Capítulo 2

Ponto de Vista de Ana Luísa:

Eu costumava ser tão ingênua.

Quando conheci Damião Montenegro, ele era uma lenda. Um prodígio que construiu um império global de tecnologia antes dos trinta anos. Ele estava na capa de todas as revistas de negócios, seu maxilar afiado e olhos frios e inteligentes um símbolo de ambição implacável. Eu era uma estudante de arquitetura, um mundo distante do dele, mas me senti atraída pelo poder e intensidade que irradiavam dele. Desenvolvi uma paixão secreta e tola.

Então, quando minha família, com sua influência em declínio, anunciou o casamento estratégico com ele, fiquei emocionada. Minhas amigas me avisaram. "Analu, ele é uma máquina, não um homem. Ele é feito de gelo e ambição."

"Eu posso mudá-lo", eu dizia, meu coração cheio do otimismo estúpido de uma garota que só tinha lido sobre o amor nos livros. "O amor pode derreter qualquer um."

Na nossa noite de núpcias, ele parou diante de mim em nosso quarto palaciano, seu smoking perfeitamente ajustado, sua expressão tão remota quanto uma estrela distante. Ele me entregou um acordo pré-nupcial que era mais grosso que um romance.

"Vamos ser claros, Ana Luísa", disse ele, sua voz desprovida de qualquer calor. "Isso é uma parceria. O nome da família Almeida fornece à minha empresa um legado que lhe falta. Em troca, eu impeço que os negócios da sua família entrem em colapso. Espero que você seja uma Sra. Montenegro competente, silenciosa e graciosa. Não espere amor. Eu não sou capaz disso."

Suas palavras foram um tapa frio, mas meu coração tolo se recusou a desistir. Por cinco anos, interpretei o papel da esposa perfeita. Suportei sua ausência, sua indiferença, seu vazio emocional. Meu único consolo, a única coisa que me permitiu sobreviver à solidão esmagadora, era a crença de que ele era assim com todo mundo.

Que ele era simplesmente feito de gelo.

Mas vê-lo com Isabela Andrade, ver a maneira como seus olhos se suavizavam, a maneira como ele abandonava tudo pelo menor capricho dela, provou que ele não era feito de gelo. Ele era um fogo ardente. Só não para mim.

Meus cinco anos de devoção silenciosa, de espera paciente, de autoengano — tudo era uma piada. Uma piada patética e miserável.

A risada que borbulhou em minha garganta foi sufocada por soluços. No corredor frio e estéril da delegacia, finalmente aceitei a verdade. Meu casamento era uma jaula, e eu estive chacoalhando as grades por cinco anos, implorando por um afeto que nunca receberia.

Era hora de conseguir uma chave.

Alguns dias depois, com a cabeça ainda latejando do "acidente", encontrei um advogado especializado em divórcios de alto risco. O problema, ele explicou, era o acordo pré-nupcial blindado que Damião me fez assinar. Foi projetado para ser inquebrável.

"Ele teria que assinar os papéis de dissolução ele mesmo, voluntariamente", disse meu advogado, seu tom sombrio. "E pelo que sei de Damião Montenegro, isso não vai acontecer."

Mas eu tive uma ideia. Uma ideia desesperada, de longo alcance, nascida das cinzas da minha humilhação.

Fui à sede do Grupo Montenegro, um arranha-céu reluzente que perfurava as nuvens. Eu não ia lá há anos. Damião preferia manter sua vida profissional e sua vida "doméstica" — se é que se pode chamar assim — completamente separadas.

A recepcionista me olhou com uma mistura de surpresa e pena. "Sra. Montenegro. Sinto muito, mas o Sr. Montenegro não está."

"Quando você espera que ele chegue?", perguntei, minha voz firme.

Ela hesitou. "Ele... ele não tem vindo muito ao escritório nas últimas semanas, senhora."

Claro que não. Ele estava muito ocupado brincando de casinha com a Bela.

Meu advogado me informou que Damião seria o palestrante principal em um leilão de caridade de alto perfil naquela noite. Um evento que ele nunca perdia. E a lista de convidados confirmou: 'Sr. Damião Montenegro e acompanhante'.

Eu sabia que o encontraria lá.

O salão de baile era um mar de joias e champanhe. Eu os avistei instantaneamente. Bela estava agarrada ao braço dele, usando um colar de diamantes tão grande que parecia cafona. Damião parecia entediado, seus olhos percorrendo a sala com seu ar habitual de distanciamento.

Então o leilão começou. Um raro Picasso foi a leilão. O preço subiu rapidamente.

"Cem milhões", uma voz gritou. A sala ofegou. Era Damião.

Bela fez beicinho. "Não gostei. As cores são tristes."

Sem um momento de hesitação, Damião levantou a mão novamente. "Eu retiro meu lance."

O leiloeiro e a sala inteira congelaram em silêncio atônito. Damião Montenegro, um homem famoso por suas estratégias de aquisição implacáveis, acabara de desistir de uma compra de cem milhões de reais porque sua namorada não gostou das cores. Os sussurros foram imediatos.

