O relógio marca 08:25, os alunos começam a entrar na sala e se acomodarem em suas cadeiras. Início minha aula palestrando o tema Teologia, que é o estudo da existência de Deus, das questões relacionadas ao conhecimento da divindade e das tradições religiosas e seus contextos históricos. É um estudo científico da relação entre homem e religião, além do seu impacto na sociedade como um todo.
No fim da aula, todos recolhem as apostilas e levam com eles para se aprofundarem mais no assunto, além da minha aula presencial. Focar a mente dos seminaristas iniciantes é a peça chave primordial. Eles precisam ocupar o máximo de tempo com estudos, a leitura da Bíblia, aulas presenciais, palestras com vídeos na sala de teatro. Quanto mais focados na palavra de Cristo, menos tempo eles tem de lembrar do mundo fora daqui.
Ajeito os livros que emprestei da biblioteca aqui mesmo no seminário e me despeço de Martin, quando estou na porta de saída, ele me chama.
- Padre Matteo.
- Pois não Martin.
- Hoje e amanhã os seminaristas vão estar designados a limpeza dos quartos. O seu está incluso Padre, se importaria de se ausentar dois dias?
- Tudo bem. Eu passo o fim de semana em minha casa. Volto domingo a noite. Com licença.
Era sexta-feira, voltei para meu quarto e retirei com cuidado minha batina, eu geralmente dava aulas aos seminaristas com a batina ou a vestimenta de Padre. Acomodei ela no cabide e vesti o saco protetor. Eu iria levar comigo, pois sábado e domingo iria ministrar as missas na igreja Esplendor. Na mala coloquei meus itens pessoais, peguei o cabide com minha batina e saí do quarto, mas não sem antes me ajoelhar de frente ao crucifixo em minha parede e agradecer a Deus pelas benfeitorias em minha vida e agradecer de poder estar vivendo em sua presença.
Me despedi dos diáconos, presbíteros e sacerdotes do seminário e fui até o estacionamento onde estava meu carro. Acomodei minhas coisas no porta malas e entrei no banco do motorista. Segui rumo a minha casa, cerca de quase trinta minutos eu estava chegando na entrada do condomínio.
A portaria liberou minha entrada, respirei fundo e coloquei o pé no acelerador entrando para dentro. Minhas mãos começaram com uma sudorese, eu já sabia o porquê dessa reação no meu corpo, sabia muito bem. Entrei até o final, minha casa era a última no condomínio. Era um local de classe média, as residências eram sobrados sofisticados e com um gramado impecável, que era cuidado pelo jardineiro do condomínio.
Desacelerei o carro e virei o volante entrando na frente da minha casa. Como era um condomínio fechado, não havia portões, as casas eram separadas por cercas nas laterais, e nada mais.
Estacionei meu carro dentro da cobertura, desci e peguei minhas coisas no porta malas.
Era em torno de 15:45 da tarde, estava ensolarado e quente. Já dentro da casa, coloquei as chaves do carro na estante e abri as janelas, subi para o andar de cima indo até meu quarto, coloquei
minha batina no armário e fui abrir a janela para ventilar o ambiente. Não devia ter feito isso!
Puxei a cortina de linho bege e abri a janela de vidraça. Quando olhei para fora, logo a minha frente vi a garota na piscina nadando lentamente. Ela estava com uma vestimenta muito pequena e seu corpo estava praticamente todo exposto. O reflexo do sol batia na sua pele molhada e reluzia. Seus cabelos que mais parecem de fogo estavam esparramados na superfície da água. Ela submergiu da água e me viu na janela.
- Oi Padre Matteo.
balançou a mão acenando pra mim.
Ergui levemente a minha sendo simplesmente cordial.
- Não quer entrar na piscina comigo? Está muito calor hoje. ela gritou da água sorridente.
- Não, obrigado!
respondi seco.
Saí da janela, e me afastei para que ela não tivesse minha visão mais. Por Deus, como vou ficar no meu quarto em paz com essa garota na piscina bem na frente da minha janela. Sentei na cama e podia ouvir suas batidas de braço na água nadando. Ela estava com aquela mesma música tocando alto, Enigma - Return to Innocence. Todas as vezes que eu vinha para minha casa descansar, eu escutava daqui ela ouvir aquela música incansavelmente. Ela não se cansa de ouvir sempre a mesma música?
