Capítulo 2

Lohan me deixou curiosa, um hábito antigo que ele não pretendia mudar. Eu queria muito saber o que aconteceria, mas aquela velha e irritante frase de que verei tudo com os meus próprios olhos quando o momento chegar foi a sua resposta final.

Lohan adorava me fazer surpresas, e a sensação de me sentir mimada se estendeu pelos dias que se seguiram. Ele realmente sabia como me fazer feliz, cada pequeno gesto, cada palavra pensando em mim e para mim.

— Por que está rindo? — perguntei curiosa. Estávamos tomando banho juntos depois de mais uma sessão de amor intensa, e Lohan teve essa reação do nada. Ele comprimiu os lábios, segurando o riso, como se algo o estivesse divertindo.

— Só agora souberam que já estamos em casa — disse-me de um jeito descontraído. — Meu avô está confuso, sem entender como chegamos sem ser percebidos por ninguém.

Vera fez uma contribuição importante para que tivéssemos esses dias só para nós dois. Ela veio uma vez por dia, nos últimos quatro dias, no horário em que o palácio fica deserto, quando praticamente todos estão dormindo, trazendo uma refeição incrível que dava para um dia inteiro. Sentia que estávamos pulando as etapas, como se estivéssemos tendo a lua de mel antes do casamento. Se é que existe lua de mel neste mundo...

— E como ele descobriu? — perguntei, curiosa.

— Ele me perguntou diretamente quando eu chegaria, então eu não podia mentir. De qualquer forma, eu havia avisado a todos quando sairia de Aradia. Não tenho culpa se calcularam o tempo de retorno errado.

— E pretende contar sobre eu ser uma bruxa para ele? — Edward é a pessoa mais próxima a Lohan. Se ele o pressionasse por informações, talvez Lohan as desse. Acontece que o desprezo por bruxas que Lohan tem veio do avô, então eu não o considerava confiável para admitir esse tipo de segredo.

— Não. Não quero que ninguém saiba. A vantagem de sermos uma raça reclusa é que as informações dificilmente entram ou saem. Manteremos isso em segredo o máximo de tempo possível.

— Lohan, você realmente pretende enganar o conselho? — Algo me dizia que isso poderia dar muito errado.

— Eles pedem por isso — disse Lohan com um toque de deboche na voz. — Uma vez a coroação sendo feita, ela não pode ser desfeita. Mesmo que descubram depois, já não poderão fazer nada.

Uma hora, inevitavelmente, todos iriam saber, uma vez que a responsabilidade da coroa das bruxas me perseguiria onde quer que eu fosse. Enquanto esse nome estivesse sobre mim, as expectativas de Celestria também estariam, portanto, eu precisava pensar em uma forma de remediar isso.

— Como não dá mais para nos esconder, que tal jantarmos em família hoje? — sugeriu Lohan.

— Me parece bom! — sorri, um pouco mais animada. Eu veria meus pais novamente e esperava que estivessem ansiosos para me ver também. De qualquer forma, eu não podia mentir para o meu coração e dizer que não me importava, mas eu podia não usar meus poderes espirituais e enxergar o reencontro com o máximo de positividade.

Coloquei uma calça comprida e uma camisa. Eu amava os vestidos, mas já estava cansada deles. Por algum tempo, ao menos, me permitiria voltar a usar shorts e calças. Lohan, por outro lado, estava sempre com trajes elegantes e formais. Acho que nunca o vi usando uma bermuda ou blusa regata. Se eu pedisse a ele para variar mais no estilo, será que ele o faria ou andar assim é alguma regra atribuída à coroa?

“Já está procurando desculpas de novo!”, resmungou Lisa. Olhei para o chão, um pouco sem graça. Eu realmente estava pensando que, se tivesse que andar sempre com trajes formais, eu não iria querer a coroa.

— Está pronta? — perguntou Lohan, vendo que eu não me mexia. Eu já havia terminado minha maquiagem, e assim que virei meu rosto para ele, acabei soltando um suspiro involuntário.

— Eu gosto disso... — Meu companheiro estava lindo com os óculos que dei a ele. Lohan sempre me encantava, e acho que é por isso que eu ficava pensando em como ele ficaria com estilos diferentes.

— Gosta, é? — provocou-me, aproximando o rosto do meu. — Eu também gosto disso...

Ele acariciou meu rosto, seus olhos encarando os meus, cheios de desejo. É claro que ele gosta de mim, afinal sou a companheira prometida dele!

— Por que você é sempre tão descuidado com as palavras? — murmurei, desviando o olhar.

— Eu que sou descuidado? Companheira, você não faz ideia de como cada mínima reação sua tem efeito sobre mim.

