Tem tudo a ver. Você pode ir morar em Montana e arranjar um marido rico e que te trate bem. O problema aqui, segundo você mesma, é que todo mundo na cidade já passou nessa rua e te viu, mas lá ninguém te conhece. Os homens são ingênuos e gentis, como são todas as pessoas do interior. Você chega lá dando uma de moça direita e arranja um marido rapidinho. — ela gesticulou para a tela do smartphone. — Pode até acabar morando em uma mansão dessas. Que tal? O que ela dizia fazia todo o sentido. Embora parecesse uma grande loucura deixar o Rio para ir a um lugar tão distante e completamente desconhecido, com um bom planejamento poderia dar certo. Era melhor que passar o resto da minha vida rodando a bolsinha para tentar juntar novamente o dinheiro que Fábio me roubou e ainda por cima correndo o risco de arranjar outro como ele. Se conseguisse um marido naquela cidade, obviamente um marido rico que não me deixasse faltar nada, estaria livre daquela vida maldita de uma vez por todas e sem muito esforço. Restava saber como me firmar em Montana. — Margô, como você achou essa cidade? Por que nunca tentou ir pra lá e fazer o que está me sugerindo? — Achei quando um dos meus clientes compartilhou o link do artigo no Facebook. Não vou porque estou velha, Manuela. Você acha mesmo que um homem bom ia se casar comigo, na minha idade? Senti piedade dela. O que faria de sua vida quando se tornasse uma anciã? — Não fala assim. Pra todo pé existe um sapato velho. Ela sorriu sem graça e bebeu mais um gole do seu chope. — Eu não tenho mais jeito. Sou viciada na noite. Não ia conseguir cuidar de um homem, ficar acordada de dia e dormir a noite. Minha vida é essa aqui. Mas pra você ainda não é tarde, pode mudar. Suspirei aquiescendo. Como a dela, haviam muitas vidas tragadas pelo vício nas noites. — Vou arriscar, não tenho mesmo nada a perder. Qualquer coisa é melhor que continuar suportando a humilhação desses homens. Se não der certo eu volto. Resta saber como vou me estabelecer lá. Para dar uma de santinha vou precisar de todo um guarda roupa novo e um lugar descente pra morar. Ainda tenho o carro. Pelo menos isso aquele safado não roubou. Vou vender baratinho e usar o dinheiro pra começar minha nova vida. — Não venda agora. Use-o para chegar à Montana. Em um lugar desses é melhor chegar de carro que de ônibus, só para manter as aparências. Chegando lá você vende, se não tiver outro jeito. — O problema é que aquele bastardo não me deixou nenhum centavo. Como vou pagar uma moradia até arranjar o tal marido? — Trabalhe só mais uma semana. É suficiente para alugar uma casa simples e abastecer a geladeira. Depois arranje um emprego qualquer. Isso vai te fazer ser bem vista. Esperar um mês inteiro para receber uma quantia em dinheiro que se pode adquirir em uma noite, definitivamente é o inimigo número um de todas as garotas que optam por esta vida. Mas eu precisava aprender a aceitar. — Você está certa. — percorri os olhos à minha volta e vi um gorducho mal vestido me secando de perto do balcão. Aquilo me deu náuseas, mas eu sabia que precisava encarar. — Mas tem uma coisa. — Margô ficou muito séria. — Mantenha o foco desta vez. Não caia na lábia de outro malandro como Fábio. Tem muitos como ele por aí e no Goiás não é diferente. Fuja de homem pobre e fuja de paixões que te ceguem, para que o que aconteceu com você não se repita. Ouça meus conselhos desta vez. Concordei, relembrando o quanto ela me alertou sobre Fábio, tanto que cheguei a me afastar acreditando que queria me ver sozinha como ela, da forma que ele me convenceu a acreditar. Desta vez a ouviria e internalizaria a experiência com Fábio como um aprendizado para nunca mais me iludir com homem, nunca mais ouvir a voz do meu estúpido coração e, acima de tudo, nunca mais me envolver com um pobretão que só quisesse me comer e me explorar. Depois de Fábio, me tornaria uma nova mulher, muito mais esperta. Batalhei como uma louca durante a semana que se seguiu nas ruas de Copacabana, me entregando a qualquer um com dinheiro que me chamasse, guardando cada centavo até que tivesse o suficiente para chegar ao Goiás, alugar uma casa mais ou menos boa e me sustentar até arranjar um emprego e uma marido. Quando deixei o Rio de Janeiro, na manhã de segunda-feira, dirigindo meu Fiat velho com a documentação toda atrasada, seguindo um mapa que me mostraria o caminho exato para o meu destino, jurei a mim mesma que nunca mais me prostituiria; nunca mais deixaria um homem me tocar que não aquele que se casasse comigo e esse tinha que ser no mínimo atraente e, claro, muito rico.
