Capítulo 2

༺ Amara Wild ༻

Dei mais alguns passos para longe deles, tentando não parecer apressada demais, mas sabia que precisava sair dali. O cheiro do lixo era uma boa desculpa para me afastar, porém, claro, Domenico não deixaria isso barato.

Ele deu um passo rápido, segurou meu braço e me puxou para trás, parando meu movimento.

- Espera aí! - Ele disse, com uma expressão que misturava impaciência e algo mais. - Não vai embora assim.

Olhei para ele, ainda com o braço preso pela mão dele, e um arrepio percorreu minha espinha. O homem não estava disposto a me deixar ir tão facilmente. Puxei meu braço com força, mas ele não soltou.

Olhei nos seus olhos, tentando transmitir que estava cansada de ser parte de algo que não entendia, que só queria sair dali, para continuar a busca pela próxima refeição, e não mais ser parte de alguma discussão absurda sobre mim.

- Eu não tenho nada para falar com você ou com eles. - Minha voz saiu mais firme do que eu imaginava.

Estava decidida a sair daquele lugar, sem querer me envolver mais em nada.

Ele me olhou e foi aí que vi algo diferente na expressão dele, uma coisa mais calculista. Ele olhou para os outros três irmãos com um sorriso estranho e malicioso e disse, quase como se estivesse testando algo.

- E se a gente fizesse algo com ela? Um banho, cortasse o cabelo, talvez mudasse um pouco essa aparência... - Ele olhou para mim com um olhar intenso, como se estivesse visualizando algo que eu não queria imaginar. - Ela tem um rosto bonito, olhos claros... Talvez ela possa ser mais útil do que pensamos.

Congelei. Não faço ideia se ele estava falando sério ou se era só mais uma dessas piadas horríveis. Mas, ao olhar para os outros irmãos, percebi que eles não estavam gostando nada do que Domenico sugeria.

Luca foi o primeiro a mostrar seu desgosto, virando o rosto como se o simples fato de Domenico ter sugerido isso fosse algo nojento.

- Não se iluda, Domenico. Ela é uma mendiga. Olha para ela! - Ele fez um gesto com a mão, como se estivesse afastando algo repulsivo. - Ela não vale nada. Não adianta fazer ela parecer menos suja, não mudará o que ela é.

Pietro, o mais velho, deu uma risada cínica, seus olhos cheios de desprezo enquanto me olhava com nojo.

- Eu não entendo como você pode pensar em colocar a gente em uma situação como essa. Ela está tão longe de ser algo que a gente possa... - Ele fez uma careta. - Nem que troquemos todo o lixo dela, ela nunca vai ser algo que possamos considerar.

Enzo parecia desconfortável, mas ainda assim se juntou aos outros.

- Domenico, você está perdendo a elegância. - Ele disse, cruzando os braços. - Não me interessa o quanto ela tenha um "rosto bonito", ela é só uma vagabunda de rua. Uma mendiga. Não tem nada que a gente queira.

Foi então que Luca, claramente mais irritado, deu um passo à frente e, com um tom de escárnio, se virou para Domenico.

- Sério, Domenico? Você quer comparar essa imundície com a Serena? - Ele apontou para mim com desprezo, como se o simples fato de eu estar ali fosse algo imperdoável. - A Serena é uma mulher linda, maravilhosa e cheirosa. Você não pode estar falando sério!

Pietro, igualmente abismado, riu amargamente.

- Comparar uma mulher que é como... como a Serena com essa... isso aqui? - Ele fez um gesto vago para mim, sem me tocar, mas o olhar de desprezo ainda estava ali. - Domenico, você está fora de si.

Enzo se manteve em silêncio, mas não parecia concordar nem um pouco. A tensão entre eles era palpável.

Fiquei parada ali, sem entender o que estava acontecendo. Eles estavam discutindo como se eu não estivesse no local, como se minha presença fosse irrelevante, e, ao mesmo tempo, pareciam me analisar como uma escolha, como algo que poderia ser descartado ou moldado à sua vontade.

