilhas espalhadas, meus pertences jogados ao acaso em caixas. Peguei uma fotografia da minha avó, seu sorriso caloroso um contraste gritante com a realidade fria ao meu redor. Era tudo o que me restava.
Comecei a empacotar o pouco que restava que era verdadeiramente meu. Alguns livros, um suéter gasto, o pequeno medalhão que minha mãe me deu. Meu corpo gritava a cada movimento, mas eu superei a dor, alimentada por uma raiva fervente.
Caí no chão, o esgotamento finalmente me vencendo. O mundo girou e, então, misericordiosamente, a escuridão me reivindicou mais uma vez.
Quando acordei, não estava mais no hospital estéril ou na minha casa arruinada. Eu estava em um pesadelo. Água. Água fria e escura pressionava por todos os lados. Eu estava em uma caixa de vidro gigante, um caixão transparente. Minha respiração falhou, um medo primitivo me dominando. A água estava subindo lenta e firmemente.
Através do vidro, eu o vi. Jeremias. Ele estava do lado de fora, um sorriso cruel torcendo seus lábios, me observando, seus olhos desprovidos de emoção. Predador e presa. Meu sangue gelou, uma certeza arrepiante se instalando em mim. Ele pretendia me matar.
"Jeremias! O que é isso?", gritei, minha voz abafada pelo vidro grosso. O som foi engolido pela água que subia.
Ele se inclinou para mais perto do vidro, sua voz distorcida, mas audível. "Você causou dor a Helena, Celina. Ela está chateada. E você me humilhou. Você precisa aprender uma lição."
"Helena mentiu!", gritei, pressionando minhas mãos contra o vidro. "Verifique as câmeras! Eu nunca a toquei!"
Ele riu, um som áspero e sem humor. "Você acha que eu me importo com a verdade? A sua verdade? Você é uma desgraçada venenosa e ingrata, Celina. E você tocou no que é meu."
Ele fez um sinal. Um segurança se aproximou, carregando um saco grande. Meus olhos se arregalaram de horror quando ele o desamarrou. Cobras. Dezenas delas, se contorcendo, sibilando. Ele as jogou na água comigo.
O pânico, frio e absoluto, me dominou. A água estava na altura da cintura agora, as cobras se enrolando em minhas pernas, seus corpos escamosos roçando minha pele. Eu gritei, um som gutural de puro terror, batendo contra o vidro. Uma delas me mordeu, uma picada aguda, depois outra. Minha pele se arrepiou, meu sangue parecia gelo.
"Vou chamar a polícia!", gritei, minha voz rouca, lágrimas escorrendo pelo meu rosto.
Jeremias simplesmente balançou a cabeça, seu sorriso inabalável. "Ninguém vai te ouvir, Celina. E mesmo que ouvissem, quem acreditaria na ex-esposa 'mentalmente instável'?" Ele fez uma pausa, seus olhos brilhando com um prazer doentio. "Pense nisso como uma amostra do que está por vir. Um lembrete de quem você realmente é."
Ele se virou, um monarca frio e indiferente deixando seu súdito condenado. A porta se fechou com um clique, mergulhando a sala em quase escuridão. Apenas o brilho fraco do tanque cheio de água iluminava meu inferno vivo. As cobras deslizaram para mais perto, suas presas encontrando apoio em minha carne trêmula. A dor era excruciante, mil pequenas picadas, cada uma uma nova onda de agonia.
Minha mente, em seus momentos finais de clareza, voltou ao dia do nosso casamento. Seus votos. "Eu te protegerei, te estimarei, te amarei, até que a morte nos separe." Mentiras. Tudo mentiras. Ele era a morte. Ele era o assassino.
A água alcançou meu peito. Meu corpo, fraco das surras anteriores, estava falhando. Eu lutei, me debati, mas as cobras estavam por toda parte. Meus pulmões queimavam. Minha visão escureceu. A última coisa que ouvi foi o deslizar, a última coisa que senti foi a água fria se fechando sobre minha cabeça.
De repente, um solavanco. Eu estava sendo puxada para fora. Arfadas. Tosses. Meu corpo estava no chão frio, tremendo incontrolavelmente.
"Levem-na para a sala de isolamento", a voz de Jeremias, distante e desapegada, chegou aos meus ouvidos. "Três dias. Sem comida, sem água. Deixe-a pensar no que fez."
Sala de isolamento. Eu estava vagamente ciente de ser arrastada, meu corpo raspando no concreto áspero. Uma porta bateu, me mergulhando na escuridão completa. O fedor de decomposição, de algo morto há muito tempo, encheu minhas narinas. Tentei me levantar, me orientar, mas minhas pernas cederam. Eu caí, minha mão pousando em algo duro e irregular. Osso. Osso humano. Um grito rasgou minha garganta, mas foi engolido pela escuridão sufocante.
Três dias. Três dias de terror, de sede, de fome. Três dias imaginando os restos esqueléticos sob meus dedos trêmulos. Perdi a noção do tempo, da realidade. Minha mente se fragmentou, meu corpo desidratado e quebrado. Eu flutuava dentro e fora da consciência, a escuridão minha única companhia.