Saí tropeçando do prédio da Bastos Corp, as luzes da cidade se borrando através das minhas lágrimas. Minha mente era uma tempestade caótica de memórias redescobertas e traição fresca. Eu precisava de um plano. Precisava escapar.
Voltei para o apartamento, nosso pequeno lar falso. O cheiro de bife queimado ainda pairava no ar, um lembrete amargo da minha ilusão despedaçada.
Minhas mãos tremiam enquanto eu remexia uma velha caixa de sapatos debaixo da cama. Estava cheia de bugigangas da minha "vida passada" com Gabriel — canhotos de ingressos de cinema barato, uma flor seca que ele colheu para mim. E debaixo de tudo, um único e impecável cartão de visita.
Caio Nogueira. CEO da Nogueira Corp.
Eu me lembrava agora. Alguns anos atrás, antes do acidente, eu tinha sido uma fonte anônima. Descobri um plano de espionagem projetado para incriminar Caio e arruinar sua empresa. Foi uma jogada de um de seus rivais. Enviei as provas para ele por um canal criptografado, salvando-o do desastre. Ele nunca soube quem eu era, mas conseguiu me enviar uma mensagem antes de eu desaparecer.
"Eu tenho uma dívida com você que nunca poderei pagar. Se você precisar de qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, ligue para este número."
Eu guardei o cartão, uma lembrança estranha de uma vida que eu não lembrava ter tido. Agora, era minha única tábua de salvação.
Sem hesitar um segundo, peguei meu celular e disquei o número. Meu coração batia contra minhas costelas a cada toque.
A voz de um homem, calma e profissional, atendeu no segundo toque. "Alô?"
"É o Caio Nogueira?", perguntei, minha voz mal um sussurro.
Houve uma pausa. "Quem está falando?"
"Você não me conhece", eu disse, minhas palavras saindo apressadas. "Há muito tempo, eu te ajudei. Com uma... armação. Você disse que se eu precisasse de alguma coisa..."
A linha ficou em silêncio por um momento. Então, sua voz voltou, afiada e focada. "É você."
"Sim."
"Onde você está? Está em perigo?"
"Eu..." Antes que eu pudesse responder, a porta do apartamento se abriu com um clique.
Gabriel entrou.
Ele ainda estava em seu terno ridiculamente caro, mas havia afrouxado a gravata. Ele carregava uma sacola de uma loja de conveniência barata.
"Alice, amor, cheguei", ele chamou, sua voz cheia de um falso cansaço.
Eu rapidamente encerrei a chamada, meu sangue gelando.
Ele me viu de pé ao lado da cama, o celular na mão. Seus olhos se estreitaram com suspeita. "Com quem você estava falando?"
"Só... meu chefe do trabalho de limpeza", menti, minha voz tremendo. "Confirmando meu turno para amanhã."
Gabriel se aproximou e pegou o celular da minha mão. Ele rolou pelas chamadas recentes, sua expressão indecifrável. Meu coração martelava no peito. Ele veria o número de Caio. Estava acabado.
Mas ele apenas franziu a testa. "Um número desconhecido? Alice, já conversamos sobre isso. Não é seguro neste bairro. Você não deveria falar com estranhos."
Ele me envolveu em seus braços, seu toque fazendo minha pele arrepiar. "Eu me preocupo com você. Sozinha aqui enquanto eu estou lá fora apanhando por nós."
A hipocrisia era tão espessa que eu poderia engasgar. Eu queria gritar, arranhar seu rosto, dizer a ele que eu sabia de tudo.
Mas me forcei a manter a calma. Eu precisava ser esperta. Precisava jogar o jogo dele, só por mais um pouco.
Eu me inclinei em seu abraço, um gesto nauseantemente familiar. "Desculpe, Gabriel. Eu só estava me sentindo sozinha."
Ele acariciou meu cabelo, um sorriso satisfeito no rosto. Ele amava minha dependência. Ele se alimentava dela. "Eu sei, amor. Eu sei que é difícil. Mas estou fazendo tudo isso pelo nosso futuro."
Suas palavras eram veneno.
Ele beijou minha testa, um gesto que uma vez pareceu a forma mais pura de amor, mas agora parecia uma marca. "Estou morrendo de fome. Peguei umas coisinhas para a gente comer no caminho."
Eu me afastei, meu estômago se revirando. "Não estou com fome."
"Você tem que comer", ele disse, sua voz assumindo um tom duro. "Preciso que você esteja saudável."
Olhei em seus olhos, procurando por qualquer lampejo do homem que eu pensei conhecer. Não havia nada. Apenas uma possessividade arrepiante. "Você estava na TV hoje à noite, Gabriel."
Seu corpo ficou tenso. Apenas por um segundo. Então ele relaxou, colocando uma expressão confusa. "Do que você está falando, Alice?"
"Uma reportagem. Sobre um bilionário chamado Gabriel Bastos." Eu o observei de perto. "Ele se parecia muito com você."
