Ponto de Vista: Alice Ribeiro
Voltei para a casa que havíamos construído juntos, aquela que Caio ainda chamava de "nosso lar". A palavra era uma mentira. Cada canto daquela mansão minimalista e imensa agora parecia contaminado, um museu de uma vida que nunca tinha sido real.
A foto emoldurada na lareira chamou minha atenção. Era do dia em que lançamos nosso primeiro aplicativo, nossos rostos corados de vitória e espumante barato. Éramos tão jovens, tão cheios de fé. Um soluço gutural rasgou minha garganta, e minha mão disparou, varrendo a moldura de prata para o chão. O vidro se estilhaçou, um som que ecoou a quebra dentro do meu próprio peito.
Eu me movi pela casa como uma tempestade, um turbilhão de luto e fúria. Sua coleção de relógios ridiculamente caros, um presente meu, foi espalhada pelo chão de mármore. Os livros de primeira edição que ele tanto prezava foram arrancados de suas prateleiras. Cada objeto que representava nossa história compartilhada se tornou um alvo para a minha dor.
Quando Caio finalmente retornou, horas depois, ele me encontrou sentada em meio aos destroços, um fantasma em nosso palácio arruinado. Ele parou abruptamente, seu rosto uma máscara de incredulidade e raiva.
"Que diabos você fez, Alice?"
Eu apenas o encarei, minha mente um vazio entorpecido e zumbindo. A luta havia se esvaído de mim, deixando apenas uma dor oca.
Ele suspirou, passando a mão por seu cabelo perfeito, sua raiva rapidamente se transformando em pena condescendente. "Olha, eu sei que isso é um choque. Você está emotiva. Eu entendo." Ele passou por cima de um vaso quebrado. "Mas destruir propriedade não vai resolver nada. Esta ainda é a nossa vida."
"Eu estou indo embora", eu disse, as palavras mal um sussurro.
"Não seja ridícula. Para onde você iria?"
"Qualquer lugar, menos aqui."
Ele considerou isso por um momento, sua mente já calculando, traçando estratégias. "Tudo bem. Se você precisa de espaço, pegue a casa de praia em Angra. A imprensa vai pensar que estamos apenas dando um tempo. É melhor para a imagem da empresa."
A empresa. Era sempre sobre a empresa. A imagem da minha mãe de setenta anos, cuja saúde frágil não aguentaria um escândalo, passou pela minha mente. Por ela, eu tinha que jogar o jogo dele, só por um tempo.
"Tudo bem", concordei, minha voz vazia.
A viagem para Angra dos Reis foi um borrão. O Oceano Atlântico se estendia ao meu lado, vasto e indiferente. A casa de praia foi nossa primeira grande compra, um símbolo do nosso sucesso. Agora, seria minha jaula dourada.
Ao entrar, um perfume enjoativo e desconhecido me atingiu. Era doce e barato, um cheiro que pairava no ar como uma doença. Meus olhos pousaram na mesa de centro. Uma taça de rosé pela metade, uma marca de batom na borda. No sofá, uma manta de caxemira que eu não reconhecia estava jogada displicentemente.
Para onde quer que eu olhasse, havia sinais dela. Kátia. Um par de saltos agulha jogados perto da porta. Uma revista de fofoca aberta em uma página sobre barrigas de grávidas famosas. Ela não tinha estado apenas na cama dele; ela tinha estado em nossa vida, em nossa casa, por quanto tempo? Uma onda de náusea tão poderosa que dobrou meus joelhos me atingiu. Tropecei até o banheiro, meu estômago se revirando, expelindo o jantar de aniversário que havia se tornado veneno dentro de mim.
Caio chegou mais tarde, me encontrando na varanda, olhando fixamente para as ondas. Eu tinha aberto todas as janelas, desesperada para arejar o cheiro sufocante dela, mas era inútil. Estava nas paredes.
"Ela esteve aqui para um retiro de trabalho no mês passado", disse ele, sua voz desprovida de desculpas. "Eu deveria ter mandado limpar a casa."
Eu não respondi. Não conseguia. Aumentei o volume do meu celular, deixando uma playlist aleatória de rock pesado explodir pelos alto-falantes, uma tentativa fútil de abafar o som do meu mundo desmoronando.