Desci para baixo e fui até a cozinha, peguei uma maçã na fruteira sob a mesa e cortei em quatro partes. A irmã Scarlet costumava vir durante a semana cuidar da limpeza da minha casa, e ela deixava alguns alimentos toda sexta de manhã frescos pra mim. Me sentei
na escadaria, e ainda sim eu ouvia ela se debatendo na água e risos, ela ria sozinha.
Depois que comi ali mesmo na escada a fruta, fui para a sala e me sentei na poltrona, coloquei meus óculos de leitura e abri a Bíblia, estava lendo Genesis, o versículo que dizia sobre a criação da mulher.
" Mas, o Altíssimo criou Adão e Eva para serem seres livres, capazes de escolher entre o bem e o mal. Deus queria que o amor dos seres humanos para com Ele fosse por livre e espontânea vontade, e não algo imposto."
Notei que os barulhos de água haviam cessado. Agradeci por aquilo, eu estava perturbado com ela se debatendo constante com aquelas vestimentas ao lado da minha casa. Voltei minha atenção de novo a leitura na poltrona, quando ouvi a campainha tocar, duas vezes seguidas.
Quem poderia ser? Eu não costumava receber ninguém quando vinha pra cá. A única pessoa que vinha até minha residência era a irmã Scarlet para fazer a faxina semanal. Mas hoje não era o dia dela vir. Apoiei meus óculos sob a Bíblia na mesa ao lado e me
levantei da poltrona, girei a chave destrancando a porta. Quando abri, era a encarnação do demônio na minha porta.
- Oi Padre Matteo.
ela disse com um sorriso largo.
- Pois não. Algum problema no condomínio?
- Sim, porém na minha casa. Minha porta do guarda roupas caiu e eu não sei colocar de volta. Precisa usar a chave de fenda.
Olhei aos arredores brevemente para ver se não havia algum vizinho observando. Ísis era chamativa, e falava alto. E o pior de
tudo, ela estava na frente da minha porta trajando aquela vestimenta promíscua. Era um tecido muito pequeno e de cor branca, e estava molhado. Por Deus!
- Não posso ajudar. Não tenho chave de fenda, com licença. Me afastei para fechar a porta.
- Mas eu tenho Padre, aqui está. Só não sei colocar a porta de novo. Pode me ajudar?
ela levantou de uma de suas mãos a ferramenta.
Sorri desconfortável, sua audácia era surpreendente todas as vezes que ela vinha até mim.
Ela continuava ali, parada na minha porta esperando uma resposta com um sorriso no rosto, e com aquela roupa promíscua. Eu olhava seu rosto, ou baixava meu olhar para o chão evitando ao máximo ver seu corpo. Minha vontade era fechar a porta e passar as chaves, mas minha educação não me permitia agir com essa grosseria.
- Você pode pedir ao seu pai para ajudar você.
eu disse esperando que ela concordasse e saísse dali.
- Ele não está em casa. Só volta amanhã, e eu preciso da minha porta encaixada.
Ela estendeu a chave de fenda na minha direção e me olhava de uma forma muito estranha, eu fiquei muito nervoso com aquele olhar que ela me lançou e senti meu rosto queimar.
- Estou um pouco ocupado agora. Estou lendo a Bíblia. Ela sorriu de orelha a orelha.
- É mesmo? Está lendo o que?
- Sobre a criação do Senhor.
- Muitos dizem que a melhor obra que Deus fez foi a mulher. Você não concorda Padre Matteo?
Ela disse e jogou seus cabelos de fogo pro lado e deu uma volta na ponta dos pés sorridente. Depois que girou, espalmou suas mãos com as unhas pintadas da cor do pecado, de um vermelho forte em meu peito.
- A melhor criação foi Os Dez Mandamentos. Acho que todos deveriam cumprir as leis de Deus.
eu disse a ela calmamente.
Ísis passou por mim e entrou dentro da minha sala, fiquei estarrecido. Ela tinha que sair dali o quanto antes. Já dentro, viu a Bíblia apoiada na mesa ao lado da poltrona e se jogou sentando com aquela vestimenta molhada e pegou minha Bíblia nas mãos.