Ele soltou uma risada curta e desdenhosa. "Amor, você sabe quantas pessoas se parecem? Quem me dera ser um bilionário. Então eu não teria mais que lutar. Poderia ficar em casa e cuidar de você o dia todo."
Ele era tão bom nisso. Tão convincente.
Ele se virou e foi para a cozinha, de costas para mim. "Vamos, vamos comer. Estou tão cansado que meu corpo todo dói."
Eu o observei ir, seu passo confiante tão diferente do andar cansado que ele geralmente adotava quando chegava em casa. Era tudo uma atuação. Cada parte dela. O jeito que ele mancava. Os gemidos falsos de dor.
Lembrei-me dele chegando em casa uma noite com um corte profundo no braço. Ele me disse que um caco de vidro de uma garrafa quebrada o pegou durante uma briga de rua. Eu limpei, costurei eu mesma com um kit da farmácia, minhas lágrimas caindo em sua pele.
Agora eu sabia a verdade. Era tudo parte da performance. Tudo projetado para me fazer sentir pena, para me fazer sentir necessária, para me prender a ele com minha própria compaixão.
Ele era um monstro. Mas ele era o meu monstro. E por um momento, as memórias falsas, os sentimentos que tive por três anos, colidiram com a verdade horrível. A dor era estonteante.
O celular dele vibrou no balcão onde ele o havia deixado. Uma mensagem de "Helena".
"Pensando em você. Mal posso esperar pela nossa festa de noivado amanhã à noite na Casa de Leilões Imperial."
Gabriel voltou para o quarto, me viu olhando para o celular. Ele rapidamente o pegou.
"É só meu treinador", ele disse, sem me encarar. "Ele quer que eu vá para um treino extra amanhã. Desculpe, amor, eu sei que íamos passar o dia juntos."
"Tudo bem", eu disse, minha voz monótona. "Trabalho é trabalho."
Ele sorriu, aliviado. "Essa é a minha garota."
Ele saiu cedo na manhã seguinte, me dando um beijo que parecia gelo em meus lábios. No momento em que a porta se fechou, eu estava de pé. Eu tinha que sair. Tinha que ganhar dinheiro suficiente para desaparecer.
Encontrei um panfleto de uma empresa de catering que precisava de garçons de última hora para um grande evento naquela noite. Um leilão de caridade. O pagamento era bom, em dinheiro no final da noite. Era perfeito.
O evento era na Casa de Leilões Imperial, o local mais exclusivo da cidade. O lugar esbanjava riqueza. Lustres pendiam do teto, e pessoas em trajes de milhares de reais circulavam, bebendo champanhe.
Eu mantive minha cabeça baixa, equilibrando uma bandeja de aperitivos, tentando ser invisível.
E então eu os vi.
Gabriel e Helena. Eles eram o centro das atenções. Ele tinha o braço em volta dela, rindo com um grupo de homens de terno. Ele parecia um rei em seu elemento.
Helena estava radiante, usando um colar de diamantes que brilhava sob as luzes. Ela se inclinou para ele, sussurrando algo que o fez sorrir.
Ele parecia tão feliz. Tão despreocupado.
Ele nunca parecia assim comigo. Comigo, ele estava sempre "lutando", sempre "cansado".
Um grupo de mulheres por perto estava fofocando.
"Ele é tão apaixonado por ela", disse uma.
"Ouvi dizer que ele vai comprar a 'Estrela do Oceano' para ela hoje à noite", sussurrou outra. "O diamante azul. É o item principal do leilão."
"Ele faria qualquer coisa por ela", suspirou a primeira mulher. "Ele é completamente devotado."
Helena empurrou um pedaço de bolo em direção à boca de Gabriel. Ele deu uma mordida, seus olhos nunca deixando os dela.
"Eu te amo, Gabriel", ela disse, alto o suficiente para que os ao redor ouvissem.
"Eu te amo mais", ele respondeu, sua voz densa com uma emoção que ele nunca me mostrou. Ele se inclinou e a beijou, um beijo longo e apaixonado que fez a multidão ao redor aplaudir.
Minha bandeja caiu no chão com um estrondo.
Todos se viraram para olhar a fonte do barulho.
Por um segundo aterrorizante, os olhos de Gabriel encontraram os meus.
Mas não houve reconhecimento. Apenas irritação. Ele se virou de volta para Helena, me descartando como apenas mais uma garçonete desajeitada.
O leilão começou. Gabriel e Helena sentaram-se na primeira fila, o braço dele envolto possessivamente em volta da cadeira dela. Eu observava das sombras no fundo da sala, meu coração uma pedra fria e pesada no peito.
Quando o leiloeiro anunciou o item final, um silêncio tomou conta da multidão.
"E agora, para o nosso grand finale, a 'Estrela do Oceano'!"
Um magnífico colar de diamantes azuis foi trazido em uma almofada de veludo. Brilhava sob os holofotes, uma gema perfeita e impecável.
Helena ofegou, a mão voando para o peito. "Oh, Gabriel, é lindo."
"Não tão lindo quanto você", ele murmurou, beijando sua têmpora.
