Lohan pegou minha mão e me levou até um bloco cristalino no lado mais distante do quarto. Atravessamos o bloco como se fosse uma mera ilusão. Além dele, havia uma imensa varanda, com um jardim que parecia sair de um conto de fadas. Tantas flores diferentes, tantos cheiros maravilhosos...
— Uau! Que vista! — sussurrei, caminhando em direção à extremidade da varanda. Raios luminosos provenientes de uma estrela tão brilhante quanto o sol irradiavam sobre uma paisagem que parecia o mais belo quadro que eu já tinha visto. Não tão distante, um grande mar de águas cristalinas de um azul esverdeado. As ondas suaves se desmanchavam contra uma faixa de areia de coloração prateada.
— Nossa! Isso é um palácio de verdade? — Desse lugar, era possível ter um vislumbre da imensa construção em que nos encontrávamos. Estávamos na parte mais alta, no terceiro andar. Era difícil mensurar o tamanho que se estendia para os lados ou para trás.
Olhei para meu companheiro que se aproximava lentamente de mim com um sorriso gentil, seus olhos fixos em meu rosto. Ele é mesmo um rei? Isso é tão inacreditável que minha mente ainda custa a aceitar.
— Nosso lar. — disse-me, colocando sua mão sobre a minha cabeça e acariciando-a. Senti meu rosto esquentar e desviei o olhar, encarando um pouco mais da paisagem. O céu era de um azul mais claro do que no meu mundo, com algumas nuvens de coloração amarelada e brilhante.
Nos arredores, era possível vislumbrar árvores gigantescas, algumas muito mais altas do que o lugar em que eu e Lohan estávamos. Com copas imensas, suas folhas possuíam as mais diversas cores.
— A maior parte da alcateia constrói suas casas nessas árvores. — comentou Lohan. — Esta é Luríon, a cidade real, e ela vai muito além do que seus olhos podem enxergar. É apenas uma pequena fração do meu domínio, a nação dos lobos em Celestria, também chamada de Éldrim.
Eu não costumo me enganar quando o assunto é sentimentos, mas, diferente do que eu pensava, Lohan não é solitário. Todos os lobos neste mundo são seus súditos, e pensar nisso é um pouco assustador para mim. Eu tinha tantas perguntas, mas o medo de fazê-las era maior do que minha curiosidade. Eu precisava processar isso pouco a pouco, ou poderia acabar enlouquecendo.
— Venha! Vamos comer! — chamou-me serenamente, pegando novamente minha mão. Atravessamos o bloco de cristal de volta ao quarto dele. Assim que pisamos no quarto, Lohan soltou minha mão e caminhou em direção à porta de entrada.
Como se eu fosse uma criança descobrindo as coisas, virei-me novamente para o bloco. Parecia tão físico, mas o atravessamos como se fosse apenas uma projeção. Estiquei minha mão na intenção de explorá-lo, mas, surpreendentemente, ela não o atravessou. O bloco era um pouco gelado e completamente palpável agora, e não pude deixar de me questionar como Lohan fazia para atravessá-lo.
O cheiro de comida no ar fez minha barriga roncar novamente. Virei-me para Lohan. Duas senhoras de médio porte e cabelos brancos passavam por ele de cabeças baixas, com bandejas de alimentos na mão, uma delas usando um vestido castanho claro e a outra um vestido cinza. Eu podia perfeitamente imaginar como são seus lobos só por conta de suas roupas.
Elas colocaram a comida sobre uma mesa redonda próxima a uma das janelas e, antes de saírem, elevaram seus olhos na minha direção. Os olhos de ambas eram em tons de castanho e me sondavam com curiosidade. Elas trocaram olhares entre si e sorriram antes de saírem silenciosamente.
— Parece bom! — comentei com Lohan enquanto me sentava ao lado dele na mesa. Havia uma variedade enorme de pratos, todos com aparência apetitosa. Embora eu não pudesse reconhecer pelo cheiro quais são os ingredientes que os compõem, tinha certeza de que algo eu ia gostar, visto que havia opções de sobra. — Mas é comida demais...