E então eu ouvi. Através da música, vindo do celular dele que ele havia deixado na mesa. Uma voz suave e risonha.
"Sinto sua falta, Caio. O bebê também sente sua falta. Ele não para de chutar, bem onde sua mão estava esta manhã."
Meu sangue gelou. Ele? Ela sabia que era um menino. Eles tinham uma vida, um mundo secreto onde falavam sobre os chutes do filho deles. Não era um caso. Era uma substituição. Eu estava sendo substituída.
Caio finalmente notou minha imobilidade e se aproximou, seu rosto uma máscara de paciência forçada. "Alice, precisamos conversar sobre isso racionalmente."
Virei as costas para ele, caminhando até a beira do deck, a maresia fria no meu rosto.
Ele me seguiu, sua voz insistente. "Isso não precisa ser o fim. É apenas um desvio."
Manti meus olhos no horizonte, recusando-me a dar a ele a satisfação de uma resposta. Distraído, frustrado, ele olhou para o celular para responder a ela. Ele estava tão consumido por sua nova vida que não viu a mancha de rosé derramado no deck.
Seu sapato de couro caro escorregou. Ele tropeçou para trás, seus braços se agitando, e colidiu com a pesada mesa de vidro onde costumávamos tomar café da manhã.
O mundo explodiu em uma chuva de som e dor.
Senti um calor cortante atravessar meu braço. Algo quente e úmido escorria pela minha pele. Olhei para baixo. Um grande caco da mesa quebrada estava cravado no meu antebraço. O balde de gelo, um presente de nosso casamento, tinha sido lançado pelo impacto, atingindo minha cabeça com um baque surdo e doentio.
O mundo inclinou, o belo pôr do sol se transformando em um vórtice escuro e giratório.
A última coisa que ouvi antes da escuridão me engolir foi a voz de Caio, crua com um pânico que soava terrivelmente real.
"Alice! Meu Deus, Alice!"
Ponto de Vista: Alice Ribeiro
Acordei com o cheiro estéril de antisséptico e o bipe abafado de uma máquina. Minha cabeça latejava em um pulso doentio e rítmico, e meu braço estava envolto em uma bandagem apertada. Um hospital.
Do quarto ao lado, ouvi os gritos frenéticos de uma mulher, pontuados pelos murmúrios tranquilizadores de Caio. Kátia. O som revirou meu estômago.
A porta do meu quarto se abriu com violência. Caio estava lá, seu rosto pálido e tenso, sua camisa salpicada com o que percebi, com um choque, ser o meu sangue.
"Ela está sangrando", disse ele, a voz tensa de pânico. Ele não estava olhando para mim, mas para o médico que o seguiu. "A Kátia. Ela sofreu um acidente de carro a caminho daqui. Ela está grávida. Ela está perdendo o bebê."
Ele finalmente se virou para mim, seus olhos frios e desesperados. "Elas têm o mesmo tipo sanguíneo. Alice, você tem que doar sangue para ela."
Minha mente entrou em curto-circuito. Ele estava pedindo a mim, sua esposa ferida, para doar meu sangue para salvar a vida de sua amante e do filho deles.
O médico deu um passo à frente, sua expressão grave. "Senhor Lopes, sua esposa tem uma concussão e uma perda de sangue significativa devido ao próprio ferimento. Ela não está em condições de doar sangue."
"Eu não me importo!" Caio retrucou, sua voz ecoando no pequeno quarto. Ele caminhou até a minha cama, suas mãos agarrando a grade. "Alice, este é meu filho. Meu herdeiro. Você tem que fazer isso."
Ele estava olhando para mim, mas eu sabia que ele não me via. Ele via uma solução. Uma bolsa de sangue compatível.
"Não", sussurrei, a palavra arranhando minha garganta seca.
Nesse momento, sua mãe, Leonor Lopes, entrou no quarto. Uma mulher formidável que sempre me olhou com um desdém mal disfarçado. Seus olhos, frios e afiados, pousaram em mim.
"Alice", disse ela, sua voz escorrendo falsa simpatia. "Eu sei que isso é difícil. Mas pense naquela pobre criança inocente. Meu neto. Certamente, você não o deixaria morrer?"
