Capítulo 2

Sair da cadeia e ir para a casa dos pais não é fácil, a pressão para que eu arrume um emprego está quase me deixando doida, quero só ver quando eu dispensar a vaga que eu tanto quis para assumir um morro. Já consigo até ver o surto, com essa responsabilidade arriscada sei que não vai dar certo ficar aqui, mesmo porque preciso subir o morro e ficar mais perto, preciso acompanhar tudo o que acontece por lá.

Até daria para ficar na casa dos meus coroas e acompanhar tudo de longe, mas aqui é muita cobrança, pouca privacidade e nada do que eu faça é válido, todo mundo acha que sou uma bomba relógio prestes a estourar e prejudicar todo mundo. Não que estejam de todo errado, mas também não é de todo certo.

Não tiro a razão deles estarem com o pé atrás, afinal não foi a primeira vez que fui presa, contudo nunca prejudiquei ninguém além de mim mesma. Na verdade não sei nem o porquê  de falarem tanto, se nem foram me visitar.

Abano a cabeça como que para afastar os pensamentos, melhor eu não remoer esse assunto, eu sei o que estou fazendo e estou tranquila com tudo isso, sei exatamente o que estou abrindo mão e os riscos que estou assumindo.

Um grupo é criado, nele todos os envolvidos no suporte inicial são adicionados e as orientações começam a ser dadas. De acordo com os irmãos, os trabalhos devem ser iniciados em dois dias, logo não tenho tempo a perder, o lema é faturar para viver bem, afinal o corre não pode parar. 

Um dia antes, reúno pessoal do morro e passo a visão do novo quadro de liderança, como sou eu quem designa os cargos de confiança, quase todos são ocupados por mulheres, minha gestão é diferenciada e feminina, o que deixa muitos irmãos contrariados.

Não demora muito para que chova reclamações de os cargos serem ocupados por mulheres, a princípio tento ser gentil e explicar minhas preferências, contudo ignoram e persistem então decido mudar a postura e deixo claro que o meu quadro sou eu quem escolho, e sem que haja um vacilo ninguém será substituído, portanto é melhor  cada um cuidar da própria função. 

A reunião foi feita em uma  área de lazer, no primeiro momento repassamos os fundamentos da facção, as normas do morro, os cargos, as formas de distribuição das mercadorias, uso do armamento do paiol e as estruturas das barreiras de contenção. Aproveitando o ensejo, fizemos um levantamento de tudo que está em falta por aqui, a lista é enorme e espantosa haja visto o tamanho do morro e o quão lucrativo ele é.

Logo após cumprirmos todo o cronograma de trabalho, libero o churrasco, a piscina e a bebida, depois da obrigação que venha a diversão.

— Dinda qual vulgo a senhora vai usar? Ou podemos chamar pelo antigo? — Nicole me pergunta e me dou conta de que não tinha pensado nisso, mas respondo de súbito.

—Rafaela! Vulgo Rafaela, filhota — Respondo enquanto bebo outro gole do meu suco, evito consumir bebida alcoólica estando fora de casa.

Nicole volta para junto do pessoal e eu fico sentada de longe, pego meu telefone e corro minha linha do tempo nas redes sociais. Em instantes me perco em pensamentos e fico me perguntando quais dificuldades vou ter que lidar nessa nova caminhada. 

— Oi dona Flávia! Ou não é assim que é pra chamar? — Tiro as vistas do telefone e olho na direção da voz.

Um homem alto e forte está parado em minha frente me observando e aguardando minha resposta, ao seu lado tem outro, ambos são irmãos no morro e eu já os conheço de vista há alguns anos, porém nunca conversamos, dou mais uma analisada nos dois em silêncio e sinto que os problemas começaram a chegar.

—Rafaela, e vocês são Thor e Peso da Morte, certo? Em que posso ajudar?— pergunto me levantando e saudando os dois com um aperto de mão.

