Elisa POV:
O escritório do Dr. Dantas era um borrão de papéis e tons abafados. Ele havia encontrado um apartamento pequeno e discreto para mim. Não era chique, apenas um apartamento de dois quartos em uma parte tranquila da cidade. Eu não me importava com as comodidades. Tudo que eu precisava era de um lugar para ficar sozinha, um lugar onde eu pudesse respirar. "Apenas me coloque lá esta noite", eu disse a ele, minha voz rouca. "Não me importo com mais nada."
Já era noite quando voltei para a mansão, a casa enorme parecendo mais fria e vazia do que nunca. Cada passo era um esforço, meu corpo pesado com a gravidez avançada. Fui direto para a cozinha, uma rotina familiar. Guilherme chegaria tarde, como sempre. Ele gostava da minha comida, ou pelo menos, costumava gostar. Comecei a preparar seu salmão favorito, temperando-o do jeito que ele preferia, pincelando-o com molho de maracujá. O aroma encheu a cozinha, um cheiro agridoce. Era automático, esse desejo de agradá-lo, um hábito profundamente enraizado após sete anos. Suspirei, percebendo o quanto de mim eu havia perdido, o quanto eu havia moldado minha vida às suas preferências.
Horas se passaram. O salmão ficou sob uma lâmpada de aquecimento, depois no forno, depois de volta sob a lâmpada. Eu o reaqueci duas, três vezes. A cada vez, uma nova onda de desespero me invadia. Ele não viria. Ou viria, mas muito, muito mais tarde.
A porta da frente finalmente rangeu bem depois da meia-noite. Ouvi seus passos pesados, depois o leve cheiro de um perfume estrangeiro. Não o meu. O de Kiara. Ele se agarrava a ele, doce e enjoativo. Meu estômago se revirou. Senti um pavor gelado se instalar em meu peito, confirmando todas as suspeitas. Meus olhos correram para o pescoço dele. Uma leve marca vermelha, quase imperceptível contra sua pele bronzeada. Minha respiração falhou.
Ele tropeçou na cozinha, os olhos vidrados, cheirando a álcool. Mal registrou minha presença. Viu o prato de salmão. Seu lábio se curvou. "O que é isso? Tentando bancar a esposa dedicada de novo, Elisa? Pescando por simpatia?"
Ele passou por mim, seu ombro roçando o meu, e foi para as escadas. Nem esperou por uma resposta. Meu olhar caiu para sua mão esquerda. Seu dedo anelar estava nu. Completamente. Sem marca de sol. Sem reentrância. Como se ele nunca tivesse usado uma aliança de casamento. Meu coração se partiu em um milhão de pedaços.
"Guilherme", sussurrei, minha voz rouca, quase inaudível. Ele parou, um pé no primeiro degrau, depois se virou, sua expressão indecifrável.
"Os papéis do divórcio", continuei, minha voz ganhando força. "Estão na sua mesa. Assine. Por favor."
Ele riu, um som sombrio e sem humor. "Divórcio? O quê, você encontrou outro documento? Outro 'mal-entendido'?" Ele zombou. "E eu aqui pensando que ainda estava vivo." Ele riu de novo, um som áspero e irritante que me deu arrepios.
Então ele acendeu um cigarro, a fumaça acre enchendo o ar, apesar da minha gravidez óbvia. Ele não se importava. Ele nunca se importou.
"Não vamos esquecer, Elisa", ele disse, dando uma tragada, os olhos estreitos. "Você era simplesmente uma garotinha de um evento de caridade. Um projeto. Você deveria ser grata por eu ter sequer olhado para você." Ele soltou uma nuvem de fumaça, observando-a se dissipar. "O testamento, como você tão delicadamente colocou, é apenas uma formalidade. Kiara tem um coração fraco. Ela é frágil. É para garantir que ela seja cuidada, caso algo aconteça comigo. Uma contingência, como eu disse."
Ele parecia tão sincero. Tão preocupado. Minha mente repassou a cena na clínica, o rosto gentil da médica, a imagem saudável do meu bebê na tela. Minha mão instintivamente foi para minha barriga. Ele se preocupava com o coração frágil de Kiara, mas e o meu? E a criança crescendo dentro de mim?
Uma década. Dez anos atrás, ele era apenas um jovem desesperado, agarrando-se à vida. Eu o encontrei, sangrando, após um atropelamento e fuga. Eu o tirei dos destroços, ignorei os apelos da minha família para deixá-lo para as autoridades e fiquei ao seu lado durante semanas de recuperação. Eu até levei uma facada por ele durante uma tentativa de assalto, uma memória que ainda me dava calafrios.
