Capítulo 2

Ponto de Vista: Heitor Guedes

"Está doendo, Júlia?"

As palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse detê-las, frias e distantes. O diretor, um homem que geralmente bajulava qualquer membro da família Guedes, de repente achou a papelada em sua mesa fascinante e praticamente saiu correndo da sala, fechando a porta suavemente atrás de si.

O silêncio que se seguiu foi pesado, denso com cinco anos de história não dita.

Eu a observei. Júlia Mendes. A mulher que eu tirei da obscuridade, uma artista ingênua com tinta sob as unhas e estrelas nos olhos. A mulher que usei como peão em uma brutal luta de poder familiar. A mulher que deu à luz meu filho, um filho que eu nunca pretendi ter.

Eles me chamavam de "Filho de Ouro" da dinastia Guedes. Deputado Federal aos trinta anos, com uma linha direta para o Senado. Minha vida era uma performance cuidadosamente orquestrada de poder e legado. Meu noivado com Cristina Fitzpatrick, uma mulher cuja árvore genealógica era tão imaculada quanto suas conexões políticas, era a peça final e perfeita do quebra-cabeça. Um filho bastardo e sua mãe artista sem um tostão não tinham lugar nesse quadro.

Lembrei-me dos sussurros, das acusações. Chamaram-na de alpinista social, de vagabunda, de uma Zé Ninguém conspiradora que me havia armado uma armadilha. A verdade era muito mais complicada. Eu tinha sido o conspirador. E quando ela engravidou, uma complicação inaceitável, agi com a eficiência implacável pela qual minha família era conhecida.

O bebê, Inácio, foi levado no dia em que nasceu e entregue a Cristina para criar como seu. Júlia foi confinada, mantida até o escândalo morrer, e então, sem cerimônia, descartada. Mandei uma equipe de segurança levá-la até os limites da cidade e deixá-la lá com um cheque e um aviso para nunca mais voltar.

Isso foi há cinco anos. Eu não pensava nela desde então. Nem uma vez. Ou era o que eu dizia a mim mesmo.

Agora, vê-la aqui, ajoelhada no chão pelo filho de outra mulher, uma emoção feroz e desconhecida se contorceu em minhas entranhas. Ela parecia diferente. A suavidade ingênua em seus olhos fora substituída por uma resignação endurecida, mas a gentileza ainda estava lá, envolvendo o menino agarrado ao seu lado.

Ela não me respondeu. Simplesmente ficou de pé, seu corpo um escudo na frente de seu filho — seu enteado. Ela estava tremendo, um tremor fraco, quase imperceptível, que eu sabia não ser de frio, mas de puro terror.

O menino, Caio, enxugou as lágrimas com as costas da mão e me fuzilou com o olhar, seu rostinho uma máscara de lealdade feroz.

"Deixa a minha mãe em paz."

Inácio, meu filho, zombou atrás de mim. Ele olhou da postura protetora de Caio para as roupas gastas de Júlia.

"Mãe? Não seja ridículo. Ela é só um lixo que meu pai conhecia."

Ele cuspiu a palavra "pai" como se fosse uma maldição.

"Inácio", eu avisei, minha voz baixa.

O insulto escorregou por Júlia como água. Ela já tinha ouvido coisa pior. Eu me certifiquei disso. Lembrei-me das coisas que as pessoas a chamaram, das mentiras que Cristina sussurrou em meu ouvido, mentiras que eu escolhi acreditar porque era mais fácil.

Lembrei-me de como ela costumava me trazer esboços feitos à mão, coisinhas desajeitadas que ela fazia em seu tempo livre, capturando momentos da vida na cidade. Eu sempre os jogava fora. Agora, olhando para o amor feroz em seus olhos enquanto ela protegia este outro menino, senti uma dor estranha e oca. Este instinto cru e protetor — ela uma vez tentou dá-lo ao nosso filho. A mim.

"Como eu disse", Inácio zombou, sua raiva e vergonha se transformando em crueldade. "Ela é uma vagabunda. Provavelmente nem sabe quem é o pai de verdade dele."

