Nunca imaginei que um dia fosse trabalhar na AMB. Na verdade, sempre quis seguir o balé
clássico. Mas, depois do que o cafajeste falou pra mim quando eu tinha apenas dezoito anos, minha
cabeça mudou. Fiz das tripas coração, e me reinventei nesses últimos seis anos.
Queria voltar e mostrar àquele miserável que ele sempre esteve enganado a meu respeito. Era
uma necessidade doentia fazê-lo enxergar isso. E, Deus me perdoe, mas papai adoeceu em um
momento oportuno. Eu não poderia ter voltado em um cargo melhor: igual a Enzo, no mesmo nível.
Estou radiante de felicidade.
Apenas duas coisas me incomodam. A primeira é que Enzo está um arraso de tão lindo. É quase
ilegal. Nada mais de rosto liso; agora ele usa uma barba cultivada por uns cinco dias, bem-aparada.
Coisa de deixar qualquer mulher louca. Merda! O cara ficou gostoso demais, e tenho medo de que
isso possa me prejudicar. E a segunda diz respeito ao namoro meio forçado com Jorge.
Ele é meu primo, uma boa pessoa, e fico meio chateada em ter de enganá-lo, mas, segundo as
meninas, é isso ou ter de encarar o desgraçado do Enzo como se eu fosse uma incompetente sem
ninguém na vida. Deixarei esse papel para ele, agora que está divorciado.
Ah, sim. Quase me esqueci de debochar sobre isso. Ele foi traído. Corneado. Chifrado. Quando
eu soube, senti vontade de vir ao Rio para rir na cara dele. Mas me controlei e fiquei de longe, só
observando.
***
Esta noite eu não dormi direito, só na expectativa. E minha chegada foi melhor do que sonhei:
triunfal, mágica, quase um eclipse total. Adorei cada momento, cada expressão de Enzo, cada
arregalar de olhos. Fiquei horas na cama, relembrando com o sorriso do coringa estampado na
minha cara.
Levantei-me como uma diva. Tomei banho, preparei café, me vesti adequadamente e arrumei
meus cabelos. Tudo ao som da minha voz cantando, como em um musical da Broadway, sentindo-me
a Barbra Streisand em Funny Girl. Tentem, algum dia, pisar nos adversários com salto quinze. É
rejuvenescedor.
***
Júlia me preveniu que, devido ao histórico de cara de pau de Enzo, é bem capaz de eu receber
uma visita a qualquer momento. Homens simplesmente não sabem perder, e não querem ser
ignorados. E dei todos os motivos para Enzo ficar desconfortável. Ignorei-o, voltei linda, poderosa, e
ainda namorando o cara que ele mais odeia.
Rá! Fiz a lição de casa direitinho e, quando soube que ele e os amigos nutrem sentimentos ruins
em relação a Jorge, não pensei duas vezes: aproximei-me do meu primo e agora estamos juntos, há,
exatamente, dois meses. Não vou dizer que é ruim. Jorge é bonitinho, carinhoso e independente. Não
é perigoso, selvagem, nem gostoso como Enzo, claro, mas está valendo. O importante é que
funcionou.
É impagável a cara que os três fizeram quando apresentei Jorge como meu namorado. Eu queria
tanto ter tirado uma foto e mandado para Júlia. Ela iria fazer um pôster e colocar em sua sala.
Júlia e Dani conhecem todos os babados a respeito desses três. Davi está namorando agora,
voltou com uma namorada antiga; Max e Enzo tentam corromper o coitado. Júlia e Dani vêm
observando-os há tempos, e Júlia meio que desenvolveu um sentimento platônico por Max. Não
consigo entender como alguém tão centrada, esperta e amorosa como Júlia pode se interessar por um
homem bonito e rico, mas que usa o pênis para raciocinar. Dos três, suspeito que Max seja o mais
idiota. Ou é o Enzo? Ou Davi? Deixa pra lá, são todos da mesma laia.
***
Minhas primeiras horas na empresa foram satisfatórias. Marisa e Jorge me levaram para
conhecer todo o prédio. Depois, desempacotei algumas coisas e organizei-as na minha nova sala.
Não vou redecorar, apenas trouxe umas coisinhas minhas para enfeitar o lugar. Papai me deu carta
branca para fazer o que eu julgasse melhor, nunca o vi tão feliz em toda minha vida. Esqueci tudo o
que Enzo me disse sobre a comparação com minha mãe, pois acho que meu pai não faria isso; foi
invenção do babaca do Enzo. Com certeza.
Como sou a Diretora Financeira, preciso dar uma olhada nas contas da empresa e nas dos
principais clientes. Marisa me informou que Enzo cuida dessa parte, e ele está em posse das contas
dos principais clientes.
Como ainda não estou pronta para ir atrás dele, comecei a fazer outras coisas.
***
Então, mais tarde, aconteceu justamente o que Júlia e Dani previram.
Ele sumiu o dia todo, mas, às quatro e meia da tarde, apareceu, quando eu estava na mesa de
Marisa tentando remarcar uma reunião com investidores para amanhã à tarde, já que agora precisava
ir para casa ver papai. Jorge vai comigo e jantaremos lá.
Ouço um discreto pigarro atrás de mim. Fico meio sem graça, pois estava em uma posição
pouco confortável, quase debruçada sobre a mesa, com a bunda empinada. Assim que vejo a
expressão de Marisa se iluminar, entendo quem é.
Ajeito-me e viro.
— Gostaria de conversar com você — Enzo fala. Está meio aflito, meio inseguro. Gosto de ver
essa cara dele.
Não respondo. Volto-me para Marisa.
— Me chame se conseguir algo.
— Deixa comigo, Malu.
