Destiny POV
Levantei a tempo de ver que o recrutador tinha terminado de colocar minha irmã no sistema.
“Tudo pronto, vou precisar que você assine a documentação.” O recrutador falou e me entregou a papelada.
Eu sei que abrir mão de minha irmã pode ser cruel, mas eu não posso ir para a matilha SilverRage, então pelo menos assim ela vai ter o suporte para crescer. Li os papeis e estava tudo nos conformes, às cláusulas informando que eu abria mão incondicionalmente da guarda e que a partir daquele momento Mia era uma órfã.
Peguei a caneta para assinar, me curvei na bancada e antes de conseguir encostar no papel, senti meu pulso ser segurado, eu nem preciso levantar os olhos para saber quem era.
“Senhorita, o que você está pensando em fazer?” A voz de Kaiden ecoou perto de mim e apenas respirei fundo.
Ainda bem que eu já tinha me acostumado a usar uma roupa que cobria todo meu corpo, então estou usando luvas pretas e minha blusa é de mangas longas, mas ainda assim eu odiava que me tocassem. Tirando minha irmã, eu odiava que me tocassem.
Fiz um leve movimento para soltar meu pulso e Kaiden soltou, voltei a colocar a caneta no papel para assinar.
“Minha irmã não tem voz.” Escutei Mia respondendo e vi o papel ser puxado da mesa.
Respirei fundo novamente, fechando os olhos.
“Entendo.” Kaiden falou num tom de voz que não me agradou.
Mas novamente, eu só preciso ter calma até finalizar toda aquela burocracia.
“Mas você quer se separar da sua irmã?” Kaiden estava perguntando para Mia.
“Minha irmã sempre vai estar comigo.” Mia respondeu com coragem.
Eu sei que ela está triste e um tanto magoada, mas ela já não é tão mais nova que não consegue entender o que está acontecendo.
“Eu concordo com isso… Principalmente porque sua irmã vai vir junto com a gente.” Kaiden falou num tom alegre e posso sentir a esperança no coração de minha irmã crescendo.
Isso só iria machucá-la, fechei meus dedos com um pouco mais de força.
“Ela vai? Viu mana, ele falou que você pode ir com a gente.” A voz de minha irmã com aquele toque de felicidade e esperança que eu sempre quis evitar.
Eu tinha conversado com ela durante vários dias até que ela entendesse realidade e agora com uma frase aquele homem estava arruinando tudo.
Abri os olhos e virei para olhar para minha irmã. Sorri para ela.
“Eu não posso… Lembra? A gente conversou sobre isso?”
Fiz os sinais para Mia e vi a felicidade desaparecer.
“Mas…” Mia tentou falar algo, mas fiz um carinho na cabeça dela e a vi relaxar. “Tah bom…” Ela sussurrou por fim.
Então olhei para Kaiden e estendi a mão, pedindo os papéis para assinar. Ele não estava desconfortável para olhar para o meu rosto. É óbvio que alguém como ele não se sentiria assim.
“O que você pretende fazer?” Kaiden perguntou seriamente. “Dar sua irmã para adoção e vai viver como? Acha que ela realmente vai ter uma vida melhor sem você estar perto dela?”
Sorri de canto, como eu tinha imaginado, ele era presunçoso, achava que sabia de tudo e que tinha todas as respostas e pela primeira vez o vi desviar o olhar por alguns segundos. É, eu sei que é difícil me encarar por muito tempo, ainda mais porque eu consigo ver sua alma.
Com cuidado eu aproximei minha mão dos papeis.
“Mana!” Mia me chamou justamente quando eu estava prestes a pegar o meu objetivo. “Eu sei, você falou… Mas… Mas…”
A voz de minha irmã se quebrando quase me fez perder a cabeça… Kaiden pagaria por aquilo. Tudo isso era difícil para mim e para Mia e agora estava ainda pior, sei que estamos chamando atenção e uma das outras coisas que eu odeio é chamar atenção.
Imediatamente peguei minha irmã no colo para confortá-la, dando pequenos tapinhas nas costas dela e olhei para Kaiden e o vi vacilar levemente, mas então endireitou as costas e voltou a falar.
“Senhorita, como falei, você virá conosco. Você pode não gostar disso, mas eu sugiro fortemente que para o bem de todos, você não cause mais nenhuma cena.”
