Augusto e Caio encararam o papel assinado sobre a mesa, suas bocas ligeiramente abertas. A confiança que tinham momentos atrás desapareceu, substituída por um lampejo de choque.
Virei-me para o advogado da família, que estava presente para algum outro assunto.
— Qual é o prazo de reflexão obrigatório para um divórcio neste estado?
O advogado, atrapalhado, ajeitou os óculos.
— Trinta dias, Sra. Sampaio. Mas a senhora pode retirar o pedido a qualquer momento durante esse período.
Augusto e Caio soltaram um pequeno suspiro de alívio. As palavras do advogado pareceram restaurar sua arrogância. Claro, ela vai retirar. Ela sempre retira.
A postura do meu marido se endireitou, e o olhar familiar e condescendente voltou ao seu rosto.
— Trinta dias, Carolina. Vou te dar trinta dias para você cair em si.
Caio sorriu.
— Você só está blefando, mãe. Você vai voltar rastejando em uma semana, implorando para o pai te perdoar.
As palavras foram feitas para machucar, e machucaram. Uma parte de mim, a parte que os amou por tanto tempo, sentiu uma dor surda. Mas mantive meu rosto uma máscara calma.
— Trinta dias — repeti suavemente. — No momento em que acabar, eu vou embora.
Augusto soltou uma risada fria.
— Veremos.
Ele se aproximou, o cheiro de seu perfume caro, um cheiro que uma vez achei inebriante, agora apenas cheirava a engano.
— Estou curioso para ver por quanto tempo você consegue manter isso.
Seu telefone vibrou, cortando a tensão. Ele olhou para a tela, e o canto de sua boca se ergueu em um sorriso verdadeiro. Era um sorriso que eu não via direcionado a mim há anos. Era para Helena.
Ele atendeu a chamada, sua voz instantaneamente quente.
— Helena? O que houve? Sua voz parece fraca.
A cabeça de Caio se ergueu.
— A tia Helena está doente? — ele perguntou, sua voz cheia de preocupação genuína.
Augusto assentiu, já se movendo em direção à porta.
— Ela não está se sentindo bem. Vamos ver como ela está.
Eles saíram correndo, uma dupla frenética de pai e filho, me deixando sozinha no hall de entrada. Eles nem me deram um segundo olhar.
Caio parou na porta, virou-se e fez uma careta infantil e feia para mim.
— Espero que a gente nunca mais te veja. Você não é nada comparada à tia Helena.
A pesada porta de carvalho se fechou, o som ecoando na casa silenciosa. O último resquício de calor se esvaiu de mim, deixando-me fria até os ossos.
Mecanicamente, subi as escadas. Fiz uma mala, pegando apenas as coisas que eram verdadeiramente minhas antes de Augusto. Os livros de história da arte da faculdade, alguns vestidos simples, o medalhão da minha avó.
Olhei ao redor do quarto principal, para o closet cheio de vestidos de grife escolhidos para eventos políticos, para as prateleiras de livros sobre política e história que eu lia para acompanhar o mundo de Augusto. Minha vida inteira havia sido curada para servi-lo.
Não mais.
Dirigi até o salão mais caro de Brasília.
— Corte tudo — eu disse ao cabeleireiro, apontando para meu cabelo longo e cuidadosamente mantido. — Quero algo novo.
Horas depois, olhei para uma estranha no espelho. Meu cabelo era um bob curto e chique que emoldurava meu rosto, fazendo meus olhos parecerem maiores e mais brilhantes. Eu parecia... livre.
Em seguida, fui às compras. Comprei as roupas vibrantes e estilosas que eu sempre admirei secretamente, mas nunca ousei usar, roupas que gritavam "Carolina" em vez de "esposa do Senador Sampaio".
Quando me olhei no espelho novamente, usando um vestido vermelho ousado, mal me reconheci. Eu não era mais uma sombra subjugada. Eu era uma mulher de substância, de estilo.