Viro para ele. Lembro-me de manter o queixo empinado e o olhar firme. Nada de brechas.
— Venha até minha sala — digo.
— A gente podia sair… já está quase no fim do expediente — Enzo propõe, demonstrando um
comedimento que não é comum nele.
Olha só, a putinha mimada está sendo convidada para sair. Se eu ainda fosse aquela besta,
certamente sairia correndo atrás dele.
Queria dar uma resposta maldosa, mas, como as meninas aconselharam, não posso brigar, nem
ser mal-educada, ou acabarei dando a impressão de que ainda estou ressentida, de que ainda guardo
alguma coisa do passado. Posso até guardar, afinal, uma paixão não se esquece fácil, mas ninguém
precisa saber o que se passa dentro de mim, certo?
Olhando-o tão de perto, sinto um arrepio. O homem é a virilidade em pessoa.
Geralmente homens têm um defeito odioso: eles ficam mais belos com o passar do tempo.
Sem dar pinta de estar nervosa, falo devagar:
— Não vai dar, Enzo. Vou jantar com Jorge. — Olho para meu relógio. — Tenho quinze
minutos. Venha para a minha sala.
Ele assente. Viro-me nos saltos quinze e começo a andar na frente dele. É uma necessidade
insuportável fazê-lo ver o que perdeu. Mexo os quadris para lá e para cá, e avançamos pelo corredor
sem dizer nada. Sedução sutil é o meu lema. Tenho de deixá-lo enlouquecido, só para pisar nele.
Entramos na sala, vou para trás da mesa e espero que ele feche a porta. O cara está um escândalo
em um terno cinza-claro e gravata azul. Os cabelos não viram pente hoje, acho que ele os ajeitou
apenas com a mão, e está tão sexy que chega a ser um absurdo. Uma perdição. Ainda bem que eu já
estava preparada.
— Sente-se, Enzo — indico a cadeira de frente para mim. Ele se senta, então me sento na cadeira
executiva do meu pai. — Sou toda ouvidos. É algo com a empresa que eu deva saber?
— Não. Quero falar sobre a gente — ele retruca rápido e sucinto.
Passo a mão pelos cabelos, jogo-os para o lado, deixando minha orelha à mostra. Cruzo as
pernas e seguro meu pequeno brinco, acariciando-o com o polegar e o indicador.
O que ele tem de beleza, tem de cara de pau.
— Sobre a gente? Como assim? Não entendi — arqueio as sobrancelhas.
— Malu, nós não tivemos a melhor despedida anos atrás, e antes, por longos meses, ficamos
numa relação meio platônica. Você queria…
— Eu era menina, Enzo. Como você disse, aconteceu anos atrás — interrompo-o. Nunca vou
deixá-lo se desculpar, para depois agir como se tudo estivesse acertado entre a gente.
— Sei bem o que eu disse.
— Que bom. Então, que fique bem claro, não há nada entre a gente. Eu mal te conheço; vamos
apenas trabalhar juntos e seguir nossas vidas — afirmo, deixando meu brinco de lado e cruzando as
mãos sobre a mesa.
Ele engole em seco e franze o cenho.
— Mal me conhece? Quase morei na sua casa.
— Vai por mim, não nos conhecemos.
Ele bate na perna e olha para os lados. Sua mão passa rapidamente pela boca e depois sobe para
os cabelos. Está começando a perder a paciência.
— Só queria que não houvesse um clima estranho entre a gente. — Ele volta a me encarar. —
Como eu disse, não tivemos uma boa despedida — Enzo ressalta.
— Acredite, não haverá clima algum entre a gente — contraponho, séria.
Ele se mexe desconfortável na cadeira.
— Espere, Malu, me deixe falar. Eu preciso… me desculpar…
— Não há o que desculpar — antecipo.
Ele me encara, parece que prendeu a respiração. Por um instante, sinto pena de Enzo, mas
depois, quando lembro quem ele é, a alegria em vê-lo assim me invade.
Ele passa a mão na testa, como se a massageasse.
— A gente vai ter uma convivência agora… Preciso esclarecer as coisas…
— Enzo…
— Não, Malu, espere. — Ele coloca a mão na frente. — Eu disse coisas… estava nervoso.
Descruzo as pernas e me recosto na cadeira. Em silêncio, lembro-me daquele dia humilhante. A
crueldade que vi nos olhos dele não demonstrava nervosismo, mas, sim, ódio.
Estou coçando para insultá-lo, mas abro a boca e digo:
— Compreendo. Era o seu dia, estava se casando com a mulher que você ama, então…
— Não a amo — ele interrompe, brusco e hostil.
Isso soa como música para os meus ouvidos. Quero pular em cima da mesa e sambar, entretanto
me faço de horrorizada.
— Não ama sua esposa?
Após ouvir o que eu disse, presencio nos olhos cinza dele a sombra de uma raiva selvagem,
quase como aquela que vi no dia do casamento.
— Não se faça de cínica, Maria Luíza — irritado, ele gesticula impaciente. — Você sabe que não
estou mais casado.
— Não está mais casado? — Faço uma cara inocente, espantada até. — Por que eu saberia?
Fiquei fora durante seis anos e não fiz questão de te seguir no Twitter. Não vi suas atualizações.
Enzo se cala, a boca contraída e os lábios formando uma linha. Ele é tão lindo quando está
zangado. É lindo de qualquer forma. Sábado, na boate, quase joguei tudo pelos ares e agarrei esse
homem gostoso que me tira do sério. Se ele soubesse disso…
— Então, não está mais casado. — Meu tom é refletivo. — Não me diga que foi uma tragédia —
coloco a mão no peito e arregalo os olhos muito dramática. As meninas chorariam de rir com minha
atuação. — Lílian está bem?