De acordo com minhas pesquisas, era uma viagem que duraria quatorze horas em um carro novo, no meu duraria uns dois dias com algumas paradas para refeições e descanso. Minha rota estava completamente traçada. Mantive o som ligado em um rock agitado no último volume durante todo o tempo, segui a risca o roteiro de viagem, parando nos lugares previamente determinados, apreciando a paisagem a minha volta tornando-se cada vez mais plana e escassa de árvores, com quilômetros e mais quilômetros de pastos verdes repleto de gado. Eu já estava muito perto de Montana, a cerca de duzentos quilômetros, em uma rodovia cujo destino era somente aquela cidade, quando passei por uma garota muito jovem, carregando uma mochila grande nas costas, pedindo carona. O sol estava escaldante e não havia sequer a sombra de uma árvore onde ela pudesse se abrigar, por isso fiquei com pena e parei, voltando de ré. Ela só podia estar indo para Montana também, pois a estrada não levava a outro lugar. — Olá. Querendo uma carona? — Indaguei, já tirando meus cacarecos digitais de cima do banco do carona. — Claro. Obrigada por ter parado. — Disse sorrindo, exibindo covinhas nas bochechas e entrou. Acomodou-se no assento, tirou a mochila das costas e de dentro dela, muito mais rápido do que eu pudesse esperar, sacou um revolver pequeno, apontando-o diretamente para a minha cabeça. — Não se mova! — Falou séria. Fiquei paralisada, com o sangue gelado nas veias, apenas minha mente trabalhando rapidamente em busca de uma saída. Porém, antes que eu conseguisse pensar em outra coisa que não em como me virar sem o dinheiro que estava no carro e sem o próprio carro, dois homens armados surgiram da lateral da estrada, de trás do declive que havia lá. Merda! Mas eu não tinha sorte mesmo! Eram dois garotos tão jovens quanto a menina que me fez parar. — Desce gatinha. Precisamos do seu carro. — Um deles falou, apontando-me sua arma do lado de fora da porta do motorista, enquanto o outro se mantinha ao seu lado como uma espécie de barreira para ocultar o que se passava de outros eventuais motoristas. Lembrei-me do dinheiro em minha bolsa, tudo o que consegui juntar durante aquela ultima semana estava dentro dela. Nem me passou pela cabeça guardar no banco para sacar quando precisasse, afinal nunca fui assaltada em mais de três anos morando em uma das cidades mais perigosas do país, que dirá no Goiás. Só então me dava conta do tamanho da minha estupidez. — Por favor, me deixe ficar apenas com minha bolsa, por causa dos meus documentos pessoais. Pode levar o carro. — Tentei. — Foda-se seus documentos! Desce logo da porra desse carro antes que eu enfie uma bala na sua cabeça. — O cara se impacientou e meu sangue gelou ainda mais de medo. Seria muito fácil para eles me matarem ali, visto que a estrada estava completamente deserta, não passava um carro desde que parei. Sem alternativa, saltei devagar, com as duas mãos erguidas no ar, sem nada além da roupa do corpo, para no instante seguinte ver os dois moleques entrando e dando a partida. Fizeram o retorno e seguiram em alta velocidade na direção de onde eu vinha. Fiquei parada no meio da estrada, ainda com as mãos erguidas no ar, observando meu carro indo embora, junto com meu dinheiro, até que desapareceu no horizonte e só então voltei a respirar, soltando o ar dos pulmões devagar, o desespero me tomando muito mais que o alívio por ter escapado com vida de um assalto.