Caio avançou, uma pequena bola de fúria.

"Retire o que disse!"

Júlia o segurou, seu aperto firme.

"Caio, não. Não vale a pena."

Ela olhou para Inácio, e por um momento fugaz, seus olhos se encheram não de raiva, mas de uma tristeza profunda, que vinha da alma. Era o olhar de uma mãe de luto por um filho que ainda estava vivo.

Eu conhecia aquele olhar. Eu o vi no espelho retrovisor do carro que a levou embora cinco anos atrás.

"Inácio", eu disse novamente, minha voz mais afiada desta vez. "Já chega. Vá esperar no carro."

Meu filho me lançou um olhar de puro ressentimento, mas obedeceu, saindo do escritório batendo os pés. O ar clareou, mas a tensão permaneceu, um fio esticado entre Júlia и eu.

Ela ainda não tinha olhado diretamente para mim. Apenas mantinha os olhos em seu filho, seu foco absoluto.

"Você не mudou, Júlia", eu disse, as palavras com gosto de cinzas. "Ainda deixando as pessoas pisarem em você."

"Eu não vou voltar com você, Heitor", ela disse, sua voz quieta, mas inflexível. Foi a primeira vez que ela disse meu nome.

Uma onda de alívio, tão potente que me surpreendeu, passou por seu rosto. Ela pensou que eu estava aqui para arrastá-la de volta para aquela gaiola dourada. O pensamento era absurdo. Ela era um risco que eu havia neutralizado com sucesso anos atrás.

"Não se iluda", eu disse friamente. "Não tenho a menor intenção de te levar para casa."

Ela finalmente olhou para mim então. Seus olhos, da cor de mel quente, estavam desprovidos da adoração que um dia continham. Agora, estavam apenas vazios. Era pior que ódio.

Ela enfiou a mão em sua bolsa simples, tirou uma carteira de couro gasta e pegou um punhado de notas amassadas. Colocou-as na mesa do diretor.

"Isso deve ser suficiente para a consulta médica do Inácio. Não vamos mais incomodá-los."

Ela pegou a mão de Caio e caminhou em direção à porta, movendo-se com uma pressa desesperada. Ela estava escapando. De mim.

Quando ela passou, sua manga roçou no meu braço. Um choque, como eletricidade estática, percorreu-me. Um fantasma de uma memória: seu cheiro, uma mistura de terebintina e flores silvestres.

"Júlia", eu disse, minha voz mais áspera do que eu pretendia.

Ela se encolheu, mas não parou.

"Fique longe do meu filho."

As palavras eram um aviso, uma ameaça destinada a cortar este último e acidental laço.

Ela parou na porta, de costas para mim. Por um momento, pensei que ela se viraria, que diria algo, me suplicaria, qualquer coisa.

Mas ela apenas assentiu uma vez, um mergulho quase imperceptível de sua cabeça. Era um acordo. Uma promessa de desaparecer novamente. Um adeus final.

Enquanto ela abria a porta e entrava no corredor, ouvi a voz de Inácio do fundo do corredor, aguda e petulante.

"Ei! Espere!"

Mas Júlia não esperou. Ela agarrou a mão de seu filho e quase correu, seus passos ecoando pelo corredor, um som de retirada frenética e final.

Capítulo 3

Ponto de Vista: Júlia Mendes

Carlos estava viajando a trabalho, um projeto de dois dias restaurando a marcenaria de um hotel antigo no centro. Naquela noite, o apartamento parecia grande demais, silencioso demais. O silêncio estava cheio dos fantasmas daquela tarde.

Caio também estava quieto, uma tristeza pesada e nada infantil o oprimindo. Ele sentou-se no chão da sala, limpando e enfaixando meticulosamente o pequeno arranhão no meu joelho de onde eu me ajoelhei na sala do diretor. Seu toque era tão gentil, tão cheio de uma dor que era grande demais para seus ombros pequenos.