A cabeça dele se inclina para o lado e os lábios repuxam. É um sorriso de irritação.
— Você é inacreditável. Sabe muito bem que ela me traiu.
— Oh, Deus! — murmuro, chocada. É claro que sabia, mas ouvi-lo confessar é a melhor coisa.
Que vontade de virar passista de escola de samba e sair pulando feito doida. — Enzo, sinto muito. —
Junto as sobrancelhas para demonstrar pena. — Você deve estar sofrendo bastante, afinal, se amavam
tanto. Ela era um exemplo de mulher.
Ele se levanta bruscamente e a cadeira quase cai. A expressão de ódio no rosto faria qualquer um
se afastar. Menos eu.
— O que houve? — Fico também em pé.
— Está me punindo, não é? Rindo de mim, debochando da minha situação.
Claro que estou, querido. Tenho vontade de aplaudir de pé a atuação de Lílian. O patife falou de
mim e acabou se casando com uma puta sênior. Mas não digo nada disso a ele. Quero deixá-lo pirado
fazendo-me de boazinha.
— Pare! Pare já com isso! — ralho com raiva na voz. Raiva falsa, claro. — Não estou
entendendo o que está acontecendo aqui. Por que ficou nervoso? Por eu ter dito que você amava sua
esposa? Isso é um fato, você mesmo me disse.
Ele esfrega o rosto com as mãos, depois leva os dedos aos cabelos lisos e os joga para trás.
Meus seios enrijecem, expressando minha excitação, junto com minha xoxota. É difícil ser uma
mulher tola e apaixonada.
Enquanto isso, Enzo caminha em minha direção. Os olhos suplicantes, os lábios meio
esbranquiçados.
— Você não pode apenas ignorar tudo? Seis anos atrás você disse que…
— Enzo, estamos trabalhando juntos agora. Quero e preciso ser profissional. — Cheia de
charme, cruzo os braços e recosto meu quadril na mesa. — Nada de seis anos atrás existe dentro desta
empresa. Não quero saber da sua vida e vou seguir a minha. Tenho um namorado e odiaria levantar
qualquer tipo de suspeita. Podemos apenas nos ignorar, assim sairemos bem disso tudo. O que me
diz?
Ele se vira de costas e coloca as duas mãos na cabeça. Vejo que respira fundo, transtornado.
Posso apenas admirar a vista. Já comentei que ele tem uma bunda de dar palpitações em qualquer
coraçãozinho?
Enzo se volta para mim.
— Sabe… sobre o que eu disse aquele dia… no dia do casamento…
— Não. — Ergo minha mão. — Não se precipite e peça desculpas. Você não me conhece. Posso,
sim, ser igual a minha mãe, uma vadia vagabunda — com uma calma cirúrgica o alerto.
— Sei que não é — ele se apressa em me interromper. Ignoro as palavras e continuo:
— Dou para qualquer um e fico frustrada quando um cara não quer me comer. Eu te entendo
agora. Você estava apaixonado e ia se casar com uma mulher maravilhosa, mas uma putinha queria
interromper seus planos.
— Não fale isso…
— Fique tranquilo. Se veio aqui me pedir que me afaste, se estiver com medo de que eu possa te
perseguir ou tentar qualquer coisa, não se preocupe, pois não vai acontecer. Afinal, putas também têm
amor próprio. — Espero que meu olhar esteja adequado às minhas palavras; ensaiei esse momento
por horas a fio.
— Você entendeu tudo errado. Não vim aqui para isso…
Antes de ele continuar, a porta se abre e Jorge entra. Ele olha para nós dois e sorrio para ele.
— Oi, querido. Já veio me buscar?
— Sim. Está pronta? — Temeroso, Jorge entra de olho em Enzo.
— Sim. — Pego minha bolsa e olho amigável para Enzo, que está pálido. — Enzo veio saber
sobre o papai, mas já está de saída.
Caminho para perto de Jorge. Ele envolve possessivamente minha cintura e sorri gracioso para
Enzo.
— Até mais, Brant.
***
Saio de mãos dadas com Jorge. Por dentro, estou como gelatina pura, mas me preparei para esse
reencontro. Eu tinha de parecer forte. E, com toda certeza, consegui. A expressão de arrependimento
de Enzo vai alimentar minha sede de vingança por enquanto.
Ainda não tenho um plano. As meninas querem que eu o sabote de alguma forma aqui dentro,
mas não sei se consigo fazer isso. Se eu sabotar Enzo, o prejuízo será de toda a empresa.
Porém, como sou sócia majoritária, no momento posso interferir em qualquer plano dele. Posso
tentar vetar algum projeto, ou algum caso novo que caia nas mãos dele. Ou melhor, posso indicar um
cliente bom para Max.
Esfregar minha beleza na cara dele não é suficiente, muito menos fazê-lo engolir Jorge. Preciso
de mais. Preciso de uma mente brilhante pensando por mim. Preciso ligar para Júlia.
— Divagando, meu bem? — Jorge acaricia minha mão quando paramos diante do elevador.
Levanto meu olhar para ele e dou um sorriso. Estou me sentindo culpada por estar usando o coitado.
— Estou pensando em alguns assuntos que Enzo comentou.
— Aquele cara já quer te empurrar problemas no primeiro dia? Puta que pariu, como ele é mala
— Jorge resmunga, verdadeiramente revoltado.
— Faz parte, Jorge. Até ontem, ele cuidava das coisas do papai. Creio que amanhã nós dois
passaremos o dia juntos, pois ele precisa me explicar todos os casos das contas do papai.
Pensar em passar o dia com um homem que desejo espancar e beijar ao mesmo tempo é meio
complicado. Não sei qual das duas opções vou acabar escolhendo.
