Capítulo 2

Estela Ferraz POV:

Recebi alta dois dias depois. Heitor nunca mais voltou ao hospital. Nenhuma vez.

O táxi me deixou nos portões da imensa mansão que Heitor e eu havíamos projetado juntos. A casa dos nossos sonhos. Cada linha, cada janela, cada tom de branco tinha sido uma decisão conjunta, um testamento do nosso futuro compartilhado. Agora, parecia um monumento a uma vida que me foi roubada.

Ao entrar pela porta da frente, a primeira coisa que notei foi o cheiro. Não era o aroma familiar das minhas velas de baunilha e sândalo. Era um perfume floral enjoativo e doce. O cheiro de Kátia. Estava por toda parte, uma erva daninha invasora sufocando tudo o que um dia foi meu.

Segui o som de um zumbido suave até nosso quarto principal.

A porta estava entreaberta. Kátia Ribeiro estava em frente ao meu espelho de corpo inteiro, envolta no meu roupão de seda favorito — aquele que Heitor me comprou no nosso aniversário. Minha caixa de joias estava aberta na penteadeira, seu conteúdo derramado sobre a superfície de mármore como o tesouro de um pirata.

Ela segurava o colar de pérolas da minha mãe, deixando as delicadas gemas deslizarem por seus dedos.

"Ah, Estela! Você está em casa", ela disse, sua voz uma mistura perfeita de surpresa e falsa inocência. Ela não parecia doente. Parecia vibrante, triunfante. "Heitor estava tão preocupado. Ele insistiu que eu ficasse aqui, onde ele pudesse ficar de olho em mim."

Ela gesticulou vagamente pelo quarto. "Ele disse que você não se importaria. Já que, sabe... você vai embora em breve de qualquer maneira."

Seus olhos, afiados e calculistas, pousaram na mesa de cabeceira. Na caixa de veludo que continha meu anel de noivado e aliança de casamento. O anel era uma peça personalizada que eu mesma desenhei, uma intrincada faixa de platina trançada para simbolizar nossas vidas entrelaçadas.

Kátia o pegou, seus dedos se fechando em torno da aliança de platina. Ela tentou colocá-lo em seu próprio dedo. Era pequeno demais.

"Ele me contou a história deste anel", ela murmurou, um sorrisinho presunçoso brincando em seus lábios. "Como ele prometeu que seria o único que você usaria."

Uma raiva branca e quente explodiu em meu peito, queimando a dormência. "Larga isso, Kátia."

Ela fingiu um suspiro assustado, seus olhos se enchendo de lágrimas instantâneas de crocodilo. "E-eu sinto muito. Eu só estava admirando. É tão lindo. Não quis fazer mal."

"Eu disse, larga isso."

"O que está acontecendo?"

A voz de Heitor veio da porta. Ele estava usando um avental — meu avental, aquele com o slogan bobo 'Beije o Arquiteto' que eu comprei para ele de brincadeira. Ele segurava uma espátula. Ele estava cozinhando para ela.

Ele olhou do rosto banhado de lágrimas de Kátia para minha expressão fria e dura. Suas sobrancelhas se franziram em desaprovação imediata.

"Estela, o que você está fazendo?", ele exigiu. "Não vê que está a perturbando? Ela é frágil. Seja um pouco mais generosa."

O absurdo de suas palavras me deixou muda. Generosa? Estavam me pedindo para ser generosa com a mulher que havia sistematicamente desmantelado minha vida?

"Esse anel", eu disse, minha voz perigosamente baixa, "é meu. Quero que ela tire as mãos dele."

Heitor suspirou, um som longo e cansado de pura exasperação. Ele caminhou até Kátia, gentilmente tirando o anel de suas mãos. Por um segundo de parar o coração, pensei que ele ia me devolver.

Em vez disso, ele se virou para ela, sua voz suavizando. "Não se preocupe, querida. Eu te compro um novo. Algo maior. Melhor."

Então, ele se virou e, sem pensar duas vezes, jogou meu anel — nosso anel, nossa promessa, nossa história inteira — na mala aberta e meio feita na minha cama, como se fosse um pedaço de lixo.

