Capítulo 2

Ponto de Vista: Celeste Menezes

"Divórcio? Celeste, você está falando sério?" Minha melhor amiga, Maya, parecia genuinamente chocada do outro lado da linha. "Depois de tudo? Todos esses anos que você passou amando ele?"

"O amor é um recurso finito, Maya", respondi, minha voz monótona, desprovida da emoção que ela esperava. "E o meu por Heitor secou."

Ela ficou em silêncio, uma ocorrência rara para ela. Ela conhecia minha história com ele, a devoção de uma década que consumiu minha juventude. Ela me viu no meu pior momento, orbitando-o como um satélite desesperado, implorando por uma migalha de sua afeição.

Eu me lembrava do momento exato em que o vi pela primeira vez. Foi em um debate na USP, anos atrás. Ele estava no palco, todo traços marcantes e charme sem esforço, seu cabelo escuro caindo perfeitamente, seus olhos intensos e cativantes. A sala vibrava com sua presença, e todas as garotas no auditório estavam hipnotizadas. Ele já era uma lenda no campus, e mesmo naquela época, seu coração pertencia a Isabela Monteiro.

Isabela, com seu cabelo loiro brilhante e feições perfeitamente esculpidas, sentava-se na primeira fila, geralmente atrasada, trocando olhares cúmplices com ele. Ele pausava seus argumentos brilhantes, apenas por um segundo, um sorriso gentil tocando seus lábios apenas para ela. Todos viam. Todos sabiam. E eu, uma garota tímida e estudiosa no fundo, assistia a tudo, meu coração doendo com um amor que eu sabia que nunca seria correspondido.

Eu o amei de longe por dez anos, uma devoção silenciosa e dolorosa. Dez anos assistindo-o mimar Isabela, satisfazer todos os seus caprichos, perdoar todas as suas transgressões. Ela era volúvel, sempre partindo o coração dele, fugindo com outros homens, apenas para retornar quando ficava entediada. E ele, como um cachorrinho fiel, sempre a aceitava de volta.

Até que ele não aceitou.

Um dia, Isabela partiu para sempre, ou assim todos nós pensamos. Heitor, de coração partido e à deriva, começou a ter encontros às cegas. Minha chance. Usei todas as conexões que tinha, todos os favores devidos, para de alguma forma me colocar na lista de encontros dele. Meu coração martelava com uma esperança desesperada.

Apareci no nosso primeiro "encontro" com um vestido creme, meu cabelo estilizado em ondas suaves, exatamente como Isabela costumava usar. Era patético, eu sabia, mas estava desesperada. Entrei, e seus olhos, opacos de decepção, se iluminaram por um segundo fugaz. Não por mim. Pelo fantasma dela.

Ele me pediu em casamento depois de três encontros. Suas palavras não foram românticas. "Você me lembra dela", ele disse, sua voz baixa e distante. "Você é... segura. Previsível."

Meu coração afundou, um peso de chumbo no meu peito, mas eu disse sim. Eu aceitaria qualquer migalha que ele oferecesse. Eu seria seu porto seguro, sua esposa previsível. Eu seria tudo o que Isabela não era, tudo o que ele pensava que queria.

Por cinco anos, eu interpretei o papel. Ele me comprou joias caras, mansões luxuosas e roupas de grife. Ele me deu tudo o que o dinheiro podia comprar, mas nunca seu coração. Ocasionalmente, ele me procurava no escuro, um toque fantasma, um breve momento de intimidade quando estava solitário ou cansado do trabalho. Eu sempre fingia não notar a dor subjacente, a necessidade desesperada por uma conexão real que nunca existiu. Eu simplesmente fechava os olhos e fingia que era amor.

Então, Isabela retornou.

E tudo se estilhaçou.

Eu estava grávida, já doente há semanas, lutando contra náuseas e fadiga constantes. Uma tarde, Isabela apareceu em nossa casa, sem avisar. Ela estava deslumbrante, como sempre, uma visão de beleza sem esforço. E ela foi cruel.

"Ainda bancando a esposinha perfeita, Celeste?" ela zombou, bebendo uma taça de champanhe que ela mesma havia se servido. "Você não sabe que Heitor só se casou com você como um tapa-buraco?"

Meu estômago revirou, a bile subindo pela minha garganta. Agarrei minha barriga. "Saia, Isabela. Você não é bem-vinda aqui."

Ela riu, um som áspero e irritante. "Oh, querida. Esta é a casa do Heitor. O que significa que também é minha casa, sempre que eu quiser." Ela então deliberadamente derramou champanhe no meu vestido.

Uma onda de tontura me atingiu. Eu cambaleei, minhas mãos se estendendo para me firmar. "Isabela, não estou me sentindo bem. Por favor, apenas vá embora."

Ela sorriu com desdém. "Qual é o problema, Celeste? Não aguenta um pouco de competição?" Ela então avançou, agarrando meu braço, torcendo-o. Eu gritei, uma dor aguda percorrendo meu abdômen.