— Tenha cuidado com aqueles três estúpidos. Eles são daquele tipo de caras que comem tudo o
que se mexe.
Sim, isso não posso contestar. Sinto um arrepio. Meio que segui Enzo por algumas semanas, e
me dá nojo só em lembrar a quantidade de mulheres que ele pegou.
— Enzo me pareceu sério — reflito.
O elevador abre, esperamos as pessoas saírem para a gente entrar.
— Sério é o cacete. Depois que a vadia da esposa dele o traiu, o cara se jogou no mundo da
putaria.
Sinto outro arrepio. Não sei por quê, mas a imagem de Enzo esbaldando-se com outras
mulheres me deixa meio inquieta.
— Eu sei me cuidar, Jorge. Mas, me diga, o que sabe sobre o casamento dele?
— Não muito. Quando o assunto é a vida pessoal, ele sabe ser bem discreto. Sei que ficaram
casados por um ano e meio, e, depois, ele descobriu que a mulher nunca terminou o relacionamento
com o outro cara.
Uau! Disso eu não sabia.
Entramos no elevador e ele me pergunta se eu vou passar em algum andar antes. Respondo que
não. Jorge escolhe o botão do térreo e aperta.
— Então, ela se casou mesmo estando com outro?
— Sim. Enzo, o irmão e o amigo fizeram da vida dela um inferno. Ela saiu do casamento quase
sem nada.
As portas estão quase se fechando, quando uma mão se espreme na abertura mínima e as portas
se abrem novamente.
Enzo olha para mim e Jorge. Nós dois damos um passo para trás ao mesmo tempo, assim que
ele entra no elevador, como se fosse um alerta de perigo.
As portas se fecham e ele se vira para mim, dá um sorriso tipo psicopata ou semelhante a
quando alguém pega outro no flagra. Engulo em seco.
— Brant, se você estiver muito ocupado amanhã, não precisa se preocupar, eu mesmo passo os
relatórios de Jonas para Malu. Conheço todas as contas — Jorge resolve intervir a meu favor. Não
sei se lhe agradeço ou se bato nele. Não sei se quero passar o dia com Enzo, ou se quero manter
distância dele. Contradição devia ser meu nome.
Enzo tira os olhos de mim e os vira, com interesse mortal, para Jorge.
— Acho que não conhece tanto quanto eu, que lido com os clientes. Você apenas lê os contratos.
— E não é o suficiente? — Jorge provoca. Sinto que uma retaliação vai começar.
Olha lá, o sorriso cínico.
— Ah, Jorge! Estou tão decepcionado — Enzo começa. — Trabalha há tanto tempo aqui e não
sabe que nossos clientes são mais do que pedaços de papel? Temos que ir a jantares ou almoços com
eles e saber, pelo menos, o básico sobre suas personalidades, seus costumes e sua família. — Enzo se
vira para mim. — Creio que nada disso será problema para você, certo, Maria Luíza?
Durante milésimos de segundos, nós dois fazemos o mundo deixar de existir. Olhamo-nos
fixamente, olho no olho, e somente com esse olhar dizemos muito. Falo como ainda estou ressentida
e como o odeio, e ele me diz que está ansioso por mudar a impressão que tenho dele. Enzo considera
isso um jogo. É nítido no brilho que lhe cobriu os olhos, sombreando um pouco o tom de cinza.
— Certo, Enzo — concordo.
Ele estende a mão para mim.
— Deixe eu te dar meu telefone. Me empresta seu celular.
Sem contestar, pego o celular e o entrego a ele.
O elevador chega ao andar e nós três saímos. Enzo, de cabeça baixa, digita o número de telefone
dele, mas demora um pouco demais fazer isso. Jorge aperta possessivamente o braço na minha
cintura e, mesmo sem olhar, Enzo se enrijece; noto um nervo saltar no maxilar dele. Em seguida me
entrega o celular, dá um meio sorriso para Jorge e faz um modesto gesto de cabeça para mim.
Depois, vira-se e sai sem olhar para trás, com o andar poderoso e esguio. Ele deve ter 1,90m. Um
porte físico fantástico que dá inveja aos homens, e desperta desejo nas mulheres. É incrível como
esse homem ainda tem esse poder sobre meu corpo.
— Vê o porquê de eu não gostar dele? — Jorge reclama. Ainda estamos parados, como tolos,
olhando Enzo se afastar.
Caminhamos para perto do carro de Jorge.
— Ele só estava te provocando, Jorge. Não crie caso. É isso o que ele quer.
Abro a bolsa para guardar o celular, mas noto uma mensagem que acabou de chegar.
Enzo gostosão é o nome que aparece. Não acredito que ele salvou o nome assim no meu celular.
Reviro os olhos com desdém. Tão infantil. Nem parece que tem 34 anos.
Fico congelada quando começo a ler. Puta merda. É oficial. Preciso me encontrar com Júlia.
Sinto que Enzo vai querer virar o jogo. Ele é perspicaz, percebeu que estou jogando e comprou as
fichas para a próxima partida.
Calma, Malu. Respire fundo, você é como Barbra Streisand. Não vai chover no seu desfile,
convenço-me interiormente. Peito pra fora, barriga pra dentro e nariz empinado. Guerra é guerra.
Nos vemos amanhã, Maria Luíza. Aproveite o jantar com seu namoradinho lindinho, pois amanhã
terá um almoço comigo.
A propósito, se quiser saber da minha vida pessoal, me pergunte, não fique de fofoquinha no
elevador. É feio e contra as normas da empresa.
O Vou comer aquela desgraçada. Tudo o que quis fazer seis anos atrás, vou fazer agora. Isso
PLANO
não é uma suposição, é uma afirmação. Vou fazê-la gritar como louca.