— Poxa... — Senti meu rosto esquentar. Eu deveria ter amadurecido com as bruxas! Qual é o meu problema? Resolvi sair antes que a situação esquentasse mais, ou o cheiro de feromônios no ar durante o jantar seria insuportavelmente constrangedor para todos.

— Não sem um beijo — alertou-me assim que me coloquei de frente para a porta. Ele não se mexera um centímetro do lugar e sorria com confiança, esperando pelo seu suborno para abrir a porta para mim.

— Que pena que não preciso mais da sua permissão, não é? — devolvi a afronta, mexendo na inscrição da porta para que ela sempre se abrisse para mim.

Sempre pensei que era algo complexo, mas até que era bem simples. Trata-se de uma inscrição permanente de uma magia das trevas feita por uma bruxa ômega, e dado o tempo, eu podia apostar que foi a Ellis. Ou foi um presente, ou um serviço contratado pela nova geração real de Éldrim após o restabelecimento monárquico e a construção de um novo palácio.

“Ótimo! Não preciso mais me tornar rainha para essa porta se abrir para mim”, pensei enquanto saía do quarto, uma satisfação tremenda por ela se submeter a mim depois de tanta raiva que eu passei com ela.

— Essa porta tem uma tradição milenar, você não pode simplesmente mexer nela. Isso não está certo! — grunhiu Lohan, correndo para me alcançar, claramente insatisfeito. — O que custava ter me dado o beijo?

— Meu amor, te dou o triplo de beijos depois do jantar. — Não me deixei perturbar pela cara emburrada dele. Na verdade, era até fofo.

— Mas eu quero agora! — disse ele, bloqueando meu caminho.

— Não é não! Como não fechou acordo, sem beijo agora e sem beijos depois do jantar.

— Companheira, beije-me! — ordenou por meio de um comando. Senti Lisa querer se submeter, mas rapidamente recolhi a origem, cortando a influência que o poder de rei dele tem sobre mim.

— Não, mas valeu a tentativa — usei a aceleração para me desviar dele enquanto liberava novamente minha loba. De repente, eu me sentia eu mesma, a garota que eu era antes dessa coisa de vínculo aparecer na minha vida.

— Não pense que vai escapar de mim tão fácil! — disse-me Lohan, tentando acompanhar meus movimentos. Eu já não estava mais atrás dele, e era divertido ver que eu finalmente podia me igualar e até ultrapassá-lo.

Permaneci me desviando enquanto ele tentava me pegar e caí na gargalhada, provocando-o, o que só parecia atiçá-lo mais. Por fim, estávamos no refeitório, nos agarrando e rindo feito crianças.

— Olha, mais presenças do que eu esperava — comentei surpresa enquanto identificava os rostos dos presentes.

Capítulo 3

Todos os ancestrais de Lohan, meus pais, e até mesmo o intrometido do William estavam à mesa, todos com as mais variadas expressões ao ver a forma descontraída como eu e Lohan chegamos. Nas laterais, todos os empregados mais queridos estavam alinhados, e eles foram os primeiros a expressar contentamento com a nossa chegada, curvando-se em submissão, incapazes de esconder a felicidade que sentiam com o nosso retorno.

— Minha querida, não fique tensa. Estamos em família, então as formalidades são dispensáveis — disse-me Lohan, pegando na minha mão e me guiando até a mesa. Mesmo ele tendo dito isso, cumprimentei respeitosamente a todos os presentes, especialmente os ancestrais de Lohan, que foram os primeiros a notar que a maldição dele estava novamente contida.

— Parece que a nossa futura rainha já providenciou novas medidas contra a sua maldição — disse Edward, chamando a atenção dos que ainda não haviam percebido o acessório que Lohan estava usando.

— Sim. Agora que Eliza se provou e se tornou uma loba extremamente poderosa, creio que possamos dar continuidade à oficialização de sua posição — disse Lohan, me olhando com orgulho enquanto deslizava as mãos gentilmente pelos meus cabelos.

Sentei-me entre ele e minha mãe. Eu queria muito saber se ela estava feliz em me ver de novo, se o meu sentimento de satisfação por poder revê-la era recíproco, mas ela estava concentrada demais em manter seu padrão culto e solene. As aparências eram o mais importante, de novo...

— Oh, isso é tipo um jantar oficial de noivado? — deixei escapar. Família reunida, e o assunto é casamento... Só podia ser!

— Está mais para um jantar oficial de boas-vindas — comentou William com os olhos fixos em mim. — Todos se preocuparam muito com o seu desaparecimento.

— Todos mesmo? — encarei Edward um pouco cética. Ele apenas sorriu suavemente, diferente do bisavô e do tataravô de Lohan, que tinham os rostos inexpressivos. Meus pais, diferente do que eu imaginava, voltaram seus rostos para baixo. Pareciam um pouco envergonhados. Será que eles não conhecem a filha que têm?

