Capítulo 2

O som da porta do meu quarto se abrindo com um estrondo me acordou de um sono agitado. Era pouco depois do amanhecer, mas a força da invasão pareceu um golpe físico.

Caio estava na porta, o rosto uma máscara de fúria. Ele vestia um terno sob medida, parecendo ter acabado de sair de uma reunião de diretoria, mas seus olhos estavam selvagens.

"Onde você estava?", ele exigiu, marchando em direção à cama. "Eu te liguei a noite toda. Você não tem ideia de como a Kiara ficou preocupada."

Kiara. Não ele. Kiara.

"Eu estava aqui", eu disse, minha voz vazia. O homem na minha frente era um estranho. O homem gentil e amoroso que eu pensei conhecer tinha sido uma ilusão cuidadosamente construída. Em seu lugar estava este tirano.

"Não minta para mim, Aurora!", ele agarrou meu braço, seus dedos cravando na minha pele. "Você deveria estar no evento de caridade comigo. Você me envergonhou. Você envergonhou a Kiara."

Seu aperto se intensificou, e eu recuei. Ele nunca tinha sido rude comigo antes. Zangado, sim. Desdenhoso, muitas vezes. Mas nunca assim.

Ele pareceu perceber que havia cruzado uma linha, soltando meu braço como se tivesse se queimado.

"Olha, eu sei que isso é difícil para você", disse ele, seu tom mudando para um de paciência forçada. "Mas a Kiara está frágil agora. Sua cena de ontem à noite a deixou com um ataque de pânico."

"Minha cena?", perguntei, minha voz se elevando. "Eu não fiz nada. Eu estava na minha própria casa."

"Exatamente!", ele retrucou. "Você deveria estar ao meu lado, mostrando a todos que somos uma frente unida. Que você me apoia nisso."

"Apoiá-lo em namorar sua ex-namorada na frente do mundo inteiro?", eu ri, um som oco e sem humor. "Você está delirando."

Seu rosto escureceu novamente, mas antes que ele pudesse responder, uma voz suave e chorosa veio do corredor.

"Caio? Está tudo bem? Ouvi gritos."

Kiara apareceu, envolta em um dos roupões de seda de Caio, o rosto pálido e os olhos vermelhos. Ela parecia uma boneca assustada.

"Me desculpe, Aurora", ela sussurrou, agarrando o roupão com mais força. "Eu não queria causar problemas. Eu só... fico com tanto medo quando ele não está comigo."

Todo o comportamento de Caio se suavizou em um instante. Ele correu para o lado dela, envolvendo-a em seus braços.

"Está tudo bem, meu bem. Não é sua culpa", ele murmurou, acariciando seu cabelo. "Não é sua culpa."

Ele me lançou um olhar venenoso por cima do ombro dela.

"Olha o que você fez", ele articulou silenciosamente.

Ele prometeu a ela que resolveria, que faria com que eu entendesse o meu lugar. Suas palavras eram uma ameaça envolta em uma promessa de proteção para ela.

"Ela precisa aprender uma lição", ele sussurrou para Kiara, alto o suficiente para eu ouvir.

Ele se virou para os dois seguranças enormes que haviam aparecido silenciosamente no corredor atrás de Kiara.

"Levem-na para baixo. Para a adega. Ela pode ficar lá até estar pronta para se desculpar."

Meu sangue gelou. A adega.

"Não", eu sussurrei, recuando contra a cabeceira da cama. "Caio, você não pode."

Ele sabia. Ele sabia sobre a adega. Sobre minha claustrofobia.

Meus guardas, inexpressivos e eficientes, moveram-se em minha direção. Eu lutei, chutando e arranhando, um animal selvagem e encurralado.

"Caio, por favor!", eu gritei, meus olhos fixos nos dele.

Mas ele não olhou para mim. Ele já estava se virando, seu braço protetoramente em volta de Kiara, levando-a pelo corredor como se a estivesse escoltando para longe de um monstro.

A última coisa que vi foi suas costas desaparecendo na esquina.

Os guardas me arrastaram pela escada em espiral até o porão. A pesada porta de ferro forjado da adega se erguia na minha frente. Eles me empurraram para dentro, o cheiro de terra úmida e vinho velho enchendo minhas narinas.

A porta bateu. A fechadura clicou, um som de finalidade que ecoou no pequeno e escuro espaço.

Escuridão. Escuridão apertada, sufocante.