— Acostume-se, querida. Quero que tenha sempre o melhor. Tudo o que possuo está à sua disposição. — disse-me amorosamente, fazendo meu rosto esquentar de timidez. Assenti em resposta, meu coração batendo forte dentro de mim. É a primeira vez na vida que alguém cuida de mim e me mima de verdade. Geralmente, eu precisava me esforçar muito e lutar pelas coisas que queria, mas este não é mais o caso.
“Sinto que vou explodir de felicidade.”, comentei com Lisa, sentindo seus sentimentos se alinharem perfeitamente aos meus. Será que finalmente poderei relaxar e ter uma vida normal?
— Companheiro, por que ninguém olha para você? É proibido olhar diretamente para o rei? — perguntei, tentando mudar o assunto para algo que não fosse sobre mim, mas sobre ele. Tudo o que mais quero é poder conhecê-lo, o homem que tanto amo e que está realizando os meus maiores sonhos.
— Sim. — respondeu com uma voz mais séria. Ele pegou um pedaço de algum tipo de tortilha e elevou-o até minha boca. Timidamente, aceitei o gesto e mordi aquele pedaço, atenta à explosão de sabores na minha boca. Tinha um pouco de acidez e um toque agridoce ao mesmo tempo. Era estranhamente bom! — Neste mundo, você é a única que tem permissão para olhar para mim.
— Por quê? — perguntei logo após engolir o que estava na minha boca. Os olhos de Lohan estavam sérios, como se minha pergunta o tivesse incomodado. Ele baixou o olhar, seus lábios se entreabriram algumas vezes como se estivesse incerto sobre como responder à minha pergunta.
— Neste mundo, todos os reis e rainhas nascem com uma profecia. A minha profecia definiu que as coisas deveriam ser assim. — respondeu por fim, quase como um sussurro.
Muitas coisas se passaram pela minha cabeça com essa informação. Uma delas foi a lembrança do julgamento em que Lohan disse que havia uma profecia a meu respeito. Isso significa que eu estou mesmo destinada a ser a rainha dele. Outra coisa que não pude deixar de pensar é que eu não conceberia um filho ao Lohan tão facilmente quanto gostaria, a menos que a profecia de um novo rei surgisse.
Por fim, perguntei-me se a questão da longevidade de Lohan está relacionada ao cumprimento da profecia. Se a rainha dele nasceria séculos depois, necessariamente ele deveria viver esse tempo para que a profecia se cumprisse. Lembrei-me de quando ele reclamou sobre eu ter demorado e acabei soltando uma risada suave. Aquela pergunta fazia todo o sentido para mim agora.
— E qual é a sua profecia? — Tudo isso era muito intrigante. Eu mal podia esperar para saber toda a verdade! Voltando ao velho Lohan, meu companheiro preferiu ignorar a minha pergunta como se não tivesse me ouvido.
— Companheiro, por que não me responde? Achei que não guardaria mais segredos de mim. — O silêncio dele era frustrante.
— Não fica assim, minha rainha. — Lohan colocou a mão sobre a minha. Ouvi-lo me chamar de rainha me deixou um pouco envergonhada, o suficiente para apagar o sentimento ruim que se formava dentro de mim. — Só penso que ainda não é hora para você saber disso. Há uma ordem para tudo, e há outras coisas que precisa aprender e descobrir primeiro.
Este era um argumento válido. Muitas vezes, para se entender a lógica final de algo, é necessário estudar o caminho primeiro. Assim como todos os resultados matemáticos têm uma fórmula antes, todo o presente tem um passado por trás. Agora que eu estava com meu companheiro, não precisava ter pressa. Confiava plenamente que ele me guiaria da melhor forma possível.
— Ei, você não tem que trabalhar? — perguntei rindo. Ele estava mordiscando minha orelha de uma forma que me fazia cócegas. Passamos a maior parte do dia em seu quarto namorando, e ele não dava sinais de que ia parar.
