Capítulo 2

Camila Sampaio parecia uma boneca de porcelana. Seu cabelo era uma cascata de cachos loiros perfeitos, seus olhos de um azul amplo e inocente. Ela usava um vestido branco simples que a fazia parecer ainda mais frágil, como se uma brisa suave pudesse quebrá-la.

Ela viu Helena no corredor na manhã seguinte e ofereceu um sorriso pequeno e hesitante. "Helena. Sinto muito por tudo. Espero que possamos ser amigas."

Helena não disse nada. Apenas encarou a garota que havia desmontado sua vida com tanta perícia.

O Senador Ferraz apareceu atrás de Camila, colocando uma mão afetuosa em seu ombro. "Camila, minha querida, pedi para a cozinheira preparar suas panquecas de mirtilo favoritas." Ele sorriu para ela com um calor que Helena nunca conhecera. Ele tratava a filha de sua amante com mais afeição do que jamais demonstrara por sua própria carne e sangue.

Então, seus olhos caíram sobre Helena, e o calor desapareceu, substituído por uma irritação fria. "Suas coisas ainda estão no seu quarto. Eu te disse, Camila vai ficar lá agora. Peça para os empregados moverem seus pertences para a ala de hóspedes."

"Não", disse Helena, sua voz plana.

"O que você disse?", seu pai exigiu, o rosto escurecendo.

"Eu disse não. Aquele era o quarto da minha mãe. Você não vai dá-lo a ela."

"Eu sou o dono desta casa!", ele bradou. "Você fará o que eu mandar! Você é uma pirralha ingrata, e é exatamente por isso que precisa se casar. Lucas Andrade que lide com você."

Camila se encolheu, escondendo-se atrás do Senador como se as palavras de Helena fossem golpes físicos. "Otávio, por favor, não fique bravo com ela. A culpa é minha. Eu posso ficar em um quarto de hóspedes."

"Bobagem", disse o Senador, suavizando instantaneamente ao se virar para ela. "Você merece o melhor." Ele fuzilou Helena com o olhar. "Mova suas coisas. Agora."

Uma risada seca e sem humor escapou dos lábios de Helena. "Tudo bem."

Ela virou nos calcanhares, não em direção à ala de hóspedes, mas em direção à porta da frente.

"Onde você pensa que vai?", ele gritou atrás dela.

"Estou indo embora", disse ela sem olhar para trás.

"O casamento é em duas semanas! Você não pode simplesmente ir embora!"

"Pode apostar que sim", disse ela, pegando a mala que deixara perto da porta. "Estarei em Florianópolis para o casamento. Esse foi o nosso acordo. Estou cumprindo minha parte. O acordo não incluía ficar nesta casa e assistir você brincar de família feliz com a filha da sua amante."

Ela saiu para o sol brilhante da manhã e não olhou para trás. A gaiola dourada da dinastia Ferraz estava finalmente para trás.

Sua primeira parada foi o hotel mais caro da cidade. Ela reservou a suíte presidencial, cobrando na conta principal da família Ferraz, aquela que seu pai usava para seus gastos "discricionários".

Então, ela foi às compras.

Ela entrou nas butiques de grife mais exclusivas, do tipo onde os preços nunca são listados. Ela comprou tudo. Vestidos que nunca usaria, sapatos com os quais nunca andaria, joias que poderiam financiar um pequeno país. Cada passada do cartão black era um pequeno ato de rebelião, um dardo envenenado mirando o cofre de guerra político de seu pai.

Ele ligou para ela naquela tarde, a voz tremendo de fúria. "Que diabos você pensa que está fazendo? Você gastou mais de um milhão de reais em três horas!"

Helena examinou um colar de diamantes, suas facetas capturando a luz. "Sou sua filha, prestes a ser vendida para o maior lance por seu ganho político. Acho que tenho direito a um novo guarda-roupa para minha nova vida, não acha?"

"Você não é mais minha filha! Você mesma disse!"

"E eu vou te pagar cada centavo", disse ela docemente. "Assim que eu me casar com um bilionário. Pense nisso como um empréstimo."

Ela desligou antes que ele pudesse explodir. Ela continuou sua farra por mais dois dias, um turbilhão de seda, couro e diamantes. Seu objetivo era simples: drenar até a última gota de dinheiro líquido das contas de seu pai, deixando-o desesperado pouco antes do período mais crítico de arrecadação de fundos de sua campanha.

No terceiro dia, uma mensagem iluminou seu celular. Era de Arthur.

"Onde você está?"

Seus dedos pairaram sobre a tela. Uma parte dela, uma parte estúpida e tola, queria despejar toda a história sórdida. Mas ela matou essa parte.

"Me preparando para o meu casamento", ela digitou de volta.

Ele não respondeu.

Na manhã seguinte, ela tentou pedir o café da manhã. O gerente do hotel a informou, com um tom educado, mas firme, que seu cartão havia sido recusado. Seu pai havia congelado a conta. Ela estava sem fundos. O hotel solicitou educadamente que ela acertasse sua conta e desocupasse a suíte.

