Capítulo 2

Com a formalidade não sendo nada vivido durante seu cotidiano, Paige se sentiu de certa forma deslocada. Era a primeira vez em que sentara num veículo chique, mas não se surpreendeu ao perceber que nada era de outro mundo. Ao consultar as horas, percebeu haverem passado somente trinta minutos desde sua chegada e concluiu que o papo com o novo chefe a deixara tão confortável que não sentira o tempo passar. Finalmente, já fora do carro, e sem a necessidade de proteção contra a chuva, Paige e Doug caminharam até o elevador mais próximo, acompanhados de somente um segurança. Entrando na cabine, era possível notar logomarcas exclusivas estampadas em diferentes direções, expondo projetos passados da empresa. Paige não podia tirar os olhos da arte, não imaginava que encontraria um elevador fora do normal. Doug apertou o número doze e a porta fechou-se, iniciando o trajeto quase imperceptível da máquina.

“Amon está nos esperando”, contou Hoffman. “Acredito que esteja animado tanto quanto você”, acalmou ele. “Não sei se te contaram durante o processo de seleção, mas muitos membros importantes escolheram a dedo os candidatos”

“É uma honra, saber disso”, disse ela. “Saber que o dono da NAA gostou do que faço, é um sinal de que estou no caminho certo, não é?”, indagou ela, retoricamente, ainda admirando as artes na porta do elevador.

“Admito que tive forte opinião sobre o processo também”, começou ele. “Afinal, o cargo que você irá ocupar está diretamente ligado ao meu, por isso digo desde já, srta. Hanson, bem-vinda a equipe de Doug Hoffman”, cumprimentou ele, amigavelmente, oferecendo sua mão. Sem esconder a vergonha, a jovem riu e aceitou a brincadeira, cumprimentando-o de volta.

Com o elevador atingindo o andar correto, a porta se abriu direto para um corredor. Alguns funcionários devidamente trajados de cinza e preto andavam por toda parte, carregando papéis e pastas enormes, bem como andavam em velocidade mais elevada. Logo de cara, plantas podiam ser vistas, a fim de tornar o ambiente ainda mais bonito do que era, e os papéis de parede, bem como as artes e a pintura, entregavam de mão-cheia que aquele local definitivamente tinha arte em seu nome.

Adentrando mais o andar, mais engravatados andavam de um lado para o outro, tirando um pouco de seu tempo para cumprimentar Doug e Paige, que exibindo um sorriso carismático acenava de volta. Notava-se que o ambiente era predominantemente possuído por mulheres, e que a maioria dos funcionários não devia ter mais do que quarenta e cinco anos.

Finalmente a porta que dizia CEO estava diante dos olhos da nova dupla do departamento. Cerca de quatro homens bem trajados de cinza e preto deixaram a sala mediana, oferecendo uma despedida respeitosa à Hoffman, retribuindo o gesto. Doug reforçou à Paige que ela devia prestar bem atenção nos acionistas da empresa, já que eles iriam ser importantes para o futuro dela.

Amon Glenn tinha fama de parecer bem mais jovem do que era. A julgar pela forma formal o qual estava vestido, e a maneira em como se articulava na cadeira giratória, demonstrava que tinha uma certa experiência, e uma certa mania. Sua ficha indicava uma idade de trinta e seis anos, um ano a menos do que Hoffman; qualquer ser humano não daria mais que trinta anos para aquele homem; mesma idade de Paige.

“Bom dia, Amon”, cumprimentou Hoffman, entrando educadamente na sala de seu superior, cumprimentando-o com um aperto de mãos. Desculpou-se pelo atraso e mencionou o tempo.

“Srta. Hanson”, cumprimentou Amon, levantando-se de sua cadeira e pondo-se à frente da garota, analisando-a de cima a baixo. “É um prazer finalmente vê-la na empresa”, disse ele, oferecendo um aperto de mão, no qual Paige imediatamente se fez a retribuir.

“Eu quem agradece a gentileza, sr. Glenn”, agradeceu ela, notando pela primeira vez que os outros dois se tratavam pelo nome, como amigos. Analisando um pouco mais, não sabia dizer qual dos dois era mais bonito.

“Gostaria de poder sentar e discutir algumas questões de imediato, mas minha presença se faz obrigatória em outro departamento no momento”, disse ele, na direção de Paige. “Doug irá lhe manter a par do que estamos trabalhando e de como está tudo caminhando. Acredito que até o fim do dia teremos uma conversa calorosa”, informou ele, se encaminhando para sair de sua sala, bem como os dois convidados. “No mais, seja bem-vinda à equipe Srta. Hanson, esperamos grandes coisas de você, seus projetos são lindos e dignos da NAA”, sorriu ele, finalmente andando pelos corredores, onde três funcionários e dois seguranças imediatamente o acompanharam.