Ele estava me ameaçando? Meu sorriso aumentou ainda mais, eu sei que não estou emitindo nenhuma aura, porque eu consigo me controlar muito bem, eu tive que aprender a me controlar.
Mas minha irmã me conhece melhor que ninguém e senti que ela segurava com um pouco mais de força minha roupa.
“Mana…” Ela sussurrou, implorando.
Kaiden percebeu imediatamente que havia feito algo errado, porque até mesmo seu lobo não estava satisfeito, eu posso ver a sombra do lobo dele se mexendo e brigando com ele.
Fiquei mais satisfeita com aquilo, por isso dei as costas me afastando daquela bancada e simplesmente não fui para mais nenhuma daquelas filas, afinal de contas eu não pertenço a nenhuma daquelas categorias e muito menos faria qualquer teste.
O que fiz foi andar em direção a saída daquele galpão, já que eles haviam dito que minha irmã não podia ir sozinha, então tudo bem. Ela vai ficar comigo. Vai ser mais difícil, mas ainda assim sei que vou sobreviver.
Quando estava chegando perto da saída senti a aura de Kaiden muito proxima, assim como vários guerreiros.
“Elas não fazem parte da matilha!” Escutei a voz Luis ressoar. “Você não pode força-la a ir, ninguém aqui pode. Ela é só uma agregada, mas não faz parte da matilha. Nosso acordo é que todos os membros da matilha vão com vocês. Essas duas não estão inclusas."
Fiquei um pouco mais aliviada, justamente porque não vou precisar me defender fisicamente.
“Você está me dizendo que ela são Rogues?” Kaiden perguntou numa voz mais alta.
“Não, elas fazem parte de outra matilha.” Luis respondeu.
“E o que elas estão fazendo aqui?” Kaiden não estava aceitando muito aquelas respostas.
“Alpha Peter deu abrigo para elas…” Luis respondeu.
Eu queria rir, como aquelas pessoas eram tão hipócritas, mas apenas olhei para os guardas, pelo menos aquela conversinha me dava passagem para não ter que ficar ali. Então escutei um rosnado alto e sei que todos estremeceram. Era o lobo de Kaiden.
“Dá próxima vez que pensar em mentir para mim, você fica sem cabeça.”
Respirei fundo, droga… Eu só quero sair deste lugar e viver a minha vida. Eu só queria que minha irmã não precisasse passar por tantas necessidades, que tivesse uma boa infancia… Tudo isso estava cada vez mais longe.
“Senhor… Eu…” Luis tentou falar alguma coisa, mas a aura de Kaiden é assustadora, para a maioria dos seres, mas para mim é apenas mais uma.
“Eu aconselho a Senhorita não dar mais um passo em direção a essa saída e é melhor me seguir.”
Ele estava falando comigo, tentando me dar ordens…
“Vamos para outro lugar para conversarmos.”
Os guardas que estão na porta não iriam me deixar sair, não sem que eu lutasse.
“Por favor, maninha…” Mia falou baixo e respirei fundo, derrotada…
Minha irmã era a única que conseguia fazer isso, me dissuadir de alguma coisa.
“Você pode deixá-la aqui.” Kaiden quem falou desta vez.
Bom, se minha irmã não estivesse por perto, então seria mais fácil para eu lutar… Mas isso significava que ela também poderia virar uma refém. Então apenas me virei, ainda mantendo minha irmã em meu colo. Eu preferia enfrentar uma luta com ela ao meu lado, do que fazê-la refém.
“Tudo bem…” Kaiden suspirou e então deu as costas e começou a andar em direção a outra saída, a uma das quais que dava em direção a alguns escritórios que haviam sido montados às pressas.
Entrei naquele escritório e posso sentir o feitiço que tem ao redor dele, justamente para que o lado de fora não saiba o que está sendo dito. Luís estava perto, mas se afastou o máximo que conseguia de mim.
“Então, que tal, Gamma Luis, você contar a história corretamente, sem omitir nada.” Kaiden perguntou indo para trás da mesinha e se sentando.
“Destiny foi isolada da matilha há dois anos.” Luis começou a falar e vejo que Kaiden não está satisfeito. “Ela… Ela… Foi corrompida naquele dia e então para não passar isso para os outros, a gente a isolou.” Sua voz saia tremida.
“É mesmo? Porque eu não sinto nenhuma corrupção nela e posso lhe garantir, se houvesse eu saberia.” Kaiden falou com calma.