Para comemorar, entrei em um restaurante renomado, um lugar que Augusto e eu só íamos para bajular doadores.
Enquanto era levada à minha mesa, congelei.
Lá, em uma mesa de canto, estavam sentados Augusto, Caio e Helena. Pareciam uma família feliz em um jantar de comemoração. Um garçom se desmanchava em elogios:
— Vocês três formam uma família tão adorável.
Uma dor aguda atravessou meu peito. Tentei me virar, sair antes que me vissem.
Mas era tarde demais. Os olhos afiados de Helena já haviam me localizado. Seu sorriso educado vacilou por um segundo, substituído por uma surpresa genuína com minha transformação.
Augusto e Caio seguiram seu olhar. Seus queixos caíram. Eles me encararam como se tivessem visto um fantasma.
— O que você está fazendo aqui? — exigiu Caio, sua voz acusadora. — Está nos perseguindo?
Encarei seu olhar com calma.
— Estou jantando. É uma coincidência.
Virei-me para sair, não querendo entrar em confronto. Mas Helena, sempre a atriz, levantou-se rapidamente e pegou meu braço.
— Carolina, não vá! Já que estamos todos aqui, por que não se junta a nós?
Ela me puxou em direção à mesa, seu sorriso doce como sacarina.
— Augusto, querido, por que você não pega um cardápio para a Carolina? Tenho certeza de que ela está com fome. — Ela então acrescentou, como se fosse um pensamento posterior: — Ah, mas eu já pedi todos os meus pratos favoritos.
A implicação era clara. Esta era a mesa dela, o jantar dela. Eu era um detalhe.
Augusto olhou para mim, um lampejo de confusão em seus olhos.
— Carolina, o que... o que você gosta de comer?
A pergunta era tão absurda que era quase engraçada. Estávamos casados há vinte e cinco anos. Ele não tinha ideia de qual era minha comida favorita. Eu passei inúmeras horas aprendendo suas preferências, suas alergias, o ponto exato que ele gostava da carne. Ele não sabia nada sobre mim.
Caio interveio impacientemente.
— Pai, não se preocupe com ela. Ela pode comer o que sobrar.
Chamei o garçom eu mesma. Pedi os itens mais caros do cardápio: a lagosta, o bife de wagyu, uma garrafa de champanhe vintage.
Augusto e Caio me encararam incrédulos.
— Onde você conseguiu dinheiro para isso? — perguntou Caio, seu tom afiado.
Tomei um gole lento de água.
— Eu ainda sou a Sra. Augusto Sampaio, pelo menos por mais vinte e nove dias. Como esposa de um senador, acredito que tenho direito a uma parte de nossos bens. Por anos, todo esse dinheiro foi gasto em você e seu pai. Agora, é a minha vez de aproveitar.
A testa de Augusto se franziu.
— O que você está tramando, Carolina?
Olhei-o diretamente nos olhos, minha voz firme.
— Não estou tramando nada, Augusto. Estou apenas jantando. E esperando o prazo de reflexão terminar.
A refeição foi um evento tenso. Assim que os pratos principais chegaram, um garçom, correndo pelo corredor, tropeçou.
Uma sopeira de sopa de lagosta quente voou pelo ar, indo direto para nossa mesa.
Em uma fração de segundo, Augusto se lançou, não em minha direção ou de seu filho, mas em direção a Helena. Ele jogou os braços ao redor dela, protegendo-a completamente com seu corpo.
Não tive tempo de reagir. O líquido escaldante espirrou em meu braço e peito. Uma dor lancinante me atravessou, e eu gritei.
Antes que eu pudesse processar a dor, Caio se arrastou, não para me ajudar, mas para chegar até Helena. Ele me empurrou para o lado.
— Saia da frente! — ele gritou.
O empurrão me fez cair no chão. Meu cotovelo bateu no mármore duro com um estalo doentio. Olhei para baixo e vi sangue escorrendo pela manga do meu vestido vermelho novo.