No hospital, sua voz estava embargada de emoção, seus olhos cheios de promessas. "Elisa", ele engasgou, segurando minha mão, "eu juro, se eu sobreviver a isso, farei de você a mulher mais feliz do mundo. Vou herdar o legado da minha família e te darei tudo. Minha vida. Meu amor. Minha fortuna." Ele até jurou: "Se eu algum dia te trair, que Deus me fulmine."
Ele herdou o legado. Ele construiu um império. Mas a felicidade? Essa foi para Kiara. Meu casamento foi um evento discreto, uma cerimônia no cartório. Meu vestido era alugado. Meus votos foram trocados com a realidade fria e inflexível de um acordo pré-nupcial.
Eu ri, um som seco e amargo que machucou minha garganta. Meus olhos ardiam, mas nenhuma lágrima veio. "E aqueles votos, Guilherme?", perguntei, minha voz mal um sussurro. "Você se lembra deles? Ou esqueceu deles também, junto com todo o resto?"
Seu rosto ficou rígido, seus olhos se tornando frios e perigosos. "Não traga o passado à tona, Elisa. Acabou. Terminou." Ele deu outra tragada no cigarro, depois o esmagou em um cinzeiro próximo. "O que você quer, então? Quanto dinheiro vai custar para você desaparecer?"
Meu coração despencou, os últimos vestígios de esperança se desfazendo em cinzas. Ele achava que tudo podia ser comprado. Tudo tinha um preço. E meu amor? Meu sacrifício? Era apenas mais uma mercadoria para ele.
"Nada", eu disse, minha voz quase inaudível, forçando a palavra a sair. "Não quero nada de você. Apenas assine os papéis. Me deixe ir. Em paz."
Virei-me, de costas para ele, e comecei a andar. Sua voz, rouca de raiva súbita, cortou o silêncio. "Você vai se arrepender disso, Elisa! Você vai se arrepender de me deixar!"
Eu não olhei para trás. Não havia mais lágrimas para ele. Apenas para a garota que eu costumava ser, aquela que acreditava em um amor que nunca existiu.
Elisa POV:
A porta da frente bateu com tanta força que a casa inteira tremeu. Ouvi o ronco do motor do carro dele, depois o silêncio. Ele tinha ido embora. De novo.
Voltei para a sala de estar, meus olhos caindo em sua mesa. Os papéis do divórcio haviam sumido. Substituídos por uma bagunça amassada na lixeira. Ele os havia rasgado em pedaços. Por quê? Por que ele não podia simplesmente me deixar ir? O que restava para ele aqui?
Meu celular vibrou, vibrando contra a madeira polida da mesa. Uma mensagem. De Kiara. De novo.
Era uma foto. Kiara, sorrindo, a cabeça aninhada no ombro de Guilherme. O braço dele estava ao redor dela, possessivo. A legenda dizia: "Guilherme é finalmente meu agora. Você bem que tentou, querida. Mas algumas coisas simplesmente têm que ser."
Meu estômago se contraiu. Isso não era novo. Por meses, às vezes até anos, ela vinha me mandando essas pequenas 'atualizações'. Fotos casuais deles jantando, uma menção sutil a uma escapada de fim de semana, um rabisco infantil que ele havia desenhado para ela. Ela sempre se fazia de artista inocente e frágil, mas suas mensagens eram cheias de veneno. Ela até tentou 'desabafar' comigo sobre ele uma vez, fingindo ser minha confidente. "Ele é tão exigente, Elisa", ela choramingou, "sempre colocando o trabalho em primeiro lugar. Eu queria que ele relaxasse, fosse mais divertido, como ele é comigo."
O celular vibrou novamente. Outra mensagem, outra foto. Esta, um close. Guilherme, dormindo, a cabeça no travesseiro dela. E ele estava usando... meu pijama de seda. Aquele que eu comprei para ele, para o nosso aniversário, no mês passado.
"Ele é tão fofo quando dorme", dizia a mensagem de Kiara. "E tão protetor comigo. Não se preocupe com o testamento, Elisa. É só uma coisinha boba que o Guilherme fez para me fazer sentir segura. Ele me ama. Ele sempre me amou." Então, as linhas que me deram um calafrio na espinha. "Ele disse que você tem covinhas, assim como eu. E nosso bebê... ele espera que o bebê tenha uma covinha também. Para se parecer comigo."
