Capítulo 2

POV Amanda:

A dor da traição de Bernardo persistia como um membro fantasma, uma dor constante sob a superfície. Fazia semanas desde a festa de gala, semanas desde a última vez que realmente falei com ele. Ele tentou, algumas mensagens de texto sem entusiasmo, uma ou duas mensagens de voz, mas suas palavras pareciam vazias, desprovidas da sinceridade que eu um dia apreciei. Eu era um fantasma assombrando minha própria vida, empacotando minhas coisas, me preparando para Paris, enquanto a universidade parecia um campo de batalha onde eu estava constantemente desviando de memórias.

Uma tarde, eu estava desenhando sozinha no ateliê de design deserto, me perdendo nas linhas e sombras, quando uma sombra caiu sobre minha página.

"Amanda? Finalmente te peguei sozinha."

Olhei para cima e vi Derek, um paquerador notório do departamento de história da arte. Ele vinha tentando chamar minha atenção há meses, apesar de saber que eu estava com Bernardo. Seu sorriso era predatório, seus olhos intensos demais.

"Derek", eu disse, minha voz plana. "O que você quer?"

"Só queria ver se os rumores eram verdadeiros", disse ele, encostado na porta, bloqueando minha saída. "Bernardo Castilho finalmente mostrou suas verdadeiras cores, hein? Eu te disse que ele não valia a pena." Ele deu um passo mais perto, seu olhar percorrendo meu corpo, fazendo minha pele arrepiar. "Mas sabe, o lixo de um homem é o tesouro de outro."

Levantei-me, juntando meus esboços. "Não estou interessada."

Ele riu, um som baixo e desagradável. "Ah, vamos lá, Amanda. Não me diga que você vai simplesmente se esconder e lamber suas feridas. Bernardo é um tolo. Você é linda, talentosa. Você merece mais do que ser escondida." Ele estendeu a mão, roçando meu braço.

Eu recuei, dando um passo brusco para trás. "Não me toque."

Seu sorriso vacilou, um lampejo de raiva em seus olhos. "O quê, ainda bancando a noiva fiel? Ele te largou, Amanda. Todo mundo sabe. Você está livre agora. E eu sempre quis um pedaço desse prêmio."

Meu coração disparou. Isso não era mais apenas flerte. Isso era invasivo.

De repente, a porta se abriu com um estrondo. Bernardo estava lá, seu rosto furioso. "Que porra está acontecendo aqui?" ele rosnou, seus olhos fixos em Derek.

Derek pulou, assustado. Seu sorriso predatório desapareceu rapidamente, substituído por um sorriso nervoso. "Castilho. Só... admirando o trabalho da Amanda."

"Saia", Bernardo rosnou, sua voz baixa e perigosa. "Antes que eu chame a segurança do campus."

Derek, vendo a fúria genuína nos olhos de Bernardo, não discutiu. Ele me lançou um último olhar perturbador antes de sair do ateliê.

Bernardo se virou para mim, sua raiva mudando, se transformando em uma possessividade familiar e sufocante. "O que você estava fazendo com ele, Amanda? Já flertando com outros homens?"

Eu o encarei, perplexa. "Flertando? Ele estava me assediando, Bernardo. E o que você está fazendo aqui? Pelo que me lembro, você precisava de 'espaço' de mim."

Ele passou a mão pelo cabelo escuro, a frustração estampada em seu rosto. "Eu estava preocupado com você! Você não tem atendido minhas ligações. Eu ouvi o que aquele nojento estava dizendo."

"Ah, então você ouviu isso? Mas não a parte em que ele me chamou de interesseira? Ou como a Jéssica é sua alma gêmea?" As palavras saíram, cruas e amargas.

Ele se encolheu. "Amanda, isso é diferente. Aquilo foi... um mal-entendido."

"Um mal-entendido?" Eu ri, um som áspero e sem humor. "Certo. Assim como o design 'original' da fênix da Jéssica, que misteriosamente se materializou semanas depois que eu te mostrei o meu."

Seus olhos se estreitaram. "Não comece com a Jéssica. Ela é inocente em tudo isso. Ela é vulnerável. Minha família a patrocina, Amanda. É minha responsabilidade protegê-la."

"E quanto à sua responsabilidade comigo? Sua noiva?" A palavra parecia uma mentira na minha língua.

Ele desviou o olhar, a mandíbula tensa. "Eu... eu cometi um erro naquela noite. Eu estava confuso. Mas isso não significa que eu não me importo com você. Eu me importo. Temos sete anos, Amanda. Sete anos."

Era a mesma velha canção. Ele se importava, mas estava confuso. Ele se importava, mas estava defendendo Jéssica. Ele se importava, mas tinha cancelado nosso futuro por causa de uma ligação enigmática.

Meu celular vibrou no meu bolso. Uma nova mensagem. De Bernardo.

