Capítulo 2

Capítulo 02

Dean conduzia lentamente rua abaixo. As lembranças penetravam em sua mente, desagradáveis, perturbadoras, bombardeando com um cumulo de emoções encontradas. Tantas coisas haviam mudado e ainda assim pareciam seguir iguais. Vinte anos deveriam ter apagado qualquer rastro de sua vida passada. Mas, então viu a tampa do bueiro da rua e lembrou que uma vez ficou grudado debaixo. Viu a arvore da esquina e não pode evitar fazer uma careta de dor ao lembrar-se da vez que caiu dela e ficou sem respiração.

E lembrou-se da sua mãe, tão linda, tão distraída, tão divertida. Sempre se ocupando de qualquer coisa, menos de seus filhos. Ria por nada, ou ao menos, nada que ele pudesse entender. Lembrou das muitas babas e governantas que haviam desfilado pela a casa, sempre trabalhando a jornada completa, e como, sempre que podia, sua mãe descontava nelas. Lembrou que seu pai normalmente não estava em casa. Trabalhando muito e quando chegava, queria relaxar. Isso significava ficar na piscina sem que os meninos os incomodassem, ou ir jogar golfe com os amigos. Sempre que seus pais estavam juntos, discutiam.

Dia após dia, sempre igual. Nem sequer o nascimento de Camile e Jaqueline havia conseguido que seus pais freassem o ritmo de vida ou se voltassem mais caseiros. Não eram felizes juntos, mas tampouco separados. Então, aconteceu o acidente de carro em que perderam a vida, e a rotina diária de Dean veio abaixo. Passando ao longo do caminho da entrada da casa, estacionou próximo e desligou o motor. Transcorreram alguns minutos: sem mover-se do assento, observou a casa em que havia vivido nove anos. Parecia à mesma. Paredes de madeira branca. Persianas verdes. Telhado cinza. Porta principal vermelha.

O jardim estava fora de moda, mas bem cuidado. Algumas árvores haviam crescido, outras tinham desaparecido. Não havia tido muitas mudanças. Então olhou com mais atenção. As tabuas do telhado pareciam um pouco gastas. A pintura das paredes estava descascando em alguns pontos. O caminho de entrada e a calçada mostravam algumas rachaduras aqui e ali. Os canos se viam oxidados. Talvez se devesse a sua experiência em reformas, mas via cada pequena falha, cada sinal que delatava abandono. Antes de dar-se conta, havia saído do carro. Com os braços cruzados e apoiados no teto do veículo, deixou que o penetrasse a visão da casa e do jardim, a sensação de estava vendo-o todo como um adulto.

Maldito fosse, era estranho estar em “casa”.

Havia jogado bola com os meninos do bairro no mesmo jardim. Tinha estado a ponto de afogar-se na piscina da parte detrás ao brincar um dia, quando estava descendo na água. Também uma vez havia perseguido a Jimmy Barker ao redor da casa até que Jimmy tinha terminado tropeçando e tinha perdido uns dos dentes da frente. Mais além da piscina do pátio traseiro, tinha uma floresta na qual ia quando queria estar sozinho.

Algumas coisas não tinham mudado; outras o tinham feito de maneira irreversível.

Que aspecto teria agora suas irmãs? Estariam tão danificadas e desbotadas como a casa? Acaso isso lhe importava?

Afastou-se do carro de aluguel, fechou a distância e guardou as chaves no bolso dos jeans. Os óculos de sol antiofuscante que usava protegiam os olhos, enquanto se enfiava no caminho rumo à porta principal. Sentia um peso no peito como se fosse chumbo e um punho invisível apertava-lhe a garganta, mas não vacilou. Podiam chamar-lhe muitas coisas, mas não covarde.

Bateu na porta e esperou.

E esperou um pouco mais.

Havia feito todo esse caminho para encontrar a casa vazia? Deveria esperar um pouco pelos arredores até que regressem ou talvez fosse melhor voltar mais tarde? Depois de alguns segundos, Dean acreditou ouvir barulho de água que vinha da parte detrás. Talvez houvesse alguém ali, desfrutando do bonito dia de verão na piscina. Com os polegares metidos nos bolsos dianteiros, desceu da varanda e rodeou a casa. Havia um monte de erva daninha, ainda que a maior parte permanecesse camuflada entre o arbusto bem cortado. A meio caminho do pátio traseiro detectou vozes femininas que conversavam animadas. Mais especificamente, detectou a voz grave de Eve.

Cheio de curiosidade, tornou a caminhar e viu a duas mulheres tomando sol em espreguiçadeiras tombadas junto à piscina. Encontravam-se perpendiculares a ele, de cara para o sol, e pareciam muito entretidas. Uma delas usava um enorme chapéu, óculos de sol e um maiô azul de uma peça do tipo dos que usavam para natação. De alguma maneira sabia que era Camile, a julgar pelo o estilo conservador da peça. Uma sensação de saudade começou a corroer as entranhas e, durante uns segundos, não pode afastar o olhar de sua irmã.

Sua irmã... Uma mulher adulta, magra, alta e evidentemente recatada, a julgar pelo tipo de biquíni que usava. O desconhecido começou a expandir-se, mas Dean o sufocou sem piedade e seu olhar passou a outra mulher.

Eve.

Ela usava um pequeno biquíni preto que deixava a vista muito mais pele. Tinha-a dourada pelo o sol, e um atrevido piercing no umbigo reluzia baixo o resplandecente sol de verão.

—Não vai acreditar no que fiz ontem à noite.

Sem perceber a presença de Dean, Eve lançou os óculos atrás do escuro cabelo. Estava molhada, a água deslizava, sinuosa pela a garganta, o ventre e as coxas. O instinto predador se apoderou dele, fazendo que a boca curvasse em um sorriso. Conhecia aquela sensação. Era luxuria. O desejo de caça. A excitação carnal.

Conhecer suas irmãs a sós seria uma situação incomoda. A presença de Eve suavizaria o impacto. Não poderia ter planejado melhor.

—De você acredito em tudo – retrucou Camile – Conta.

—Conheci a um homem.

Cam começou a rir debaixo do pano.

—Não me diga – Moveu-se ligeiramente mudando de postura com uma de suas longas pernas – Conhece homem além aonde vai. Isso não é novidade. É um imã.

—Você também atrai um monte de olhares.

—Pode ser, mas não do mesmo tipo.

A Dean não lhe cabia dúvidas. Eve possuía uma aura de sensualidade que não havia percebido em muitas mulheres. Na noite passada havia se sentido atraído por ela em todos os sentidos. Se aquele crápula do Roger não tivesse aparecido...

Eve curvou os dedos dos pés.

—Sim, bom, mas dessa vez... Devolvi o olhar.

—De verdade?

—Bom... Fiz algo mais que olhar.

Cam ficou em alerta.

—Como o que?

Por um momento Eve cobriu o rosto e, deixando escapar um gemido, estendeu os braços de ambos os lados.

—Fui má.

—Oh-oh. Como foi má?

“Não o suficiente” pensou Dean. Mas, não disse nada. Continuou escutando. Retrasando o inevitável encontro com Cam.

Com um grande sorriso, Eve girou a cabeça rumo a sua amiga.

—De tudo, completamente.

Dean se aproximou um pouco mais, sem fazer ruído sobre o múltiplo arbusto, e sem que as mulheres se dessem conta de sua presença. Algo que pareceu justo, dado que o assunto de conversa. Deteve-se junto à grade que rodeava a varanda traseira e se dispôs a escutar. Cam estava rindo de novo, com uma risada infantil que ele lembrava, mas sim com uma risada de mulher.

—Como de tudo? Dormiu com ele?

—Não! Claro que não. Somente falei com ele – Eve vacilou um momento antes de admitir – Mas queria fazê-lo. Se Roger não nos tivesse interrompido, acredito que talvez o teria feito.

Dean sabia que o teria feito. Foda, Eve lhe havia mandado sinais que até um cego teria visto. E ao beijá-la... Ainda sentia o fogo cada vez que o lembrava. Teriam acabado na cama. Ele o sabia.

Mas, talvez não quisesse dizer a Cam.

—Então deveria se alegrar de que Roger interrompesse?

—Pode ser – Fechou de novo os olhos – Mas, Cam é que era um tipo com um corpão e, além disso, era encantador. E não digo somente em seu aspecto.

—Continua.

—Somente sei. Tinha algo. Era muito viril, mas não ia de machão, compreende o que quero dizer? E, oh Deus meu, como era cheiroso.

Dean ficou um tanto perplexo ao ouvir. Ele cheirava bem?

—Dava-me vontade de... Comê-lo.