- Padre, você poderia me mostrar onde está as leis dos dez mandamentos? Eu não lembro de todos eles.
Coloquei as mãos no meu rosto, ou ela não tinha noção nenhuma, ou sabia muito bem provocar. O que os moradores iriam pensar de mim se algum deles viu ela entrar na minha casa dessa maneira.
Peguei a Bíblia das suas mãos e fechei colocando sobre a mesa ao lado de novo. Ísis me olhou sem entender, e me olhava com aquele rosto de menina. Ela se levantou e ficou bem próxima de mim, engoli minha saliva em seco. Ela estava tão próximo que eu podia ver cada pinta das sardas que ela tinha no rosto, e algumas nos
lábios. Ela era extremamente ruiva, até mesmo suas sobrancelhas eram ruivas, seus cabelos de fogo batiam na cintura, e cintura essa que era fina e curvilínea. Seus seios eram grandes. E era dona de uma boca de um tom avermelhado natural.
- Padre, você está nervoso?
- Não, porque estaria?
Ela levantou uma de suas mãos de unhas de tom do pecado e levou até minha testa, passando seu polegar entre minha pele e meus cabelos.
- Está suando.
- Ísis seu nome não é? Então Ísis, eu acho melhor você ir para sua casa. Estou realmente ocupado.
Ela sorriu e mantendo o sorriso no rosto foi descendo seu olhar em mim para baixo, e cada vez mais para baixo, até chegar onde não deveria ter olhado. Ela segurou o olhar ali por alguns segundos e subiu de uma só vez para meus olhos de novo.
- Outro dia sonhei com você Padre Matteo. Mas acho melhor nem contar. Você não ia gostar de saber o teor do meu sonho.
Ela riu tapando a boca, em seguida pegou a chave de fenda que estava em minhas mãos e foi em direção a porta. Antes de sair pra fora, parou na porta e me olhou por cima dos ombros.
- Talvez você tenha mesmo que se ocupar agora Padre. Eu peço para meu pai arrumar pra mim amanhã. Até logo.
Ela fechou a porta e saiu. Soltei minha respiração que eu estava segurando e respirei aliviado.
- Por Deus, isso só pode ser obra do maligno contra mim.
Subi para meu quarto e puxei a cortina bege tapando toda a visão que dava para fora. Eu estava com meu membro extremamente endurecido por ela. Me ajoelhei aos pés da cama segurando meu crucifixo firme, e fiz uma oração pedindo perdão pelos pensamentos sujos que estavam surgindo na minha mente. Eu não queria sentir
isso, eu estava sofrendo. Sofrendo por não conseguir controlar algo dentro de mim que estava se acendendo, e eu sabia muito bem o que era ... O desejo carnal.
Passei o resto do dia com aquela perversa na minha mente, e a imagem dela na minha sala se mantinha firme nos meus pensamentos, vestida como uma mulher mundana, promíscua e suja. Tentei ocupar minha cabeça lendo a Bíblia e preparando a
próxima apostila para os seminaristas. Consegui com esforço tirar ela do foco, e finalizar meus deveres. A noite, deitei e dormi. Mas aquele maldito sonho aconteceu de novo, me levantei da cama e estava novamente sujo. Em oração me puni no banho me culpando pelos meus sonhos.
Dia Seguinte
Era sábado, acordei cedo. Seis da manhã eu estava em pé preparando meu café da manhã. A missa iria iniciar na igreja do Esplendor as 07:30. Assim que me arrumei, tomei meu café e saí. Estacionei o carro na parte de trás da igreja, onde os sacerdotes tinham a vaga disponível. Peguei minha batina no porta malas e
entrei. Cumprimentei quem já havia chego, e fui para a sacristia me preparar.
A Sacristia é um pequeno cômodo anexo a igreja, ou dependência dela, onde são guardados os paramentos e outros objetos de culto, e onde nós vestimos as vestes do culto, no meu caso a batina.
Vesti minha batina com cuidado e coloquei meu cordão de crucifixo no pescoço. Peguei minha Bíblia e fui para o altar no púlpito preparar a missa da manhã. Eu conversava com alguns coroinhas quando os fiéis começaram a entrar e se acomodar nos bancos.
