Capítulo 2

Karen

Eu não tinha a menor ideia de há quanto tempo eu estava largada no sofá, ainda vestindo a mesma roupa que usei para sair do hospital e ir ao apartamento de Max, algo que parecia ter ocorrido há séculos. A dor da traição dói mais fundo do que eu poderia imaginar. O choro já havia secado, mas eu ainda não tinha conseguido assimilar completamente a cena na sala do apartamento daquele maldito traidor.

Naquele momento, o som irritante da campainha começou a ecoar pelo apartamento. Inicialmente, eu ignorei, esperando que a pessoa do outro lado entendesse que eu não estava disposta a receber visitas. No entanto, a insistência só aumentou, e a campainha continuou a tocar, incansável. Olhei para o relógio na parede, esperando que o tempo tivesse passado mais rápido do que eu percebia, mas cada segundo parecia uma eternidade.

Sem aviso da portaria sobre visitantes, eu finalmente me dei conta de que só podia ser uma pessoa: Camila, minha melhor amiga e vizinha de apartamento. O pensamento de encarar alguém naquele estado lastimável em que me encontro agora me aterrorizava, mas a persistência de Camila supera qualquer resistência que eu pudesse ter.

Reuni toda a força de vontade que restava em mim, levantei do sofá com um suspiro profundo e arrastei meus pés até a porta.. Ao abrir a porta, não me surpreendi ao ver Camila de pé, pronta para tocar a campainha mais uma vez.

Ela me olhou com preocupação nos olhos, percebendo instantaneamente a bagunça emocional que eu estava enfrentando. Seu rosto expressava compaixão, e eu sabia que não precisava dizer uma palavra.

— Eu já sei o que aconteceu — ela disse suavemente, oferecendo um abraço que aceitei de bom grado — Não precisamos falar se você não quiser, mas eu não poderia te deixar sozinha.

Enquanto ela entrava no meu apartamento, percebi que eu realmente precisava de alguém com quem desabafar. Manter aquilo só para mim só poderia causar um mal ainda maior.

Enquanto Camila preparava algo na cozinha para o que seria nosso jantar tardio, eu desabafava com ela sobre toda a desventura que havia acontecido naquele dia. As palavras saíam sem filtro, carregadas de dor e raiva. Camila ouvia atentamente, oferecendo palavras de consolo quando necessário e mantendo um olhar solidário.

A cozinha exalava o cheiro reconfortante da comida que estava sendo preparada, mas meu estômago estava apertado demais para sequer considerar a ideia de comer. Ainda assim, Camila insistiu, demonstrando cuidado de uma forma que só ela sabia fazer. Aceitei a refeição mais por não querer contrariá-la do que por real apetite.

Enquanto nos sentávamos à mesa, agradeci o carinho dela. Foi nesse momento que algo que Camila disse ao chegar ao meu apartamento começou a ecoar na minha mente. Levantei o olhar para ela e questionei, quase que despretensiosamente, como ela ficou sabendo do que aconteceu.

Camila hesitou por um instante antes de admitir: 

— Foi o Max. Ele ligou para mim, pedindo ajuda.

Aquelas palavras caíram como uma bomba no meu peito. Max, o traidor, ousou se intrometer na minha dor, buscando a ajuda da minha melhor amiga. A raiva cresceu dentro de mim, misturada com a dor e a traição.

— Ele... ele ligou para você? — minha voz saiu num sussurro cheio de incredulidade.

Camila assentiu, preocupação estampada em seu rosto. 

— Ele estava tão aflito, Karen. Temia que você fizesse algo consigo mesma. Disse que jamais se perdoaria se algo acontecesse.

Aquelas palavras eram como facas sendo cravadas em meu coração ferido. Em nenhum momento passou pela minha cabeça a ideia de fazer algo tão drástico, e o fato de Max ter considerado isso me fez odiá-lo ainda mais. 

*********

Eu não tinha dúvida de que a noite que tinha pela frente seria longa, repleta de pensamentos tumultuados. Camila, apesar de toda sua preocupação, já havia ido embora, deixando-me sozinha para pensar nas palavras de Max.

Deitada em minha cama, não conseguia parar de pensar em como Max era egocêntrico. Toda a situação era sobre ele e suas justificativas mesquinhas, sem se importar com o impacto que suas ações tinham sobre mim. Eu me sentia como se tivesse sido roubada de anos da minha vida, anos que dediquei a construir um futuro ao lado de alguém que não merecia meu tempo.

Rolei na cama até o amanhecer, refletindo sobre minha vida e tudo o que me privei nos últimos anos em nome de um relacionamento que agora se desfazia diante dos meus olhos. A esperança de um futuro ao lado de Max se transformou em cinzas, e eu me via perdida.