Merda. Como seguisse falando assim muito mais acabaria melado. Talvez fosse o momento de anunciar sua presença. Foi fazê-lo, mas então falou Cam.

—Diga-me que lhe deu seu número.

Eve deixou escapar um gemido.

—Esperava que pedisse o meu, mas não o fez, e apesar de que eu seja uma mulher audaciosa e o homem ser o mais lindo da minha vida, me alegro de não voltar a vê-lo.

—Por quê? Parece louca por ele.

—Desejava-o, que não é o mesmo. Flertei com ele. Beijei-o – Mordeu o lábio – Deixei-lhe bem claro que estava interessada nele. E isso é tudo. Comportei-me como uma... Descarada mulher da vida – Eve cobriu o rosto – É uma pena, mas já não posso desfazer tão desafortunada atuação.

Vendo a oportunidade de apresentar-se Dean sorriu.

—Foi somente uma atuação?

Os gritos das duas mulheres haviam assustado a qualquer um. Ambas imediatamente ficaram de pé e Cam se cobriu com uma grossa toalha.

Menos mal que Eve não tinha nenhuma em mãos. Ficou olhando-o com uns olhos que pareciam ainda mais azuis embaixo do ardente sol do meio-dia. Tinha as bochechas vermelhas e seu peito subia e descia devido ao nervosismo.

Sim, a ele também tinha vontade de comê-la. Ainda não era o momento, mas logo seria. Dean se voltou rumo a sua irmã.

—Camille não?

—Quem é você?

Eve afogou um gemido

—Ele é... – Eve não sabia o que dizer, engolia com dificuldade e havia ficado sem ar – O cara de ontem. Do que estava te falando agora mesmo.

Imediatamente Cam se colocou diante de sua amiga.

—O que esta fazendo você aqui? Isso é uma propriedade privada – Cam havia passado de ser uma mulher doce a uma amazona em um abrir e fechar de olhos. Apesar de que os óculos escuros ocultavam boa parte de seu rosto. Dean podia ver as sobrancelhas de advertência de que fazia – Como sabia onde encontrá-la?

De que maneira se preocupava e protegia a Eve? Isso o agradou, apesar de que Eve não precisava de sua proteção. Contudo, gostou de ver sua irmã tinha determinação.

—A verdade é que vim procurar você e não a ela – Dean se voltou e acrescentou em direção a Eve – Mas, me sinto feliz de que esteja aqui.

As duas o olharam mudas. Suspirando Dean colocou a mão no bolso e tirou uma carta amassada.

—Escreveu-me. Faz vários meses, eu sei, mas estava de viagem e o correio custou me encontrar.

Cam subiu os óculos ao alto da cabeça.

—Que te escrevi?

Em vez de explicar, Dean deu um passo e estendeu a carta. A menina de um pouco mais de metro e setenta. Também era alta, ainda que ele superasse em quinze centímetros pelo menos. Tremendo, Cam pegou os amassados papeis. Segurando entre as mãos, ficou olhando-os fixamente, piscando, mordendo os lábios. Quando olhou a Dean, tinha os olhos cheios de lágrimas e daquela maldita esperança.

Merda, merda, merda. Dean se preparou. Ou ao menos pensou que o fazia. Mas, como demônio se prepara um homem para o reencontro com uma irmã a que faz anos que não vê?

—Dean? – perguntou ela com a voz chorosa demais e um tom absurdo – É... É você de verdade?

A ele não deu tempo de responder. Antes que pudesse reagir, Cam o abraçou com força veemente. Dean não se lembrava à última vez que uma mulher lhe havia apertado contra ele de forma platônica. Sua mãe nunca havia sido uma mulher carinhosa. Uma palmadinha na cabeça, cosquinhas debaixo do queixo... Mas, não aquele contato de corpo inteiro cheio de quente emoção.

O tempo que tinham vivido na casa tinham se mostrado amáveis, mas nunca haviam sido amorosos. Logo, havia tido vários professores que se haviam preocupado por ele, havia conhecido muitas mulheres quando trabalhava na construção, também as mulheres de seus companheiros, as amantes de uma noite de seu tio. Mas... Nenhuma o havia tratado como se fosse um tesouro, algo mais que um amigo. Nenhuma havia abraçado ele como se fosse seu salva-vidas.

Através do abraço, Dean percebeu varias coisas: o canto dos pássaros, a suave brisa, a fixa atenção de Eve e a suavidade de Cam e seu agradável aroma. Fechou os olhos e inalou. Seus sentimentos se rebelaram, mas de uma maneira totalmente desconhecida. Cam não era uma menina frágil, apesar de que sua força não era nada em comparação com a dele. Contudo, seu abraço resultou... Agradável. Fodidamente agradável.

Deliberadamente, Dean manteve os braços quietos a ambos os lados do corpo, enquanto lutava por bloquear a necessidade de consolo. Sendo como era, um dos melhores lutadores de artes marciais mistas do mundo, estava completamente certo de que não precisava que ninguém o consolasse. Não daquela maneira.

Não ela.

Na busca por uma rápida distração olhou a Eve.

Os óculos ocultavam sua expressão, mas Eve não contava com a mesma vantagem. Dean viu desconcerto, embaraço e algo mais dela. Olhava-o fixamente, ruborizada e com os olhos arregalados. Seus lábios se entreabriram e a respiração acelerou. Dean a examinou demoradamente, tomando seu tempo. Comparada com Cam, Eve era miúda, ao menos na altura. Mas, tinha curvas de sobra e todas em lugares preciosos. Havia-se referido a seu atrevido comportamento na noite passada como se tratasse de uma anormalidade. Não parecia uma mulher tímida, mas ainda assim, com ele havia reagido de uma maneira especial.

Não deixaria que esquecesse a química que havia entre eles. Não deixaria que a sufocasse. De uma maneira ou de outra a teria, e seria ele quem colocaria as condições. Finalmente, Cam se afastou dele, mas somente um pouco, só para olhá-lo no rosto e sorrir como se houvesse resolvido todos os seus problemas.

Respirando pelo nariz e rindo ao mesmo tempo tratou de desculpar-se.

—Sinto muito Dean. Não pretendia chorar encima de você – disse, enquanto alisava com gesto ausente a camiseta de seu irmão, como se necessitasse sentir, absorver sua essência – Havia ensaiado mil vezes esse momento em minha cabeça. Rezava por que chegasse a minha carta e voltasse para casa, mas não... – Quebrou a voz e teve que pigarrear. Duas vezes – Deus meu, é você de verdade – E começou a rir de novo.

Sentindo-se como um imbecil, Dean disse “Sim” por que não lhe ocorreu nada mais. Preferia lutar com três loucos imbatíveis, de graça, antes de enfrentar todo aquele sentimentalismo. Cam pôs as mãos nos ombros.

—Eve tem razão. É muito lindo. E grande. Acreditava que Jackie era alta, mas... Olha você.

Jackie sua irmã pequena. Era ainda mais alta que Cam? Quando a veria?

Por dentro, os instintos de Dean se revelaram. Por fora, estava rígido que poderia partir-se. Apertou os dentes e deixou que Cam seguisse com seu discurso.

—Até temos a mesma cor de cabelos - comentou absolutamente vidrada – Deu-se conta Eve?

Todavia muda, sua amiga assentiu com a cabeça.

Dean não sabia o que pensar. Cam se mostrava tão endiabradamente familiar para ele, tocando-o e segurando como se o conhecesse. Como se tivessem sido criado juntos. Como se de verdade fosse seu irmão mais velho em vez de um perfeito estranho.

—Mas, o que aconteceu com meus modos? – prosseguiu ela em voz alta e cheia de excitação, sem dirigir-se ninguém em particular – Vamos para dentro e preparar algo para beber. Temos que colocarmos em dia um monte de coisas – E dizendo pegou seu braço e o arrastou rumo a casa – Veio de muito longe? Onde estava quando recebeu a carta? Onde vive?

Muitas perguntas de uma vez. Dean olhou a Eve por cima do ombro. Essa que parecia ter-se ficado cravada no lugar sem tirar os olhos de cima, despregou de repente os pés do lugar e passou junto a eles como um raio em direção a casa.

—Irei me vestir – disse.

Em sua velocidade rápida, Dean a observou com interesse. Ele era rude e bruto, enquanto que Eve era esbelta e tinha um generoso redondo traseiro em concordância com um bonito peito. Antes que se fosse de Harmony, conheceria aquele corpo de enfartar de forma íntima. Pensar nele serviu para suavizar a realidade de ter que enfrentar seu passado.