O silêncio tomou conta do ambiente enquanto o jantar era servido. Só se ouvia a respiração dos presentes e o mover dos talheres sobre os pratos. Como todos, comecei a comer despreocupadamente, mas, por algum motivo, isso pareceu irritar o avô de Lohan.

— Você causou muito alvoroço neste último ano. Todos nós aguardamos ansiosos por suas explicações e realmente esperamos que as tenha — Edward se manifestou no mesmo tom esnobe de sempre.

— Responderemos a tudo — interveio Lohan antes que eu falasse algo que não deveria. Eu realmente detestava o tom de Edward, e o detestava ainda mais por saber que ele podia ter ajudado a salvar as irmãs da Willow, mas se recusou na época. — Minha prometida fez o que precisava ser feito, da forma que achou melhor. Eu a compreendo perfeitamente e a apoio!

— Acho que ela poderia começar nos explicando como consegue esconder a sua maldição — interveio Simon Black, tataravô de Lohan. — Isso realmente me intriga.

— Onde ela esteve esse tempo todo e por que não nos deu notícias? — questionou Tadeu Black, bisavô de Lohan.

— Ou melhor, o que ela fazia no território de Willow? Ela não sabe que lobos não devem se envolver com bruxas? — completou Edward Black logo em seguida.

— Responderemos a todas as perguntas a seu devido tempo — disse Lohan, pousando suavemente a mão sobre a minha. Eu já havia largado os talheres e não pretendia comer mais nada. — Não estamos aqui para falar sobre isso. Penso que devem deixar seus questionamentos para um momento mais apropriado.

— Certo! Proponho levarmos isso para uma reunião do conselho amanhã. Oficializaremos a data da cerimônia de vocês assim que ela nos der todas as explicações que queremos — intrometeu-se Edward novamente.

— Me recuso! — o contrariei sem um pingo de hesitação. — Fiz o que tinha que fazer, pelo tempo que me foi necessário, e não devo explicações a ninguém além do meu companheiro. Não foi o conselho que fez isso por mim; na verdade, não fizeram nada além de me atrapalhar. Não voltarei a pisar naquele lugar.

— Isso não é você quem decide! — exclamou Edward Black, irritado. Os ânimos estavam se exaltando.

— Companheira... — Lohan apertou minha mão com mais força, mas eu não pretendia recuar.

— Lohan, foi você quem me disse que é um jantar sem formalidades, o que significa que posso me expressar como eu quero.

— Mas... — Lohan interrompeu o que estava dizendo ao notar meu olhar e decidiu se calar. Eu sabia que ele se sentia pressionado, mas não pretendia aliviar essa pressão desta vez.

— Filha, você está passando dos limites — minha mãe finalmente resolveu se manifestar. Ela podia ter me dito que sentia saudades, que isso era para o meu bem, mas a primeira vez que abre a boca desde o reencontro foi só para me criticar. — Suas ações nos causaram muitos problemas, então você deve se responsabilizar por elas. Deve fazer o que lhe ordenaram, e se precisar abaixar a cabeça e pedir desculpas, você vai fazê-lo!

— Não, dona Mara, eu não — senti os cantos da minha boca se curvando em um sorriso confiante. Eu não me sentia angustiada ou ansiosa como costumava me sentir antes; pelo contrário, dentro de mim, um sentimento de liberdade borbulhava junto com a frieza de não me importar com as opiniões de pessoas que, em nenhum momento, me consideraram de verdade. Por que eu precisava me expor ao conselho? Por que eu precisava me humilhar? Por que eu precisava seguir regras chatas? Eu realmente precisava disso?

— É imprescindível que faça isso se quiser continuar com o casamento — rosnou Edward, furioso com a minha petulância.

— Oh, é mesmo? — segurei o riso que subia pela minha garganta, uma satisfação que estava além da minha compreensão. — Neste caso, só há uma solução. Esqueçam o casamento!

— Esquecer o...? — Edward engoliu o que ia dizer, completamente anestesiado com o significado das minhas palavras. A expressão de choque passou pelo rosto de todos enquanto eu me levantava despreocupadamente.

— Agora são vocês que precisam pensar se me querem como rainha — falei-lhes secamente, elevando meu olhar e dando-lhes as costas. — Afinal, eu realmente não preciso disso.

Resolvi desaparecer dali sem me importar com o que pensariam. Lisa estava muito brava comigo, mas o controle era meu. Assim que me apossei da forma de lobo, comecei a correr, deixando-me levar pela sensação de liberdade que preenchia meu espírito. Onde posso ou não ir, ou o que tenho ou não que fazer, eu mesma definiria isso.

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