O que eu ia fazer agora, sem dinheiro, sem meu carro para vender e sozinha no meio do nada? Que droga! Por que as coisas sempre tinham que dar tão errado para mim? Parecia até que eu tinha praga de madrinha, ou talvez apenas tomasse todas as decisões descabidas. Desalentada, sem saber o que faria quando chegasse a Montana — isso se chegasse lá, pois nem carro passava naquela estrada —, sentei-me no meio fio, sob o sol que queimava feio minha pele desprovida de protetor solar e fiz o que me restava: esperei. Alguns minutos depois, avistei um carro de luxo vindo na direção de Montana e levantei-me, acenando como uma louca para que parasse, mas o sujeito passou direto, sequer reduziu a velocidade. Não demorou muito para que outro, também de luxo, passasse na direção oposta e tornei pedir carona, afinal qualquer lugar era melhor que ficar ali sozinha no meio do nada, correndo o risco dos ladrões voltarem e acabarem comigo. Mas esse também não parou. Aquilo se perdurou por horas. Carros de modelos caríssimos, como se não existisse pobres naquela região, passavam por mim, indo e vindo, esporadicamente, sem que nenhum pareasse ou sequer reduzisse. E eu sequer podia culpá-los, pois me dei muito mal quando cometi a sandice de dar uma carona. Estava quase desistindo, quando por fim um motoqueiro parou, logo adiante e voltou de ré. Mas que sorte a minha! Tantos carros de luxo passando e logo uma moto barulhenta e velha para! Todavia, isso era melhor que nada, eu só queria sair dali antes que algo pior acontecesse e o sujeito estava indo na direção de Montana, me levaria ao meu destino. Menos mal. — Olá. Muito obrigada por ter parado. — Falei para o motoqueiro, sem ver o seu rosto oculto pela viseira escura do capacete. Apesar do calor, usava uma jaqueta de couro preta, jeans surrado e luvas. — Você está indo para Montana? — Indagou, com a voz grossa. — Sim. Você pode me levar? — Eu praticamente implorei, com dificuldade em empurrar as palavras através da minha garganta seca. O homem tirou o capacete e fiquei muda, quase sem ar, meu queixo caindo tanto que quase tocou o chão. Ele tinha o rosto mais bonito e masculino que meus olhos já viram; a pele possuía um tom moreno raro, como se estivesse muito bronzeada e saudável; o cabelo castanho claro era cheio, formando um topete meio arrepiado; os olhos eram de um azul claro, sombreados por sobrancelhas grossas, naturalmente arqueadas, e carregava uma inocência meio angelical, quase um ar de tristeza; o queixo era másculo, coberto pela sombra de uma barba que parecia não ser feita há uns dois dias e o sorriso, ah que sorriso! Parecia um convite irresistível para a tentação. Esperei que ele descesse o olhar pelo meu corpo, como todo homem fazia quando via uma mulher pela primeira vez — alguns faziam todas às vezes —, mas não aconteceu. Ou era gay, ou eu estava muito mal naquele jeans sujo de poeira, com a pele queimada de sol, e o cabelo, naturalmente desgrenhado, ainda mais emaranhado. Era mais fácil acreditar na primeira hipótese, visto que a minha aparência era o tipo que todo homem olhava, o tipo gostosona, com os quadris largos, as pernas grossas e a cintura fina, o que unido aos olhos verdes em contraste com o cabelo escuro, me garantiam muitos olhadas cobiçosos masculinas, o que até então só me trouxe prejuízo e tristeza. Instintivamente, desci meu olhar pelo corpo dele, buscando o resto da sua beleza, mas não consegui ver muita coisa por baixo da jaqueta folgada, embora tivesse certeza de que era lindo inteiro. Seria o marido que eu escolheria se não fosse um pobretão em uma moto empoeirada. Desse tipo, eu só queria distância. Fábio me ensinou bem a lição. — Você está bem? Aceita um pouco de água? — Ele indagou, sem que aquele sorriso lindo deixasse de brincar em seu rosto. — Aceito sim. Estou morrendo de sede. Sem saltar, ele apoiou os dois pés no asfalto para manter o equilíbrio sobre a moto velha e tirou uma garrafinha de água mineral da mochila que trazia nas costas, entregando-me. — Não está muito gelada, porque faz horas que coloquei aí, mas dá pra beber. Sem hesitar, bebi toda a água da garrafa direto do gargalo, de uma só vez e o vi sorrindo ainda mais amplamente, observando-me com aquela cara de homem puro do interior, sem a malícia inerente a todos os homens que eu conhecia e até aos que eu não conhecia. — Muito obrigada. Eu estava mesmo morrendo de sede. — O sol hoje está muito forte. Vamos sair daqui. — Desprendeu o capacete que estava seguro por uma redinha na garupa e entregou-me, antes