Agora ela não é mais criança, e Jonas está afastado. Nada mais me impede. Preciso de um plano
urgente.
Por que esse desejo repentino e doentio? Cara, só eu percebi que a safada veio para tentar me
provocar? Vou atacar primeiro, antes que ela pense em respirar. E também estou com muita raiva por
aquele perdedor do Jorge estar com ela.
Minha mão está doendo e, com a outra, aperto um saco de gelo contra os nós dos dedos.
Cacete! Por que diabos tive de socar a parede com tanta força? Poderia ter xingado alguém ou
chutado algumas latas de lixo. Mas não, o esperto aqui preferiu ferir a mão quando chegou em casa.
Ainda bem que o soco não pegou no meu aparelho de home theater. Se isso acontecesse, o bagulho
iria esquentar pro lado de Jorge. Não sei por quê, apenas acho que ele é culpado e pronto.
Estou com tanto ódio dele que sinto a mesma dor dos dedos arder na barriga. É algo visceral, o
coração chega a pesar ao bombear tanto sangue maligno. Eu já o odiava antes disso, agora, saber que
ele está comendo a garota das minhas fantasias, é muita coisa para lidar. Tenho um inimigo número
um.
***
Por que vocês estão olhando para mim assim, como se estivesse enlouquecido de repente? Eu tô
cagando pro fato de estar expondo meus sentimentos. Estou, sim, com ciúmes; estou, sim, querendo-a
para mim, sempre a quis. Nunca deixei de desejar aquela megera dos infernos.
E, agora, estou puto com ela pelo que está fazendo; estou com raiva só pelo fato de ser tão
gostosa. Queria arrastá-la daquele elevador pelos cabelos. Queria encostá-la na parede e beijá-la em
busca de perdão, bem na frente do namoradinho.
Deus! Eu poderia aceitar se ela escolhesse um cara fodão, desses que têm cavanhaque e dirigem
um Corvette 1963. Eu sofreria menos se fosse o Max, ou até mesmo o cara do andaime que limpa as
janelas. Mas… Jorge? O universo quer me ferrar. Só pode.
Dou mais um murro, agora nas almofadas.
Ela sabia, tenho certeza de que ela sabia sobre todos nós odiarmos aquele baba-ovo. Maria Luíza
não veio apenas para trabalhar; ela queria ser bailarina, e não a porra de uma executiva. Estudou
bastante sobre o que acontece na empresa, e estudou minha vida e continua estudando. Ela deve
querer minha rola como prêmio, e as bolas de Max e Davi como brinde. Pilantra gostosa do capeta.
Levanto-me e pego o celular. Digito o número e rápido a pessoa atende.
— Pode vir aqui em casa? Não… agora. Por quê? Que se dane a pizza, preciso de vocês aqui.
É… rápido, porra. Venha logo. Traga o Max com você.
Jogo o celular longe e vou até a cozinha.
Moro em um apartamento na Gávea, bonito, amplo, moderno. Um achado — meio caro, claro,
mas você tem ideia do preço de um apartamento do tamanho do meu na Gávea? Não? Milhões.
Decorei do jeito que gosto, com a ajuda de uma designer, que me deu algumas sugestões e desenhou
a sala como eu queria. Parece um cinema.
Coloquei caixas de som acústicas em pontos estratégicos, para os filmes ficarem mais realistas.
A TV enorme de plasma foi a escolha perfeita. Mônica, a designer, fez uma parte na estante como
uma videoteca, com todos meus filmes preferidos, desde pornôs a séries de TV.
Depois de me separar da Lílian piranha, eu queria um lugar com a minha cara, onde pudesse
fazer o que quisesse, até mijar no chão do banheiro, se achasse necessário. Sem ordens, sem gritos,
sem histeria de mulher. Posso deixar meu sabonete com pelos, posso jogar minha toalha molhada
onde quiser, e posso colocar latas de cerveja na mesinha da sala.
Isso é uma vida que todo homem deveria experimentar.
A safada da designer pensou, inclusive, na iluminação de toda a casa, desde janelas a claraboias
e luzes. Ah! Moro na cobertura, lógico.
Depois que ela terminou o serviço, inauguramos a casa. Eu a comi por toda parte. Desde a
poltrona reclinável até a bancada da cozinha. Foi fantástico. Não vi Mônica mais; até que era
gostosinha, mas casada.
***
Depois de ter ligado para os rapazes, telefonei para um restaurante e pedi umas porcarias para a
gente comer e eles não ficarem de cara amarrada dizendo que, na minha casa, só tem cerveja na
geladeira.
Os dois chegam ao mesmo tempo. E com cara amarrada.
— Você devia experimentar ser um pouco menos egoísta e mimado — Max diz, passando por
mim na porta. Davi me olha, meio inalterado, mas sei que ele está igualmente bravo.
— As outras pessoas têm uma vida pra cuidar, irmão. Não podem ficar a seu dispor o dia todo.
— Deixem de conversinha; parecem duas meninas mal-comidas — repreendo-os e os sigo para
dentro de casa.
Max se joga no sofá e Davi vai direto até a cozinha.
— Pedi umas bobagens pra gente comer — grito para ele. — Tem cerveja na geladeira.
— Qual a emergência? Quem você quer comer, e precisa da nossa ajuda? — Max solta, sem
paciência, sem sequer me olhar. Está folheando uma revista que encontrou no sofá.
— Estou desapontado. Como você pode pensar isso de mim? — Sento-me na frente dele.
— Para de enrolar, Enzo. Como se eu não te conhecesse.
— É a Maria Luíza, filha de Jonas — declaro.
Ao ouvir o nome, ele paralisa e me encara com uma expressão julgadora.
— Você não perde tempo, não é? — Max inclina-se para frente e me acusa com os olhos em
brasas. — Cara, a mulher acabou de chegar e está namorando o merdinha.