Quando o dia já clareava, consegui dormir um pouco, mas ao acordar, me senti ainda mais cansada do que antes. Agradeci silenciosamente por não precisar trabalhar nos próximos dias, pois o médico havia me dado um atestado e a recomendação de descanso. 

Foi então que, em meio a essas reflexões, a ideia de uma viagem surgiu. Sair de Curitiba, deixar para trás as lembranças dolorosas e a certeza de que não encontraria Max, Lilian ou qualquer outra pessoa desagradável pela frente seria algo muito apropriado para o momento.

Lembrei-me da proposta de Camila: as férias planejadas em Fernando de Noronha com um grupo de amigas. Na época em que mergulhava nos planos com Max, recusei o convite. No entanto, agora tudo era diferente. A viagem não apenas se revelava uma ótima opção, mas uma necessidade urgente para me reconectar comigo mesma.

Lifo imediatamente para Camila.

— Claro que você é muito bem-vinda, amiga! — Camila diz, expressando animação — Temos exatos dois dias, mas eu te ajudo a organizar tudo.

— Obrigada, amiga. Você não sabe o quanto eu preciso dessa viagem.

— Mas claro que eu sei! Está sendo muito sensata ao decidir dar um tempo de tudo. Confesso que estou surpresa, mas muito feliz também.

Mesmo enquanto enfrento a dor e o cansaço, uma centelha de animação se acende diante da perspectiva de mudar de ares. A ideia de iniciar a cura emocional longe dos lugares familiares me traz um alívio reconfortante.

Os dois dias passaram diante de mim em um piscar de olhos, com Camila e eu imersas nos preparativos de última hora para a viagem. Entre organizar as malas, garantir documentos e fazer uma lista do que precisamos levar, consigo manter a mente ocupada, aliviando um pouco do peso que carrego.

Ao embarcarmos no avião com destino a Fernando de Noronha, uma mistura de nervosismo e expectativa percorre meu corpo. Camila, com um sorriso enorme, comenta sobre o custo da viagem.

— Não acredito que gastamos tanto dinheiro em uma viagem de cinco dias! — ela reclama, mas o sorriso denuncia a empolgação.

— Eu também! — Rimos juntas de maneira cúmplice — Mas eu garanto que vou fazer valer a pena. Acredite!

Capítulo 3

Othon

A noite avançava e o quanto já bebi é um mistério para mim. Estou em um estado de descontração que só as férias são capazes de proporcionar. Ainda mantenho a sobriedade o suficiente para admirar as belezas naturais diante de mim. E quando falo em belezas naturais, não estou exatamente pensando na natureza em si. Faço essa observação para meus amigos, que riem em resposta. 

— O problema é que você só faz olhar, Othon — Colin reclama.

— E eu não entendo porquê. Está se guardando para o grande amor da sua vida? — A pergunta é feita por Noah, que faz uma careta terrível apenas ao falar a palavra “amor”.

— Talvez… — Eu dou a mesma resposta de sempre.

O clima está bastante animado em mais um dia de férias em Fernando de Noronha. Colin, Noah e eu estamos aproveitando ao máximo esse paraíso de sol e mar. Somos completamente diferentes, mas desde o primeiro momento em que nos conhecemos, tornamo-nos amigos inseparáveis, sempre escolhendo o mesmo destino para nossas férias.

Continuo bebericando a minha bebida de maneira tranquila, quando noto a entrada de uma deusa. A garota é simplesmente deslumbrante. Negra, de longos cabelos cacheados e um corpo escultural, uma perfeita visão de exuberância. Meus amigos percebem minha mudança de expressão e seguem meu olhar, dando de cara com a mesma visão impressionante que me capturou.

— Quem é essa deusa? — pergunto, quase sussurrando, mas com a empolgação evidente na voz.

Meus amigos riem novamente, percebendo que algo inusitado está prestes a acontecer. É incrível como uma presença pode mudar o rumo de uma noite que já era divertida.

Meus olhos não conseguem se desviar da mulher que atraiu minha atenção, mas percebo que ela é bastante reservada. Seus olhos permanecem fixos nas pessoas do seu grupo, composto por cinco mulheres, todas incrivelmente belas. Contudo, minha atenção está totalmente voltada para aquela em particular. Ela é a visão que domina meus pensamentos nesta noite em Fernando de Noronha.

— Estou completamente encantado — confesso para meus amigos.

Othon, sem rodeios, diz algo que eu já temia:

— Lamento dizer, mas ela não parece corresponder ao seu interesse.

Noah, acrescentando à sinceridade do momento, opina:

— Na verdade, ela não parece interessada em conhecer ninguém esta noite.

Em um momento de autoconsciência, percebo que estamos os três focalizando minha garota e discutindo sobre ela. No entanto, ela não lança sequer um olhar na nossa direção, assim como suas amigas também parecem alheias à nossa existência.