"E Estela", ele disse, sua voz endurecendo novamente enquanto me olhava. "Kátia precisa deste quarto. Tem a melhor luz e o banheiro da suíte é mais acessível para ela. Você pode ficar no quarto de hóspedes lá embaixo."

Eu fiquei lá, congelada, enquanto ele colocava um braço protetor ao redor de Kátia e a conduzia para fora do quarto, murmurando palavras calmantes para ela. Eu era uma intrusa na minha própria casa. Uma hóspede na minha própria vida.

O jantar foi um caso silencioso e torturante. A mesa estava repleta de todos os pratos favoritos de Kátia: vieiras grelhadas, bisque de lagosta, aspargos na brasa. Cada prato era um lembrete de quão bem ele a conhecia e quão completamente ele havia me esquecido.

As vieiras foram cozidas em óleo de amendoim.

Eu tenho uma alergia severa e fatal a amendoim. Heitor sabia disso. Ele uma vez me levou às pressas para o pronto-socorro em pânico depois que eu comi acidentalmente um biscoito com recheio de pasta de amendoim. Ele segurou minha mão enquanto os médicos administravam a injeção de adrenalina, seu rosto pálido de medo, jurando que nunca mais deixaria algo assim acontecer.

Agora, ele estava cuidadosamente retirando um pedacinho de casca da lagosta de Kátia, seu foco inteiramente nela.

"Ah", ele disse, olhando para mim como se só agora se lembrasse que eu estava ali. "Você não tem problema com amendoim, certo?"

Meu coração não apenas se partiu. Virou pó. O homem que uma vez memorizou todas as minhas preferências, todos os meus medos, agora não conseguia se lembrar da única coisa que poderia me matar.

Eu o observei, minha mão tremendo enquanto pegava meus hashis. Não comi uma única mordida.

Depois do jantar, Kátia arrulhou que queria ver os álbuns de fotos da infância de Heitor. Ele a levou para o escritório, um lugar que sempre foi nosso santuário particular, sua mão repousando possessivamente na base das costas dela.

Voltei para o andar de cima, para o quarto de hóspedes — o espaço pequeno e impessoal para o qual fui relegada — e comecei a arrumar os poucos pertences restantes que ele ainda não havia descartado. Não havia muito. Minha vida com ele tinha sido tão abrangente que eu tinha muito pouco que era apenas meu.

Um barulho de algo quebrando ecoou do escritório lá embaixo, seguido pelo grito teatral de Kátia.

Corri pelo corredor.

No chão do escritório jaziam os restos estilhaçados de um porta-retrato de prata. E em meio aos cacos de vidro brilhantes estava a fotografia rasgada e amassada da minha mãe. Era a única foto que eu tinha dela antes de ficar doente, seu sorriso radiante, seus olhos cheios de vida. Era meu bem mais precioso.

"Oh, meu Deus!", Kátia chorou, pressionando a mão no peito. "Eu sou tão, tão desastrada. Eu só queria dar uma olhada mais de perto, e simplesmente... escorregou."

Heitor já estava ao lado dela, verificando suas mãos em busca de cortes. "É só uma foto, Kátia, não se preocupe com isso", ele disse com desdém. "Podemos imprimir outra."

Ele não podia. Minha mãe estava morta. O negativo se perdeu anos atrás. Era aquilo. Era tudo o que me restava.

Uma dor, mais aguda e profunda do que qualquer ferimento físico, rasgou através de mim. Caí de joelhos, meus dedos tentando juntar entorpecidamente os fragmentos do rosto sorridente da minha mãe. Um caco de vidro cortou a ponta do meu dedo. Eu nem senti. O sangue brotou, uma única e perfeita gota vermelha que caiu na imagem rasgada, manchando sua bochecha como uma lágrima.

Minhas próprias lágrimas caíram, silenciosas e quentes, borrando a memória estilhaçada diante de mim.

Eu olhei para cima, minha visão turva. Heitor ainda estava se preocupando com Kátia, completamente alheio à devastação total que ele acabara de permitir que acontecesse.