Ela empacotou sua montanha de roupas e bolsas de grife em um táxi e o fez deixá-la no centro da cidade. Ela tinha milhares de reais em bens no porta-malas, mas nem um único real no bolso.

O orgulho, teimoso e feroz, a impediu de vender qualquer coisa. Aquela era sua armadura para sua nova vida em Florianópolis, seu dote de vingança. Ela não se desfaria de uma única peça.

Ao anoitecer, ela percebeu a dura verdade de sua situação. Em toda a sua vida, cercada por pessoas poderosas e influentes, ela nunca fizera um único amigo de verdade. Não havia ninguém para quem ligar.

Ela acabou em um banco de parque frio, sua bagagem de grife empilhada ao seu redor como uma fortaleza. A seda de seu vestido parecia fina contra o vento cortante. A cidade que um dia fora seu playground agora parecia estranha e hostil.

Em algum momento depois da meia-noite, um grupo de homens bêbados cambaleou em sua direção, suas risadas altas e ameaçadoras.

"Ora, ora, vejam o que temos aqui", um deles arrastou as palavras, seus olhos percorrendo-a. "Uma princesa que perdeu seu castelo."

Helena se levantou, o queixo erguido. "Fiquem longe de mim."

O homem riu e deu um passo mais perto. "Senão o quê?"

De repente, um carro preto elegante parou no meio-fio. A porta se abriu e Arthur Monteiro saiu. Ele não olhou para os homens. Ele olhou apenas para ela, o rosto uma nuvem de reprovação.

Os homens bêbados ficaram sóbrios instantaneamente ao vê-lo. A aura de poder frio e perigoso que emanava de Arthur era mais eficaz do que qualquer arma. Eles se dispersaram como ratos.

Arthur caminhou em sua direção, seu olhar varrendo sua bagagem, seu vestido, o banco do parque.

"O que é isso, Helena?", ele perguntou, sua voz baixa e carregada de algo que ela não conseguiu identificar. Não era preocupação. Era... incômodo. Como se a situação dela fosse um inconveniente que ele era forçado a resolver.

"O que parece?", ela retrucou, seu orgulho ferido. "Estou aproveitando o ar fresco."

"Entre no carro." Não era um pedido. Era uma ordem.

Ela queria recusar, dizer a ele para voltar para Camila, mas seu corpo estava tremendo, e o medo do encontro com os homens bêbados ainda persistia. Ela estava exausta.

Sem palavras, ela entrou no carro. O motorista dele colocou sua bagagem no porta-malas, e eles se afastaram do meio-fio, deixando para trás sua breve e miserável vida nas ruas. Ela sentiu uma onda de humilhação tão profunda que quase a sufocou. Ser resgatada por ele, o único homem de quem ela estava tentando escapar, era a derrota final.

Capítulo 3

Ele a levou de volta para sua cobertura. A mesma cobertura da qual ela havia fugido poucos dias antes. As luzes da cidade se espalhavam abaixo deles como um tapete de estrelas caídas, mas esta noite, elas não ofereciam conforto, apenas uma sensação de vertigem e perda.

Ele não falou durante o trajeto. Apenas sentou-se ao lado dela, uma presença silenciosa e sombria que enchia o carro com uma tensão sufocante. Quando chegaram, ele mesmo carregou a bagagem dela, seus movimentos eficientes e impessoais. Ele abriu a porta e gesticulou para que ela entrasse.

"Você pode ficar com o quarto principal", disse ele, a voz plana.

Era o mesmo quarto onde eles haviam passado inúmeras noites, um quarto que guardava os fantasmas de seu caso secreto. A ideia de dormir naquela cama sozinha, com a memória de sua traição fresca em sua mente, era insuportável.

"Vou ficar no quarto de hóspedes", disse ela, a voz mais fria do que pretendia. "Não vou ficar muito tempo. Apenas até conseguir organizar minha ida para Florianópolis."

Um lampejo de algo — decepção? frustração? — cruzou seu rosto antes que ele o mascarasse. "Como quiser."

Ela se trancou no quarto de hóspedes, um espaço pequeno e estéril que parecia um hotel. Sentou-se na beirada da cama, encarando as paredes brancas, contando os dias até seu casamento. Mais onze dias. Onze dias até pertencer a um homem que nunca conhecera. Parecia uma sentença de morte e uma libertação ao mesmo tempo.

Na manhã seguinte, ela o encontrou na cozinha. A tensão da noite anterior ainda pairava no ar, espessa e não dita.

Ela decidiu quebrá-la.

"Você e a Camila voltaram?", ela perguntou, a voz deliberadamente casual enquanto se servia de uma xícara de café.

Ele não olhou para ela. Continuou a ler as notícias financeiras em seu tablet. "Eu sei quem ela é."

A não-resposta era uma resposta em si.

"Tenho certeza que sim", disse Helena, um tom amargo em sua voz. "Deve ser bom ter alguém tão... em dívida com você. Alguém com quem você sempre pode contar para ser frágil e precisar de salvação."

Ele finalmente olhou para cima, seus olhos frios. "Camila e eu temos uma história. É complicado."

"Tudo com você é complicado, Arthur."