—Sinto muito – voltou a dizer Cam – Estou fazendo muitas perguntas. Deve estar pensando que sou uma lunática.

Não a conhecia o suficiente para saber do valor de seu estado mental.

—Não é nada.

—De mais a mais, prometo-o. Assim pode... Onde estava antes de vir aqui?

Dean deixou de lado sua reserva. Se Cam podia mostrar-se tranquila ele também.

—Quando recebi sua carta estava em Las Vegas. Antes havia estado fora do país.

—Onde? – quis saber brincalhona – Em algum lugar exótico?

—Na Europa quase todo o tempo.

Cam fingiu que ia desmaiar.

—Europa! Como o invejo.

—Viajo muito. Não é para tanto.

—Para mim sim. Nunca sai de Kentucky.

—Nunca?

Eve havia entrado tão depressa na casa que tinha deixado as portas abertas, e Cam o incitou a entrar em uma fresca estância que usava para o café da manhã e como sala de estar adjacente da cozinha.

Dean olhou ao seu redor, reencontrando o lugar de sua infância.

—Diz brincando não? – perguntou-lhe a sua irmã.

Naquela sala havia visto os desenhos da televisão, naquele sofá havia se deitado de pijama. Ali havia brincado com Cam, quando essa tinha dois anos, sobre o chão carpetado. Algumas coisas haviam mudado: uns poucos móveis, as janelas, inclusive a cor dos marcos das mesmas. Mas, fundamentalmente tudo continuava igual.

—Não. Quando terminei a escola fui pra universidade local um tempo, mas... – Apressou-se a mudar de assunto com nervosismo como se lhe desse vergonha não ter obtido um diploma – O que gostaria de tomar? Um refrigerante, chá, café?

Dean a olhou.

—Tem cerveja?

Cam empalideceu.

—Sinto muito não – Lançou um olhar rápido ao relógio de parede, começou a retorcer os dedos com nervosismo.

Acaso considerava que as duas da tarde era cedo demais para beber?

—Acontece algo Cam?

—Não é somente que... – Cam se encolheu os ombros – Sinto muito, mas a tia Lorna não aprova a bebida. Nos proíbe ter álcool em casa.

Grover lhe havia contado muitas coisas sobre Lorna, entre elas o muito beata e mal bicho que era. Por sua culpa, ele não conhecia suas irmãs. Lorna havia proibido que mantivessem contato. Chegaria logo em casa e por isso Cam havia olhado a hora?

Pouco desejoso de encontrar com problemas tão cedo, Dean encolheu os ombros e a seguiu pela cozinha.

—Chá gelado sem açúcar então, se tiver.

—Claro que sim – Cam ofereceu-lhe uma cadeira como se fosse um cavalheiro galante – Por favor, sente. Fique a vontade. Tem fome? Posso preparar um sanduíche.

—Não obrigado

—Sopa? Ficou um pouco de ontem. Ou talvez...

—Não tenho fome – interrompeu-a ele. Por Deus, Cam falava sem parar. Supôs que devia ser pela excitação do momento.

O momento de seu reencontro.

Foda.

—Uns biscoitos? São caseiros. Foram feitos essa manhã. Aveia e passas.

Protetora e com uma veia de Martha Stewart? Sua irmã era um paradoxo interessante.

—Não sou de comer doces.

A julgar pela a forma que reagiu sua irmã, foi como se tivesse dito que tinha duas cabeças. —E isso por quê?

—Para estar em forma

—Pois, já o está – retrucou ela olhando-o com um meio sorriso. Tirou o chapéu e os óculos e os deixou encima da mesa, enquanto se dirigia a geladeira – Não precisa. É puro músculo.

Dean não queria que sua irmã acreditasse que era um fanático, assim que decidiu explicar.

—Sou lutador profissional Cam. Minha dieta é uma parte importante do meu estilo de vida. Detendo-se em seco, ela se voltou e o olhou com a boca aberta.

—Lutador?

Não muito certo de se seu olhar era de repulsa ou intriga, optou por não dizer nada.

—Nada de biscoitos, mas bebe cerveja? – Cam franziu a sobrancelha com gesto de suspeita e pôs os braços cruzados – Como é isso?

Dean deu-se conta então de que sua irmã brincava e lhe sorriu.

—Em algum lugar tenho que por o limite. Não posso deixar tudo, e prefiro esquecer o doce.

Contudo, limito o álcool as épocas em que não compito e por tanto não tenho que treinar.

—Deve ter uma incrível força de vontade. Tento-o, mas me volto louca por um doce.

Pois, não se notava. Cam tinha uma fina cintura e era atlética. Dean supôs que devia de ser algo genético. Lembrava a sua mãe como uma mulher esbelta, e a seu pai como um homem magro e fibroso.

Cam não deixava de olhá-lo enquanto enchia o copo de chá gelado.

—É lutador profissional disse. Boxeador?

—Não exatamente boxeador – Em vez de seguir ocultando-se atrás dos óculos de sol, Dean os tirou e deixou encima da mesa.

Ao olhar Cam, essa se fixou em seus olhos e de imediato mudou outra vez de assunto.

—Dean! Também temos mesmos olhos. Não é assustador?

Ele não pode evitar sorrir. Divertia-lhe os resíduos de entusiasmo de Cam.

—Sempre é assim animada?

Eve entrou nesse momento com passo tranquilo.

—Sim – respondeu por Cam – Doentia não acha?

Voltando-se na cadeira Dean a olhou. Eve evitou seu olhar, mas ele não se importou. Ambos sabiam o que ela sentia, igualmente sabiam o que resultaria tudo aquilo. Tinha prendido o cabelo molhado em um coque, o qual destacava seus pronunciados pômulos e o voluntarioso queixo. Os jeans curtos que usava deixavam quase tanto de seu traseiro a vista e a marquinha do biquíni de antes. Uma camiseta de tira de um fino tecido proclamava que não usava sutiã. Tinha pernas lindas.

—Pode ser que Cam e eu compartilhemos a cor do cabelo e olhos, mas nosso caráter é visivelmente oposto – disse Dean, sem deixar de examinar detalhadamente o corpo de Eve. Cam começou a rir.

—Significa isso que é um ogro? Não acredito. Não sei como continua me aguentando.

—Eu sim acredito – Disse Eve ficando de ponta de pé para alcançar um copo em que servisse o chá – Seu apelido no tatame é Furacão – Lançou o copo na direção dele como brinde – Não te parece representativo?

Aquilo sim resultava familiar. Jogar verbalmente com uma mulher atraente, aumentar a tensão sexual. Muito, muito mais fácil que aquele... Aquele ataque de sentimentalismo que Cam se empenhava em lançar. Desfrutando com o novo jogo, Dean Assegurou-se de que Eve visse como lhe olhava os seios antes de continuar falando.

—Chamam-me Furacão por que, a alguns, dou a sensação de que luto de forma um tanto desordenada – Lançou o olhar rumo aos olhos dela e se deu conta de sua expressão atônita e impressionada. Dean sorriu o justo para fazer-lhe saber que sabia o que sentia e pensava – A maioria dos lutadores possuem uma técnica de diferença. Os possíveis competidores estudam para fazer uma ideia do que vão enfrentar. Mas, sou imprevisível. Mudo meus movimentos de combate a outro – olhando-a com audácia declarou – Faço o que for necessário para ganhar.

Eve girou os olhos

—Acaso isso é uma advertência?

—Claro que sim.

Alheia a troca de indiretas de caráter sexual entre os dois, ou desejosa de passar por cima, Cam pegou uma cadeira e sentou-se na frente do seu irmão.

—Ganha muitas vezes?

—Sim – Foda, não tinha motivo algum para mostrar-se tão orgulhoso ao falar daquilo. O que Cam pensara dele não deveria importar nenhum um pouco. Ainda assim continuou - O suficiente como que ter sido o prato forte do programa de combates da SBC nas últimas quatro ocasiões.

—O que significa SBC?

—Desafio de Luta Extrema dois

—Parece algo confuso

—Não é, os participantes podem golpear com as mãos, pés, os joelhos e cotovelos. Trata-se de forçar para submeter seu concorrente, com chaves de pescoço, truques, chutes, demolição, patadas ou alavancas. Nenhuma disciplina predomina mais que a outra.

Eve se uniu a eles e se sentou a direita de Dean.

—Sei. E se é tão bom como é que te deram essa surra? – provocou ela.

Cam pareceu ofender-se com a pergunta de Eve, mas Dean não lhe importou explicar.

—Não luto contra fracos, por isso. Somente os melhores competidores ganham o direito de me retalhar. Além disso, alguns machucados não se podem considerar uma surra. Não quando o outro terminou muito pior.