“Essa máscara que ela usa encobre!” Luis apontou para o meu rosto. “Ninguém sabe onde ela conseguiu essa coisa! Mas é isso que encobre a corrupção dela! Com certeza é magia negra!”
“Mentira!” Minha irmã quem gritou, com raiva. “Minha irmã nunca mexeu com isso ai não!”
“Só porque você não sabe o que é essa máscara, não significa que seja magia negra.” Kaiden falou com calma. “Só mostra o quão ignorante você é. A Máscara que ela usa é um presente divino. Você que não consegue ver direito.”
Destiny POV
O sorriso de vitória no rosto de Kaiden me fazia querer bater ainda mais nele, sim eu fiquei surpresa quando ele disse aquelas palavras. Eu nunca tinha encontrado mais ninguém que conseguia ver as fagulhas divinas.
Mas bem, meu mundo é pequeno, isso eu sei… Sò que não tão pequeno assim… O que me leva a suspeitar, por que ele quer tanto que eu vá com a matilha dele? E ele percebeu meu olhar.
“Na matilha SilverRage você vai ter um treinamento adequado e vai poder descobrir mais sobre a sua máscara.” Kaiden explicou.
Ainda assim, eu não estou acreditando muito.
“Já temos experiência com pessoas que carregavam presentes divinos.” Kaiden se levantou e me olhou atentamente. Posso ver o lobo dele andando de um lado para o outro inquieto.
Kaiden é bom nisso, em esconder seus verdadeiros sentimentos. Se fosse antes eu o parabenizaria por isso, mas hoje… Eu sei melhor, eu entendo melhor.
“Mesmo que você queira levá-la… Ela não vai poder falar o ritual.” Luis falou, seu tom de voz é baixo.
“O que você quer dizer com isso?” Kaiden olhou para meu antigo Gamma.
“Quando a isolamos, cortamos os laços com ela, deixando apenas uma pequena parte para ela não ser considerada Rogue.” Luis explicou.
“Então não tem ninguém ligada a ela? Nem mesmo a irmã?” Kaiden perguntou irritado, aquilo era algo que ele não esperava.
“Não, nem mesmo a irmã.” Luis concordou.
“Como ela não fala, então o ritual de troca não pode ser dito… Seu antigo Alpha está morto e não pode restitui-la, seu Beta não passou pelo ritual de substituição e você… Você não serve para nada.” As palavras de Kaiden eram repletas de raiva.
Agora ele começava a entender porque eu estava deixando a minha irmã. Eu não posso viver no mesmo territorio sem que faça um dos rituais, seja o de entrada ou de estadia… Porque é uma magia que envolve a Palavra. Para quem é mudo, pode ser dito através dos elos mentais, mas eu não tenho nenhum… Assim, eu estou fadada a não participar de nenhuma matilha.
Se Peter estivesse vivo ele poderia me reintegrar a matilha e eu voltaria a ter um elo mental… Mas ele não está e Frederico ainda está em péssimas condições e eu sei que ele não vai sobreviver. Luís não pode assumir esse papel, porque seu elo como Gamma é muito fraco.
“Eu vou precisar conversar com Kendrick… Talvez tenhamos uma solução…” Kaiden falou depois de pensar por algum tempo. “Acredito que podemos pagar para uma maga fazer um feitiço em você, Senhorita, para que sua voz volte.”
Minha expressão endureceu, quem indicou que eu vou querer isso? Que vou aceitar algo assim?
“Viu, mana… Vai dar certo… Você pode ir comigo! A gente vai poder ficar juntas!” Mia falou animada.
Torci a boca e fiz um movimento leve com a cabeça, informando que não, eu não vou aceitar nenhum tipo de feitiço. Coloquei Mia no chão e então estendi a mão. Kaiden pegou um pequeno caderno e uma caneta e me entregou. Mia se agarrou a minha perna.
“Eu vou levar minha irmã até a matilha de vocês… Mas não quero nenhum feitiço em mim.”
Escrevi e entreguei para Kaiden. Ele respirou fundo.
“Pelo menos consegui convencer a ir até as terras da matilha.” Kaiden falou sorrindo.
“Oba!” Mia gritou feliz, aquele gritinho que até machuca os ouvidos, ainda mais para quem tem lobo.
Sorri e fiz um cafuné na cabeça dela.