Meus olhos avermelhados encontraram os dele do outro lado da sala e, pela primeira vez em vinte anos, não vi o homem que amava. Vi um estranho. Um estranho cruel e descuidado que acabara de destruir o último pedaço do meu coração.

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Capítulo 3

Estela Ferraz POV:

"É só uma foto?", sussurrei, minha voz uma coisa crua e quebrada.

Heitor finalmente olhou para mim, realmente olhou para mim, ajoelhada em meio aos destroços da minha memória mais preciosa. Um lampejo de algo — culpa, talvez — cruzou seu rosto.

"Ela não fez de propósito, Estela", ele disse, seu tom defensivo.

"Será que não?", retruquei, meu olhar fixo em Kátia. Seus olhos, por uma fração de segundo, continham um brilho triunfante antes de ela se dissolver em soluços patéticos novamente.

Foi isso. O último fio do meu controle se rompeu.

Levantei-me de um salto, minha mão se movendo antes que meu cérebro pudesse processar a ação. O estalo da minha palma contra a bochecha de Kátia ecoou na sala silenciosa.

A cabeça dela virou para o lado, uma marca vermelha florescendo em sua pele pálida.

"Estela!", Heitor rugiu, movendo-se instantaneamente para protegê-la. Ele agarrou meus ombros, seu aperto como ferro. "Você enlouqueceu?"

Ele me empurrou para trás. Com força. O mesmo empurrão descuidado e desdenhoso do dia do nosso casamento. Eu tropecei, meu tornozelo torceu, e caí pesadamente, meu cotovelo batendo no chão de madeira. Uma dor lancinante subiu pelo meu braço.

"Oh, Heitor, ela se machucou!", Kátia chorou, sua voz pingando falsa preocupação. "Deveríamos ajudá-la."

Heitor hesitou, seus olhos fixos na minha expressão de dor. Por um momento, vi o antigo Heitor, o protetor. Mas era apenas um fantasma.

Kátia puxou sua manga. "Deixe-me limpar o corte dela", ela disse suavemente. "É o mínimo que posso fazer."

"Não", sibilei, tentando me afastar dela. "Não me toque."

O rosto de Kátia se contraiu. "Eu só estava tentando ajudar", ela choramingou, virando seus olhos cheios de lágrimas para Heitor.

Isso foi tudo o que precisou. O rosto dele endureceu. "Segurem-na", ele ordenou às duas empregadas que correram para a sala com a comoção.

"Senhor?", uma delas gaguejou, parecendo chocada.

"Segurem. Ela. No chão", ele repetiu, sua voz não deixando espaço para discussão.

As duas mulheres, seus rostos uma mistura de pena e medo, prenderam meus braços. Eu lutei, mas estava fraca, emocional e fisicamente esgotada.

"Você está sendo histérica, Estela", disse Heitor, sua voz fria. "Kátia está sendo gentil. Você deveria ser grata."

Kátia se aproximou de mim, uma garrafa de álcool e uma bola de algodão na mão. Ela se ajoelhou, seu rosto perto do meu, seu perfume doce me fazendo engasgar. "Isso pode arder um pouco", ela sussurrou, um sorriso cruel brincando em seus lábios que só eu podia ver.

Ela não usou a bola de algodão.

Ela desatarraxou a tampa e virou a garrafa inteira sobre o arranhão cru e sangrando no meu cotovelo.

O mundo explodiu em uma supernova de dor pura e absoluta. Era um fogo, um ácido, mil agulhas em brasa afundando na minha carne de uma só vez. Um grito rasgou minha garganta, cru e animalesco. Minha visão embaçou, pontos pretos dançando nas bordas.

Através de uma névoa de agonia, olhei para Heitor, meus olhos implorando por ajuda, por um pingo da compaixão que ele um dia teve por mim.

Ele apenas ficou lá. Observando. Seu rosto era uma máscara remota e impassível.

Vi sua mandíbula se contrair. Ele estava vacilando.

Kátia também viu. "Heitor", ela engasgou, sua voz tremendo. "Dói... meu peito... não consigo respirar..."