Quando terminou, ele não correu para brincar com seus aeromodelos. Apenas se encolheu no assento da janela, abraçando os joelhos contra o peito, e olhou para as luzes da rua que escureciam. O vidro refletia seu rosto perturbado.

Eu lhe trouxe um cobertor e o coloquei ao redor dele.

"Você vai pegar um resfriado, querido."

Ele olhou para mim, seus olhos brilhando com lágrimas não derramadas.

"Eles vão te levar embora de mim?", ele sussurrou, a pergunta tão cheia de medo que pareceu um golpe físico.

"Claro que não", eu disse, tentando forçar uma leveza em minha voz que eu не sentia. "Por que alguém iria querer me levar?"

"Porque você é... você." Ele olhou para as mãos. "Você é boa. E aquele homem... ele parecia o dono do mundo. Pessoas assim... elas pegam as coisas."

Uma risada amarga quase me escapou.

"Querido, eu não sou algo que pessoas assim queiram. Sou apenas uma pessoa comum."

"Você não é comum", disse Caio, sua voz feroz. Ele olhou para mim, seu olhar tão claro e honesto que doeu. "Antes de você chegar, papai e eu... éramos apenas duas pessoas quietas em uma casa quieta. Estava tudo bem. Mas então você veio, e você trouxe as cores. E você fez a casa cheirar a canela e pão fresco. Você a transformou num lar."

Ele engoliu em seco.

"Eu sei o que é bom e o que não é. Aquele menino, o Inácio... e o pai dele... eles não são gente boa. São valentões. Por favor, mãe. Não vá com eles. Não nos deixe."

Suas palavras me desmontaram. Por cinco anos, eu carreguei o peso do veredito de Heitor. Eu era um erro, uma desgraça, uma mancha em sua vida perfeita. Todos em seu mundo me olharam com desprezo.

Mas Carlos... Carlos olhou para mim e viu uma sobrevivente. "Você tem uma espinha de aço, Júlia", ele me disse uma vez, traçando a linha das minhas costas. "E um coração tão macio quanto argila fresca." Ele viu a arte em mim, a força que eu nem sabia que possuía.

E agora Caio, este menino doce e perceptivo, via isso também. Ele via através das roupas gastas e dos olhos cansados e via o bem. Ele via uma mãe.

Fiquei atordoada com sua clareza. Caio era geralmente tão quieto, um menino que vivia mais em sua cabeça do que no mundo. Eu sempre pensei que ele era apenas tímido, mas agora eu via o que era: uma mente brilhante, observando, ouvindo, entendendo tudo. O confronto com Inácio e Heitor tinha sido uma chave, girando a fechadura de uma porta que ele geralmente mantinha fechada.

Uma onda de calor e orgulho me invadiu.

"Você vai fazer grandes coisas um dia, Caio Bastos", eu disse, minha voz embargada de emoção.

Ele olhou para mim, sua expressão mortalmente séria.

"Eu vou", ele prometeu. "Vou arrumar um bom emprego, ganhar muito dinheiro e te comprar uma casa enorme, e ninguém nunca mais vai ser mau com você."

Eu ri, uma risada real e aguada.

"Oh, querido. Eu não preciso de uma casa enorme. Só preciso que você cresça seguro e feliz. É tudo o que eu quero."

Ele fungou e um pequeno sorriso finalmente tocou seus lábios. Ele limpou o nariz na manga.

"Ok. Mas você tem que prometer que vai ficar. Comigo e com o papai. Para sempre."

"Eu prometo", sussurrei, puxando-o para um abraço.

Ele levantou o dedo mindinho.

"Promessa de dedinho."

Eu enganchei meu dedo no dele.

"Promessa de dedinho."

As sombras na parede da única lâmpada balançavam suavemente, como se estivessem nos segurando em um abraço terno. Naquele momento, segurando meu filho — meu filho escolhido — senti uma verdade profunda se instalar em minha alma. Família não é sobre o sangue que corre em suas veias. É sobre o amor que enche seu coração.

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