Capítulo 2

Meu celular vibrou na mesa de centro quase que instantaneamente. Uma resposta. Dele.

Leandro: "Uma proposta inesperada e intrigante. Estou ouvindo."

Meus polegares voavam desesperadamente pela tela, as palavras jorrando de mim como uma confissão. Contei tudo. O plano de Heitor. O projeto roubado. A vida que eu estava prestes a deixar para trás. Meu desejo de me aliar a ele, o único homem em nosso mundo que já havia olhado para mim e visto minha mente primeiro.

Apertei enviar, meu coração martelando contra minhas costelas.

Leandro: "Eu me lembro de você, Serafina. Do gala. Sua análise foi impecável. Fiquei tão impressionado que pedi para tirarem uma foto espontânea sua naquela noite. Está em uma estante no meu escritório. Venha para o Rio. Amanhã. Conversaremos."

Uma foto. Ele tinha uma foto minha. Uma onda de validação tão poderosa que quase fez meus joelhos dobrarem me percorreu. Ele não tinha esquecido.

Minha determinação se instalou em meus ossos, fria e dura como aço. Minutos depois, eu havia reservado um voo só de ida para o Rio de Janeiro para a noite seguinte.

Heitor não voltou para casa naquela noite. Quando liguei para sua assistente, Clara, a voz dela foi seca. "Ele está em uma reunião de estratégia até tarde com a Sra. Moraes, Fina. É para o novo projeto."

A mentira era tão descarada que era quase engraçada.

Ele finalmente entrou pela porta na manhã seguinte, cheirando ao perfume enjoativo de Olívia e à sua própria satisfação presunçosa. Ele beijou minha testa, um gesto que agora fazia minha pele arrepiar.

"Tenho uma surpresa enorme para você hoje à noite, meu bem", disse ele, seus olhos brilhando. "Algo que vai mudar tudo para nós."

Eu apenas sorri, uma expressão plácida e vazia que eu havia aperfeiçoado ao longo dos anos. "Mal posso esperar."

Naquela noite, ele me levou a um grande evento que celebrava o domínio de seu clã. O ar estava denso com fumaça de charuto, colônia cara e o murmúrio baixo de homens perigosos fechando negócios. Heitor estava em seu elemento, pavoneando-se.

Então, ele agarrou minha mão e me puxou em direção ao palco.

"O que você está fazendo?", sibilei, tentando recuar.

"A surpresa", ele sussurrou, um sorriso triunfante se espalhando por seu rosto.

Ele me conduziu ao centro do palco, sob o brilho total dos holofotes. A sala ficou em silêncio. Ele se virou para mim, o rosto uma máscara de adoração para a multidão, e se ajoelhou. Ele ergueu uma caixa de veludo, um diamante ridiculamente grande piscando lá dentro.

Meu estômago se revirou. Era isso. A armadilha pública.

Quando ele abriu a boca para falar, uma comoção irrompeu da multidão. Uma mulher gritou.

Era Olívia Moraes. Ela estava agarrando o peito, o rosto pálido, antes de desmaiar dramaticamente no chão.

Caos.

Heitor não hesitou. Ele largou a caixa do anel, que bateu e rolou pelo palco. Ele me abandonou, ainda de pé ali no holofote, e saltou para a multidão. Ele alcançou Olívia em segundos, pegando sua forma inerte em seus braços, bancando o herói para as câmeras e para o submundo reunido.

Enquanto ele a carregava em direção à saída, ela levantou a cabeça do ombro dele. Seus olhos encontraram os meus do outro lado da sala.

E ela deu um sorrisinho vitorioso.

A humilhação foi um golpe físico, mas por baixo dela, uma calma estranha se instalou em mim. Ele havia tomado a decisão por mim. Ele havia facilitado as coisas.

Virei-me e saí do palco, desaparecendo de volta nas sombras. Eu estava indo para o Rio de Janeiro.

Capítulo 3

De volta ao apartamento que não parecia mais meu, comecei a fazer as malas. Fui implacável. Cada foto, cada presente, cada lembrança do homem que eu pensei amar foi para um saco de lixo preto. Eu não estava apenas fazendo uma mala; estava apagando nossa vida.

No dia seguinte, fui ao meu trabalho de meio período. Era uma pequena produtora independente, um trabalho civil que me mantinha sã e conectada a um mundo fora do clã. Minha chefe, Mariana, ouviu com um olhar de compreensão triste e cansada enquanto eu pedia demissão. Meus colegas, Davi e Clara, me abraçaram, dizendo que sempre acharam Heitor um babaca manipulador. O apoio simples e honesto deles foi um bálsamo para meus nervos em frangalhos.

Meu celular vibrava incessantemente. Heitor. Ignorei até a décima ligação.

"Oi, meu bem", disse ele, a voz despreocupada, como se nada tivesse acontecido. "Sobre ontem à noite, desculpe por aquilo. A Olívia é tão dramática. Enfim, estive falando com uma cerimonialista. Estou pensando em um casamento na primavera na fazenda..."

A arrogância pura e estonteante daquilo. Ele genuinamente pensava que eu ainda era dele.

Ao fundo, ouvi a voz dela, aguda e exigente. "Heitor, saia do telefone. Precisamos falar sobre minha cobertura na imprensa."

"Preciso ir", disse ele abruptamente, e a linha ficou muda.

Algumas horas depois, meu celular vibrou novamente. Não uma ligação, mas um alerta de notícias de um site de fofocas. A manchete dizia: "O Novo Casal do Poder: Heitor Costa e Olívia Moraes Comemoram Seu Novo Projeto". A foto era deles, brindando com taças de champanhe, o braço dele possessivamente em volta da cintura dela.

Uma raiva fria e limpa me invadiu, cristalizando-se em uma única certeza, dura como diamante. Isso não era um término. Era uma guerra.

Então, um número desconhecido ligou. Quase mandei para a caixa postal, mas algum instinto me fez atender.

"Serafina?" A voz estava carregada de uma preocupação familiar. Era Nuno.

"Heitor... ele teve algum tipo de colapso. Algo com a Olívia. Ele está no Sírio-Libanês. Está chamando seu nome."

"A Olívia está com ele?", perguntei, minha voz assustadoramente firme.

Uma pausa. "Ela o deixou na emergência e foi embora."

Claro que ela fez. E uma parte traiçoeira de mim — a antiga e tola cuidadora — sentiu um lampejo indesejado de algo. Não pena. O fantasma de um dever que eu carreguei por muito tempo. Eu fui sua rocha por tanto tempo que o instinto de firmá-lo estava gravado em meus ossos.

"Por favor, Serafina", a voz de Nuno estava esgotada. "Ele está um caco."

Fechei os olhos. Uma última vez. Isso não era um ato de cuidado. Era a ruptura final. Eu tinha que vê-lo quebrado para finalmente me libertar.

"Eu vou", eu disse.

Enquanto ligava meu carro e saía para a rua, em direção ao hospital, fiz um voto silencioso. Este seria o último sacrifício, o ato final de uma vida que eu estava deixando em cinzas, e a última coisa que eu faria por Heitor Costa.

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