de colocar o seu. Fiz o mesmo e montei na garupa, sem saber onde colocar os braços. — Segure-se em mim, se não você pode cair. — Falou. Acreditei piamente que aquele era o objetivo de um homem ter uma moto em vez de um carro, mesmo que fosse um carro barato: fazer com que uma garota o abraçasse antecipadamente, durante um encontro, uma tática que certamente funcionava, pois quando contornei meus braços em volta do seu corpo, a sensação não podia ser mais agradável. Senti músculos rígidos e calor masculino — não um calor comum, esse era gostoso e excitante — partindo de baixo do couro da jaqueta e me aninhei ainda mais a ele, sem ter muita noção do que estava fazendo. Ficando louca, na certa. Foi assim que arrancamos em altíssima velocidade, rompendo o sol da tarde na direção de Montana. CAPÍTULO II Era a primeira vez que eu andava de moto, apesar do barulho infernal do motor e do vento causado pela altíssima velocidade, a sensação era boa, um misto de liberdade e adrenalina, que ficava ainda melhor unido ao calor gostoso que partia daquele homem. Obviamente eu nunca teria nada com ele, por não ser exatamente o que eu procurava, entretanto, não fazia mal algum tirar uma casquinha e tirei uma bem grande durante todo o percurso, abraçando-o com firmeza, por trás. — De onde você está vindo? — Ele perguntou, elevando o tom da voz para que se sobressaísse ao barulho do motor. — Do Rio. Sou de lá e você? — Nascido e criado em Montana. Veio a passeio? Vixe! Eu não tinha me preparado para responder perguntas como aquelas. Tive que improvisar. — Não. Na verdade, estou de mudança. Tenho uma tia que mora aqui. — Quem é sua tia? Talvez eu conheça. Puta merda! — Margô. Conhece? — Seria muita sacanagem se existisse uma Margô naquele lugar. — No momento não lembro. O que você fazia sozinha na beira da estrada? — Fui assaltada. Levaram meu carro, meu dinheiro, minhas roupas e tudo mais. — Minha nossa! Eu sinto muito. Isso não é muito comum por aqui. — Podia ter acontecido com qualquer um. A garota estava pedindo carona e eu parei. — Podia ter sido comigo. — Ele completou como se fosse capaz de ler meus pensamentos. — Você pretende prestar queixa? — Sim. Não vou deixar isso barato. Preciso recuperar minhas coisas. Continuamos conversando como velhos conhecido durante todo o caminho, o que tornou o percurso relativamente rápido. Era noite quando chegamos a Montana. Ao contrário do que eu esperava não se tratava de uma cidadezinha pequena do interior, parecia uma mine metrópole, com muitos edifícios grandes na rua principal, um trânsito bastante movimentado e uma iluminação pública que não deixava a desejar. — Onde você vai ficar? — meu resgatador perguntou e novamente precisei improvisar uma mentira de última hora, afinal eu pretendia primeiro me hospedar em um hotel, arranjar um emprego e só depois socializar com a população, não ao contrário. — Não lembro bem onde fica a casa da minha tia. — menti feio. — Era criança quando vim aqui pela última vez. Esperei que ele me propusesse passar a noite na sua companhia, em um quarto de motel, como qualquer homem faria, mas ele não parecia ser qualquer homem e sua proposta foi diferente. — Tenho uma amiga que é dona de uma pensão. Você pode passar essa noite lá e pela manhã procura a casa da sua tia. O que acha? — Acho ótimo. Obrigada. — Quer comer alguma coisa antes de ir? Eu estava morrendo de fome, mas não queria perder ainda mais o meu tempo, tinha objetivos a cumprir, preferia aproveitar o resto da noite para descansar e estar inteira no dia seguinte. Além do mais não queria prolongar minha intimidade com aquele motoqueiro. Toda a minha sensatez me ordenava a afastá-lo. — Não. Obrigada. Continuamos percorrendo as ruas da cidade até que deixamos o que parecia o centro, para que as mansões que Margô mostrou-me no site revelassem diante dos meus olhos, muito mais suntuosas e esplendorosas que nas fotografias. Jurei a mim mesma que um dia, não importasse quanto tempo demorasse, ainda moraria em uma mansão como aquelas, com o meu futuro marido, um gatinho tão lindo quanto o motoqueiro que me resgatara, porém que dirigisse um carro de luxo e não pilotasse uma moto velha.