— Esse é mais um motivo por que ele deve comer Maria Luíza. — Davi entra na sala, entrega
uma cerveja para Max e se senta ao meu lado. — Diga como podemos ajudá-lo a colocar uma
galhada na cabeça daquele imbecil.
— E por que ele? Também tenho capacidade de comer a mulher dos outros — Max reclama. Só
em ouvi-lo falar isso, e sabendo que a mulher a quem ele se refere é Malu, fico eriçado de raiva. Mas
não digo nada, afinal, posso extravasar ciúmes quando estiver sozinho. Em público, ainda é cedo.
— Bom, não posso porque estou com Sophia novamente, e Enzo deu a ideia. Portanto, a boceta
da ruiva é dele — Davi rebate e sacode os ombros, como se fosse o óbvio a se fazer.
— Deem um tempo, vocês dois. Não é bem dessa maneira. Vou explicar com cuidado. — Dou
um tempo para eles se acalmarem e começo: — Vocês lembram o caso da garota que me perseguiu
anos atrás? — pergunto, e eles se animam visivelmente.
— Aquela que queria trepar com você, e até se escondeu no seu banheiro algumas vezes? —
Davi resmunga.
— Essa mesmo — confirmo.
— A garota que você não queria pegar porque era mais velho, e ela tinha apenas dezoito anos?
— Max indaga, cínico.
— Sim.
— Cara, você é o maior boiola que eu conheço — ele acusa em seguida.
— A garota era Maria Luíza — corto depressa o comentário de Max. — É um bom motivo para
eu não ter pegado ela?
Eles dois se entreolham e depois se voltam surpresos para mim.
— Malu era a garota? — Davi tosse, quase engasgando com a cerveja.
— Sim.
— Essa Malu, ruiva, gostosona, namorada do cuzão? — Max continua, ainda desacreditando.
— Sim. Já falei — grito.
Com uma cara engraçada de surpresa, Davi me analisa.
— Porra, cara. Você está ferrado agora! Ela não parece querer alguma coisa com você — ele
diz, sério demais.
— Talvez seja por eu ter chamado ela de puta e vagabunda no dia do meu casamento.
— Você chamou a garota de puta? — Davi arregala os olhos e troca uma expressão chocada
com Max.
— Então, meio que tipo, Deus fez você pagar por sua língua — Max diz, raciocinando. —
Chamou a garota de puta e acabou se casando com uma puta pior ainda, mais rodada que…
— É. Eu sei. Não me lembre disso — coloco minha mão na frente para ele se calar.
Engulo minha irritação e conto a ambos toda a história, do início ao fim, desde a primeira vez
que vi Malu. Conto como fiquei desorientado, com vontade de levá-la para cama, como precisei ter
controle para não sucumbir ao desejo meu e dela. E conto como ela chegou, desesperada, no dia do
casamento, tentando me fazer mudar de ideia.
Termino de narrar, e os dois estão mudos. Desviam o olhar, bebem um gole de cerveja e
continuam calados.
— E aí, não vão dizer nada?
— É meio complicado, Enzo — Davi, com seu tom aguçado, começa a falar. — Você a tratou
mal e agora ela está de volta, gostosa, tipo mega, ultra, super. E o pior de tudo é que ela te odeia e te
despreza. Não há muito o que fazer.
— E está namorando o cara que a gente mais detesta — Max faz questão de lembrar.
— Essa é a pior parte — concordo com ele. — Mas acho que três cabeças pensam melhor do que
uma. Vamos pensar em uma solução.
— O que você quer, de verdade? — Max pergunta. Ele se recosta no sofá, e cruza as pernas nos
calcanhares.
— Quero que ela me escute. Tentei falar com ela hoje, mas Malu está muito ressentida.
— É de se esperar. Se eu fosse ela, dava um tiro no seu pau — Max diz, enquanto toma um gole
de cerveja.
— Conversar? Só isso? — Davi, mais interessado, ignora Max e me pergunta.
Dou de ombros.
— Quero o perdão dela.
— Só isso? — agora é a vez de Max indagar.
Olho para eles. Estão atentos, os olhos fixos em mim. Acho que ainda não consegui convencêlos do que quero de verdade.
— Ela precisa entender que, naquela época, era diferente — gesticulo nervoso.
— E é só isso? — os dois perguntam, quase ao mesmo tempo.
Levanto-me bruscamente e esparramo meus cabelos com a mão. Eles me conhecem mais do que
eu mesmo. Quem desejo enganar?
— Tá! Como vocês já imaginam, eu quero transar com ela. Muito, demais. Até perder os
sentidos. Quero fazer com ela tudo o que sonhei seis anos atrás. De quatro, de pé, na banheira, na
cama, em todo lugar. Satisfeitos?
— Agora acredito em você! — Max exclama, feliz.
— Esse é um bom motivo para a gente te ajudar — Davi concorda. Em seguida, os dois dão
risada, e eu abano a cabeça.
— Tenho um pinguinho de esperança. Ela não está me ignorando totalmente. Hoje, mais cedo, eu
a flagrei perguntando para Jorge sobre meu casamento, queria saber como tudo aconteceu. Se ela
quer saber da minha vida, então tenho uma pequena chance, não é? — Volto a me sentar, desta vez
perto de Davi, que está no sofá de três lugares.
— Agora a coisa ficou melhor. Ela não te despreza. Malu pode estar tentando te pegar na tocaia,
sapatear na sua cara, te provocar, mostrar uma coisa que você nunca vai ter. Essas coisas que
mulheres fazem e no fim acabam deixando pra lá.
— E o que faço?
— Papel e caneta — Davi pede.