Doug guiou Paige por mais alguns corredores até finalmente alcançarem mais uma sala repleta de vidros e artes estampados, ainda que um pouco menos do que nos outros cômodos. Uma lousa branca móvel e mediana tomava um certo espaço ao canto da sala, indicando um projeto em desenvolvimento, aparentemente uma identidade visual. Hanson percebeu de imediato um projeto sobre uma árvore roxa e questionou isso a Hoffman. Ele respondeu que projetos como aquele contribuíam para o bom humor do ambiente, já que era engraçado trabalhar em projetos inusitados como aquele.

“Seu nome encareceria esse trabalho em muito dinheiro”, elogiou ela. “Quer dizer, eu acompanho seu trabalho, sei do nível que eles saem, vale muito”, confessou ela. “É provável ser uma inspiração quase que obrigatória para os designers de hoje, sr. Hoffman”, formalizou ela, ainda não sabendo se poderia, conseguiria ou ainda se devia chamá-lo de Doug.

“Toda inspiração precisa vir de algum lugar, não é?”, disse ele, ainda mexendo na pilha de papel, mas parando para olhar para a moça, não podendo negar sua bela aparência. “De qualquer forma, estou com um projeto em andamento e preciso finalizá-lo até a hora do almoço, se você puder dar uma conferida na empresa, seria de grande ajuda, ainda prometo lhe pagar o almoço”, convidou ele. “Vou pedir para a assistente fazer um tour com você, o que me diz?”, perguntou ele, já pegando o telefone. Ela concordou, finalmente tirando sua atenção do quadro e notando o resto do ambiente. Alguns tons de verde, bem como mini plantas preenchiam a atmosfera, talvez fosse um lado dele pouco conhecido, já que ninguém havia mencionado nada sobre gostos relacionados a natureza.

Capítulo 3

A funcionária designada a acompanhar a novata não teria mais do que cinco anos a mais que Paige, e parecia bem adepta a realizar funções de forma rápida e eficiente, sempre a postos. Com a quantidade de vezes em que fora cumprimentada de forma amigável, Hanson presumira que já tivesse um tempo que a jovem trabalhava lá.

O andar onde as garotas estavam era muito amplo e possuía diversos escritórios, em sua maioria indicando qual departamento era responsável por cada setor, bem como o nome de cada uma das pessoas autorizadas a utilizar cada ala. Uma cozinha mediana ficava ao centro, indicando pequenas e compactas máquinas de café expresso, bem como uma geladeira de refrigerantes e máquina de snickers e salgados variados, aparentemente tudo para manter uma rotina de trabalho árdua sem se preocupar com alimentação. Um pequeno sofá vermelho de canto dava vida ao local, onde alguns funcionários repousavam e conversavam amigavelmente, mas sem deixar de cumprimentar as visitantes. Durante o andar pelo local, onde diversos engravatados empunhavam pilhas e pilhas de papéis na mão da garota, os direcionando “direto para a mesa do Sr. Hoffman”; ela agradecia e apresentava Paige a todos, que apesar dos cumprimentos rápidos, pareciam saber de sua chegada.

O “Modern Innovative Artists Project” não era um prêmio qualquer, era oferecido a cada três anos e os ganhadores eram recrutados como estagiários por diversas empresas, tendo a chance de uma efetivação. A NAA, apesar de ser uma das maiores empresas da atualidade, não costumava aceitar rostos novos, mas com a alta demanda crescendo e com a fama se alavancando cada vez mais, Amon e seus acionistas se reuniram e discutiram que seria de grande vantagem dar uma oportunidade para um novo artista se juntar a equipe, no máximo dois. A primeira etapa do processo era conseguir se inscrever no MIAP (Modern Innovative Artists Project); a inscrição abria exatas 3h da madrugada e exigia uma série de qualificações e documentações, bem como uma taxa simbólica de quinhentos dólares não reembolsáveis. Durante vários anos consecutivos as inscrições se encerravam em cerca de dez minutos. A marca de inscritos era de exatos dois mil candidatos iniciais, preenchendo todos os estados do país. Quando sua inscrição fora confirmada, Paige recebeu a mensagem de que havia sido a 1167ª a conseguir realizar o cadastro com sucesso; seriam três longos dias até receber a próxima etapa.