Cam fez uma careta de dor.

—O que pode ser pior? Não é que duvide de você – apressou-se em dizer – Mas, parece como se algo muito pesado te tivesse atropelado. Não pensava em dizer nada, não queria parecer descortês, mas já que está no tema...

Dean esteve a ponto de soltar uma gargalhada ao pensar em Cam tentando ignorar as feridas, os hematomas e os pontos que brilhavam... E o fato em si o pegou de surpresa.

—A maior parte do que tenho é superficial. Mas, as feridas que sangram tanto como para impedir a visão ou que podem supor uma ameaça para a saúde do lutador, essas são as que dão a vitória. Ossos fraturados, deslocações e lesões musculares podem manter qualquer um longe das competições por meses.

—Ossos fraturados?

Dean fez girar os ombros.

—Não tem as lesões graves, mas as viu todas – E muitas as haviam sofrido na própria pele, apesar de que não pensava em contar isso a sua irmã – Ganhei meu último combate graças a uma alavanca de joelho.

—O que é uma alavanca de joelhos?

—Uma técnica de subjugação do jiu-jítsu brasileiro. É uma das que utilizam para ganhar, apesar de que a maioria dos lutadores da SBC conhece uma dúzia ou mais delas.

—E como se faz uma alavanca de joelhos?

Ao imaginar o encontro com sua irmã, não havia ocorrido pensar que terminariam falando da SBC. O interesse de Cam resultava surpreendente, e, ainda que lhe gostasse negar, teve que admitir para si mesmo que lhe agradava.

—O conceito básico em toda chave de subjugação executada com a perna e fazer pressão sobre as articulações do adversário para imobilizá-lo – Estirando a perna Dean mostrou como seria o movimento – Bloqueia a articulação e com a quantidade de pressão adequada, pode se submeter qualquer um.

Cam olhou com os olhos arregalados.

—Por que se não se submete, poderia romper ou deslocar algo – quase sussurrou.

—Isso mesmo

—Fascinante – Eve passou um dedo pela a condensação que tinha formado em seu copo – A mim soa como uma briga de bar. De verdade, os homens pagam para ver isso?

Dean a olhou analisando. Sabichona e descarada que era. E tudo por que sabia que a havia ouvido dizer que estava louca por ele. Isso estava bem. Gostava das mulheres ardentes. Reclinando-se em sua cadeira, Dean enlaçou as mãos no abdômen. Eve seguiu o movimento com o olhar, mas em seguida afastou.

—Ao contrário que uma briga de bar, nesse caso se trata de um só homem brigando contra o outro. Sem armas. E nos combates tem um juiz. À hora de brigar, se faz segundo regras aprovadas por uma comissão esportiva. Os combates têm lugar certo, diante de um monte de pessoas, em Nevada, Califórnia, New Jersey, Massachusetts e Florida. A SBC representa lutadores com grande experiência, muitos deles campeões olímpicos.

Tem competidores de Brasil, Rússia, Japão, Holanda, Inglaterra e muito outros países. Com grande frequência se esgotam as entradas e algumas podem custar preços muito elevados. Basicamente se trata de dois homens dentro de um quadrado concordando que briguem até que um deles fique fora de combate ou golpeie a lona varias vezes.

Cam se mostrou surpresa.

—O que acontece se golpeia a lona?

—Ás vezes, se sabe que não pode aguentar a dor de um braço, uma perna, um joelho ou tornozelo, pode render-se, abandonar a luta. Pode-se dar o caso de que um lutador fique inconsciente por causa de uma chave de estrangulamento, devido a que se fique sem oxigênio, mas, também pode golpear a lona várias vezes quando notar que está a ponto de perder a consciência. De vez em quando, a decisão corresponde aos juízes, mas normalmente ninguém quer chegar a esse extremo.

—Sim, Deus! Não quer que o combate termine sem que alguém se rompa a perna – ironizou Eve.

Dessa vez Dean não pode conter a gargalhada.

—Os lutadores estão bem treinados e são inteligentes. Além disso, os médicos sempre estão próximos.

—Inteligentes? – Eve assentiu em sinal de conformidade zombadora – Sim, tem pinta de ser realmente brilhantes.

—Eve.

De maneira que Cam havia mudado de lado? Parecia estar defendendo na frente de Eve. Dean negou com a cabeça.

—Não acontece nada Cam. No que concerne a SBC, tem vários tipos de mulheres. Temos as groupies, que se voltam loucas por algum lutador de verdade. As que olham com superioridade o assunto apesar de que não entender. E, por fim, aquelas que sentem verdadeiro interesse pelo esporte em si – Girou a cabeça – A que grupo você pertence Eve?

Essa o olhava com o cenho franzido, esperando poder dar a volta na situação.

—Quando fala de groupies se refere a essas mulheres que se lançam aos seus braços não?

—Exatamente – respondeu ele sustendo o olhar – Em meu último combate, coloquei um autografo sobre o peito de uma que terminou seguindo-me até minha casa.

Cam aguentou a risada como pode, mas Eve ficou rígida como um pau.

—Igual um cachorro – resmungou quase com um grunhido – Imagine.

—Sim, era jovem – admitiu Dean com melhor humor, e em seguida sorriu com cumplicidade – Mas, o suficiente grande.

Cam decidiu intervir para aliviar a tensão.

—Se todos os combates acontecem nos Estados Unidos por que viaja tanto?

Dean deixou em paz Eve... De momento.

—Por diversos motivos. É importante adquirir experiência sobre os melhores, o que significa viajar a distintos campos de entretenimento. E tenho patrocinadores por toda a parte, faço giros promocionais e coisas assim.

Cam parecia impressionada, mas Eve seguia olhando fixamente seu copo de chá, pelo o Dean não pode entender sua reação.

—Tudo isso o faço em meu tempo livre. Quando estou me preparando para algum combate não tenho tempo livre. Ás vezes, treino seis horas ao dia, inclusive mais. Nunca é demais. Para todos os lutadores que conheço praticar artes marciais é sua vocação.

—É o seu caso?

De jovem treinava para esquecer a raiva. Grover o havia animado, mas era Dean quem havia pagado as aulas, cuidando sempre de que não interferisse com o trabalho. Ou com os estudos. —Sempre desfrutei competindo. Comecei a tomar mais serio na universidade, quando Grover morreu. Foi então quando descobri a SBC. Um dos patrocinadores me viu brigar e ofereceu-se me supervisionar se competisse profissionalmente. Os primeiros triunfos me serviram para pagar a universidade.

—Combinava os estudos e a luta?

Cam o disse como se parecesse algo extraordinário.

—A maioria dos lutadores cursou cursos superiores. Alguns dos mais jovens ainda estão estudando. Outros são homens de negócios, ou profissionais de outra área.

—Não parece ser duas coisas compatíveis.

—Um idiota não chegaria muito longe na SBC. Trata-se de uma competição tanto física como mental. Tem que ser capaz de pensar com rapidez estando sobre baixa pressão e superar o seu oponente.

Cam aceitou a explicação.

—Tem sentido, mas sigo pensando que a partir de agora isso me dará motivos de preocupação.

E por que teria de preocupar-se? Estava claro que não tinha motivos. Ainda que fosse seu irmão, apenas o conhecia.

—É um esporte de contato, mas os médicos estão muito atentos para garantir a segurança do lutador.

Eve enrugou o nariz.

—Segue parecendo algo espantoso.

—A mim parece algo fascinante – reconheceu Cam estendendo a mão por cima da mesa para acariciar a machucada bochecha de Dean – Fez-lhe isso seu último combate?

—Sim – E menos mal que o cabelo ocultava a maior parte dos pontos que havia tido que dar na parte superior da testa, perto da sobrancelha – Recebi sua carta na manhã seguinte da briga – Mudou então a direção do olhar a Eve – E ganhá-la.

—Quem dera o tivesse sabido. Poderia ter ido vê-lo – Cam o olhava cheia de orgulho – Quando voltara a competir?

—Não farei em um tempo. Decidi descansar primeiro – Para visita-la, mas não o disse – Não participarei em nenhum combate em uns meses.

—Ganha a vida brigando?

—Sim. Mas, também reformo casas, um negócio igualmente lucrativo.

As duas mulheres pareceram igualmente confusas.

—Compro casas em mal estado a um bom preço, as arrumo e logo as vendo por um preço maior – explicou Dean.

Eve o olhou com o rosto aceso. Inclinou-se para frente em seu assento como se fosse a dizer algo, mas Cam se apressou em silenciá-la.

—Gosta de viajar?