"Você viu isso?"

"Ele está completamente na mão dela."

Mais tarde, eles estavam olhando para o prêmio final da noite: um colar de diamantes azul royal único, apropriadamente chamado de 'O Coração do Oceano'.

"Oh, Damião, é lindo!", Bela gritou, seus olhos arregalados. "Eu quero!"

O lance começou em cinquenta milhões. Escalou rapidamente, com outro magnata competindo ferozmente. Quando o preço ultrapassou duzentos milhões, até a testa de Damião franziu ligeiramente.

"Duzentos e cinquenta milhões", o outro magnata ofereceu.

Bela puxou a manga de Damião, seus olhos se enchendo de lágrimas. "Damião, por favor... eu amei tanto." Ela se inclinou e beijou sua bochecha, uma demonstração pública e calculada de afeto.

A multidão assistia, sem fôlego.

A expressão de Damião, que estava tensa com o cálculo financeiro, derreteu-se. Ele olhou para ela, e aquele mesmo olhar doentio de adoração que eu vi na fotografia apareceu em seu rosto.

"Trezentos milhões", disse ele, sua voz firme.

A sala explodiu. O outro magnata balançou a cabeça e sentou-se. Bela gritou de alegria e jogou os braços ao redor do pescoço de Damião. "Oh, Damião! Você é o melhor! Eu te amo, eu te amo, eu te amo!"

Eu assisti das sombras, meu coração uma pedra fria e pesada no peito. Ele nunca me comprou nem um buquê de flores. Ele chamou meu desejo por um simples jantar de aniversário de "frivolidade". Mas por ela, ele queimaria trezentos milhões de reais sem pensar duas vezes.

Não era que ele não soubesse ser romântico. Era que ele não queria ser romântico comigo.

A peça final da minha ilusão se desfez em pó.

Respirei fundo, os papéis do divórcio agarrados na minha mão como um escudo. Saí das sombras e me aproximei deles.

"Damião."

Ele se virou, seus olhos instantaneamente se transformando em gelo quando me viu. Ele instintivamente puxou Bela para trás dele, um gesto protetor que enviou uma nova onda de dor através de mim.

"O que você está fazendo aqui?", ele perguntou, sua voz afiada de aborrecimento.

Meu próprio marido, protegendo sua amante de mim. O absurdo disso era quase risível.

"Preciso que você assine isso", eu disse, estendendo os papéis. Minha mão tremia, mas minha voz estava surpreendentemente firme.

Ele olhou para a pasta com desdém. "Estou ocupado. Entregue ao meu assistente amanhã."

"Não", eu disse, minha voz subindo ligeiramente. "Eu quero acabar com isso. Agora."

Eu precisava me libertar dele. Eu não podia passar mais um segundo como sua esposa. Não depois disso.

"Eu quero o divórcio, Damião", eu disse, as palavras com gosto de liberdade e cinzas. "Deixe-me ir."

Ele me encarou como se eu fosse uma estranha que acabara de falar uma língua estrangeira. Ele nem pareceu registrar minhas palavras. Seu foco estava inteiramente em Bela, que estava começando a ficar inquieta.

"Damião, quem é ela? Ela está me assustando", Bela choramingou, puxando seu braço.

Antes que Damião pudesse responder, Bela arrancou a pasta da minha mão. "O que é isso? Ela está tentando tirar dinheiro de você? Damião disse que você pode ter o que quiser, apenas o deixe em paz!"

Ela abriu a pasta, seus olhos percorrendo o jargão legal.

"Damião, querido, são apenas alguns papéis chatos", disse ela com desdém. "Você está ocupado. Você me disse que eu poderia cuidar de qualquer coisa para você, certo? Eu assino."

Meu coração parou. Damião havia lhe dado uma procuração com plenos poderes. O símbolo máximo de confiança. Um poder que ele nunca, jamais, considerou dar a mim, sua esposa.

Antes que eu pudesse processar a nova onda de agonia, Bela tirou um pequeno objeto ornamentado de sua bolsa. Era o sinete pessoal de Damião, seu carimbo de assinatura, feito sob medida a partir de uma rara peça de jade. Era tão juridicamente vinculativo quanto sua assinatura.

Com um floreio, ela pressionou o sinete na linha de assinatura do acordo de divórcio.

Capítulo 3

Ponto de Vista de Ana Luísa:

Bela empurrou a pasta de volta para o meu peito, um sorriso triunfante e desdenhoso no rosto. "Pronto. Está feito. Agora saia de nossas vidas e nunca mais incomode o Damião."

Ela pensou que estava assinando algum documento para me pagar, para finalizar minha humilhação. A ironia era tão espessa que eu poderia engasgar. O acordo de divórcio que eu acabara de receber era exatamente o que eu queria. Ela acabara de me entregar minha liberdade em uma bandeja de prata.

Eu queria rir. Eu queria dizer a ela que era uma tola. "Você não tem ideia do que acabou de fazer", comecei a dizer, mas as palavras foram abafadas por um som ensurdecedor.