— Talvez ela seja apenas lésbica — Noah sugere, estudando a situação com um olhar crítico.

Mesmo diante da incerteza sugerida por meus amigos, mantenho a convicção de que não é o caso. Insisto em minha tentativa de capturar a atenção dela.

— Estou mais do que disposto a apostar que ela vai ceder aos meus encantos — afirmo, determinado, enquanto os olhos da minha amada continuam evitando os meus.

Meus amigos respondem com risadas e desejos de boa sorte quando aviso que vou tentar me aproximar dela. Com um sorriso confiante, inicio meu caminho em direção à mulher que está mexendo com meus sentidos, totalmente decidido a conquistar seu olhar no meio da multidão do bar.

A chegada até o grupo de mulheres se revela mais desafiadora do que eu imaginava, dada a lotação do local. A música alta, risadas e conversas animadas criam um cenário caótico, dificultando minha passagem. No entanto, determinado, esquivo-me entre as pessoas, mantendo o foco em alcançar minha garota em meio à agitação.

Apenas a um passo dela, meu coração acelera com a expectativa do encontro iminente, especialmente ao notar que ela está agora sozinha, suas amigas parecendo ter desaparecido repentinamente. Contudo, meu caminho é abruptamente interrompido por um homem que surge à minha frente, convidando-a para dançar. A garota recusa, mas o homem persiste, oferecendo-lhe uma bebida. Novamente, ela recusa, e a situação se torna mais desconfortável quando o homem se torna inconveniente, segurando seu braço.

Compreendendo a necessidade de intervir quando a jovem pede educadamente que ele solte seu braço, aproximo-me corajosamente:

— Não ouviu a moça? — Pergunto com firmeza — Solte-a.

O homem, visivelmente alterado, responde de maneira desafiadora:

— Vaza daqui, cara! Cheguei primeiro!

Percebo pela fala desconexa que ele bebeu mais do que deveria e decido ser mais incisivo, mentindo descaradamente:

— Acho que não entendeu, mas ela está comigo.

A garota olha para mim, surpresa e agradecida ao mesmo tempo. O homem parece desconcertado por um momento, mas liberta o braço dela.

— Deveria cuidar melhor do que é seu, idiota — Ele diz contrariado e finalmente se afasta.

— Fui xingado, mas você conseguiu se livrar desse sujeito — Digo, e meu sorriso é totalmente sincero.

Minha musa é ainda mais deslumbrante de perto, estou encantado. Espero que minha intervenção tenha sido suficiente para afastar o intruso indesejado e, ao mesmo tempo, criar uma oportunidade para conversar com a mulher que conquistou meu coração naquela noite em Fernando de Noronha.

— Sou Othon — Eu me apresento — E você é…?

Estendo minha mão para a jovem que capturou meu coração, sentindo-o quase falhar diante da hesitação dela em aceitar meu gesto de cortesia. Respiro aliviado quando ela finalmente corresponde.

— Karen — ela diz sem muita convicção.

— Karen — saboreio o nome, que combina perfeitamente com ela, e não resisto a elogiar de maneira honesta: — É um lindo nome.

A expressão em seu rosto denuncia um certo desconforto, e imediatamente me arrependo de ter elogiado o nome dela. Não sou bobo. Sei que muitos homens usam desse subterfúgio para conquistar mulheres, mas fui totalmente sincero. Peço desculpas imediatamente, embora ela me dispense ao dizer simplesmente "muito obrigada", alegando que já está de saída.

Tenho a certeza de que é apenas uma desculpa para não continuar a conversa, pois até eu chegar, ela não parecia prestes a ir embora. No entanto, não me resta outra opção senão me despedir e voltar para meus amigos. Não quero ser mais um a impor minha presença para ela, como fez o outro homem que se aproximou.

— Foi um prazer conhecer você, Karen — Novamente, não estava falando apenas por cortesia. 

Lamento que minha aproximação não tenha sido bem recebida, e me volto desanimado, disposto a caminhar em direção dos meus amigos. No entanto, antes que eu possa dar o primeiro passo, ouço meu nome sendo chamado. Surpreso, volto rapidamente para Karen.

A encaro em expectativa, aguardando o que ela tem a dizer. 

— Você… aceita uma bebida?

A consternação toma conta de mim diante da oferta inusitada de Karen, porém, tento disfarçar rapidamente. Meu semblante se ilumina com uma surpresa genuína, e por um momento, fico sem palavras.

— Ah, obrigado! — agradeço, aceitando a bebida. — Eu adoraria.

Karen sorri de maneira leve, e durante um instante, trocamos olhares. Uma nova energia parece pairar no ar, e meu coração, que momentos antes estava desanimado, agora bate mais forte com a possibilidade de algo inesperado e intrigante surgir naquela noite.

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