Naquele momento, Heitor entrou. Ele viu Isabela no chão, chorando, agarrando o joelho. Ele me viu, pálida e trêmula, minha mão instintivamente indo para a minha barriga.

Seus olhos, frios e condenatórios, pousaram em mim. Ele não perguntou. Ele não investigou. Ele simplesmente soube.

"O que você fez, Celeste?" Sua voz era um chicote.

"Eu não..." comecei, mas ele me interrompeu.

"Vá para o seu quarto. E não saia até eu mandar."

Ele carregou Isabela para longe, confortando-a, enquanto eu cambaleava para o nosso quarto, a dor no meu abdômen se intensificando. Tranquei a porta, me encolhi na cama e esperei que ele voltasse, que perguntasse, que entendesse.

Ele nunca voltou.

A dor piorou. Eu chamei, depois gritei, mas ninguém veio. A casa estava silenciosa, preenchida apenas com meus apelos desesperados e a agonia crescente. Eu sangrei, por horas, sozinha, até que a consciência se esvaiu.

Acordei em uma cama de hospital, o cheiro de antisséptico queimando minhas narinas. As luzes fluorescentes no teto eram ofuscantes. Heitor estava lá, parado perto da janela, de costas para mim.

Ele se virou, seu rosto marcado por algo que parecia culpa. "Celeste", ele começou, sua voz rouca. "Eu sinto muito. Eu não sabia."

"Não sabia o quê, Heitor?" sussurrei, minha voz arranhada de tanto gritar. "Que eu estava sangrando? Que eu estava perdendo nosso bebê?"

Ele se encolheu. "O médico disse que foi um aborto espontâneo. Eles não conseguiram salvar." Ele me entregou um cheque dobrado. "É uma quantia substancial, Celeste. O suficiente para compensar por... tudo."

"Compensar?" Eu ri, um som quebrado e oco. "Você acha que dinheiro pode compensar por um filho? Por cinco anos da minha vida? Pelo meu coração, que você sistematicamente desmontou pedaço por pedaço?"

Ele franziu a testa, claramente desconfortável com minha explosão incomum. "Eu realmente sinto muito, Celeste. Eu sei que errei. Mas Isabela... ela é frágil. Ela precisa de mim."

As palavras me atingiram como um golpe físico. Isabela. Sempre Isabela. Meu filho se foi, uma parte de mim arrancada, e a preocupação dele ainda era por ela.

Naquela noite, pela primeira e última vez, chorei na frente dele. Não pelo bebê, não pelos meus sonhos desfeitos, mas pela tola ingênua que eu tinha sido. Pela mulher que desperdiçou dez anos amando um homem que a via como um tapa-buraco, uma conveniência, uma sombra.

Quando acordei na manhã seguinte, as lágrimas haviam sumido. Substituídas por uma resolução fria e inabalável. Eu pedi o divórcio. Solicitei a transferência para o exterior. E apaguei todas as fotos, todas as mensagens, todos os vestígios de Heitor do meu celular.

Meu amor por ele estava morto, e eu não tinha intenção de lamentar. Minha nova vida tinha acabado de começar.

Capítulo 3

Ponto de Vista: Celeste Menezes

A mansão parecia cavernosa, ecoando com um silêncio que antes me sufocava, mas que agora parecia um bálsamo. Caminhei pelos cômodos vazios, um fantasma em minha própria casa, e comecei a fazer as malas. Meus pertences eram surpreendentemente poucos, considerando cinco anos de casamento com um magnata da tecnologia. A maior parte do que eu possuía havia sido escolhida para agradá-lo, para se encaixar no molde da presença fantasmagórica de Isabela.

Parei no meu closet, encarando as fileiras intermináveis de vestidos de grife. Creme, azul claro, rosa suave – todas as cores que Isabela preferia. Eu os tirei, um por um, jogando-os em uma pilha para doação sem pensar duas vezes. Aquela não era eu. Aquela era quem eu fingia ser, e aquela mulher se foi.

Assim que eu estava prestes a fechar a porta do closet, ouvi o som familiar do carro de Heitor na entrada, seguido pela risada tilintante que costumava me causar um pavor gelado. Isabela.

Eles entraram na casa, suas vozes animadas, alheios à minha presença no quarto principal. A voz de Heitor, profunda e ressonante, estava carregada de uma familiaridade fácil que ele nunca usou comigo.

Isabela chamou, sua voz irritantemente doce: "Celeste, querida, você está aí?"

Saí do closet, uma camiseta preta simples e jeans substituindo os vestidos de seda. Meu rosto estava impassível. "Estou."

Heitor pareceu surpreso ao me ver. "Celeste. Isabela só veio dar uma passada. Ela disse que sentia falta do cachorro." Ele ofereceu um sorriso forçado, uma tentativa patética de normalidade.