A chantagem emocional era sufocante. A imagem de um bebê morrendo, uma vida inocente presa nesta bagunça monstruosa, surgiu em minha mente. Meu próprio passado, a perda que havia cavado um buraco permanente em meu coração, subiu para me sufocar.
Contra todo instinto de autopreservação, eu assenti. Um único movimento brusco.
A transfusão me deixou fraca e tonta, uma versão esvaziada de mim mesma. Mais tarde, enquanto tentava, trêmula, servir um copo de água, minhas mãos tremendo demais para segurar a jarra, ouvi risadas do quarto ao lado. Risadas altas e aliviadas.
Puxei meu suporte de soro comigo, meus pés descalços frios no chão de linóleo, e me arrastei até a porta do quarto de Kátia, que estava entreaberta.
Lá estavam eles. Um retrato de família perfeito. Caio estava sentado na beira da cama dela, dando-lhe uvas na boca. Leonor acariciava o cabelo de Kátia, mimando-a.
"Você foi tão corajosa, minha querida", dizia Leonor. "Apenas descanse. Você precisa ser forte para o meu neto."
"Ele vai ser um CEO, igual ao papai", Kátia riu, colocando a mão de Caio em sua barriga ainda lisa. "Eu posso sentir."
Caio sorriu, um olhar de orgulho puro e absoluto em seu rosto. "Ele será. Um herdeiro dos Lopes. Finalmente vamos ter uma família de verdade."
Suas palavras, destinadas a ela, foram uma adaga no meu coração. Nossa família, a que havíamos construído, aparentemente não era real.
"E ela?" Kátia perguntou, sua voz se tornando petulante enquanto gesticulava vagamente na direção do meu quarto. "E a bolsa de sangue ao lado? Ela não vai causar problemas, vai?"
O sorriso de Caio se contraiu. "A Alice sabe o lugar dela. Ela é uma mulher prática."
"Prática?" Leonor zombou. "Ela é uma mulher de carreira estéril e de coração frio. Caio, você precisa finalizar esse divórcio. Meu neto não pode nascer com essa mulher ainda ligada ao nome da nossa família."
"Eu vou cuidar disso, mãe", disse Caio, seu tom apaziguador. "Assim que a Kátia e o bebê estiverem estáveis, vou garantir que a Alice assine o que for necessário. Eu prometo."
O quarto girou. Tropecei para trás, minha mão voando para a boca para abafar um soluço. Uma enfermeira me encontrou caída contra a parede, meu rosto pálido.
Caio saiu correndo, sua expressão uma mistura de irritação e preocupação passageira. "Alice? O que você está fazendo fora da cama?"
A voz chorosa de Kátia o seguiu. "Caio, minha cabeça dói! Volta!"
Instantaneamente, sua atenção voltou para ela. "Estou indo, meu bem." Ele me deu um último olhar desdenhoso antes de desaparecer de volta no quarto dela, me deixando sozinha no corredor frio e estéril.
Esperei a noite toda por ele. Para ele voltar. Para ver como eu estava. Para dizer algo, qualquer coisa. Ele nunca veio.
Por volta das 3 da manhã, ele apareceu na minha porta, uma sombra contra a luz fraca.
"Sinto muito que você tenha ouvido aquilo", disse ele, a voz baixa. "A Kátia está apenas... emotiva. Os hormônios."
Eu apenas o encarei, o homem que havia prometido me amar na saúde e na doença. O homem que havia segurado minha mão cinco anos atrás em um hospital como este e jurado que superaríamos nossa própria perda juntos.
Lágrimas, quentes e silenciosas, começaram a escorrer pelo meu rosto. Eu não estava chorando apenas pelo casamento que acabou. Eu estava chorando pelo homem que nunca existiu, pelo amor que tinha sido uma invenção da minha imaginação.
Ele estendeu a mão para tocar meu rosto, e eu me afastei. O movimento, por menor que fosse, foi um abismo se abrindo entre nós.
Sua mão caiu. "Descanse um pouco, Alice", ele murmurou, sua voz tingida com uma culpa que era pequena demais, tarde demais.
Enquanto ele se afastava, senti algo dentro de mim finalmente, irrevogavelmente, quebrar. Era meu coração, se estilhaçando em um milhão de pedaços no chão frio do hospital.