Os lances começaram. Foram acirrados, subindo para milhões em segundos. Mas Gabriel simplesmente ficou lá, um sorriso calmo no rosto. Quando o preço atingiu dez milhões de reais, ele finalmente levantou sua placa.
"Vinte milhões", ele disse, sua voz casual, como se estivesse pedindo um café.
A sala ficou em silêncio. Ninguém mais ousou dar um lance.
"Vendido!", gritou o leiloeiro. "Para o Sr. Gabriel Bastos!"
A sala explodiu em aplausos. Helena jogou os braços ao redor do pescoço de Gabriel, beijando-o profundamente. "Obrigada, obrigada! Eu amei!"
"Qualquer coisa por você, meu amor", ele disse, sua voz uma promessa baixa. "O casamento é no próximo mês. Este é apenas um pequeno presente pré-casamento."
Ele pegou o colar e o prendeu em volta do pescoço dela. Ela se exibiu, virando a cabeça de um lado para o outro para admirá-lo.
Eu não conseguia respirar.
Aquele colar. Eu o reconheci. Não o diamante, mas a corrente de prata única e artesanal em que estava.
Meu pai a havia projetado. Era uma peça única que ele fez para minha mãe. Depois que ela morreu, ele me deu, dizendo para eu dar à mulher que eu sentisse que era minha família. Era a única coisa que me restava deles.
Quando Gabriel me pediu em casamento — o pedido real, em nossa mansão, antes do acidente — eu dei a corrente a ele. Eu disse a ele que ele era minha família agora. Ele tinha lágrimas nos olhos. Ele prometeu que a guardaria para sempre, que era mais preciosa para ele do que todo o dinheiro do mundo.
E agora, ele havia colocado um diamante de vinte milhões de reais nela e a dado à mulher que tentou me matar. Ele pegou minha memória mais preciosa, meu símbolo de família e amor, e deu a ela como um enfeite.
A dor no meu peito era tão intensa que pensei que estava morrendo. Agarrei a parede para me apoiar, meus nós dos dedos brancos.
Todo o amor que eu tinha por ele, todos os sacrifícios, todos os anos de devoção — ele pegou tudo e jogou fora como lixo.
O leilão terminou. Meu turno acabou. Peguei meu pagamento e saí para a noite. Começou a chover, uma chuva fria e miserável que combinava com a tempestade dentro de mim.
Não peguei um táxi. Apenas andei, deixando a chuva me encharcar até os ossos. Eu não sabia para onde estava indo. Só precisava me mover, colocar distância entre mim e aquele mundo brilhante e falso.
Um carro preto elegante passou rápido, espirrando uma onda de água lamacenta em todo o meu casaco barato.
Eu olhei para cima, furiosa.
Através da janela manchada de chuva, vi Gabriel ao volante. Helena estava no banco do passageiro, a cabeça em seu ombro. Ele estava rindo, a mão acariciando o cabelo dela.
O carro desapareceu na esquina.
Eu desabei no pavimento molhado, a última gota da minha força se foi. Soluços sacudiram meu corpo, crus e feios. Chorei pela vida que perdi, pelo amor que era uma mentira, pelo bebê que eu ainda não sabia que estava crescendo dentro de mim.
"Pai", sussurrei para o céu tempestuoso. "Por quê? Por que isso aconteceu comigo?"
Eu estava tão sozinha.
De alguma forma, consegui me levantar. Andei por horas, meus pés dormentes, minha mente uma lousa em branco de dor. Me encontrei no cemitério, em frente ao túmulo do meu pai.
Caí no chão, minhas lágrimas se misturando com a chuva no mármore frio. Contei tudo a ele. Sobre a traição de Gabriel, sobre as mentiras, sobre o colar. Falei até minha voz ser um sussurro rouco e cru.
Devo ter adormecido ali, encolhida contra a lápide. Quando acordei, o sol estava nascendo e a chuva havia parado. Meu celular estava vibrando incessantemente. Dezenas de chamadas perdidas e mensagens de Gabriel.
"Alice, onde você está? Estou preocupado."
"Amor, por favor, me liga. Desculpe ter que trabalhar até tarde."
Mentiras. Tudo mentira.
Voltei lentamente para o apartamento. Ele estava esperando do lado de fora, andando de um lado para o outro, o rosto uma máscara de preocupação frenética.
"Alice! Meu Deus, onde você esteve? Eu estava louco!", ele gritou, correndo para me agarrar.
Eu me encolhi com seu toque.
Olhei para ele, realmente olhei para ele. Não como meu marido amoroso e batalhador, mas como o bilionário manipulador que me fez de boba. Ele era um estranho.
Lembrei-me de outra vez que corri para o túmulo do meu pai depois de uma briga com ele. Ele me encontrou lá também. Ele me abraçou, sua voz suave de preocupação, me dizendo que sentia muito, que tinha medo de me perder.
Agora, sua preocupação parecia uma performance. Sua preocupação era uma mentira.
O homem que eu amava se foi. Talvez ele nunca tenha existido.