—Então Rafaela, eu sei que a senhora já veio com instruções superiores, sei que está seguindo o fundamento da organização, mas o que eu quero dizer é que isso não funciona por aqui, a senhora não é a primeira que tenta e nem será a última, contudo acho de bom tom alerta-a, todos que vieram e insistiram acabou caindo,e outra eu não rendo pra facção não, minha mercadoria sou eu quem trago, tenho meus corres e não vou pegar com vocês, vou vender onde e como eu quiser — ele fala e eu apenas escuto, antes de prosseguir ele ergue a camiseta deixando um 38 à vista— E tem outra mana se tentar me oprimir eu passo por cima. 

— Então na primeira reunião já está me ameaçando?— Por dentro estou gelada, mas tento me manter firme por fora.

— É só um aviso! — ele fala e ambos saem sem sequer olhar para trás.

Quem esse cara tá achando que é? Eu posso parecer sonsa ou frágil, mas ele está desafiando a pessoa errada. Ele não me conhece, antes mesmo que ele imagine vai ter a resposta que merece, deixa estar que ele vai parar na mão.

Ao fim do dia, me despeço do pessoal e vou para casa, preciso me organizar para buscar um carregamento, isso me preocupa, mas como é o primeiro quero estar junto para conhecer melhor as rotas e o modo operante.

Me apresso até em casa, entro e minha mãe está me esperando na sala com cara de poucos amigos, ouço seus sermões em silêncio, pois sei que ela está certa, assim que ela termina eu a abraço e peço que ela fique tranquila, minto que não estou fazendo nada errado. 

Separo uma roupa social, pego uma bolsa elegante, e na madrugada eu saio pé por pé na esperança de que ninguém esteja me vendo sair, contudo antes mesmo que eu chegue na metade do caminho meu telefone vibra, abro a notificação e é uma mensagem do meu pai.

(Papai) 03:48

Seu destino está diretamente ligado às escolhas que você faz hoje, eu gostaria muito que você não fosse para o caminho errado, mas eu não posso te prender aqui, pensa como você quer estar daqui a alguns anos, nós te amamos e te queremos bem. Seus filhos precisam da mãe e eu da minha filha.

(Papai) 03:49

Um vez quando você tinha 02 aninhos eu te coloquei no balanço e você caiu, então eu te ajudei a levantar e disse que você poderia tentar quantas vezes fossem possíveis e que você é capaz, eu queria poder evitar todas as suas quedas que você ainda terá, mas como não posso quero apenas que se lembre que eu vou estar com você em todas as vezes que precisar de mim. 

Leio as mensagens, porém  não respondo, nada do que eu diga é páreo para frases tão verdadeiras, melhor seguir em silêncio e suportar o peso dessas palavras no meu coração. Meu pai é meu exemplo de bondade e honestidade, o homem da minha vida, meu herói, decepcioná-lo me deixa destruída, e ao menos nesse momento esse é um passo sem volta.

Entro no local marcado para receber o carregamento, meus guris já estão aqui, o morro do VP, vejo alguns dos homens dele na contenção, abaixo o vidro e estacionando próximo aos demais carros, quem vai fazer a entrega é o sub do dono, conhecido por Tom, famosinho no meio do corre, mas para mim ele é que nem caviar,  nunca o vi mas já ouvi falar.

Estamos em dois carros,  a entrega é em uma estrada com várias saídas, confiro a  carga com os vapores e somente quando já está tudo no carro que vai levar o Tom desce de um dos carros. Ele me olha de cima para baixo e me dá um sorriso safado, não dou brecha, olho firme e séria entregando o dinheiro para ele que faz menção de guardar sem conferir.

Venho de experiências ruins, definitivamente seria muito amadorismo da minha parte pagar e não exigir a conferência, da para sentir a energia irritada de Tom quando fiz questão de que ele contasse tudo ali, a lógica é uma só, não nos conhecemos, eu confiro a mercadoria e ele o dinheiro. Por mais estressante que seja, é melhor evitar.

Depois de tudo certo, entro no carro e seguimos para o morro, tenho muita pressa, preciso deixar tudo  no morro e voltar para casa. O trajeto de volta é bem tenso, muitas viaturas da polícia por todo lado, felizmente estou bem discreta e ainda não sou figurinha na mão desses vermes.