Instantaneamente, sua atenção voltou para ela. "Kátia", ele disse, sua voz grossa de alarme. Ele a pegou nos braços como se ela fosse feita de vidro.

"Vou te levar para cima", ele murmurou, carregando-a para fora da sala sem um único olhar para trás, para mim, a mulher que ele acabara de permitir que fosse torturada no chão de seu escritório.

As empregadas soltaram meus braços e fugiram, deixando-me sozinha, caída em um monte. O cheiro forte e estéril de álcool encheu meus pulmões, um aroma que eu agora associaria à morte absoluta do meu amor por Heitor Gusmão.

Minha mão, aquela com a cicatriz antiga, estava no chão perto da fotografia destruída da minha mãe. Ele havia conseguido aquela cicatriz me protegendo. Agora, ele ficou parado e assistiu enquanto outra mulher infligia uma nova.

Uma risada borbulhou na minha garganta, um som histérico e quebrado.

Eu amei um monstro. Ou pior, eu amei um homem fraco que deixou um monstro ditar suas ações.

Reuni cuidadosamente os pedaços da foto da minha mãe, meus dedos ainda sangrando. "Sinto muito, mãe", sussurrei para o rosto sorridente e estilhaçado. "Sinto muito por tê-lo escolhido acima de tudo."

Alguns dias depois, aconteceu a gala anual da família Gusmão. Era uma apresentação de comando; minha presença não era opcional. Heitor insistiu que Kátia fosse junto, alegando que ela estava com muito medo para ficar sozinha.

No momento em que entramos, senti os sussurros começarem, os olhares de pena e julgamento. Eu era a notícia de ontem, a noiva abandonada. Kátia, agarrada ao braço de Heitor como uma trepadeira delicada, era a heroína trágica e romântica da noite.

Ele era repugnantemente atencioso com ela, buscando seu champanhe, ajustando seu xale, rindo de suas piadas vazias. Fui deixada para ficar sozinha em um canto, um fantasma estranho em uma festa que um dia deveria celebrar meu lugar nesta família.

Uma prima de Heitor, uma mulher que sempre teve ciúmes de mim, aproximou-se. "Ora, ora, Estela", ela zombou, me olhando de cima a baixo. "Você parece um pouco... descartada. Acho que talento e cérebro não são suficientes para manter um homem como Heitor, não é?"

Apertei minha taça de vinho, meus nós dos dedos brancos.

Heitor deve ter ouvido. "Já chega, Clara", ele disse, sua voz afiada. Mas então ele imediatamente se virou para Kátia. "Você está se sentindo bem, querida? Parece um pouco pálida."

Sua defesa de mim foi um gesto vazio, imediatamente negado por sua preocupação muito maior por ela.

Kátia me deu um sorrisinho triunfante por cima do ombro de Heitor. Então, enquanto se virava para caminhar em direção à grande torre de champanhe, ela deu um tropeço deliberado e teatral.

Tudo aconteceu em câmera lenta.

Seu corpo arqueou para trás, não para longe da torre, mas diretamente para ela. Centenas de taças de cristal, cheias de champanhe dourado, caíram em uma cascata brilhante e mortal.

Heitor não hesitou. Ele se lançou, não em minha direção, mas em direção a Kátia, envolvendo seu corpo ao redor do dela para protegê-la do vidro que caía.

Fui deixada em pé, diretamente no caminho da destruição.

A onda de champanhe me atingiu primeiro, fria e chocante, encharcando meu vestido de grife em um instante. Depois veio o vidro. Cacos choveram sobre mim, cortando meus braços e ombros nus. Uma pesada taça de cristal atingiu minha têmpora, e o mundo se dissolveu em uma cacofonia de vidro quebrando e os suspiros chocados da multidão.

Eu fiquei lá, congelada, pingando champanhe e sangue, um espetáculo de humilhação pública. Heitor, tendo garantido que Kátia estava perfeitamente ilesa, finalmente se virou para me olhar. Seus olhos se arregalaram em choque momentâneo com a figura patética e quebrada que eu me tornara.

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