Eu apenas assenti, sem me dar ao trabalho de validar sua desculpa esfarrapada.

Isabela, sempre a manipuladora, ajoelhou-se e cobriu nosso golden retriever, Max, de atenção. "Oh, Max, meu menino lindo! Sua mamãe sentiu tanto a sua falta!" Ela então olhou para mim, um brilho malicioso em seus olhos. "Sabe, Celeste, é tão estranho. Heitor sempre diz que Max é como o filho que nunca tivemos."

Heitor pigarreou, um aviso em sua voz. "Isabela, já chega."

Ela fez beicinho, fingindo inocência. "O quê? É verdade! Ele ama o Max mais do que tudo." Ela então voltou seu olhar para Heitor. "Heitor, ainda estou um pouco abalada com o que aconteceu ontem. Você se importa se eu passar a noite aqui? Só para apoio moral?"

Heitor olhou para mim, um apelo silencioso em seus olhos. Ele ainda precisava da minha permissão, uma relíquia da "esposa perfeita" que eu já fui.

"Claro", eu disse, minha voz calma, quase sem emoção. "O quarto de hóspedes está pronto. Ou você pode ficar no sofá, se preferir."

Os queixos deles caíram, simultaneamente. Eles claramente não esperavam que eu concordasse, muito menos com tanta indiferença. Heitor parecia completamente perplexo, enquanto o sorriso presunçoso de Isabela vacilou.

"Viu, Isabela? Celeste está sendo perfeitamente razoável", disse Heitor, sua voz tensa, uma pitada de aço em seu tom. "Não cause problemas." Ele então me deu um olhar rápido e apologético antes de ir para seu escritório. "Tenho uma ligação de trabalho tarde."

Ele saiu, como sempre fazia, me deixando sozinha com ela.

A fachada de Isabela desmoronou. Ela se levantou, seus olhos se estreitando. "Você acha que venceu, não é? Bancando a mártir. Mas Heitor sempre voltará para mim. Você não significa nada."

Eu não respondi. Apenas peguei um livro da prateleira, uma biografia de uma diplomata.

Seus olhos percorreram o cômodo, procurando por uma reação, qualquer sinal da antiga e insegura Celeste. Quando não encontrou nenhum, sua raiva explodiu. Ela estalou os dedos para Max. "Max! Pega ela! Mostra pra ela quem manda!"

Max, geralmente um gigante gentil, rosnou. Ele avançou, mostrando os dentes, e mordeu minha perna. Uma dor aguda e lancinante subiu pela minha panturrilha. Eu ofeguei, cambaleando para trás, mas não gritei.

Isabela bateu palmas, um sorriso triunfante se espalhando por seu rosto. "Bem feito, sua vadia!"

Olhei para a ferida sangrando, depois para ela, minha expressão ainda indecifrável. "Sabe, Isabela", eu disse, minha voz baixa, "esta casa tem vigilância de última geração. Em todos os cantos. Todos os cômodos. Até no jardim."

Seu sorriso presunçoso desapareceu. Seu rosto ficou branco. Ela sabia. Ela sabia que cada palavra manipuladora, cada ação cruel, havia sido gravada.

"Não tenho interesse em você ou em seus joguinhos patéticos", continuei, minha voz ganhando força. "Mas se você encostar em mim de novo, ou machucar este cachorro, eu te prometo, Isabela, você vai se arrepender."

Ela me encarou, o medo finalmente substituindo a malícia em seus olhos. Virei-me e voltei para o quarto, fechando a porta suavemente. Limpei a ferida, apliquei um curativo e, então, pela primeira vez em meses, senti um sono profundo e tranquilo me dominar. Eu não esperei por Heitor. Eu não o esperava.

Horas depois, uma sensação de sufocamento me acordou. Fumaça. Fumaça espessa e acre enchia o quarto, queimando minha garganta e meus olhos. Fogo. A casa estava em chamas.

O pânico, frio e agudo, perfurou minha dormência. Saí da cama às pressas, tossindo, tentando encontrar meu caminho através da névoa negra. As chamas lambiam as paredes, rugindo.

Naquele momento, eu o vi. Heitor. Ele irrompeu pela porta do quarto, seu rosto sombrio, seus olhos arregalados de medo. Um lampejo de esperança se acendeu em meu peito. Ele voltou por mim. Ele estava aqui.

Ele me viu, depois viu Max, choramingando ao lado da cama. Sem um momento de hesitação, ele pegou o cachorro, aninhando-o protetoramente, e se virou para correr para fora do quarto.

Ele salvou o cachorro. Antes de mim.

Observei suas costas se afastando, Max seguro em seus braços. Uma risada histérica borbulhou da minha garganta, crua e dolorosa, mas totalmente silenciosa. O fogo rugia ao meu redor, o calor queimando minha pele, mas tudo o que eu conseguia sentir era a percepção gelada que atravessou o pouco que restava do meu coração.

Até o cachorro significava mais para ele do que eu.

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