A segunda fase do exame pedia uma apresentação de um projeto original realizado em cima de um tema geral, naquele ano o tema em questão era vida marinha. Os candidatos não tinham acesso ao que os outros enviariam de projeto, mas tudo era repostado dias depois, a fim de evitar qualquer injustiça. Paige montou uma maquete de cardumes variados de peixe de água doce, tudo com muitas cores e transparência, seu vídeo apresentando a obra durou pouco menos de quinze minutos e não se vira surpresa quando recebeu o e-mail de que estava entre os mil artistas selecionados para a terceira fase.

Na terceira fase, os selecionados foram divididos em quatro grupos, cada qual com uma proposta de tema diferente, tendo que fazer individualmente uma instalação pequena que se adequasse ao tema. Paige foi designada para o tema de “Um som que se ouve somente na imaginação”. Ela fez nada mais nada menos do que um suporte móvel que fazia uma folha e uma pena caírem simultaneamente, e um elevador imperceptível que os levava direto ao topo, apenas para caírem na água novamente e assim sucessivamente; para evitar danos naturais, tanto a folha quanto a pena eram artificiais, a fim de ser uma peça decorativa, assim como o tema propunha. Três dias depois, o nome de Paige aparecia entre os quinhentos selecionados para a quarta fase.

A quarta fase consistia em elaborar uma fachada completa de uma loja fictícia, bem como sua identidade visual, estrutura, organização, slogan e tudo mais. O tema era livre, justamente dando embasamento ao nível de criatividade dos artistas. Paige fizera uma loja voltada ao departamento de papelaria, aonde grande parte dos móveis e da mobília tinham acabamentos que lembravam origami, tornando a experiência do local ainda mais realista para aqueles que tinham interesse no ramo. Foram necessários mais três dias de espera até que a lista oficial da última fase fosse anunciada. Para sua surpresa, Paige estava entre os duzentos e cinquenta finalistas, o que já a garantia o direito de estágio. Não pensou que conseguiria chegar tão longe, tampouco com seu projeto, pois na época estava lidando com algumas questões pessoais, o que limitou seu tempo de trabalho, não achou que uma papelaria fosse suficiente para alcançar uma vaga, mas se viu surpresa quando além de avançar, lhe ofereceram propostas para tornar o projeto real, decisão a qual ainda não tinha tomado.

A quinta e última fase era simples. Naquele estágio, tudo que precisavam fazer era participar de uma entrevista formal, contar sobre sua vida, trajetória, a jornada dos principais projetos, apresentar um bom portfólio e por fim deixar claro quais empresas tinham em mente. O pulo do gato estava em saber se alguma das empresas escolhidas fariam jus à vontade dos candidatos, o que significava que o processo todo garantia um estágio importante, mas não necessariamente onde o indivíduo quisesse. Paige tinha a New Age Arts como prioridade desde o início, gostava muito da fama que a empresa tinha, bem como dos trabalhos realizados pela Sra. Glenn e pelo Sr. Hoffman, e ainda gostava de Seattle, tinha planos de morar no local desde o início dos estudos e saber que a sede de uma empresa daquele porte se localizava lá, apenas unia o útil ao agradável. O e-mail com a escolha chegou cerca de duas semanas depois, Paige lembrara-se da alegria que sentira quando recebeu a notícia, bem como a forma com que sua Universidade e seus amigos reagiram com a novidade, a qual pôde comemorar com outros dois estudantes próximos, que também haviam sido selecionados por outras empresas do ramo. Todas as duzentas e cinquenta vagas foram preenchidas ao longo do país, e naquele semestre a NAA recrutara somente ela, o que se tornou um privilégio ainda maior.

O prédio da NAA era exclusivo ao nível exclusivo mesmo. Ninguém sem um cartão conseguiria passar além do elevador, o que fez a garota pensar que a ideia de fazer elevadores artísticos fosse para diminuir a frustração do intruso. Subiram alguns andares acima e a maioria possuía um espaço de descanso, o mesmo modelo de sofá, porém em cores variadas, tornando o prédio um verdadeiro local artístico. Muitas áreas brancas remetiam a liberdade do artista, mas não havia uma única parede que fosse completamente branca, e a julgar pelas artes e papéis de parede, sentia que tudo aquilo tinha um toque autoral de cada pessoa de cada andar. Finalmente, nos andares inferiores, era mais do mesmo, embora não tivessem permissão para olhar adequadamente a maioria dos ambientes, pelos cálculos, Paige achara que teria visto no máximo 70% do local.

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