Um alarme. Um lamento agudo e penetrante que cortou a conversa educada do salão de baile.

O pânico explodiu. As pessoas gritaram. A multidão bem-vestida se transformou em uma manada em debandada. Alguém me empurrou com força por trás, e eu tropecei, a preciosa pasta voando das minhas mãos.

A força da multidão era como um maremoto. Fui derrubada, caindo com força no chão de mármore. Bela caiu ao meu lado, seu vestido de grife rasgando.

Uma dor aguda e lancinante subiu pela minha perna quando o salto agulha de alguém fincou na minha canela. Eu gritei, mas minha voz se perdeu no caos. As pessoas estavam me pisoteando, seus sapatos chutando minhas costelas, meus braços, minha cabeça. A dor era excruciante.

"DAMIÃO!", Bela gritou, sua voz estridente de terror. "DAMIÃO, ME AJUDE!"

Através da floresta de pernas em pânico, ouvi sua voz, afiada e imponente, cortando o barulho. "BELA! Onde você está?"

Ele estava voltando.

Uma pequena e estúpida centelha de esperança se acendeu em meu peito. Ele está voltando por nós.

Eu o vi então, uma força da natureza abrindo o mar de pessoas aterrorizadas. Seus olhos estavam selvagens, vasculhando o chão, procurando. Por uma fração de segundo, meus olhos encontraram os dele. Ele me viu. Eu sei que ele viu.

Mas seu olhar passou direto por mim, como se eu não estivesse lá.

Ele localizou Bela em um instante. Com um rugido gutural, ele se lançou para frente, empurrando as pessoas para o lado. Ele a pegou nos braços, embalando-a como se fosse feita de vidro.

Ele a segurou firme contra o peito e se virou para lutar contra a multidão, deixando-me no chão para ser pisoteada.

Ele nem sequer olhou para mim. Nenhuma vez.

"Damião", sussurrei, minha voz um coaxar quebrado. A palavra foi engolida pelos gritos aterrorizados ao meu redor. O calcanhar de uma bota me atingiu na têmpora, e o mundo começou a embaçar.

Justo quando minha visão começou a desaparecer, eu o vi parar. Ele quase alcançara a saída, Bela segura em seus braços. Ele estava se virando.

Ele está voltando por mim. O pensamento era uma oração desesperada, de quem se afoga.

Ele abriu caminho de volta pelo caos, seu rosto uma máscara de determinação sombria. Ele estava se aproximando. Meu coração, aquela coisa estúpida e teimosa, martelava contra minhas costelas.

Ele alcançou o local onde havíamos caído. Ele se abaixou.

Minha mão se contraiu, pronta para alcançar a dele.

Mas ele não estava olhando para mim. Seus olhos estavam fixos no chão. Ele pegou algo.

Era um único brinco de diamante que devia ter caído da orelha de Bela.

Ele o agarrou em seu punho, virou-se e, sem um único olhar para trás, desapareceu na multidão, deixando-me sangrando no chão.

Da relativa segurança da saída, pude ouvir a voz de Bela, abafada, mas ainda clara. "Meu brinco! Damião, você o encontrou?"

Sua voz era um murmúrio baixo e calmante. "Eu o encontrei, meu bem. Eu o tenho. Eu sempre encontrarei o que é seu."

Seu grito feliz foi a última coisa que ouvi antes que o mundo ficasse preto.

Eu era menos importante que uma joia.

A dor dessa constatação foi pior do que qualquer ferimento físico. Foi uma ferida profunda na alma, um golpe final e fatal para o que restava do meu amor por ele.

Acordei em um hospital novamente. A mesma suíte particular. O mesmo cheiro estéril.

Um médico me informou que eu tinha uma concussão, três costelas quebradas e uma fíbula fraturada. Meu corpo era um mapa de hematomas.

"Você tem sorte", disse ele. "Você precisará de cirurgia na perna, mas terá uma recuperação completa."

Enquanto me preparavam para a sala de cirurgia, as portas da minha suíte se abriram com violência.

Dois dos guarda-costas de Damião, os mesmos que estavam sempre com ele, invadiram. Eram homens enormes e impassíveis que pareciam esculpidos em granito.

"O que significa isso?", exigiu o cirurgião, parando na frente deles. "Esta é uma área estéril!"

Eles o ignoraram. Um deles agarrou meu braço, seu aperto como um torno de aço.

"Solte-a!", gritou uma enfermeira.

Com um único movimento brutal, eles me arrastaram da maca. A dor na minha perna era tão intensa, tão ofuscante, que eu gritei. Parecia que meu osso estava rasgando minha pele.

Eles me arrastaram pelos corredores do hospital como um saco de lixo, meus pés descalços arrastando no linóleo frio. Minha fina camisola de hospital não oferecia proteção, nem dignidade.

Eles me jogaram no chão de outro quarto. Um muito mais luxuoso.

Minha visão turvou, mas consegui distinguir a cena diante de mim. E era uma cena que ficaria gravada em minha memória para sempre.

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