Capítulo 2

Joshua voltou para casa às onze naquela noite. Ao longo dos anos, independentemente de suas obrigações, ele sempre retornava antes da meia-noite, nunca passando a noite fora.

Quem poderia imaginar que um homem exemplar como ele teria outra família?

Com muito cuidado, ele abriu a porta do quarto e viu os olhos vermelhos e cheios de lágrimas de Kathleen. Ele parou, com uma expressão de preocupação atravessando seu rosto. "Desculpe, meu amor. Estou atrasado. Estava se preocupando demais de novo? Mas não precisa. Olha só, trouxe uma sopa de frutos-do-mar para você. Tome um pouco antes de dormir."

Ele ajudou Kathleen a se sentar com delicadeza. A consideração do marido se mostrava em pequenos gestos, como trazer para casa as comidas favoritas dela quando chegava tarde.

Ela costumava acreditar que foi um presente do destino ter conhecido um homem tão bom quanto ele.

Mas naquela noite, ela descobriu a verdade. A comida que Joshua trazia para casa, como a sopa de frutos-do-mar, eram sobras de Ella e sua querida filha.

Momentos antes, Kathleen se obrigara a assistir à filmagem das câmeras de segurança da mansão dos seus pais.

A menininha tomou um gole da sopa, mas cuspiu de volta na tigela e perguntou: "Papai, esse restaurante é tão caro, mas por que essa sopa tem um gosto tão ruim?"

Joshua olhou para ela, rindo enquanto servia outra coisa. "Tara, se você não gosta, não precisa tomar. Vou levar comigo."

"Mas, papai, eu cuspi nele", disse a menina.

Joshua deu de ombros, despreocupado. "Sem problema. Vou levar para os cachorros. Eles não vão se importar com isso."

Agora, Joshua estava segurando uma colher, esperando ansiosamente que Kathleen abrisse a boca e experimentasse a sopa, o que fez com que o estômago dela revirasse violentamente.

Quantas vezes ela havia comido essas sobras, contaminadas com o cuspe de outra pessoa? Ela era uma cadela aos olhos de Joshua e só merecia sobras?

Kathleen engasgou correu para o banheiro e vomitou até o mundo girar, depois desabou no chão, com lágrimas escorrendo pelo rosto.

"Por quê, Joshua? Se você não me ama, por que fingir se importar tanto?", murmurou para si mesma.

"Você está bem, meu amor? Desculpe, eu não sabia que você não estava com vontade de tomar a sopa. É culpa minha. Abra a porta, deixe-me ver você, por favor?" A voz dele carregava urgência do lado de fora.

Kathleen pressionou as mãos contra o rosto, abafando os soluços. Por que ele a tratava assim?

Naquela noite, ela teve febre e Joshua a levou apressadamente ao hospital.

Ela não sabia quanto tempo havia dormido. O som de Joshua conversando com Brennen Fuller, seu médico e primo dele, a despertou, mas ela matinha os olhos fechados.

"Joshua, a condição de Kathleen é crítica. Ela pode não aguentar mais um mês. Você ainda vai doar aquele fígado para outra pessoa?" Brennen perguntou.

Após alguns segundos de silêncio, Joshua falou: "Vou manter minha decisão. Você não viu como Ella chorou na minha frente. Não posso suportar. Para Kathleen, encontrarei outro fígado a tempo. Não se preocupe."

"Mas como você vai contar isso para ela?", o médico insistiu.

A voz de Joshua se tornou fria, quase metálica. "Vou dizer que a família do doador desistiu por razões religiosas. Ela não vai suspeitar de nada."

Brennen hesitou. "Mas Kathleen é sua esposa legítima. Foi família Walton que tirou você da lama. Será que você pode realmente ser tão insensível?"

Joshua soltou uma risada baixa, amarga e quase doentia. "Sim, realmente devo meu sucesso aos Walton. Mas não tenho sido bom com Kathleen? Quantos homens fariam o que eu fiz? Mesmo quando a doença a deixou infértil, você me viu reclamando alguma vez? Não tenho nada do que me sentir culpado."

As mãos de Kathleen apertaram o lençol sob o cobertor. Seu coração parecia ter sido arrancado do seu peito.

Então, a fidelidade do seu amado marido durante sua doença justificava a traição dele? Se ele não sentia culpa ou estava apenas se iludindo, só ele sabia.

"Você não se importa se ela vive ou morre?" O médico perguntou.

Mas Joshua não respondeu. Seus dedos tocaram a bochecha de Kathleen, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha.

Seu toque era gentil, mas cada centímetro de pele por onde ele passava ardia com uma dor insuportável.

Capítulo 3

Kathleen esperou até que as vozes se apagassem antes de abrir os olhos vermelhos de tanto chorar.

Quando sua tia Ellen havia finalmente encontrado o doador, Kathleen contara a Joshua, cuja empolgação parecia genuína, por isso, pensara que ele estava feliz por ela. Agora, sabia que ele estava feliz por outra e que nunca teve a intenção de mantê-la viva.

Ela pegou o telefone e enviou uma mensagem para Ellen, pedindo que garantisse o doador e impedisse Joshua de interferir.

"Querida, já está acordada? Você me assustou demais", disse Joshua, com os olhos ainda marejados de sono.

Ele apertou a mão de Kathleen, pressionando-a contra sua bochecha com uma ternura que poderia comover qualquer um.

"Seu casamento parece coisa de novela, senhora Hayes", disse uma jovem enfermeira, sua voz cheia de inveja. "Sabe a paciente no quarto ao lado? O marido não a visitou uma vez sequer em duas semanas que está internada aqui. Você tem tanta sorte."