Caio me ignorou completamente. Ele correu para o lado de Helena, seu rosto pálido de preocupação.
— Tia Helena, você está bem? Você se machucou?
Augusto já estava cuidando dela, verificando gentilmente se havia alguma queimadura.
— Helena, meu amor, você está bem? — ele murmurou, sua voz carregada de preocupação.
Os três formavam um pequeno círculo de ansiedade, completamente alheios a mim, caída no chão, com o braço queimando e o cotovelo sangrando.
Eu era a única que estava ferida. Mas eu era invisível.
Caio finalmente virou a cabeça, seus olhos ardendo de fúria.
— A culpa é toda sua! — ele gritou para mim. — Você é um azar! Tudo de ruim acontece quando você está por perto!
Augusto me lançou um olhar de puro desprezo, como se eu tivesse orquestrado o incidente inteiro apenas para arruinar o jantar deles.
Ele ajudou Helena a se levantar, seu braço firmemente em volta da cintura dela.
— Vamos levá-la ao hospital, por precaução — ele disse suavemente para ela. Então, ele e Caio a escoltaram para fora do restaurante, deixando-me no chão frio e duro.
Ao saírem, Caio se virou uma última vez.
— Eu queria que você desaparecesse para sempre! — ele gritou.
Os outros clientes olhavam, alguns com pena, outros com curiosidade mórbida. Levantei-me, meu corpo dormente. Senti a queimadura na minha pele, a dor latejante no meu cotovelo, mas a ferida mais profunda era a que eu não podia ver.
Peguei um táxi para o hospital sozinha.
O médico na emergência estava sério. A queimadura era de segundo grau e meu cotovelo estava fraturado.
— A queimadura já está mostrando sinais de infecção — ele disse. — Precisamos interná-la.
Preenchi a papelada sozinha, minha mão tremendo. Fui admitida em um quarto padrão, o cheiro de antisséptico enchendo meus pulmões.
Nos três dias seguintes, ninguém ligou. Ninguém visitou. Era como se eu tivesse deixado de existir.
As enfermeiras do andar cochichavam ao passar pelo meu quarto. Falavam sobre o charmoso Senador Sampaio e seu filho adorável, que passavam cada momento acordados na suíte VIP, mimando a bela lobista que havia sofrido um "choque terrível".
Uma noite, passei pelo andar VIP. A porta do quarto dela estava entreaberta. Eu os vi. Augusto estava aplicando pomada gentilmente em uma pequena mancha vermelha no braço de Helena. Caio segurava um copo de água para ela, sua expressão de pura adoração.
Helena suspirou dramaticamente.
— Augusto, sinto muito pela Carolina. Espero que ela esteja bem. Você acha que ela ainda está falando sério sobre o divórcio?
Augusto nem levantou o olhar de sua tarefa.
— Ela só está fazendo birra. Ela vai superar. Ela sempre supera.
Caio deu uma risadinha.
— É. Ela não consegue sobreviver sem a gente. Ela vai voltar e pedir desculpas logo.
Helena soltou outro suspiro suave.
— Você deveria ser mais legal com ela. Só para manter a paz.
— Ela vai voltar — disse Augusto com certeza absoluta. — Ela não tem para onde ir.
Fiquei congelada no corredor, suas palavras ecoando em meus ouvidos. Meus anos de concessões, de engolir minha dor, de colocar as necessidades deles antes das minhas — eles viam tudo como uma fraqueza, uma ferramenta para me controlar.
Meus dedos se fecharam em um punho, minhas unhas cravando na palma da minha mão.
Aquele foi o momento em que algo dentro de mim realmente morreu. A parte de mim que se agarrava a um pingo de esperança, a parte que ainda amava o homem com quem me casei e o menino que criei. Tinha acabado.
Eles estavam certos em uma coisa. Eu não sobreviveria sem eles.
Eu iria prosperar.