Corro e trago para ele um caderno pequeno, tipo ata, e uma caneta. Max se levanta e vem sentarse com a gente, os três no mesmo sofá. Davi no meio.
Ele escreve: Plano para Enzo traçar Malu.
— Você tem um plano? — pergunto, admirado.
Ele reflete um pouco antes de me responder: — Estou pensando em umas coisas. — Davi coça a
barba, pensa mais e continua: — São vários planos em um só. Primeiro, vamos dar uma garantia a
Malu.
— Garantia? — balbucio, curioso — Uma garantia de que você não vai ser um cachorro safado
que quer trepar com ela.
— Eu quero trepar com ela — rebato, meio desentendido sobre aonde ele quer chegar.
— Sim, mas ela não pode saber. Vamos arrumar uma namorada falsa para você.
— Uma namorada? Cacete! Ficou louco, Davi? Quero me aproximar de Malu, não assustar a
garota.
— Fique tranquilo. Desafio, essa é a palavra. Isso deixará Malu intrigada e frustrada. A cabeça
das mulheres funciona quase igual à nossa. Ela vai, automaticamente, querer vencer o desafio de
tomar você de uma suposta namorada, para depois te dar um pé na bunda. Vou encontrar uma pessoa.
Pode ser até uma acompanhante de aluguel.
Estou horrorizado.
— Vou namorar uma garota de programa? E como sabe que Malu vai me dar um pé na bunda?
— pergunto, mesmo sabendo que não terei resposta.
— Que plano mais tranquilizador — Max ironiza em um sussurro reflexivo.
Davi pensa e escreve no caderninho de capa preta: 1-Encontrar uma namorada falsa para Enzo.
Ele levanta os olhos para mim, já com outra questão pronta.
— Agora, devemos investigar e descobrir quem são as melhores amigas dela. Melhores amigas
sabem de tudo, conhecem tudo da pessoa. E precisamos de alguém assim do nosso lado, tipo uma
informante.
Ele fala e escreve ao mesmo tempo: 2-Encontrar a melhor amiga de Malu e se aproximar dela.
— Se são melhores amigas, acha mesmo que elas vão dar bola para mim? Maria Luíza já deve
ter feito o inferno falando de mim para elas — retruco, tentando acompanhar o plano do meu irmão.
— Não é você, seu tolo, é o Max.
— Eu? — Max se sobressalta do outro lado, com os olhos arregalados. Davi se vira para ele e se
prepara para começar a explicar: — Sim, porque já sou comprometido. Você vai atrás de uma amiga
de Malu e se envolve com ela; se possível faça sexo com ela, e descubra o máximo que conseguir.
Mulheres têm uma fraqueza: elas confiam em homens muito carinhosos e apaixonantes. Seja
bonzinho com ela, faça um sexo bem legal, e ela vai te entregar tudo de bandeja.
— E se for uma baranga? — Max olha para Davi e depois para mim, o tom de medo expresso na
voz. Ele faz qualquer coisa, menos pegar baranga. Que exemplo de homem.
— Finja que é um padre para não comê-la. Sei lá, pense em algo.
Impaciente, Davi escreve: 3-Max conquista a confiança da amiga de Malu.
— Não entendo por que precisamos de uma amiga dela — Max murmura, meio zangado por ter
sido colocado no bolo.
— Para ser nossa aliada, porra! Já falei. Vai chegar um momento em que precisaremos que ela
interceda. Então, você tem de fazer seu dever de casa direitinho e vai conquistar mesmo a safada.
Entendeu, Maximiliano?
— Tá, entendi. E não me chame assim, é constrangedor.
— Fique tranquilo, rapaz — Davi o acalma. — Tenho quase certeza de que a melhor amiga de
Maria Luíza é Júlia Bittencourt. — Ele olha para mim. — Você se lembra-se dela, Enzo? Sempre ia à
casa do Jonas.
— Sim, me lembro, mas nunca mais a vi. Também tem a Danielle. Acho que Max vai acabar
comendo uma dessas.
— Se for quem eu estou pensando… — Max reflete, meio animado.
— E então, qual é o próximo passo? — Olho do caderninho para Davi. Ele pensa um pouco,
acaricia a maldita barba, depois o nariz, e fala em tom categórico: — O mais difícil. Afastar Jorge da
Malu, pelo menos por um ou dois dias.
— E como faremos isso? Sequestro? — Max ironiza.
— Não. — Davi resmunga e pensa. Fica uns três minutos pensando e depois sorri. Por isso gosto
do meu irmão; ele é prático e inteligente.
— Lembra daquele sítio onde o papai gostava de passar os finais de semanas? — Com olhos
arregalados e uma expressão de eureca, ele me cutuca.
— Claro.
— Fica em Angra, certo?
— Sim. E daí?
Ele abaixa a cabeça e escreve: 4-Afastar Malu do idiota.
— Enzo, vamos armar uma reunião de emergência. Um lugar aonde dá pra ir de carro, como
Guaratinguetá. Na prática, iremos todos de carro. Eu e Max, você sozinho e Malu com Jorge. Ele não
precisa ir, mas vai querer — Davi fala como um vidente, prevendo todos os fatos.
— E do que isso adianta?
— Espere, escute primeiro. Vou descobrir algo para sabotar a ida de Jorge. E, então, você vai
convencer Malu a ir no carro com você.
— E onde será essa tal reunião? — Max questiona. — Temos mesmo reunião marcada lá?
— Aí está o ponto-chave. Temos negócios com uma empresa em Guaratinguetá, lembra? Mas
não haverá reunião, lógico. Eu e Max nem iremos a lugar algum, nem mesmo sairemos do Rio. —
Davi vira-se para mim e aponta a caneta. — Você irá pelo caminho do sítio em Angra, e o carro vai
quebrar no caminho. E, como se não conhecesse o lugar, você levará Malu para o sítio, dizendo que
deve ser de alguém que está viajando. Assim, terá dois dias para conseguir algo com ela. É o
suficiente?