*Me desculpe, Amanda. Por tudo. Eu sei que estraguei tudo. A Jéssica na verdade precisa de ajuda com o aluguel este mês, o dinheiro da bolsa não é suficiente. Estou apenas tentando garantir que ela esteja bem. É difícil para ela, sabe? Mas isso não significa que eu não te amo. Sinto sua falta. Por favor, podemos conversar? Venha para minha casa esta noite. Prometo que vou compensar você.*

Eu li a mensagem, meus olhos percorrendo as palavras. *Jéssica precisa de ajuda com o aluguel... dinheiro da bolsa não é suficiente... difícil para ela.* Era sempre sobre Jéssica agora. Suas promessas, suas tentativas de reconciliação, sempre entrelaçadas com sua necessidade de "protegê-la". E a menção de sua casa, uma oferta para "compensar" a mim, parecia manipuladora, uma maneira de me puxar de volta para sua órbita.

Olhei para Bernardo, parado diante de mim, seu rosto uma mistura de remorso e exasperação. Ele ainda não entendia. Ele ainda achava que poderia ter ambos: eu, e sua "responsabilidade" com Jéssica. Ele ainda não conseguia ver a podridão que havia se instalado.

"Bernardo", eu disse, minha voz calma, quase distante. "Não se preocupe com o aluguel da Jéssica. Tenho certeza de que você cuidará disso."

Ele franziu a testa, confuso. "Claro que vou. Mas e nós?" Ele deu um passo em minha direção, sua mão se estendendo.

Eu balancei a cabeça, evitando seu toque. "Não existe 'nós', Bernardo. Não mais." Apaguei a mensagem de texto dele sem pensar duas vezes. A tela piscou e depois ficou em branco.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Tinha acabado. Verdadeiramente, finalmente acabado.

Capítulo 3

POV Amanda:

Um grito agudo rasgou meu sono, me arrastando violentamente de volta à consciência. Minha colega de quarto, Clara, estava me sacudindo. Seu rosto estava pálido, os olhos arregalados de terror.

"Amanda! Acorda! É o Derek! Ele... ele está no telhado da Torre Sul! Ele está ameaçando pular!" Sua voz era um sussurro frenético.

Torre Sul. O prédio mais alto do campus, onde o departamento de arquitetura tinha suas aulas de ateliê. Meu estômago despencou. Derek. O perseguidor obsessivo que me encurralou no ateliê de design semanas atrás.

"O quê? Por quê?" Saí da cama, minha mente a mil.

"Ele está dizendo... ele está dizendo que vai fazer isso se você não for lá!" Clara torcia as mãos. "A polícia está aqui, a segurança do campus. Eles estão tentando convencê-lo a descer, mas ele só fica gritando seu nome! Ele diz que você é a única que o entende!"

Meu sangue gelou. Isso era loucura. Eu mal tinha falado com Derek, muito menos lhe dado qualquer motivo para acreditar que eu o "entendia". Mas suas palavras, as que ele gritou para mim sobre Bernardo, sobre eu estar "livre", agora ecoavam em meus ouvidos com um novo e arrepiante significado.

Antes que eu pudesse processar completamente, meu celular vibrou. Era a Professora D'Ávila, a coordenadora do meu curso.

"Amanda, você precisa vir aqui agora", sua voz estava tensa, urgente. "Derek está exigindo falar com você. Ele está instável. A polícia acha que sua presença pode acalmar a situação. Já tentamos de tudo."

Minha mente gritava não. Isso não era minha culpa. Eu não pedi por isso. Mas a ideia de alguém morrer, e meu nome ser o último em seus lábios, era um fardo pesado. "Estou indo", eu disse, minha voz mal um sussurro.

Clara me levou, suas mãos brancas nos nós dos dedos no volante. O campus estava fervilhando de luzes piscando – carros de polícia, ambulâncias. Uma multidão se formou, seus rostos virados para cima, morbidamente fascinados. Meu coração batia com uma mistura de medo e pavor. Isso não estava acontecendo.

Chegamos à base da Torre Sul. A Professora D'Ávila correu em minha direção, seu rosto uma máscara de preocupação. "Amanda, graças a Deus você está aqui. Ele está ficando mais agitado."

"Professora, eu não entendo isso", eu disse, minha voz tremendo. "Eu mal o conheço. Ele... ele estava me assediando."

Ela suspirou, tocando meu braço. "Eu sei, querida. Mas ele parece ter fixado em você. Ele está convencido de que você é a única que pode ajudá-lo. Por favor. Apenas fale com ele." Seus olhos suplicavam aos meus. O peso da responsabilidade pousou em meus ombros.

Uma policial, uma mulher de rosto severo, se aproximou. "Sra. Siqueira. Precisamos que você suba. Devagar. Não faça movimentos bruscos. Apenas ouça o que ele tem a dizer." Ela me entregou um pequeno fone de ouvido. "Estaremos ouvindo. Vamos te guiar."