Entramos com segurança no morro, vamos até o barracão e descarregamos a mercadoria, volto para casa em tempo de tomar café com meus pais, conversamos sobre a vida e eu os comunico sobre a desistência da vaga no hotel.

— Não quero ouvir sermões nesse momento, eu já sei tudo que vão dizer e não vai mudar em nada o curso das coisas— Interrompo os protestos.

Terminamos o café no mais completo silêncio, lavo a louça que está na pia, dou um beijo nos meus filhos e subo o morro, estou morrendo de sono, mas ainda tem muito trabalho para fazer. Coloquei alguns vapores em pontos estratégicos nos arredores de casa, ainda preciso comunicar minha família sobre a necessidade de eu subir de mudança ainda essa semana.

Entro no barracão e vou direto para minha sala, assim que entro Val, minha sub, vem atrás me lembrando de tudo que preciso fazer no dia, mas o meu foco principal é organizar os números do morro, preciso saber a demanda de mercadoria.

— Certo! Vamos fazer tudo isso, mas primeiro quero saber exatamente quantos irmãos temos, quantos companheiros, quantas lojinhas ativas, quantos presos e quantas famílias estão mais necessitadas de assistência social. — Peço me sentando à mesa e ligando o notebook.

— Até o fim do dia lhe entrego os relatórios— Ela responde e vira as costas.

Assim que Val sai,  meu telefone toca, o irmão Papa, o mesmo que me colocou à frente do morro. Atendo com um frio na barriga.

— Salve maninho!!— Cumprimento nervosa.

— Salve mana, foi tudo certo com o carregamento? Já estamos trabalhando? Como foi a reunião com os irmãos? Era para ligar ontem mas teve “dezoito aqui”.

— Tudo certíssimo, já estamos cadastrando e reativando as lojas, a reunião foi relativamente tranquila, alguns irmãos contestaram meu quadro, mas nem Jesus agradou todo mundo, não vai ser eu né— eu falo e caímos na gargalhada— Só que o problema não é esse…— começo a falar e hesito.

— Já solta a voz, o que está pegando? Pode falar que a gente resolve de imediato. — ele fala firme.

— Logo após a reunião, liberei o churrasco e a bebida, estava sentada dando um tempo pra vir embora quando vieram dois irmãos até minha mesa, irmão Thor e Peso da Morte, eles me ameaçaram com um 38, disse que não rende pra facção, que outros já tentaram ficar aqui mas que caíram…

— Oh mana parada é a seguinte, essas ideias não procedem, "pagar de ameaça não vira", amanhã a gente já vai dar um basta nisso. Chega nos irmãos da disciplinas, passa a visão que é para eles piar esses malditos e mostrar como funciona, já devia ter feito isso lá na hora— Ele fala e em sua voz eu já consigo sentir a irritação.

—Certo mano, já vou acionar os mano aqui e montar o grupo para o resumo das ideias.

Desligo a chamada e imediatamente chamo no grupo para acionar o pessoal do quadro disciplinar, coloco todos no grupo, mano Papa explica o que é para fazer e todos saem na captura dos dois safados. Ainda tenho muito o quê aprender, e eu vou conseguir, dominarei este morro como homem nenhum nunca fez.

 Na história do Morro Celeste, eu sou a primeira “Dona” e eu vou honrar esse título.

Capítulo 3

O dia a dia como de dona do morro é uma loucura, B.O em cima de problema e o pau torando. É lojista querendo prazo, famílias precisando de assistência, irmãos se desentendendo… da noite para o dia tudo se transformou na maior correria.

Val me passa todos os relatórios que pedi, e a atualização das mercadorias que estão sendo vendidas, confiro as barreiras, os disciplinas, o serviço social, tudo conforme ela foi orientada a fazer, estou feliz em acertar na colocação dela no quadro.

Separo tudo de uma forma que eu entenda,  pois tenho que passar  toda transparência para o quadro final, acho isso uma canseira, mas enquanto estiver em observação tudo precisa ser avaliado por eles.