Notava que eles pensavam poderem decidir o que fazer com qualquer pessoa, mas o modo como falavam de Serena, e a comparação entre mim e ela, me fez sentir ainda mais fora de lugar.

Com um suspiro, dei um passo para trás e desviei o olhar deles. Puxando meu braço da mão de Domenico.

- Olha, vou embora. Não tenho mais nada para dizer. - Falei sem olhar para Domenico ou os outros, minha voz firme, mas com um leve tremor.

Não era medo, mas a sensação de estar sendo despojada de qualquer dignidade ali. Estou exausta disso tudo e sempre ser humilhada.

E, antes que qualquer um dissesse mais alguma coisa para me ofender, me virei e me afastei, caminhando rapidamente na direção da rua, tentando ignorar o eco das palavras e olhares de desprezo que ainda pareciam me perseguir.

Me abaixei debaixo de uma árvore, sentindo a brisa gelada e a sombra me oferecendo um pouco de alívio. Olhei para os quatro irmãos, que continuavam a discutir entre si, mas agora a conversa parecia mais tensa. Não sabia o que estava acontecendo ali, porém, era como se eles estivessem se preparando para algo.

Domenico, o único que ainda me olhava ocasionalmente, parecia mais focado em suas palavras, como se estivesse tentando convencer os outros.

- Não é só sobre ela - Domenico disse, a voz grave e cheia de convicção. - Ela tem algo que podemos usar. Uma coisa que ainda não enxergaram.

- Você não está falando sério, Domenico - Luca retrucou, um tom de desdém na voz. - Ela não é nada, entende? Nada que valha a pena.

A conversa não estava mais sobre mim, mas, de alguma forma, ainda me sentia no centro daquilo. O que eles estavam planejando? Não ficaria para descobrir.

Levantei-me rapidamente, sem fazer barulho, e dei um passo atrás, afastando-me lentamente. O instinto dizia para eu sair dali o mais rápido possível, então comecei a me mover sem hesitar. Mas não dei sorte.

Quando olhei para trás, Domenico estava vindo na minha direção. Seu olhar era determinado, não tenho ideia do que ele estava pretendendo, contudo, uma coisa era certa: ele não desistiria tão facilmente.

Sem pensar duas vezes, virei-me e comecei a correr. Meu corpo estava em alerta total, a adrenalina bombeando pelas veias. Não posso deixá-los me pegarem. A sensação de ser observada me deixou ainda mais tensa. Olhei para os lados, tentando encontrar alguma rota de fuga, e vi a esquina à frente.

Correr até lá foi a única opção que me restava.

Meus pés batiam no chão com força enquanto eu fazia a curva, ouvindo os passos rápidos de Domenico atrás de mim. Ele estava mais rápido do que imaginava. Minha respiração ficou pesada, porém, não podia parar.

Cheguei à esquina e entrei em um prédio abandonado. As portas estavam meio abertas, e a escuridão me engoliu rapidamente. Fiquei lá, respirando fundo, tentando não fazer barulho. O silêncio do prédio me envolveu e me afastei da entrada, escorregando para o canto mais escuro que encontrei.

Ali, naquele refúgio improvisado, finalmente parei para respirar. Meus olhos estavam arregalados, o coração ainda batendo forte no peito. Estou em segurança, por agora, mas não sabia por quanto tempo. O que quer que fosse que os irmãos planejavam, estava longe demais para ver. Pelo menos por hoje.

A última coisa que pensei antes de fechar os olhos e me encostar na parede fria do prédio foi que talvez tivesse encontrado um abrigo para a noite. Um refúgio temporário, até que a situação ficasse clara.

E, por ora, isso era o suficiente.

Capítulo 3

༺ Amara Wild ༻

Acordei com o sol invadindo o prédio abandonado, as paredes velhas deixando os primeiros raios de luz se espalharem pelo chão sujo. Me sentei, esfregando os olhos e sentindo o corpo dolorido da noite mal dormida. A cabeça ainda estava uma bagunça, relembrando a cena da noite anterior com aqueles quatro homens, mas a realidade logo bateu na porta, como sempre.

Meu estômago começou a roncar, insistente, fazendo questão de me lembrar de outra prioridade do dia.

