A chamada do hospital chegou às oito da noite.
O médico disse que o meu pai teve um ataque cardíaco súbito e estava em estado crítico.
As minhas pernas cederam, e caí no chão. O mundo girou.
Agarrei no meu telemóvel, as minhas mãos tremiam tanto que mal conseguia marcar o número.
Liguei para o meu marido, Leo.
Ele era o melhor cirurgião cardíaco da cidade. Ele era a única esperança do meu pai.
A chamada tocou uma, duas, três vezes. Ninguém atendeu.
Liguei outra vez. E outra.
Finalmente, na quinta tentativa, ele atendeu. A sua voz estava baixa, quase um sussurro.
"O que foi, Clara? Estou no meio de uma coisa importante."
Ao fundo, ouvi a voz chorosa da sua irmã, Sofia.
"Leo, o meu coração dói tanto. Acho que vou morrer. Não me deixes."
A minha voz tremia, as palavras saíam a tropeçar.
"Leo, é o pai. Ele teve um ataque cardíaco. Está no Hospital Central. Precisas de vir agora."
Houve uma pausa. Pude ouvi-lo a suspirar, irritado.
"O teu pai? Ele não tem andado bem ultimamente? Provavelmente é só outra crise de ansiedade."
"Não, Leo, é sério. Os médicos disseram que é crítico."
"Sofia também não está bem", respondeu ele, a sua voz fria. "Ela está a ter um ataque de pânico. O noivado dela acabou, ela está destroçada. Eu não a posso deixar sozinha."
"Um ataque de pânico?", repeti, incrédula. "O meu pai está a morrer, e tu estás preocupado com um ataque de pânico?"
"Clara, não sejas dramática. Os médicos do Central sabem o que fazer. Eu vou aí assim que a Sofia se acalmar. Confia em mim."
Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, ele desligou.
Fiquei a olhar para o telemóvel, em silêncio. O som da chamada terminada ecoava nos meus ouvidos.
Vesti o casaco e corri para o hospital, sozinha.
Quando cheguei, a luz da sala de cirurgia estava acesa. Uma enfermeira disse-me para esperar.
Esperei uma hora. Duas horas. Três horas.
Cada minuto era uma tortura.
Continuei a ligar ao Leo. O telemóvel dele estava agora desligado.
Às onze e meia da noite, a luz da sala de cirurgia apagou-se.
O médico saiu, o seu rosto estava cansado e sombrio.
Ele olhou para mim.
"Fizemos tudo o que podíamos. Lamento."
Naquele momento, o meu mundo não desabou.
Simplesmente desapareceu.
Sentei-me no banco frio do corredor, o meu corpo estava vazio.
Eu não chorei. Não havia lágrimas.
Apenas um silêncio profundo e gelado.
O meu pai tinha morrido.
E o meu marido, o grande cirurgião, escolheu consolar a sua irmã por causa de um coração partido em vez de salvar a vida do meu pai.
Peguei no meu telemóvel e enviei uma mensagem ao Leo.
"O pai morreu."
Depois, abri os meus contactos e bloqueei o número dele.
Bloqueei o número da Sofia.
Bloqueei o número da minha sogra.
Bloqueei todos eles.
Naquele corredor de hospital estéril, com o cheiro a desinfetante no ar, tomei uma decisão.
O nosso casamento tinha acabado.
O Leo apareceu no hospital uma hora depois.
Ele encontrou-me sentada no mesmo banco, a olhar para a parede em frente.
Ele usava o seu fato caro, o cabelo perfeitamente penteado. Parecia que vinha de uma festa, não de uma crise.
"Clara", disse ele, a sua voz suave, como se estivesse a falar com uma criança. "Eu vim assim que pude. Como está o teu pai?"
Não me virei para ele. Continuei a olhar para a parede.
"Ele morreu, Leo."
Ele ficou em silêncio por um momento. Depois, sentou-se ao meu lado, tentando pegar na minha mão. Afastei-a.
"Clara, eu sinto muito", disse ele. "Eu não sabia que era tão grave. A Sofia estava num estado terrível, ela precisava mesmo de mim."
"Ela precisava de ti", repeti, a minha voz era um sussurro vazio. "E o meu pai?"
"Eu soube que o Dr. Martins estava de serviço. Ele é um bom médico. Eu confiei que o teu pai estava em boas mãos."
"Ele precisava das tuas mãos, Leo. Ele confiava em ti. Eu confiava em ti."
Finalmente, virei-me e olhei para ele. Olhei para o seu rosto bonito, para os seus olhos que antes eu amava.
Agora, só via um estranho.
"Tu deixaste-o morrer", disse eu, cada palavra era pesada e fria. "Tu escolheste. E não o escolheste a ele."
O Leo franziu o sobrolho, a sua expressão mudou de simpatia fingida para irritação.
"Isso não é justo, Clara. Eu não sou Deus. Eu não podia estar em dois sítios ao mesmo tempo. A minha irmã estava em sofrimento."
"O sofrimento dela era um noivado desfeito. O sofrimento do meu pai era o seu coração a parar de bater. Vês a diferença?"
Ele levantou-se, passando a mão pelo cabelo.
"Estás em choque. Não estás a pensar com clareza. Vamos para casa, precisas de descansar."
"Não há 'nós'", disse eu, levantando-me também. "Não há 'casa'. Eu vou ficar aqui. Tenho de tratar das coisas."
"Tratar das coisas? Clara, eu ajudo. Nós vamos passar por isto juntos."
"Não", disse eu firmemente. "Não há 'juntos'. A partir de agora, sou só eu."
A sua cara ficou vermelha de raiva.
"O que é que isso quer dizer? Estás a culpar-me pela morte do teu pai? Isso é ridículo!"
"Eu não te estou a culpar pela morte dele", disse eu calmamente. "Estou a culpar-te por não estares aqui. Por não teres tentado. Por me teres abandonado quando eu mais precisei de ti."
Ele abriu a boca para discutir, mas eu virei-lhe as costas e afastei-me, em direção à morgue para identificar o corpo do meu pai.
Eu não olhei para trás.
Sabia que se o fizesse, a raiva daria lugar à dor, e eu não podia permitir-me sentir dor agora.
Agora, eu só precisava de ser forte.