Pego o telefone para mandar tudo no grupo, porém vejo mensagens de um número desconhecido, abro e leio, fico estática por alguns segundos até recobrar os sentidos e conseguir reagir. "Puta que pariu", mal cheguei e já estou sendo ameaçada, “é para acabar com os pequi do Goiás mesmo”.

(Número desconhecido) 17:39

Slv MN.

Seguinte, aquele dia eu só dei um toque pra você, mas agora o papo é reto, se continuar me procurando vai ter volta. "O barato é Loko", você tá chegando agora eu já tenho 25 anos aqui dentro, se brincar quando você nasceu eu já estava no crime, fica ciente que eu não baixo para você e nem para ninguém. E pode procurar, e te garanto que aí dentro desse morro não vai encontrar ninguém pra por na missão… aí não tem nenhum pra bater de frente comigo. Se vier, vai voltar. 

Opto por não responder, mando mensagem na disciplina responsável e marco uma "R" para daqui uma hora. Ligo para o Papa e assim que ele atende passo a visão de tudo já com os print da conversa. A chamada é encerrada, logo após finalizar os assuntos da pauta, coloco o telefone sobre a mesa e me permito pensar sobre tudo que está acontecendo em tão curto espaço de tempo.

Por um minuto sou acometida por um arrependimento, me pergunto o porquê de não ter mantido meu posicionamento sobre não me envolver no crime, afasto esse sentimento afinal lamentar não é uma opção, agora é focar na missão e ir para cima de uma solução.

Preciso capturar esse vacilão o mais rápido possível, primeiro pela minha integridade e depois para mostrar que eu sou capaz de gerir um morro. Vou mostrar a todos que estão duvidando que eu sou capaz de manter a ordem dentro do meu espaço, onde já se viu deixar qualquer um atravessar meu corre, não mesmo.

As vezes queria ter o dom de me dividir em duas, assim conseguiria dar conta das duas vidas que tenho levado, como não posso pego as minhas chaves desço o morro para buscar meus filhos na escola, no caminho paramos em uma sorveteria, o mínimo de lazer que consigo com eles, já é um alento para mim.

Deixo as crianças em casa com minha mãe, mas antes de sair tomo um cafezinho que é de lei, a essa altura, mesmo que eu não tenha dito todos em casa já sabem os caminhos que estou seguindo, o bicho literalmente vai pegar daqui a pouco. 

Pego minha afilhada na entrada do morro, seguimos para mais um perrengue. Em minha mente um turbilhão de pensamentos correm soltos, dirijo até uma zona de mata não muito longe, temos que conversar com uma usuária que anda causando problemas no morro. Descemos do carro e Jk vem nos receber, vejo os irmãos do quadro todos armados, um gelo corre em meu corpo, embora sejam ócios do ofício eu não me sinto confortável em situações como esta.

Caminho até onde estão concentrados enquanto observo tudo rapidamente, ainda não me habituei a esse cenário.

— Então mano, qual a situação aqui?—Perguntei vendo um casal amarrado pé e mão,  deitados no chão.

—  Parada é a seguinte, esse povo tem mais de três avisos sobre roubar na comunidade, mas eles não estão acatando a visão só com advertência verbal, na gestão passada a regra era “moer no cacete”, mas agora quem decide é a senhora.

Olho para o casal e meu coração se parte ao ver a que ponto o ser humano chega em decorrência do vício, é triste essa realidade. Por mais que pareça hipocrisia da minha, uma vez que vivo do tráfico, eu sinto a dor das famílias que sofrem com esse mal.

Deixo de lado meu "eu afetivo" e foco no problema diante de mim, essa será minha rotina de agora em diante e não posso simplesmente passar a mão na cabeça de todo mundo por compaixão, a orientação foi dada, as normas estão aí pra todo mundo.

— Parada é a seguinte, escreveu não leu o pau comeu! Vacilão segura a onda e arca com as consequências… no caso deles vou dar um desconto, estão sob o comando do vício, desce 20 mangueiradas em cada um e oferece a oportunidade de se internarem, todas as despesas da clínica será nossa conta.