Minha respiração engasgou. Meu coração martelava contra minhas costelas como um pássaro preso. As paredes estavam se fechando, o ar rareando. Eu era uma criança de novo, trancada em um armário pelo meu irmão adotivo como uma piada cruel.

Tinha sido meu décimo aniversário. Os Almeida deram uma festa luxuosa. O filho deles, Juliano, mais velho e sempre ressentido com a minha presença, decidiu que seria engraçado me trancar no armário de roupas de cama durante uma brincadeira de esconde-esconde. Ele se esqueceu de mim.

Fiquei lá por horas. A escuridão pressionava, o ar ficava viciado. Gritei até minha garganta ficar em carne viva, arranhei a porta até meus dedos sangrarem. Quando me encontraram, eu estava inconsciente, encolhida em uma bola apertada no chão.

A claustrofobia fazia parte de mim desde então. Era um terror físico, visceral - um aperto no peito, falta de ar, um suor frio que encharcava minha pele. Era minha fraqueza secreta.

E Caio sabia.

Anos atrás, em um de nossos primeiros encontros, ficamos presos em um elevador. Tive um ataque de pânico completo. Chorei em seus braços, envergonhada e aterrorizada, e contei a ele a história sobre o armário.

Ele me abraçou, acariciou meu cabelo e sussurrou promessas.

"Eu nunca vou deixar nada parecido acontecer com você de novo. Eu sempre vou te proteger. Serei seu porto seguro."

Agora, era ele quem havia trancado a porta. Ele era o monstro no escuro.

A promessa foi quebrada. O porto seguro era uma jaula.

Deslizei pela parede fria de pedra, envolvendo os braços em volta dos joelhos, tentando me fazer menor enquanto a escuridão me consumia. As lágrimas vieram, quentes e silenciosas, um rio de luto pelo homem que eu pensei que ele era e pelo amor que eu pensei que tínhamos.

Era tudo uma mentira.

Capítulo 3

Horas depois, a fechadura clicou novamente. Um dos guardas abriu a porta, o rosto impassível. "O Sr. Menezes disse que você pode sair agora."

Minhas pernas estavam rígidas, meu corpo tremendo com os tremores do terror. Eu me sentia esvaziada, minha garganta arranhada por gritos silenciosos. Tropecei escada acima, meus olhos piscando contra a luz repentina, meu corpo doendo como se eu tivesse sido espancada.

A cobertura estava silenciosa. Entrei na suíte principal, desejando o simples conforto de um banho, de lavar o cheiro de umidade e medo.

E então eu a vi.

Kiara estava em frente ao espelho de corpo inteiro, virando-se de um lado para o outro. Ela estava usando o vestido da minha mãe.

Era um Dior vintage, um vestido de seda atemporal dos anos 50. Era a única coisa que eu tinha da minha mãe biológica, uma mulher que eu nunca conheci. Era inestimável, não por causa do estilista, mas por causa do fantasma da mulher que o usou. Era minha posse mais sagrada.

Minha respiração ficou presa na garganta. Uma onda de raiva pura e quente me invadiu, queimando o medo e o esgotamento.

"O que você está fazendo?", minha voz era um rosnado baixo.

Kiara se virou, um olhar pequeno e assustado em seu rosto. "Ah, Aurora. Você saiu." Ela alisou a seda. "Não é lindo? Encontrei no fundo do armário. Espero que não se importe."

"Importar?", eu avancei em sua direção, meus olhos fixos no vestido. "Tire isso. Agora."

Ela fingiu um olhar magoado. "Mas é só um vestido. O Caio disse que eu podia pegar emprestado o que quisesse. Ele disse que você não se importaria."

"Ele estava errado", eu disse, minha voz tremendo de fúria. Eu podia ver que ela sabia exatamente o que estava fazendo. Havia um brilho de triunfo em seus olhos que ela não conseguia esconder completamente.

"Saia do meu vestido."

Ela fez beicinho, o lábio inferior tremendo. "Você está sendo má. Eu só queria me sentir bonita."

Enquanto falava, ela deu um passo para trás, prendendo deliberadamente o tecido delicado na quina da penteadeira. Ouvi o som repugnante da seda rasgando. Um rasgo longo e irregular agora corria pela lateral da saia.

Meu mundo ficou vermelho.

Antes que eu pudesse pensar, minha mão voou e acertou sua bochecha. O som do tapa ecoou na sala silenciosa.

Kiara ofegou, seus olhos se arregalando em choque teatral. Ela levou a mão ao rosto, lágrimas brotando instantaneamente.

"Você me bateu", ela sussurrou.