Ao ouvir as palavras da moça, Kathleen forçou um sorriso amargo.

Na verdade, ela invejava aquela paciente, pois pelo menos não fora deixada em pedaços após cada esperança ser destruída.

"Quero visitar a mansão dos meus pais", disse Kathleen roucamente, tentando soar forte.

Nesse momento, Joshua congelou, e ele respondeu com um sorriso forçado. "Por que ir lá? Só vai deixar você chateada. Quando você se recuperar do transplante, podemos ir sem problemas. Por enquanto, concentre-se na operação."

Os olhos mentirosos do homem não demonstravam nenhuma sombra de culpa.

Kathleen engoliu sua amargura e disse: "É por causa da cirurgia. Quero ver o lugar deles, pedir a bênção para viver uma vida longa."

Joshua não captou o tom nas palavras dela. Ele piscou, voltando à sua expressão carinhosa. "Tudo bem, o que você quiser. Mas está um pouco bagunçado lá. Vou mandar limpar primeiro."

Kathleen assentiu, sabendo que ele precisava de tempo para se preparar.

Na verdade, ela não queria um confronto com a outra mulher. Só queria vender a casa antes de partir.

Antes, aquela grande casa guardava memórias felizes e preciosas, mas agora, estava manchada e maculada, por isso não merecia ser mantida.

O destino, no entanto, foi cruel. Ela queria evitar a mulher, mas a mulher veio até ela.

Naquela tarde, uma nova paciente, na casa dos cinquenta, chegou — a mãe de Ella Campbell, acompanhada pela filha.

Kathleen viu sua rival pessoalmente pela primeira vez.

"Oi, me chamo Ella. Minha mãe também fará um transplante em breve." A jovem mulher disse, parada ao lado da cama de Kathleen com um sorriso provocador, estendendo a mão.

Kathleen respondeu com um olhar frio. Ella não era mais bonita, talvez fosse mais chamativa, mas os homens não se importavam quando traíam.

Kathleen não apertou a mão de Ella. Ela não conseguia manter o coração do marido. Como poderia culpar os esquemas da outra mulher?

O embaraço cintilou nos olhos de Joshua, que evitou o olhar de Ella e ajudou Kathleen a beber água.

A jovem mulher mordeu o lábio, visivelmente furiosa.

Desde que Joshua lhe ligou, dizendo para ela e sua filha se mudarem da casa Walton, estava extremamente irritada.

Ella não se importava em morar lá, mas sabendo que era a casa dos pais de Kathleen, implorara a Joshua para deixá-las ficar, assim, moravam lá por três anos.

Joshua sempre mantinha Ella longe de Kathleen, mas agora que Kathleen estava morrendo, Ella, uma pessoa extremamente competitiva, não tinha mais reservas.

"Ouvi dizer que você também encontrou um doador de fígado? Espero que nada dê errado", disse Ella, com tom provocador.

"Basta!" Joshua gritou, quebrando o copo em sua mão. Ele lançou um olhar furioso para Ella. "Se não sabe falar com as pessoas, é melhor que se cale. Minha esposa não se importa, mas eu não sou tão indulgente. Diga mais uma palavra, e você está fora deste hospital."

Kathleen se recostou na cabeceira da cama, aplaudindo silenciosamente a performance de Joshua.

Que grande ator. Será que ele planejava enganá-la até o fim? Seu coração doía.

Fraca demais para confrontar sua hipocrisia, apenas fechou os olhos e adormeceu.

Ela se importava menos em lutar contra eles do que em curar seu corpo. Sem Joshua, ela sofreria, sombreada pela traição dele por muito tempo. Mesmo assim, ela queria viver, mais do que nunca, porque só vivendo poderia fazê-los pagar.

No meio da noite, Kathleen acordou, com sede. Joshua já tinha ido embora.

Ela saiu do quarto e ouviu sons abafados da escada — o inconfundível ofegar de um homem e uma mulher perdidos na paixão.

E ela conhecia aquela voz — era a voz de Joshua.

Segurando o peito que doía, ela empurrou a porta da escada e se deparou com um casal entrelaçado, perdido um dentro do outro.

"Oh... querido, por que foi tão duro e grosso comigo esta tarde? Fiquei tão tristinha", Ella disse, agarrando-se ao pescoço de Joshua, sua voz ofegante.

"Você está se arrependendo de dar o fígado para minha mãe? Eu sabia que você ainda tem sentimentos por aquela mulher", ela acrescentou.

Joshua a silenciou com um beijo. "Não fale bobagens. O fígado é definitivamente para sua mãe. Só fiquei bravo porque você agiu por conta própria. Não coloquei sua mãe em um quarto privativo? Por que insistir em movê-la para uma enfermaria comum com Kathleen?"

Ella sorriu. "Só queria irritar aquelazinha. Ela sempre rouba você de mim."

Os movimentos de Joshua tornaram-se mais intensos, os sons de seus corpos colidindo perfurando os ouvidos de Kathleen.

"Sua safadinha, vou te dar o que merece", ele disse.

...

Kathleen não sabia quando mordera o lábio com tanta força que sangrou, enchendo sua boca com um gosto metálico.

Então, a alegação de Joshua de que o último quarto privativo estava reservado era uma mentira — ele o reservara para a mãe de Ella.

Enquanto o casal na escada continuava, Kathleen voltou para o quarto como um cadáver ambulante.

Ela pensou que decidir partir a protegeria de mais dor. Mas ver Joshua e Ella juntos, profanando sua presença, rasgou seu interior.

Ela não tinha sangue de barata, então não conseguiria ficar indiferente.

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