Estava escondendo algo, mas Dean não acertava adivinhar o que.

—Sempre gostei. Grover se dedicava a construção de casas por todo o mundo. Viajo com motivo de competições e giros promocionais – O que ia dizer Eve? E por que Cam o havia impedido? – Mas, já basta de falar de mim. O que me diz de você?

Por alguma razão, Cam parecia envergonhar-se de ser o centro das atenções.

—Nada tão emocionante como ser lutador profissional que viaja por todo o mundo – disse ela rindo com timidez – Dirijo o motel de Roger.

Ao ouvir o nome de Roger Eve se enfureceu.

—O mesmo Roger que poderia converter-se em seu marido?

Cam se voltou rumo a Eve.

—Contou-lhe da proposta de casamento?

A outra encolheu os ombros.

—Depois de que o bom Roger o provocara para que iniciasse uma briga, falamos um pouco dele sim.

—Oh Dean. Sinto muito – Cam deixou escapar um longo sorriso – Roger tem um problema de insegurança.

—Não me diga – disse Dean com um tom seco como pó.

Cam assentiu com a esperança de poder convencê-lo.

—É ridículo, dado tudo o que conseguiu na vida, mas é como se tivesse que demonstrar algo a si mesmo. Espero que não te dê muitos problemas.

—Em absoluto.

—Afortunadamente – disse Eve – Dean rejeitou logo – Apoiou um cotovelo na mesa e o observou detalhadamente – E agora que sei um pouco mais sobre você não posso evitar perguntar por que o fez?

—Estou acostumado com idiotas que me detenham. Não é nada novo.

Terminou-se ele o chá com um longo gole. Somente pensava em Roger deixava um sabor asqueroso na boca, mas não era assunto seu. Que lhe importava se Cam decida casar com ele?

Mas, Eve não o deixou estar.

—As maiorias dos caras se sentiram tentados a aceitar e demonstrar sua capacidade ou algo. O orgulho masculino e todas essas baboseiras.

—Teria o matado – respondeu Dean –Não tenho necessidade de carregar algo assim sobre minha consciência.

Cam permaneceu em silêncio, mas Eve havia falado. Apoiou ambos os cotovelos na mesa e se inclinou rumo a ele.

—Nunca se sabe. É grande, mas Roger também não é pequeno. Sabia que jogou futebol americano na faculdade?

Dean encolheu os ombros. Importava-lhe nada o que teria feito esse cara.

—Era um running back muito bom. Provavelmente poderia ter feito profissional de não ser pelo o golpe na cabeça que causou problemas de visão.

—Fico feliz por ele – retrucou Dean, imitando a postura dela, de forma que o espaço entre ambos se reduziu até que seus ares se roçaram e pode ver os espessos cílios que marcavam seus

olhos – Ainda assim, não teria tido nenhuma possibilidade comigo. Não tem o porte de um lutador, nem os reflexos de um lutador, nem a inteligência de um lutador.

—A julgar por suas palavras, é um homem com muitos defeitos não? – brincou Cam – Deveria sentir-me insultada em nome de Roger?

Foda. Ao dar-se conta Dean retrocedeu.

—Não pretendia insultar, somente estava mencionando os fatos. Mas, deveria dizer a Roger que se mantenha afastado de outras mulheres.

Eve fechou os olhos, presa no pânico.

Cam elevou as sobrancelhas em gesto interrogativo. E então, uma voz feminina distinta interrompeu o silêncio.

—Alguém poderia ter-me dito que tínhamos visita.

Dean se voltou. De pé na sala havia uma menina alta, com o cabelo tingido de loiro, revolto e disparado em todas as direções, como se tivesse colocado gel e logo tivesse passado a noite dando voltas na cama. Mediria no mínimo um metro setenta e sete. Uma menina espigada, de ossos longos... Sua irmã menor.

Diante de seu olhar, Dean sentiu que seu coração começava a bater com um ritmo desatado. A julgar por sua aparência, sua postura e atitude, estava claro que era um problema de pernas. E por alguma isenta razão gostou disso.

De maneira que sua irmã menor se havia convertido em uma menina problema, justo ao contrario de Cam, pelo que havia visto. Somente tinham dois anos de diferença, apesar de que Cam parecia muito mais madura que Jack.

O sol grudava na janela da cozinha como uma miragem de círculos dourados de diversa intensidade. Jack se voltou rumo a ele e Dean pode ver a atrevida tatuagem que a menina usava nos quadris, visível debaixo da camisa recortada e os jeans de cintura extremamente baixa que, a pesar de suas longas pernas, chegavam até ao chão.

—Jack se levantou cedo – balbuciou Cam, levantando-se rapidamente e dirigindo-se rumo a ela. Com um enorme sorriso acrescentou – Tesouro, esse é nosso irmão, Dean.

Capítulo 3

Sonho, aquilo começava a ficar interessante, pensou Eve. Dean examinava a Jack como se estivesse acostumado a tratar com jovens rebeldes de vinte e um anos. E Cam, a pobre, parecia atrapalhada entre o prazer de anunciar a presença de Dean e o pavor do que sua irmã pudesse dizer.

Jack piscou com seus cílios que luziam uma excessiva quantidade de rímel e disse:

—Não fode.

—Cuidado com essa língua – Chamou a atenção Cam com o cenho franzido. O que disse?

Dean começou a rir.

—Nada que não tenha ouvido antes.

—Amem – concluiu Eve. Pessoalmente, entendia melhor a atitude de Jack que a de Cam. As duas irmãs não tinham passado muito bem nos últimos tempos.

Em vista do que, obviamente, Jack acabava de levantar, Dean olhou a hora.

—Uma noite longa?

A menina franziu os lábios, o olhou de cima a abaixo e voltou rumo a cafeteira, como se reencontrar com seu irmão, ao que não via há muitos anos fosse o mais normal.

—Uma festa de merda. Minha cabeça vai explodir. Não tem café feito Cam?

—Sente antes que caia, enquanto preparo.

Eve observava a Dean, enquanto este contemplava o comportamento de suas irmãs. Não fazia precisava ser um gênio parar dar-se conta de que Cam se ocupava de Jack como se fosse sua mãe e que esta a deixava fazer.

—Ok – Arrastando-se rumo a mesa, Jack se sentou pesadamente em uma cadeira e depois de mostrar a todos suas amídalas em um bocejo bastante pouco elegante sorriu a Dean – A tia Lorna irá ter um ataque.

—Jack – advertiu-a Cam sem deixar de preparar o café – Contarei a tia Lorna. Não se preocupe por isso agora.

—Sim e o que irá dizer? – Jack se esticou no assento espreguiçando-se – Perguntará por que voltou o filho pródigo – Olhou a Cam – Suponho que você o convidou.

—Foi.

—Claro – Voltou-se então de novo rumo a Dean – E você aceitou o convite obviamente. Mas, por quê? A final acredita que temos dinheiro e ninguém me disse?

Cam ficou como pedra.

Inclusive Eve se sentiu consternada diante da aberta indireta. Jack sempre se comportava de forma escandalosa, o fazia de propósito, mas aquele sarcasmo era demais inclusive para ela.

—Prodigo? Não diria isso – disse Dean sem insultar-se.

—Sim – Jack levantou a sobrancelha – E o dinheiro?

—Quer que comparemos nossas contas bancarias? – perguntou lançando um rápido olhar aos eletrodomésticos da cozinha, o descolorido papel de paredes, e as superfícies dos moveis cheias de marcas – Estou certo que sairia ganhando.

—De verdade? De maneira que tenho um irmão vencedor. Melhor, que melhor. Mas, isso não explica o que está fazendo aqui. A tia Lorna sempre dizia que nunca voltaríamos a vê-lo.

Dean sentiu como se algo machucasse seu coração.

—E alguma vez os disse por quê?

—Sim – respondeu ela com a voz aguda e imposta – Os homens são todos uns porcos que somente se preocupam com si mesmo.

—Já chega Jack – Cortou-a Cam apressando-se em terminar o café – Guarda as garras agora mesmo.

Parecia ela de verdade? – retrucou Jack com um amplo sorriso

Eve ia dizer que sim, mas Cam se adiantou.

—Não, não parecia ela, parecia uma menina malcriada. E, agora pare.

—Sim mamãe.

Dean começou a rir.

Eve se sentiu aliviada ao ver que não se tinha ofendido, mas a Jack seu bom humor pareceu confundi-la.

—O que lhe parece tão divertido? – quis saber apoiando ambos os cotovelos sobre a mesa – Se é que pode se saber.

—É somente que leva carga demais encima.