- Calma, amigo... - murmurei, colocando a mão na barriga. - Vou arrumar alguma coisa para a gente comer. Só tenha paciência, as coisas estão difíceis.

Soltei um suspiro e me levantei, tentando ajeitar a touca no cabelo sujo, que teimava em escapar por alguns fios. Enquanto me preparava para enfrentar mais um dia, por um segundo, lembrei da conversa que os quatro haviam tido. Era confusa, mas algo sobre me dar um banho, cortar meu cabelo... quase risível.

- Que será que eles pensam que são? - murmurei baixinho, tentando conter a risada. - Um banho e um corte de cabelo e pronto, nova vida? Como se fosse fácil assim...

Passei as mãos pelas roupas, tentando tirar a poeira que parecia parte de mim. Fazia quatro anos que a rua era meu lar. Desde que perdi tudo, desde que perdi minha mãe. A última pessoa que me restava no mundo. Ela lutou até o fim, mas no final, não conseguimos pagar o suficiente para salvar sua vida.

Havia vendido tudo o que possuímos. O que era meu, dela, tudo foi embora para tentar cobrir as despesas de hospital e, no final, fiquei sem nada, além de um vazio e uma vontade incontrolável de sobreviver.

Com mais um suspiro, saí do prédio, pronta para encarar mais um dia, em busca de qualquer coisa que pudesse me manter de pé. Afinal, o que me restava era essa persistência.

Segui pela calçada, sentindo o frio da manhã me envolver. Algumas pessoas passavam por mim com o rosto fechado, evitando qualquer contato visual, mas ainda assim, mantive minha educação intacta.

- Bom dia! - disse a uma senhora que, em resposta, acelerou o passo com uma expressão desconfiada.

Suspirei, mas continuei meu caminho, sem deixar a falta de gentileza deles me afetar. Sei que a vida na rua deixava marcas, mas sempre preferi lembrar do que minha mãe me ensinou: "educação não custa nada."

Andei mais um pouco pelas ruas de Nova Jersey, até avistar meu velho amigo, Cal. Ele estava do outro lado da calçada, mas ao me ver atravessou a rua para vir ao meu encontro. Cal era muito mais velho do que eu, talvez tivesse uns cinquenta anos, e desde que o conheci e comecei a andar por esse lado do centro da cidade, ele sempre foi uma espécie de protetor.

Fazia 3 anos que o conhecia, e ele já tinha dividido o pouco que conseguia comigo tantas vezes que até perdi a conta.

Ele me olhou de cima a baixo, as sobrancelhas franzidas em preocupação.

- Onde você passou a noite, garota? Está tudo bem? - perguntou, com aquele tom meio ranzinza, mas que sempre trazia um toque de carinho paternal.

Por um segundo, observei Cal e pensei no quanto ele era gentil comigo. Apesar de tudo, sempre me protegia, me avisava dos perigos e até dividia comida quando conseguia algo. Ele era uma espécie de família aqui na rua.

Sacudi a cabeça, voltando ao presente.

- Ah, estou bem, Cal. Ontem foi só... uma noite esquisita. Quatro caras apareceram do nada enquanto eu revirava uma lata de lixo. Eles estavam discutindo, aí, do nada, começaram a falar de eu tomar banho, cortar o cabelo... essas coisas. Acabei saindo correndo e me escondi num dos prédios abandonados.

Cal balançou a cabeça, preocupado, enquanto suspirava aliviado.

- Graças a Deus que não aconteceu nada! Já pensou se esses caras resolvem fazer alguma coisa com você? Isso poderia ter acabado muito mal, garota.

Concordei com a cabeça, sentindo o peso do que ele dizia.

- É, mas já passou. Agora, é só lembrar de evitar aquele lugar por um tempo - falei, tentando tranquilizar a mim mesma.

Cal abriu um sorriso animado e seus olhos brilharam por um instante.

- Bom, tenho uma boa notícia. O pessoal da Igreja São Miguel está lá na Rua Beechwood hoje, fazendo doações de roupas, oferecendo banho e comida. Que tal darmos uma passada lá? Devem nos ajudar.