— Não quero trabalhar. — respondeu ele de um jeito manhoso. — Não pretendo me separar de você tão cedo!
— Então me leve junto. Adoraria conhecer a sua rotina. Quero saber tudo sobre o meu companheiro! — Sorri para ele e acabei sendo presa a um longo e demorado beijo. Isso é tão bom! A verdade é que eu também não queria me separar dele por nada, nem por um segundo. Como era possível ficar tão viciada assim em uma pessoa? Nunca achei que eu seria dessas...
Nada nos interrompia neste quarto, a não ser que meu companheiro o permitisse. Ele podia emitir ordens a distância aos seus servos por meio de telepatia, parecido com a comunicação mental dos lobos com o alfa, só que para ele não parecia haver um limite de distância para isso.
Como rei, ele mostrou para mim que podia fazer o que quisesse e me manteve trancada com ele por vários dias consecutivos. O único contato que tínhamos com o exterior era a entrada de servos quando ele próprio solicitava algo.
— Um rei pode mesmo ficar tanto tempo isolado? Isso não vai te trazer problemas? — perguntei enquanto jantávamos. Eu não estava insatisfeita, apenas preocupada.
— Tudo está sob o meu controle. — respondeu confiantemente. — O que não cabe a mim, o conselho e os alfas dos clãs podem lidar.
— O que é o conselho? — Agora que ele mencionara esse nome, lembrei que um tal de Horace o convocou a falar com o conselho logo que chegamos.
— O conselho é composto pelos anciões de maior sabedoria, em sua maioria antigos alfas e reis. Eles são responsáveis pela ordem e o cumprimento das leis de Éldrim.
— Antigos reis? Quer dizer que seus ancestrais ainda estão vivos? — perguntei, perplexa.
— Apenas meu avô, meu bisavô e meu tataravô, que é também o ancião mais velho do conselho com mais de oito mil anos.
— E o seu pai? — Havia um misto de sentimentos dentro de mim. Há coisas que eu deveria aceitar sem questionar, porque não dava para processar só pela razão.
— Meu pai está morto. — respondeu Lohan tão baixo que eu quase não o ouvi. A sensação que tive é que essa é uma ferida profunda no coração dele. Não quis perguntar as circunstâncias porque tinha certeza de que ele não iria me responder.
— Todos vocês vivem tanto assim? De onde vim, se chegarmos a cem anos é muito. — Respondi desanimada. Não é que eu almejasse viver milênios. Eu gostava do ciclo do mundo de onde vim. Era natural e inevitável, só que é completamente incompatível com a realidade do meu companheiro. Eu não envelheceria ao lado dele e isso era triste.
— Depende do resultado do teste da provação. Geralmente, os seres de maior poder conseguem desacelerar seu relógio biológico e viver por milênios, mas a maioria da população comum não vive mais do que dois a quatro séculos. — respondeu Lohan, me olhando profundamente. — Uma das coisas que teremos que trabalhar com você é o seu potencial para passar nesse teste. Preciso que viva muito tempo ao meu lado, minha rainha.
— O que é esse teste? O que terei que fazer? — perguntei, um pouco mais animada. Eu precisava agarrar até mesmo a mínima chance que eu tinha de viver mais tempo com ele.
— O teste da provação é uma prova particular que todo ser mágico pode realizar quando desperta seu poder. Sobre o que você terá que fazer, não há como prever. O teste é individual, e, uma vez que se entra na câmara dos deuses, qualquer coisa pode acontecer. O que há para ser feito é diferente para cada um.
— Câmara dos... deuses? — repeti pausadamente. — Elas realmente existem?