Não olhei para o público. Fiquei focado em minha Bíblia anotando as passagens bíblicas que eu iria dizer na missa depois de ler o evangelho.
A missa ia se iniciar, e a canção de entrada foi tocada. Enquanto a música tocava eu entrei com os coroinhas e os sacerdotes pelo corredor cantando um coro único. Assim que chegamos no altar, fui para o púlpito e cumprimentei todos os fiéis.
Quando olhei a multidão, vi seus cabelos de fogo, eles eram presentes e chamativos. Ela estava sentada no primeiro banco da
frente, como sempre fazia propositalmente, e se não bastasse, me olhava o tempo inteiro, sem desviar o olhar, sem sorrir, séria.
Durante a missa evitei meu contato visual com ela. Mas eu sentia seus olhos esverdeados me olhar o tempo todo, me queimar, eu sentia, eu sei que ela estava me olhando. Enquanto eu falava sobre o evangelho no microfone olhando para a multidão, ela chamou minha atenção jogando aqueles malditos cabelos de fogo cumpridos para o lado. Olhei pra ela, quando nossos olhos se cruzaram, Ísis afastou as pernas no banco, ela usava uma saia branca e uma blusa preta.
Desviei o olhar assim que a vi abrindo as pernas e voltei a falar o evangelho no microfone. Mas o meu maldito instinto aguçou, eu desejei olhar de novo pra ela, tentei me controlar enquanto dizia a palavra no púlpito, não consegui. Lancei o olhar para ela, ela estava me olhando fixo, e quando cruzamos os olhos ela abriu as pernas de novo e vi sua calcinha. Ela estava bem no banco da frente, eu pude ver ela úmida, o tecido estava úmido. Subi o olhar para seu rosto, ela mordeu os lábios e sorriu de canto.
- Demônia pecadora.
Falei em voz alta me esquecendo que estava com o microfone
ligado. Os fiéis me olhavam sem entender a frase que eu havia dito.
- Repitam comigo, Santa Curadora, curai aqueles que andam no caminho do fogo.
Ela estava me tirando o foco completamente, olhei pra ela que ria de canto com cara de satisfeita pra mim.
Agradeci a Deus quando a missa terminou. Os fiéis foram saindo ainda com os cânticos. Eu desci do púlpito e estava indo em direção a sacristia, quando senti alguém tocar meu pulso. Me virei, e era a pecadora.
- Padre Matteo, posso ir até sua casa hoje? Quero me confessar.
Ela me olhava inocentemente enquanto passava o sacerdote ao nosso lado. Mas assim que ele se afastou, seu olhar era outro. Era profano, era ousado e sexy.
- Confissões são feitas na sala do confessionário, aqui na igreja. Não na minha casa.
- E eu preciso ficar ajoelhada na sua frente enquanto digo meus pecados Padre Matteo?
Respirei fundo.
- Não. sorri sem graça. Você fica ajoelhada no âmbito, mas fora da cabine no confessionário.
- Entendi. Achei que eu ficava ajoelhada aos seus pés e depois você me punia quando eu contasse meus pecados.
Olhei para os lados, alguém poderia estar ouvindo os seus absurdos profanos. Porque eu sabia que eram absurdos que ela dizia. Aquilo não podia ser ingenuidade da sua parte.
Eu disse a Ísis que em outro momento ela se confessaria, mas não hoje. Eu não me sentia a vontade para ouvir suas confissões nesse momento. Fui até a sacristia e troquei de roupa. Deixei a minha batina pendurada no cabide ao lado da mesa onde estavam acomodadas as alfaias litúrgicas. Eu a usaria no dia seguinte, na missa da manhã. A igreja estava sendo fechada pelas irmãs, eu já estava de saída, me despedi de quem ainda estava presente e fui para a ala de trás onde estava meu carro. Quando virei o corredor, vi ela encostada no meu carro.
- O que faz aqui garota?
- Pensei que poderia me dar uma carona até em casa Padre.
Coloquei minhas mãos na cintura. Isso não podia estar acontecendo, não comigo. Por Deus, eu não mereço essa cruz. Não fiz nada para ter que carregar essa cruz Senhor. Pensei comigo.