Eu mal pude conter minha empolgação. Fazia quase uma semana desde meu último banho, e, honestamente, estava mais do que precisando.

- Nossa, sério? - sorri, quase sem acreditar. - Tá bom, vamos lá, então. Preciso de um banho e roupas novas. Depois dou uma passada num canto aí e pego minhas coisas.

Cal assentiu e me acompanhou. A expectativa de uma boa refeição, banho e roupas limpas tornou a caminhada um pouco mais leve.

Ao chegarmos ao local das doações, e não pude evitar uma sensação de gratidão enquanto observava o movimento das pessoas da igreja, distribuindo roupas, kits de higiene e sorrisos gentis. Fui direto para a pilha de casacos - o inverno estava chegando, e o frio começava a apertar de verdade. Escolhi um casaco grosso e duas toucas, afinal, nunca é demais ter algo extra para se aquecer.

Cal também estava lá, revirando as calças à procura de algo que servisse. Escolhi umas peças para mim e, logo em seguida, um dos voluntários me entregou uma sacola com mais algumas roupas e uma toalha limpa. Olhei para o banheiro improvisado que montaram ali e resolvi aproveitar a chance.

Com o kit de higiene em mãos, segui para o banho. Escovei os dentes e, quando a água quente começou a escorrer pelo meu corpo, me senti imediatamente renovada. Vi a sujeira sair em enxurradas, levando com ela um pouco do peso daqueles dias na rua. Usei o sabonete e o shampoo, esfregando bem os cabelos, e, quando terminei, fiquei alguns minutos me olhando no espelho, pensativa.

"Quatro anos... quatro anos na rua", pensei em voz baixa, passando a toalha pelo rosto. O que eu poderia fazer para mudar essa realidade? Às vezes parecia tão difícil. Era como se houvesse uma barreira entre o que eu desejava e o que poderia realmente alcançar.

Vesti as roupas novas - uma calça jeans, uma blusa de mangas compridas e uma touca. Por cima, o casaco quente que havia escolhido. O simples fato de estar limpa me deu uma sensação de dignidade que há muito não sentia. Saí dali e fui direto para a área de refeições, onde serviam sopa quente, pão e uma porção de frango desfiado com molho. Comi mais de uma vez e, por sorte, consegui um pouco de comida para levar. Com a sacola nas mãos, fui até onde Cal estava sentado em um dos bancos.

Me sentei ao lado dele, ainda mordendo o pão com frango. Ele olhou para mim e, percebendo meu silêncio, resolveu puxar assunto.

- O que está acontecendo, menina? - ele perguntou, arqueando uma das sobrancelhas.

Suspirei, desviando o olhar para o chão.

- Ah, sei lá, Cal só estou pensando na vida... Quando é que vou sair dessa, sabe?

Ele balançou a cabeça, com um olhar de compreensão. Ele estava na rua há mais de 20 anos, e conhecia essa sensação de impotência melhor do que ninguém.

- É difícil mesmo, menina. Depois de tudo que a gente passa, levantar é complicado. Eu já estou nessa vida há tanto tempo que... bem, julgo que vai ser assim até o fim - disse ele, sem rodeios.

Olhei para Cal, sentindo uma pontada de esperança crescer dentro de mim, mesmo que ele parecesse já ter perdido a dele.

- Você vai ver, Cal. Um dia eu ainda vou tirar a gente dessa vida... Sairemos daqui juntos. Prometo.

Ele soltou uma risada baixa, como se não acreditasse, mas seus olhos tinham uma ponta de carinho.

- Se conseguir, vou ficar feliz de ver. Mas, por mim... já fiz as pazes com essa vida aqui. Penso que esse vai ser o meu lugar até o dia que me for.

Revirei os olhos e, mordendo o pão com frango, rebati, convicta:

- Você vai ver, Cal. A gente ainda vai rir de tudo isso aqui. Ainda tenho muita fé.

Ele me lançou um sorriso, balançando a cabeça, talvez se perguntando de onde eu tirava tanta esperança. Mas, lá, no fundo, sabia: ainda tinha uma chance de fazer diferente. E se eu conseguisse, ele viria comigo.

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