— E se eles não quiserem? A maioria não quer se tratar? —JK pergunta, já pegando as mangueiras.

— A oportunidade tá aí abraça quem quer e se não quiser é pau no gato, caso errem novamente. — dou de ombros.

— A senhora quem decide! 

— Aliás esse é o procedimento padrão em futuros casos semelhantes, manda no grupo só para passar a ciência mesmo, inclusive, se alguém quiser tratamento em qualquer tempo é só encaminhar para a Val que ela providencia— decido tomar uma atitude em relação a quem deseja se livrar desse mal.

— Pode deixar! — JK assenti.

Me despeço dos irmãos e antes que eu Heloísa entre no carro,  ouço os gritos, sinceramente não tenho cabeça para essas situações, se eu tiver de fazer eu faço, no entanto, o quanto eu puder me esquivar certamente eu vou.

Volto para a cidade completamente sem espírito para mais nada, deixo Heloísa em nosso QG e vou para casa. Minha face estampa a minha exaustão, assim que entro sou recebida por meus filhos que me abraçam e me beijam, só assim para que as dores do mundo sumam dando espaço a sorrisos de paz.

Deito no sofá, ligo a TV, em seguida o meu telefone toca, olho a notificação e é Thiago, nossa relação já foi boa, contudo hoje em dia está muito desgastada, ainda que o casamento tenha se findado eu não vou abandoná-lo naquele inferno, ele nunca me deu motivos para soltar sua mão. 

Como casal já entendemos que não há mais futuro, como amigos se mantivermos o respeito será para sempre. Há um ano e meio que o Thiago está preso, sempre que eu ia visitá-lo surgia um problema diferente, como foi difícil. Logo no primeiro trimestre ele foi transferido duas vezes para presídios diferentes e um mais longe que o outro, um sufoco só. 

Nesse último bonde, nosso maior problema foi a documentação, tínhamos que ser oficialmente casados, aí foi uma correria  infinita. Quando enfim consegui fazer a carteirinha de visitante eu "rodei", tudo graças  uma cagueta que vivia colada em mim. 

Passei cinco meses presa, e graças a um HC estou respondendo em liberdade, pouco antes de eu sair já havíamos decidido ficar só na amizade, sei o quanto é difícil e doloroso puxar tanto tempo e o quanto os sentimentos ficam aflorados, os dias de visita  são sufocantes, estar só e ver os demais com seus familiares sem receber nenhum abraço. 

A vida foi cruel com a gente, apesar da química e da afinidade, nós fomos afastados antes de firmarmos os vínculos, ficou a amizade é o que importa. Mesmo separados, Thiago sempre me liga e pergunta sobre a vida e os dias, eu gosto de falar com ele, sempre temos um diálogo pacífico principalmente depois da separação.

—Alô, oi…, como você está?— Pergunto, atendendo a chamada.

—Ois, estou bem apesar do lugar, estaria melhor se estivesse aí com você, mas se Deus quiser essas portas vão se abrir e breve estarei na rua — Ele fala com um fio de alegria na voz.

— Amém, amém! Está com a  voz melhor hoje, vai me contar?

— Falei com o advogado e ele disse que nos próximos meses sairei, aí é só felicidades minha amiga. Vamos viver nossa vida longe de tudo isso, longe desse crime sujo.

— Que notícia boa! Mal vejo a hora de te ver livre dessas grades — Falo com o coração na mão, não tenho coragem de falar que estou mais dentro do corre do que nunca. 

Conversamos um bom tempo, finalizamos com uma oração e nos despedimos. Minha consciência está pesada, mas eu vou continuar escondendo essa realidade, estou sem cabeça para conselhos que não vou seguir.

O melhor que eu faço é abstrair, fingir demência e deixar a vida acontecer, não vou me estressar por antecedência, o que eu poderia fazer eu não fiz, que era bater o pé e dizer não, por mais que eu diga que não eu sei muito bem que aceitei por ego e sede de poder.

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