Eve se perdeu no relaxado sorriso de Dean e da doçura que havia em seus olhos. Realmente era um homem devastador em mais de um sentido.

—E se não tem cuidado – continuou com suavidade – esses magros ombros seus se partiram embaixo o peso de seu mensurado ressentimento.

Oh-Oh. De todos os insultos que Dean tinha soltado, provavelmente chamá-la de magra fosse o que mais dano teria causado. Eve aguardou o estalo de cólera de Jack. Isso não demoraria a chegar.

A menina levantou da cadeira rapidamente.

—Mudei de ideia. Já não quero café – Fez um gesto de despedida a Dean e uma inclinação de cabeça a Cam – Vou tomar banho e me vestir.

Cam ficou rígida.

—Queria que nos conhecêssemos um pouco – disse-lhe a Jack tentando detê-la. —Já fiz planos com meus amigos – E com isso a menina saiu do quarto Cam se apressou a desculpar-se com Dean.

—Sinto muito Dean. Pelas manhãs não está de muito bom humor.

—É pela ressaca. Isso pode colocar mal a qualquer pessoa.

—Jack não bebe.

Era obvio que a menina se tinha acabado em uma boa noite, mas Dean não quis dizer ao contrario.

Eve agradeceu sua contenção.

—Se me perdoam irei a... – As palavras de Cam morreram em seus lábios e em seguida saiu como sua irmã.

—É hora de ir-me – comentou Eve observando Cam sair – Se meteu em cheio no miolo da questão. Mercado imobiliário, álcool e formas femininas... Os três temas tabu da família Conor.

Quase o sentia por Dean. A situação tinha que ser incomoda para ele. Mas, quando levantou o olhar não o viu em absoluto preocupado por como haviam ido as coisas.

Não, o que viu foi o ardor de todo o fogo do inferno. E uma clara intenção.

—Eu...

Dean se levantou da cadeira rodeou a mesa em direção a ela. Eve sentiu que o coração subia na garganta.

O que vai fazer?

Ele colocou uma mão na superfície da mesa, enquanto apoiava a outra nas costas da cadeira de Eve prendendo-a.

—Vou beijá-la.

A forma com que disse, com um tom grave e profundo, a fez estremecer.

—Não é uma boa ideia.

Ele olhou a boca dela.

—É uma ideia genial e sabe disso – Inclinou-se ainda mais – Você mesma disse. A química surgiu entre nos dois ontem –murmurou.

—Ontem não sabia que era...

Dean posou sua boca sobre a dela, quente, firme e deliciosa. Eve se deixou cair com um peso morto. Ao notar a língua dele dentro de sua boca, a pegou com a sua. Um gemido gutural vibrou muito dentro de seu corpo, e Dean se afastou tão somente uns milímetros para olhar com aqueles olhos dourados.

Ai Deus. Se pelo menos tivesse ainda usando os óculos, afastar-se resultaria mais fácil. Eve suspirou.

—Nem se atreva a começar algo que não pretenda terminar – sussurrou com a voz entrecortada.

A avidez sexual brilhou nos olhos de Dean.

—Acredite-me carinho, posso terminar.

Que o céu a ajudasse

—Certo – Eve tragou saliva e o afastou de si antes que pudesse beijá-la novamente – Estou certa de que pode... Mas verás... Devo ir dentro de vinte minutos. Tenho um encontro com um possível cliente.

—Janta comigo essa noite

Ela negou com a cabeça

—Impossível. Acaba de reencontrar suas irmãs. Estou certa de que desejaram...

—Desejo você, e quanto antes melhor.

Saltava a vista que aquele homem somente ia deixa claro o que queria.

—E se Cam fez planos? Sou sua melhor amiga. Não posso monopolizá-lo.

—Passarei todo o dia com ela até a hora do jantar.

—Cam também tem que trabalhar – Vendo que o homem não se renderia, e consciente de que na verdade tampouco queria que o fizesse. Eve tratou de pensar em algo com rapidez – Essa noite, vou jantar com minha família. Mas, depois... – Quebrou a voz ao notar as mãos dele ao redor de seu pescoço e seus joguinhos de caricias na nuca.

—Diga-me a hora e em que lugar – respondeu ele com apenas um sussurro, enquanto seus lábios roçavam nos dela com suma delicadeza – Ali estarei.

Em vista de como se sentia nesse momento, temerosa e totalmente excitada não acreditava que pudesse sobreviver até então. De não ser por que queria muito a seus pais, cancelaria o jantar.

Ás oito?

Depois de um gesto de assentimento, Dean aprisionou novamente sua boca e sem saber como Eve se encontrou apertando-se contra seu duro corpo. Ele a segurava com uma mão pela a nuca, enquanto a outra descia por suas costas e se grudava contra seu traseiro. Acariciou-o e apertou antes de falar com uma voz rouca de desejo.

—Deus meu, que traseiro tem.

Com ambos os braços, a estreitou ainda mais contra a parte inferior de seu corpo. Eve conteve a respiração. Aquele homem era puro músculo, claro, ardente de força contida. Naquela postura podia sentir cada centímetro de seu corpo, e fez uma ideia mental de como seria. Teria gemido, mas Dean não lhe deu oportunidade. Logo, sem saber como, estava de novo sentada na cadeira, confusa e desnorteada, enquanto ele estava na sua, com expressão de aborrecimento no rosto.

“Que demônios?”.

Cam entrou na cozinha e abriu a boca como se fosse dizer algo, mas então olhou a Eve e permaneceu em silêncio. Detendo-se na metade da cozinha, olhou a ambos com suspeita. Eve sabia que tinha que dizer algo, mas o único que pode fazer foi esboçar um sorriso que bem certo deveria parecer culpado e falso. Como havia ouvido Dean que Cam se aproximava? Ela somente podia prestar atenção nele, no seu sabor, seu corpo musculoso e quente e seu excitante aroma.

—Tudo vai bem? – perguntou Cam.

Dean respondeu por Eve, evitando-lhe ter que tentar recuperar a voz que havia perdido. —Suponho que Jack não estava ciente da carta que me enviou.

Cam ficou vermelha.

—Assim é. Sinto muito. A única que sabia era Eve.

Agradecida a ele pela mudança de assunto, ela entrou.

—Mas não me ocorreu atar os cabos ontem quando apareceu no bar. Cam te escreveu essa carta faz muito tempo.

—E também não disse a Lorna?

Cam negou com a cabeça.

—Por que ela não queria que me colocasse em contato com você – acrescentou.

Sua irmã olhou a Eve, que lhe sorriu com esperança de tranquiliza-la.

—Lorna nunca fala de você Dean. Cam era muito jovem quando se foi...

—Quando me afastaram daqui.

Cam parecia ter-se ficado como pedra, incapaz de responder. Eve, contudo, não tinha esse problema.

—O que quer dizer?

—Que não foi por minha decisão. Por Deus, não era mais que um menino. Não me deram opção. Grover me tirou daqui por que Lorna se negou a cuidar dos três.

Cam negou com a cabeça.

—Não isso não pode ser verdade.

—Como sabe se Lorna nunca fala de mim?

A cegas sua irmã tateou em busca de uma cadeira.

Mas... Verá apenas te lembro.

—Quer dizer que em seguida esqueceu de mim.

Dean o disse sem emoção alguma, mas Eve não pode evitar sentir uma pontada de dor. O que outras ideias enganadas teria? Provavelmente não foram piores que a de Cam.

Negando com a cabeça, esta estendeu as mãos rumo a seu irmão e apertou com força.

—Sinto muito Dean, mas somente tinha dois anos. Era quase um bebê. Haviam acontecido muitas coisas; a morte de nossos pais, o funeral, os amigos e vizinhos que se aproximavam daqui. Tudo era estranho e muito diferente. Você não estava... O mesmo que papai e mamãe. E Lorna não falava de você.

Eve viu como Dean tencionava a mandíbula e se fixou na inequívoca forma em que retirou as mãos da de Cam, como se não pudesse suportar que o tocasse, enquanto discutiam aquele assunto em particular. Ambos os irmãos estavam sofrendo, e Eve desejou poder fazer algo para ajudá-los. Cam respirou fundo para relaxar.

—Quando tinha dezesseis anos, descobri alguns álbuns de fotos antigos – Um fugaz sorriso apareceu em seu rosto – Em algumas saíam você, com Jack e comigo nos braços, brincando, molhando-me com a mangueira do jardim, beijando a Jack na cabeça...

—Éramos irmãos. Um comportamento normal – Dean parecia mais distante do que nunca – Aonde quer chegar?