"Você fez isso de propósito", eu sibilei, meus olhos no vestido arruinado. O rasgo era uma ferida mortal.

Ela se inclinou para perto, sua voz caindo para um sussurro venenoso, o ato de vítima momentaneamente esquecido. "Claro que fiz. Não passa de um trapo velho. Caio pode te comprar cem novos." Seus lábios se torceram em um sorriso de escárnio. "Ele vai me comprar cem mais."

"O que está acontecendo aqui?"

A voz de Caio soou da porta. Ele tinha entrado bem a tempo de ver as lágrimas de Kiara e a marca vermelha florescendo em sua bochecha.

Ele avaliou a cena em um único olhar: eu, parada ali tremendo de raiva; Kiara, soluçando piedosamente.

"Aurora, que diabos você fez?", ele rugiu, correndo para o lado de Kiara.

"Ela me bateu, Caio", Kiara chorou, enterrando o rosto em seu peito. "Tudo o que eu fiz foi experimentar um vestido, e ela me atacou."

Ele a abraçou, seus olhos ardendo para mim. "Você enlouqueceu? Olhe para ela, ela está apavorada com você."

"Ela rasgou o vestido da minha mãe!", eu gritei, minha voz quebrando. "Olhe para ele! Ela fez de propósito!"

Apontei para o vestido, para o rasgo feio que parecia um rasgo na minha própria pele. "Caio, você sabe o que esse vestido significa para mim. Você prometeu que o manteria seguro."

Kiara, sempre a mestra da manipulação, espiou por trás do ombro de Caio. "Sinto muito", ela choramingou. "Eu não sabia que era especial. Vou tirá-lo agora mesmo."

"Não", disse Caio, a voz firme, o braço apertando-a. "Você não vai fazer nada disso. Você está linda nele."

Ele olhou para mim, o rosto frio e desdenhoso. "É um pedaço de tecido, Aurora. Acalme-se." Ele enfiou a mão no bolso, tirou a carteira e jogou um cartão de crédito preto na cama.

"Aqui. Vá comprar um novo. Compre dez. Eu não me importo. Apenas pare de agir como uma criança."

Eu olhei para o cartão de crédito, depois para o rosto dele. A crueldade casual de seu gesto roubou o ar dos meus pulmões.

Anos atrás, quando lhe mostrei o vestido pela primeira vez, ele traçou as costuras delicadas com um dedo reverente. Ele ouviu enquanto eu lhe dizia que era tudo o que eu tinha da minha mãe. Ele havia prometido construir uma caixa climatizada para ele, para protegê-lo para sempre. Ele entendia que seu valor não estava em dinheiro, mas em memória.

Agora, ele estava jogando dinheiro em mim como se isso pudesse consertar o buraco que ele e Kiara haviam rasgado na minha vida.

Ele me deu as costas completamente, sua atenção focada apenas em Kiara. "Vamos, querida. Vamos tirar você daqui."

Enquanto ele a levava para fora do quarto, eu podia ouvi-lo murmurando para ela, sua voz suave e reconfortante. "Não se preocupe, eu te levo para fazer compras. Vamos comprar um guarda-roupa novo inteiro para você, tudo o que você quiser."

Fiquei sozinha na sala silenciosa, com o vestido arruinado e o cartão de crédito preto na cama. Um monumento às suas promessas quebradas.

Caí no chão, meu corpo sacudido por soluços que não tinham som. Não era mais apenas sobre o vestido. Era sobre cada promessa, cada "eu te amo" sussurrado, cada sonho compartilhado.

Ele havia pegado todos eles e os incendiado.

Lentamente, me levantei. Fui até a cama, peguei o cartão de crédito e, com uma onda de fúria fria e clara, o quebrei ao meio. O estalo agudo foi o som do meu coração se partindo pela última vez.

Ele não era apenas um mentiroso. Ele era um monstro. E eu cansei de ser sua vítima.

Continue lendo
Apoie o autor e inspire mais histórias incríveis Moboreader
Desbloquear todos
Capítulo
Personalizar
Próximo Capítulo
Minishorts Logo
Leia web novels, ficção online e histórias românticas em alta no MiniShorts. Descubra romances de bilionários, fantasia de lobisomens, drama e novelas de fantasia, além de conteúdos selecionados de dramas curtos inspirados nas tendências de narrativa mais populares.
MiniShorts YouTube
PRODUTOS E SERVIÇOS
Sobre nós
support@minishorts.com
©2026 MiniShorts Todos os direitos reservados. CHASINGTOP HK LIMITED