Meu sangue gelou. Covinhas. Minhas covinhas distintas. Aquelas que Guilherme sempre admirou. As que ele dizia que faziam meu sorriso iluminar uma sala. Não era sobre meu espírito indomável, ou meu sorriso encantador. Era sobre minhas covinhas. Porque Kiara também as tinha. Ele queria um filho com minhas covinhas, para ela.
Meu estômago revirou. Corri para o banheiro, segurando a boca. Vomitei, a bile queimando minha garganta. Mas não era apenas náusea física. Era nojo puro e absoluto. Nojo dele, dela, de mim mesma por ter sido tão completamente cega. Olhei no espelho, minhas próprias covinhas zombando de mim, torcendo meu rosto em uma máscara grotesca.
Ele não me amava. Ele me cultivou. Me escolheu. Porque eu me parecia com ela. Eu era um recipiente de reprodução. Uma barriga de aluguel. Uma substituta para uma mulher que não podia ter um filho, mas que podia carregar seu nome, seu amor, sua fortuna.
Um grito cru e gutural rasgou minha garganta. Meu coração parecia ter sido arrancado do meu peito, deixando um buraco aberto e sangrando.
Meus dedos voaram pelo teclado, trêmulos. Digitei uma única mensagem de volta para Kiara: "Aproveite suas roupas de segunda mão, sua desculpa patética de ser humano."
Quase imediatamente, meu celular tocou. Guilherme. O nome dele brilhou na tela. Lembrei-me de como ele uma vez gritou comigo por eu sequer ousar sussurrar uma queixa sobre Kiara, acusando-me de ciúmes, de ser mesquinha.
Sem pensar duas vezes, toquei em "bloquear". E depois em "apagar".
Minhas mãos ainda tremiam, mas uma calma estranha se instalou em mim. Reservei um caminhão de mudança online. Para amanhã de manhã. Eu não tinha muito. Apenas algumas caixas de livros, algumas roupas, uma coleção de fotos antigas. Nada que me lembrasse dele. Nada que pertencesse a nós.
Andei pelos vastos e vazios cômodos da mansão uma última vez. Esta casa extravagante, esta gaiola dourada. Nunca foi um lar. Foi um palco para sua elaborada farsa.
Respirei fundo, um suspiro trêmulo. O ar, pesado com seu engano, de repente pareceu mais leve. Eu estava livre.
Peguei um vaso de planta velho e empoeirado que encontrei no conservatório, uma figueira esquecida lutando por luz. Levei-o para o carro, colocando-o gentilmente no banco do passageiro. Este era meu novo foco. Nova vida.
De volta ao meu novo apartamento, as paredes brancas e nuas pareciam... limpas. Vazias, sim, mas limpas. Replantei a figueira, colocando-a perto da janela onde o sol da tarde entrava. Parecia pequena, vulnerável, mas determinada. Assim como eu.
O telefone tocou novamente. Um número privado, discreto. Hesitei, depois atendi. Era o assistente dele.
"Sra. Bastos", sua voz era seca e formal. "O Sr. Bastos gostaria de falar com a senhora."
Então, a voz de Guilherme, fria e furiosa, cortou. "Elisa. Que diabos você pensa que está fazendo? Por que está tentando provocar a Kiara? Ela é delicada, você sabe disso! A condição cardíaca dela a torna altamente suscetível ao estresse."
Ele mencionou o coração dela de novo. Sempre o coração dela. Nunca o meu. Nunca a vida crescendo dentro de mim.
"Vá para casa, Elisa", ele continuou, sua voz suavizando, um tom manipulador se insinuando. "Volte, e podemos esquecer tudo isso. Eu até te perdoo por seu surto. Apenas volte para casa. E me dê meu filho."
Meu aperto no telefone se intensificou, meus nós dos dedos brancos. Ele não se importava comigo. Ele só se importava com a criança, com o herdeiro que ele precisava para Kiara. Ele sempre tinha um plano, um cálculo. Eu era apenas um peão em seu jogo.
"Elisa? Você está me ouvindo?" Sua voz estava impaciente agora.
Eu não respondi. Apenas apertei o botão "encerrar chamada". Então bloqueei o número dele novamente. E apaguei o contato.
Eu não provocaria Kiara. Eu não os perturbaria. Eu simplesmente desapareceria.