—Sentia curiosidade por você e perguntei a tia Lorna quem era. Aborreceu-se quando lhe disse que havia encontrado as fotos, e então me dei conta de que nunca até então havia visto imagens de nos três antes de nossos pais morrerem. As tinha depois, quase todas com amigos e vizinhos, mas nenhuma quando Jack e eu éramos bebe. E... Nenhuma sua.

—Suponho que quando se desfez de mim, também se desfez de tudo o que tivesse que ver comigo – girou os olhos – O que me diz de nossos pais? Viu foto deles?

Cam negou com a cabeça.

—Não muitas. Ao menos não antes de encontrar as do sótão.

Dean sorriu com suficiência.

—De saber que existia, Lorna também havia tirado esse álbum.

Cam olhou ao seu redor sem ver, confusa. Quando voltou de novo a olhar a Dean, sua necessidade de compreender algumas coisas eram mais evidentes.

—Está me dizendo que Lorna pretendia que não soubéssemos nada de você? Que ambas crescessem ignorando o fato de que tínhamos um irmão mais velho? Mas... – Cam franziu o cenho com força – Não compreendo por que teria que afazer algo assim.

—Não queria que ficasse rastro suponho.

Eve pensou então que Cam devia ter crescido com a sensação de que faltava algo em sua vida sem saber por que. Com toda segurança, Lorna jamais o teria contado. Ao ver a dor que se desenhou no rosto da amiga, Eve supôs que tinha acabado de dar-se conta do mesmo que ela.

—Tenho fotos, se tiver curiosidade por nossos pais – ofereceu Dean como tentando suavizar o golpe.

Tenho curiosidade de você – respondeu ela olhando-o fixamente – Desejo compreender tudo isso. Desejo conhecê-lo.

—Se quiser – respondeu ele com mandíbula tensa, ignorando a súplica de Cam – posso enviá-las. Ou posso fazer cópias.

A confusão embargou a Cam de novo.

—E como é que você tem fotos e eu não tenho nenhuma?

—Quando Grover tirou-me daqui, levou dois álbuns e alguns fotos marcadas que havia pela a casa – Dean coçou o lóbulo da orelha – Não as roubou nem nada disso, simplesmente Lorna não as queria.

—Ela disse isso?

Dean encolheu os ombros.

—Grover me disse que seria doloroso recordar para você e para Jack do que tinham perdido.

Com uma inclinação de cabeça um tanto ausente, Cam aceitou a explicação. —Suponho que talvez fosse esse o motivo.

—Pode ser.

Erguendo-se com renovada determinação, Cam voltou a tomar as mãos de Dean entre as suas.

—Lorna não me mentiu Dean. Quando lhe perguntei por você através das fotos, me disse que era meu irmão. Mas, me contou que você quis ir com Grover, que queria viver aventuras...

—Pois mentiu para você não acha?

Ao ouvir isso Cam parecia tão deprimida, tão ferida que Eve a rodeou com os braços. Dean observou o gesto e afastou o olhar dos dois.

—De verdade acredita que um menino de nove anos que acabava de perder os pais queria abandonar tudo o que lhe resultava familiar? – perguntou ele – Meus amigos, meus pertences? Acredita de verdade que queria abandonar a vida que tinha aqui? – Voltou-se rumo a Cam – Lorna mentiu.

A voz de Dean não se alterava em nada; não subia de tom nem se tornava mais grave. Conseguia esconder sua expressão com sumo cuidado e habilidade, contudo, Eve leu a verdade e a dor que se ocultava atrás da indiferença; não Cam.

—E por que teria de fazer Lorna algo assim? – perguntou Eve – Não tinha nenhum sentido.

—Como disse, somente era um menino – Dean fez uma inclinação rumo a Cam – Mas, Grover me falava muito de você e de Jack quase tanto quanto de Lorna. De maneira que tenho a minha própria opinião. Eve decidiu que era um bom momento de ir. Depois de dar um novo aperto tranquilizador no ombro de Cam, levantou-se.

—Vocês dois têm muito que falar, e tenho que ir para casa preparar uma reunião. Já estou atrasada.

Dean ficou de pé antes que ela.

—Acompanharei você a saída.

Deixando Cam ali sentando sentindo-se doida e insegura de si mesma e de sua própria vida? Eve moveu a cabeça negativamente.

Não é preciso.

—Ainda não me deu seu endereço.

Isso distraiu a Cam, que começou a olhá-los com interesse; Eve quase ficou vermelha.

—Agora o faço – respondeu e como se tivesse em sua própria casa foi a uma gaveta, tirou papel e caneta e escreveu algo – Agora tem. Anotei também meu celular debaixo pra se precisar de algo – Talvez cancelar o encontro com ela se arrumasse às coisas com suas irmãs.

Cam os olhos alternativamente.

—Vão sair juntos? – perguntou.

—Sim – respondeu Dean.

—Não – corrigiu Eve. Aproximou-se da porta e pôs os chinelos – Quero dizer que, talvez, mas, não será até tarde, e sempre e quando não interfira em seus planos. Sei que Dean e você têm muitas coisas que falar – Eve dirigiu a Dean um eloquente olhar – Não quero intrometer de qualquer maneira.

Ele cravou de novo o olhar em Eve.

—Vou ficar essa noite com ela, não é assim Eve?

—Não se Cam tem outros planos – repetiu ela com firmeza.

—Hum...- Cam mordeu o lábio inferior – Esperava que quisesse ficar e jantar com a gente Dean. E você também esta convidada Eve, se quiser vir...

—Já tinha feito planos para jantar – Apressou-se a dizer a sua amiga.

Finalmente, Dean se voltou rumo a Cam.

—Também tenho que ir. Quero ocupar-me de alguns assuntos, mas gostaria de ver um pouco a cidade. O que parece se jantamos juntos nessa noite? Jack também claro. Ocorre algum lugar agradável?

O alivio passou aos ombros de Cam.

—Isso seria genial, senão se importar de jantar cedo. Tenho que voltar ao trabalho às sete.

Dean consultou a hora.

—Poderia passar para pegá-las às quatro e meia.

—Perfeito

—Estará de acordo Jack?

Cam girou os olhos.

—Estará aqui.

—Bem. Vou então – Eve abriu as portas que davam para o pátio.

Dean a segurou pelo cotovelo. Ela observou que, ao contrario que Roger, não a pegava com força, e, contudo, era mais consciente do contato de Dean do que jamais teria sido com Roger.

—Te acompanharei – disse ele.

—Não – negou-se ela assinalando com um gesto de cabeça a Cam, com esperança de que ele captasse a mensagem – Não é necessário.

—Sim é necessário.

Eve tentou soltar-se, mas apesar de Dean não a segurar com força, também não parecia ter intenções de soltá-la.

Já ia de qualquer forma – Dean pegou os óculos de sol e lhe fez a Cam uma inclinação de cabeça – Obrigada pelo chá. Vejo vocês em algumas horas.

Sua irmã vacilou e, finalmente, se lançou sobre Dean. Este soltou a Eve, assustado com as carinhosas atenções de Cam.

—Fico feliz que esteja aqui – disse a menina – Vamos solucionar tudo isso, você verá.

Eve percebeu que Dean não participava do abraço, mas sim que se limitava suportá-lo. Mostrando-se frio e distante, apesar de Cam não parecer dar-se conta. Finalmente ela retrocedeu um passo, sorridente, feliz e muito esperançosa.

—Até mais tarde.

Dean fez um gesto de assentimento.

—Não quero que Eve chegue tarde. Até logo – acrescentou agradecido por ter um bom motivo para escapar.

Eve deixou que Dean a acompanhasse até o carro antes de protestar.

—Não posso acreditar que a vai deixar dessa forma – disse com desgosto.

—A quem?

Eve se deteve de golpe e o olhou com o cenho franzido de pura incredulidade.

— A sua irmã.

Dean ainda se sentia deslocado depois de umas calorosas boas-vindas que lhe havia dispensado Cam, por não mencionar o efeito de suas assombrosas revelações: Ela não sabia de sua existência. Antes de vê-la e que falassem, sua ideia era desprezar cada gesto, fazer saber que não a havia precisado antes e agora também não precisava. Mas, agora tudo era diferente, a situação, suas irmãs e seus próprios sentimentos rumo a elas.

—Voltarei a vê-la de noite – E como não se sentia ainda preparado demais para pensar nisso, não estava disposto a permitir que Eve o fizesse – Não se preocupe.

Ela se afastou dele

—Que não me preocupe? Cam é minha melhor amiga, quase uma irmã. Estava claro que desejava que não se fosse. Pediu que viesse por uma razão. Poderia ter falado dela. Poderia ter explicado essa teoria em de deixá-la...