— Perfeito. Mas e todos esses detalhes?
— A gente vai pensar em tudo: desde fazer o carro quebrar até acabar com o sinal de celular.
Vocês ficarão isolados.
— Só uma pergunta — Max levanta o dedo como se estivesse em uma aula. — Vamos bolar todo
esse plano maluco só para Enzo comer a filha de Jonas?
— Vamos aos pontos. — Davi levanta a mão, pedindo calma. — Primeiro: com alguém na
empresa mantendo Malu bem-comida, ela não será uma pedra no nosso sapato. Lembra que esse é o
medo que comentamos hoje mais cedo? Mulher sempre tenta, de alguma forma, querer ser melhor do
que os homens. Sem falar que ela foi humilhada por esse imbecil — ele gesticula apontando para
mim. — Uma mulher ressentida, disposta a se vingar, é pior do que setenta capetas.
— E todo mundo tem medo de capeta — endosso o comentário dele.
— Portanto, Enzo sendo amante dela, ela vai ficar calminha, e não vai querer ir de encontro ao
amante e aos amigos dele. — Davi olha para a gente para ver se estamos acompanhando.
— Isso é um comentário machista. Se alguma mulher te ouvisse, nós perderíamos as bolas —
Max resmunga, fazendo-se de chocado.
Davi dá de ombros e levanta um segundo dedo.
— Segundo: temos de ajudá-lo, ou ele vai acabar trocando os pés pelas mãos, e ferrar com tudo.
E terceiro: vai ser divertido saber que Jorge será um corno.
Max dá risada e toca o punho de Davi com o seu.
Sabia que eu devia chamá-los aqui em casa. Desde pequeno, Davi tem os melhores planos.
Malu nem vai perceber que foi atingida. Quando se der conta, já estará na cama comigo. E eu a
farei suplicar, implorar, como seis anos atrás.
— Ah, Enzo. Amanhã, e até o dia do plano, não coloque tudo a perder. Trate-a como se fosse sua
irmã. Não faça piadinhas, não dê em cima dela. Seja muito profissional e frio, se possível. Se ela
estiver jogando, vai ficar furiosa por você não estar nem ligando para ela. É pedir muito que se
controle?
— Depende. Por quanto tempo vou ter de me controlar?
— Duas semanas — ele decreta.
— Perfeito.
— Então, recapitulando. — Davi aponta a lata de cerveja para mim. — O que vai fazer amanhã?
— Ignorá-la.
— E depois?
— Esfregar uma namorada na cara dela.
— Bom garoto. E você? — Ele se vira para Max.
— Vou rezar para que a amiga de Malu seja gostosa.
Eu e Davi rimos. Max nos olha com desdém.
Nesse instante, a comida que pedi chega. Vamos todos até a cozinha comer e fazer mais
anotações sobre o plano.
Meu dia de vitória começa a se aproximar.
***
Há mil coisas que nós, homens, não devemos deixar uma mulher perceber para conviver
harmoniosamente com ela. Por exemplo, fraqueza. Nunca revele a uma oponente o seu ponto fraco,
pois mais cedo ou mais tarde ela poderá usá-lo em benefício próprio. A menos que a mulher em
questão seja sua esposa e mãe de seus filhos, é melhor manter-se na defesa. Além disso, evite
qualquer carinho excessivo, que demonstre sinal de paixão. Muitas mulheres costumam pisar em
homens que as colocam no altar. Várias preferem os cafajestes que mentem, mas que fodem gostoso.
Perdoem-me pelo que vou falar, mas é a realidade. Na maioria das vezes, homens são trastes,
mas, quando uma mulher cisma de foder geral com a vida de uma pobre vítima masculina, sai de
baixo. Como Davi falou, elas são piores do que setenta capetas juntos. Lílian, por exemplo, só não
ferrou com a minha vida por causa de Davi, que entrou no meio da briga e acabou com a raça dela.
Portanto, o melhor é atirar primeiro, ou seja, agir antes que a mulher o faça.
Esse plano de Davi é tudo o que uma mulher mais abomina. Não há fundamento lógico para o
que estou fazendo, enganar uma mulher e arrastá-la para o meio do nada, longe do namorado, só por
causa de um capricho meu. Uma obsessão, para ser mais exato.
Mas qual o porquê desse plano?
É o que falei há pouco: mil coisas que não devemos deixar uma mulher perceber. E os meus
pontos fracos, com os quais Malu nunca deve sonhar, são: minha loucura obsessiva por agarrá-la,
pois ela irá se fazer de mais difícil do que uma madre superiora, vai pisar com aquele puta
maravilhoso salto alto na minha cara; meu ódio por Jorge, o que ela pode querer usar contra mim, e
vê-la esfregando o babaca na minha cara não será legal; e meu fraco por ruivas, que Malu não deve
nunca suspeitar, jamais. Essas e várias outras coisas.
Já fui casado, convivi com uma mulher. Sei como elas agem, como se comportam, onde se
escondem e o que guardam nas cabecinhas maquiavélicas para ser usado como um arsenal de guerra
em casos extremos.
Malu voltou disposta a me aniquilar. Soube disso no momento em que ela apresentou Jorge
como namorado e olhou exclusivamente para mim, querendo ver minha reação. Só observei,
achando ridículo o fato de ela ter de suportar Jorge só para me atingir. O que Malu não sabe é que eu,
dificilmente, sou derrubado, sobretudo por uma ruiva linda que sente tanto tesão pelo papai aqui.
Que comecem os jogos.