“Suas coisas, você tem algo que precise levar?” Kaiden perguntou e apenas dei as costas para ele para sair daquele escritório. “Espero, Senhorita White, vê-la aqui para partimos.”
Mais uma vez aquele homem estava me ameaçando, já não era a primeira vez e parecia que não seria a última. Arrumei o capuz que cobre meu rosto e estendi a mão e Mia a segurou.
Eu não pretendia ir, logo só tinha arrumado a mochila da minha irmã. Tudo bem que não preciso de muita coisa, mas tem alguns itens muito importantes que preciso levar, mas claro que Kaiden não confiava em mim, como poderia? Por isso, enquanto me afasto sou seguida por um daqueles soldados.
Formigas fazendo suas funções, sem reclamar, sem questionar… Cheguei novamente em minha cabana, abri a porta e fechei na cara do soldado, sem deixá-lo entrar, fui até o bau e o abri, vendo minhas roupas ali.
“Viu, irmã! Eu to tão feliz!” Mia não parava de falar enquanto estava pegando uma outra mala para me entregar.
Sorri, a felicidade da minha irmã é contagiosa e por um momento fiquei vendo ela puxando a minha mala, mesmo que ela fosse mais pesada, minha irmã não desistia e puxava com as duas mãos.
Eu sei que tenho que agradecer ao meu Pai por estar aqui hoje, para poder ver minha irmã tão feliz, virei meu rosto para o pequeno altar que tinha construído. Será que é esse o meu caminho? É isso mesmo?
Kaiden e seu lobo tinham um pezinho no domínio de meu Pai. Fechei os olhos e me concentrei no cheiro daquelas folhas de narciso e me senti mais leve. Era algo muito sutil, mas eu consigo entender o significado… No mínimo eu tenho que tentar.
Voltei a olhar o bau, peguei as três capas, todas iguais, pretas que lembram o tecido da noite sem estrelas, todas elas tem capuz, este capuz faz com que mesmo com o olhar aguçado dos lupinos, eles não consigam enxergar muito bem meu rosto e é basicamente isso que os deixa desconfortáveis.
E aqueles que se preocupam em prestar atenção acabam encontrando então meu rosto, metade dela é coberto por uma máscara metálica de um tom dourado envelhecido, enquanto o outro lado parece muito mais pálido do que um corpo vivo deveria ser.
Guardei as três capas na mala que minha irmã trouxe, também coloquei algumas outras roupas, peguei um pequeno pano preto, coloquei o cetro, o cachorro e o chifre, enrolei com cuidado e coloquei no meio das roupas e fechei a mala.
Ao me erguer escutei uma batida na porta, minha irmã correu para abrir e o soldado limpou a garganta antes de falar:
“Temos que ir, todos os outros já estão prontos.”
Sua voz mostra o quanto ele não queria estar ali, então apenas segurei a alça da mala com a mão esquerda e peguei a mão de minha irmã com a direita.
Passamos a voltar para aquele galpão, mas desta vez existem alguns ônibus já lotados com as outras pessoas daquela matilha, mas o soldado foi andando e sei que é para eu segui-lo, passamos pelos ônibus e vi Kaiden parado ao lado de uma SUV preta, o porta malas estava aberto.
O sorriso dele era irritante, mas minha irmã soltou minha mão e correu até ele o abraçando e escutei ela agradecendo. Revirei meus olhos e coloquei a mala no porta malas, fechei e entrei no carro, na parte de trás.
Minha irmã já estava ali, aproveitei para colocar o cinto nela e fiz a mesma coisa. Kaiden sentou no banco do motorista.
“Que tipo de música você gosta, Mia?” Kaiden perguntou.
“Rock! Igual o papai!” Mia respondeu animada.
Apenas olhei pela janela, esperando que a viagem começasse.
“E sua irmã?” Kaiden começou a mexer no celular para colocar uma playlist.
“A musica favorita dela é: Under your Scars! Eu lembro! Eu era muito pequena, mas é a musica que sempre tocava quando o tio Marc fazia uma surpresa para a minha irmã.” Mia respondeu animada e inocente.
Fechei os olhos, mesmo depois de tanto tempo ainda doía escutar o nome dele.
“Bom, vamos ficar com um soft rock, que tal?” Kaiden falou, sem fazer mais perguntas.
Eu sei que ele quer saber mais sobre mim, mas pelo menos se deu a dignidade de não ficar interrogando minha irmã.