Lohan parou de comer por um instante e cruzou as mãos sobre a mesa. De alguma forma, eu sentia que ele acreditava nisso, não sei se pelo seu olhar ou por sua expressão. Minha hipótese se confirmou com as palavras que ele pronunciou:
— De onde veio este mundo? De onde vem toda a magia? Nunca os vimos, mas sabemos que há uma força maior que controla tudo isso. O destino está escrito por essa força e as profecias dadas aos sacerdotes são a única forma como sabemos o que querem e esperam de nós. Nossa liberdade é diretamente afetada pelas bênçãos e maldições que nos conectam ao nosso destino. Quem escreve o nosso destino? Somos nós ou eles?
— Os dois — respondi. É confuso, mas real. Como lobos, quem determina quem será companheiro de quem? Qual é o critério? Esse é o único detalhe sobre a fé na deusa Luna que eu nunca encontrei respostas para refutar. Achei que eu tinha escolhido você, mas eu já era o seu destino, certo?
Ele assentiu afirmativamente com a cabeça. Era como se até mesmo nossas escolhas já tivessem sido escritas por algo maior, além da nossa compreensão.
— Eliza Singer, você é o meu milagre! — falou Lohan amorosamente. Havia um brilho especial em seus olhos negros. — A probabilidade de eu encontrar minha companheira nas condições impostas pelos deuses era quase nula e sem garantias. Eu poderia facilmente ter perdido você.
— O que quer dizer?
— Não vê? — Ele segurou minha mão com firmeza e aproximou o rosto do meu. — Éramos de mundos diferentes, incapazes de nos encontrar e reconhecer um ao outro como companheiros. Ainda assim, você me encontrou quando ninguém sabia que eu estava lá e ainda por cima escolheu me amar mesmo sem nunca ter me visto e contra todas as possibilidades. Foi você quem cumpriu as condições para que pudéssemos estar juntos agora, neste momento. O único nome que encontro para isso é milagre!
O amor só acontece quando ambos escolhem se amar. Sim, escolhi amá-lo, e mesmo que ele não dissesse que escolheu me amar também, eu sabia que ele tinha feito a mesma escolha que eu, ou do contrário, jamais teríamos nos encontrado pessoalmente. Ele escolheu continuar se encontrando comigo na cachoeira todos os dias, escolheu estar lá por mim sempre que eu precisava dele e escolheu me salvar. Seus gestos valiam muito mais do que dizer um milhão de vezes que me ama, mas ainda assim, eu esperava que um dia, pelo menos uma vez, ele pudesse pronunciar essas palavras para mim.
Resolvi usar as informações que eu tinha para persuadi-lo. Era melhor agirmos logo para ganhar tempo, do que deixar o tempo passar e perder a chance de vivermos um longo futuro juntos. Meu apelo quanto a me preparar para a provação surtiu efeito, e ele finalmente decidiu que era hora de sair do quarto.
— Não vou te deixar sair assim. — Ele bloqueou o meu caminho e percorreu meu corpo com o olhar. Eu estava só com a camisa dele, mas pensei que estava coberta o suficiente. Seus olhos desaprovadores me diziam que não.
— O que eu uso então? — perguntei inocentemente. Meu vestido era a única roupa que eu tinha. Ele fora levado pelas servas há uns dois dias e ainda não o tinham trazido de volta. Junto com o vestido, elas levaram várias mechas de pelos da minha loba.
— Até que suas roupas fiquem prontas, você ficará aqui. — Seu tom impositivo não deixava margem para discussão. Fiquei parada vendo-o sair. As portas se fecharam automaticamente após sua saída, e não pude deixar de procurar uma maçaneta ou algum botão de controle.
Não consegui entender como a porta funcionava. Parecia ter um sensor de presença que respondia apenas a ele. Foi inútil tentar, assim como foram inúteis todas as minhas tentativas de sair para a varanda. Eu estava presa aqui dentro.
— Pelo menos é uma prisão confortável e tem o cheiro dele. — falei comigo mesma, sorrindo enquanto saltava sobre a cama e abraçava o travesseiro dele. Eu não conseguia me cansar ou ficar entediada aqui, ainda mais quando ele estava comigo.