A viagem de elevador parecia interminável. Cada andar passava, uma contagem regressiva para algo aterrorizante. Quando as portas se abriram, o vento uivou, chicoteando meu cabelo em volta do meu rosto. O telhado era austero, concreto e metal. E lá, na beirada, estava Derek.

Ele era uma silhueta contra o céu tempestuoso, seus braços estendidos, seu corpo balançando precariamente. Suas roupas estavam desgrenhadas, seu cabelo selvagem. Ele parecia totalmente desesperado.

"Amanda! Você veio!" ele gritou, sua voz rouca, ecoando pelo telhado. "Eu sabia que você viria!"

Meu coração martelava. "Derek", eu disse, tentando manter minha voz calma, embora meu interior estivesse tremendo. "Por favor, saia da beirada."

Ele se virou, seus olhos vidrados, injetados de sangue. "Eles não entendem! Ninguém entende! Mas você entende, Amanda. Você é como eu! Deixada de lado, abandonada!"

"Não, Derek, eu não sou", eu disse, caminhando lentamente em sua direção, seguindo as instruções da policial pelo fone de ouvido. "Eu sei que as coisas estão difíceis, mas esta não é a resposta."

"Ele te abandonou! Assim como eles me abandonaram!" ele gritou, seu olhar selvagem. "Mas podemos ficar juntos, Amanda! Podemos começar de novo! Só você e eu!" Ele deu um passo em minha direção, longe da beirada, mas depois outro passo, e outro, muito rápido.

"Derek, pare!" gritei, meu coração pulando para a garganta. Mas ele estava perdido demais. Ele se lançou, não em mim, mas passando por mim, em direção a algo invisível.

Naquela fração de segundo, uma comoção explodiu atrás de mim. Um policial, movendo-se muito rápido, muito de repente, esbarrou em mim. Perdi o equilíbrio. Meu corpo se inclinou para frente, desequilibrado.

Um grito rasgou meus pulmões quando o chão sob mim desapareceu. Senti a horrível e enjoativa corrente de ar, a sensação aterrorizante de cair. Minhas mãos se debateram, agarrando o nada.

Então, uma dor lancinante explodiu em meu braço direito quando atingi algo duro - um toldo, uma saliência, eu não sabia. Meu impulso mudou, mas a queda não parou. Eu rolei, batendo no chão com um baque doentio. O mundo girou. Minha cabeça bateu no concreto.

Uma dor aguda e insuportável percorreu meu braço, seguida por uma dor surda e latejante que se espalhou por todo o meu corpo. Tentei me mover, mas não consegui. Minha visão embaçou, os sons se tornaram abafados. Eu estava deitada no chão frio e duro, olhando para o céu, que agora era uma tela giratória de preto e cinza.

Fracamente, como um eco de outra dimensão, ouvi vozes.

"Bernardo, o que você fez?!" Era a voz de um homem, cheia de acusação furiosa. Parecia Bernardo, mas mais velho, mais áspero.

"Do que você está falando? Eu não fiz isso!" Era a voz de Bernardo, crua de pânico.

"Este era o destino dela, Bernardo! Da Jéssica! A queda, o ferimento, o perseguidor! Era tudo para a Jéssica! Mas você tinha que interferir, não é? Você tinha que mudar seus afetos, mudar a linha do tempo!" A voz mais velha era um rosnado de frustração. "Você desviou o sofrimento dela para a Amanda!"

Minha mente, já desvanecendo, agarrou-se às palavras. *O destino dela... da Jéssica... desviado para a Amanda.* O interlocutor. O "eu do futuro". Era isso que ele queria dizer? Essa era a "evidência"? Meu sofrimento era uma transferência? Uma troca cármica? Porque Bernardo tinha escolhido Jéssica?

"Não! Isso não é verdade! Eu amo a Amanda!" A voz de Bernardo estava cheia de uma negação desesperada.

"Ama ela? Você chama isso de amor, Bernardo? Você a abandonou quando ela mais precisava de você. Você acreditou nas mentiras sobre ela. Você a afastou, bem no caminho desse destino distorcido." A voz mais velha era fria, implacável. "Você selou o sofrimento dela no momento em que escolheu a Jéssica."

Lágrimas escorriam pelo meu rosto, misturando-se com a chuva que começara a cair. Não era um mal-entendido. Era pior. Muito, muito pior. A insegurança de Bernardo, sua crença fácil nas mentiras de um estranho, seus afetos mutáveis... eles me quebraram. Não apenas meu coração, mas meu corpo. Eu estava sangrando pelos pecados de Jéssica. Eu estava morrendo porque Bernardo era um tolo.

A dor se intensificou, uma tempestade rugindo dentro de mim. Minha visão escureceu. As vozes desapareceram em um zumbido distante. A escuridão me consumiu.

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