Ele pousou o tablet. "Fique longe dela, Helena. Ela já passou por muita coisa. Não vou permitir que você a atormente."

O aviso era claro. Ele estava protegendo Camila. Dela.

Uma risada, aguda e frágil, escapou de seus lábios. "Não se preocupe. Não tenho a menor intenção de atrapalhar sua... história complicada. Tenho um casamento para planejar, afinal."

Ela pegou seu café e recuou para o quarto de hóspedes, a conversa deixando um gosto azedo em sua boca. Ele havia construído uma fortaleza ao redor de Camila, e Helena estava firmemente do lado de fora.

Ela passou o dia em seu quarto, o silêncio da cobertura a pressionando. Naquela noite, não conseguiu dormir. Ficava pensando nos hábitos de Arthur, como ele sempre dormia do lado esquerdo da cama, como o som de sua respiração constante já fora um conforto. Agora, o silêncio de seu quarto no final do corredor era um lembrete constante de que ele não era mais dela. Ele não estava pensando nela. Ele não estava verificando se ela estava bem. Ele a trouxera para cá por um senso de dever, não de desejo.

No dia seguinte, ele a abordou com um convite. "Há uma festa hoje à noite. Na casa de um sócio meu. Quero que você venha comigo."

"Por quê?", ela perguntou, desconfiada.

"Não quero que você fique aqui sentada sozinha, remoendo."

A ideia de passar outra noite presa neste apartamento silencioso era sufocante. Contra seu bom senso, ela concordou. "Tudo bem."

A festa era em uma mansão luxuosa nas colinas, um evento brilhante cheio da elite da cidade. Assim que entraram, uma mulher com um sorriso brilhante e acolhedor se aproximou deles. Era Camila.

"Arthur! Você veio!", ela exclamou, jogando os braços ao redor do pescoço dele em um abraço familiar. Ela se afastou e seus olhos pousaram em Helena, seu sorriso vacilando por uma fração de segundo. "Ah. Helena. Você também está aqui."

"Olá, Camila", disse Helena, sua voz pingando gelo.

"Estou tão feliz que vocês dois puderam vir", disse Camila, recuperando-se rapidamente. "É uma festa de boas-vindas. Para mim."

Helena sentiu o chão sumir sob seus pés. Ele a trouxera para uma festa celebrando o retorno de sua rival. A humilhação foi um golpe físico, roubando o ar de seus pulmões. Ela se virou para sair, mas a mão de Camila em seu braço a deteve.

"Por favor, não vá", disse Camila, sua voz tingida de falsa preocupação. "Sei que as coisas devem estar difíceis para você agora, com seu pai te cortando. Você deve se sentir tão perdida."

Suas palavras foram ditas alto o suficiente para que os que estavam por perto ouvissem. Cabeças se viraram. Sussurros começaram a ondular pela multidão.

"Estou bem", disse Helena entre dentes.

Os olhos de Camila se encheram de lágrimas. "Oh, Helena, você não precisa ser tão corajosa. Sei que tivemos nossas diferenças, mas eu realmente quero ajudar." Ela fungou, um som perfeito e delicado que atraiu a simpatia de todos.

"Para com isso", Helena sibilou, sua paciência esgotada.

"Por favor, não fique brava comigo", Camila choramingou, virando-se para Arthur, o lábio inferior tremendo. "Arthur, ela está me assustando."

Arthur deu um passo à frente, colocando um braço reconfortante ao redor dos ombros de Camila. Ele olhou para Helena, seus olhos duros de decepção. "Helena. Já chega."

Ele levou a chorosa Camila para longe, deixando Helena parada sozinha em um mar de olhos julgadores. Ela o observou murmurar palavras de conforto para Camila, a cabeça inclinada perto da dela. A cena foi um soco no estômago. Ele nunca lhe mostrara esse tipo de apoio público, essa proteção gentil. Para o mundo, e para ele, ela era a vilã, e Camila era a vítima.

Ela finalmente entendeu. Ele não estava apenas protegendo Camila por causa da dívida. Ele se importava com ela. Talvez até a amasse. E ela, Helena, sempre fora apenas uma diversão, um "belo desastre" que ele gostava de domar em particular, mas que nunca reivindicaria em público.

O amor ao qual ela se apegara, a esperança que ela nutrira no escuro, era uma mentira.

Ela se virou e caminhou em direção ao bar, seus movimentos rígidos e robóticos. Ela precisava de uma bebida. Precisava anestesiar a dor que ameaçava despedaçá-la.

Continue lendo
Apoie o autor e inspire mais histórias incríveis Moboreader
Desbloquear todos
Capítulo
Personalizar
Próximo Capítulo
Minishorts Logo
Leia web novels, ficção online e histórias românticas em alta no MiniShorts. Descubra romances de bilionários, fantasia de lobisomens, drama e novelas de fantasia, além de conteúdos selecionados de dramas curtos inspirados nas tendências de narrativa mais populares.
MiniShorts YouTube
PRODUTOS E SERVIÇOS
Sobre nós
support@minishorts.com
©2026 MiniShorts Todos os direitos reservados. CHASINGTOP HK LIMITED