Dean se inclinou e a beijou. Ainda quando o estava censurando seu comportamento, Eve tinha a boca mais suave e sexy que havia provado. Ela retrocedeu uns passos, olhou-o, com os olhos carregados de desejos e lhe sussurrou sem convicção demais.

—Para.

—Não.

Eve não discutiu. Em vez disso, fechou os olhos convidando-o abertamente e Dean posou sua boca sobre a dela.

Apesar da atitude claramente antagônica que lhe havia demonstrado rumo um momento, seus lábios entreabriram-se ao contato com os dele. Havia estado com mulheres fáceis em sua vida. Mulheres que se haviam aproximado dele por motivos interesseiros. Mulheres calculistas. Mas, jamais lhe havia derretido uma mulher nos seus braços como estava fazendo nesse momento Eve.

Enquanto apoiava contra a porta do carro, Dean girou a cabeça um pouco para ter melhor ângulo e fundiu a língua em sua boca. Demônios, era bom. E que gosto se sentia com seu corpo contra o seu, o contraste da leveza com o peso emocional que Cam lhe havia causado com suas atenções. Ao tocar a Eve, quase podia esquecer a lembrança de suas irmãs e tudo relacionado ao reencontro.

Antecipando o encontro que teriam juntos, Dean despregou os dedos sobre suas estreitas costas. Pensou no momento em que a tivesse sozinho, nua debaixo dele...

Eve girou a cabeça para tomar ar, momento que Dean aproveitou para advertir para que não se metesse.

—Mantém o nariz fora de meus assuntos com minhas irmãs de acordo?

Eve ficou de boca aberta. Atônita diante do incomodo, franziu o cenho e se dispôs a mandálo ao inferno... Mas, antes que pudesse dizer algo, Dean a beijou de novo. Gemendo, apoiou-se contra ele... Durante uns segundos.

E então explodiu. Ou tentou fazê-lo, mas ele a segurava contra seu corpo com tanta força que o único que conseguiu com seu estalo de dignidade foi liberar a sua boca.

—Oh! Vamos Eve não se aborreça – sussurrou Dean.

Ela apoiou a mão no tronco dele e o fez retroceder.

—Afaste-se agora mesmo.

Outra característica única daquela mulher. Não lembrava que nenhuma outra lhe tivesse dado uma bronca. Desfrutava muito com ela, mas lançou as mãos em gesto de rendição. Uma vez livre, dedicou-se um momento a tomar ar profundamente várias vezes, tentando acalmar-se, antes de olhá-lo nos olhos. No olhar de Eve havia hostilidade. Na de Dean, curiosidade.

Ela inspirou fundo antes de perguntar.

—De verdade me disse que não me intrometa?

—Sim – o confirmou. Deus meu que bonita era – Acredita que será um problema para você?

—Problema? – quase gritou – Pois claro que é um problema. Não pode entrar na vida da minha melhor amiga e logo ir como tal coisa.

—Disse que voltaria mais tarde.

—E utilizou como uma desculpa para escapar. Como acredita que se sentiu Cam?

Dean encolheu os ombros.

—Em todo caso não pensava em ficar ali o dia todo.

Como se ele não houvesse dito nada em absoluto Eve continuou com sua fala.

—E de verdade espera que fique tranquila e não dê opinião? – Sua voz adquiriu um tom agudo – Que demônios acontece?

—Confio em que seja pergunta retórica, que não espera de verdade que te desnude minha alma.

A Eve lhe saíram os olhos.

—O que?

Dean deixou escapar uma gargalhada.

—Sou um homem cheio de falhas Eve. Aceita-o. Já fiz. Vim aqui repleto de dúvidas e receios. Não tenho nem ideia de até que ponto quero conhecer as minhas irmãs ou quanto quero que elas saibam de mim. Envolver-se no assunto seria um erro de sua parte. Digo-lhe amistosamente: Mantenha-se a margem.

—Santo Deus – Eve se deixou cair contra o carro em evidente consternação – Não posso acreditar que me disse isso sem nem sequer mudar.

—É a verdade.

Ela cruzou os braços sobre o peito.

—Já acredito que está cheio de falhas.

Não muito certo se gostaria de ouvir a conformidade por parte dela, ergueu a sobrancelha.

—E?

—Mas, também te vi com suas irmãs.

Não queria que Eve fosse por ali.

—Maldita seja. Não iria me analisar de verdade?

Seu sarcasmo não a fez vacilar.

—Deseja formar parte delas Dean. É parte delas, tanto se quiser admitir como se não. Vi nos seus olhos.

O que admitia para si e o que admitiria diante dela eram duas coisas bem diferentes.

—Apenas falei com Jack antes que saísse como alma que leva ao diabo, de maneira que o que acreditou ver...

—Sabe esconder melhor que Cam – cortou-o ela sem ceder um centímetro em sua determinação – Claro que Cam não tentava de escondê-lo. Ela mostra seus sentimentos a todo mundo, sempre o fez. Desde que se inteirou de sua existência, não deixou de preocupar-se com você. Apesar de que teria resultado ser um ogro, Cam seguiria amando-o.

—Oh! Por Deus – protestou ele, apesar de que lhe dava medo pensar que Eve tivesse razão.

—Pode que não goste, mas é seu irmão e isso significa muito para ela – Ele pôs a mão em seu braço – Afortunadamente, é um cara legal, não um ogro. E acredito que ser seu irmão também significa algo para você.

Consciente de que não podia detê-la, ao menos não de momento. Dean elevou o olhar ao céu em resignação.

—Também sei que não quer ferir seus sentimentos. E que fará o que possa para compensála – Eve se aproximou mais dele – Não é?

Dean não pensava deixar que ela o manipulasse apesar do que disse tivesse sentido. Apoiando um antebraço no teto do carro por trás da cabeça de Eve, desviou sua atenção do assunto rumo a outro bem distinto.

—Por que ficou pálida quando mencionei que Roger te havia colocado a mão? Ela desviou o olhar.

—Não me passou a mão.

—Quase lhe arrancou o braço.

—Não era nada pessoal contra mim.

—Era pessoal você sabe.

A julgar pela a forma que soava a Eve não gostou que a corrigisse.

—Roger maltrata a todo mundo. É sua forma de ser. Tem que ver com o fato de ser jogador de futebol – dirigiu-lhe um calculado olhar – A maioria dos atletas que conheci é um pouco ogro nesse sentido.

Dean não mordeu a isca.

—Uma coisa é a imperícia e outra o abuso, e nenhuma das duas coisas têm que ver com os esportes. Muitos dos caras que conheço da SBC são homens de família. Preocupam-se pelas as mulheres, as tratam com amor e respeito.

—Também as groupies?

Ele sorriu ao captar o tom sarcástico da sua voz.

—Não importa de que mulher se trate. Somente um idiota tão inseguro de si mesmo usa o tamanho e sua força contra alguém menor ou frágil – Apoiou o outro antebraço no teto do carro de forma que a deixou encerrada entre o veiculo e o seu corpo – E, para que o saiba, a groupie que me seguiu até em casa não conseguiu o que veio buscar.

A expressão de falsa surpresa de Eve lhe deu um aspecto adorável.

—Não me diga que seus escrúpulos funcionaram.

Ter estado exposta ao sol intensificava seu aroma. A brisa a arrastou ate o nariz de Dean excitando-o.

—Não estou muito certo de ter escrúpulos no que se refere ao sexo.

—Pelo menos é sincero.

—Com você sempre serei – Eve tinha uns olhos azuis realmente lindos. Igual a sua boca. E seu corpo – A verdade é que estava machucado demais para fazer alguma coisa. Então, na manhã seguinte, recebi a carta de Cam e... – Encolheu os ombros – Mandei-a para casa com a promessa de lhe enviar entradas grátis para o próximo combate.

Dean aguardou para ver o que achava ela de seu comportamento, mas sua reação fez que quase caísse de costas. Movendo a cabeça negativamente, Eve colocou as pontas dos dedos no torso dele, e com um gesto de lástima brincadeira sorriu.

—E se conformou? Menina idiota. Se quer saber minha opinião, obteve o que merecia. Dean tomou ar.

—Gosta de jogar.

—Normalmente não – o contrariou, deslizando a mão em direção ao seu pescoço – Tenho que ir, de verdade. Vai ficar muito tarde.

—Segue de pé para essa noite?

Ela fixou o olhar na boca dele e assentiu.

—Sim. E espero que valha a pena, depois de todos esses incômodos.

—Maldita mulher – Dean apoiou a frente contra ela e riu – Adoro os desafios. E depois de um último beijo quente a deixou ir.

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