Capítulo 2

Maya estava fazendo a última prova do vestido, se olhando enquanto sua mãe e sua irmã acompanhavam.

— Está divina, Maya Dawson.

— Estou vivendo um sonho, mamãe.

— Eu sei, nós também. Maya, Hannah e eu estávamos conversando de que você precisa de uma despedida de solteira.

— Que idéia descabida, mamãe. Nem tenho amigas para isso.

— Porque você sempre foi séria demais, Maya. Nem sei como Denny se apaixonou por você!

A costureira avisou que estava pronto e as duas foram tiradas da sala pra Maya se trocar. Tinham combinado de almoçarem juntas depois da prova do vestido, e enquanto era tirada de dentro de todas aquelas camadas de tule branco, Maya pensava o quanto a mãe estava certa.

Sim, Maya foi uma jovem introvertida, não era de muitos amigos nem de baladas. Seu único amigo na adolescência era Samuel, um jovem afeminado e cheio de espinhas que tinha uma família muito amorosa. Mas eles eram religiosos devotos e a orientação sexual do filho lhes trouxe bastante problemas. Porque Napa não estava preparada para que um de seus filhos se assumisse gay, mesmo que ele fosse um cavalheiro, gentil e amigo, um voluntário em diversas causas sociais com crianças e animais e um pequeno cidadão do bem do qual a cidade deveria ter orgulho!

Não os moradores de Napa, uma pequena cidade com 20 mil habitantes que faz parte do complexo Napa Valey e tem um vasto turismo por causa de suas vinícolas.

Maya e Samuel faziam tudo juntos. Os pais dela tinham uma das maiores vinícolas da cidade e ganhavam um bom dinheiro, Hannah era dois anos mais nova do que Maya e passava todo seu tempo em shoppings e os finais de semana em baladas com as inúmeras amigas ricas e fúteis. Maya preferia ajudar Samuel, e passava seu tempo em missões de resgate de animais, visitando orfanatos, ajudando os pais de Samuel em bazares beneficentes.

Em uma visita aos vinhedos da região, conheceu Denny Toronto. Ele era o filho de um magnata da produção de vinhos e estava sendo preparado para assumir os negócios do pai.

Na época, eles estavam organizando uma espécie de cooperativa, onde vários produtores se associaram para aproveitar melhor o turismo na região. O senhor Toronto era o idealizador, e John Lee Dawson se recusava a participar.

Denny, alheio a tudo isso, se apaixonou por Maya e os dois começaram um namoro. A avó materna, Sophia, aprovava e então Maya se entregou totalmente a essa relação.

Sophia era uma espécie de talismã para Maya, seu contato com sua família anterior! Ela era mãe de Maggie, viúva pra frentex, tinha seu próprio sítio e vivia com humildade e tranquilidade em um dos bairros mais afastados do centro da cidade. A filha Maggie quem administrava os negócios que o pai deixou desde a adolescência. Quando se casou com John Lee, fazia questão de incluir a mãe em sua vida. Quando Maggie morreu no parto de Maya, Sophia não quis assumir seus negócios e a única exigência que fez foi que John não a separasse da neta.

E o pai manteve a promessa, mesmo quando menos de um ano depois, conheceu e casou com Jenny. Sophia não gostava muito dela, então as visitas enquanto Maya era criança sempre ocorriam na casa de Sophia. O motorista deixava Maya por lá e depois buscava. Como Jenny tratava a menina bem e nunca soube de nenhum maltrato, mesmo depois do nascimento da outra filha, Sophia não se envolvia no casamento do antigo genro. E assim Maya cresceu, se tornou uma adolescente voluntária em causas sociais e uma menina que não dava trabalho. E sempre visitava a vovó Sophia! Ela não conhecia outra mãe que não Jenny, não podia dizer que era maltratada ou tinha menos do que a irmã que era filha legítima de Jenny. Claro que Hannah gastava mais, tinha mais coisas e Jenny saia mais com ela. Mas isso não era diferenciação por parte da mãe. Maya entendia que tinha a personalidade mais pacata e simples, como a avó Sophia. Não tinha necessidade de tantas roupas, calçados, maquiagem e carro chique! Adorava andar descalça no sítio da avó, mexendo nas plantas que a avó a ensinou a cuidar. Gostava de dirigir seu velho jeep. Hanna caçoava dela, andando pela cidade com aquela lata velha, mas Maya entrava na brincadeira:

— O jeep que foi de minha mãe é o tipo de carro que não sai nem arranhado depois de atropelar seu Mustang em um acidente!

E desse jeito, ela passou o fim de sua adolescência. Namorando com Denny que lhe era sempre muito bom e entendia seu jeito mais simples, passando várias tardes com a avó no sítio e sonhando com o dia que sairia da cidade para fazer faculdade de sommellerie. Ela queria ser uma enóloga sommelier, e apesar de ser uma cidade conhecida por seus vinhedos, ainda não tinha formação e capacitação. Ela teria que ir pra fora para se capacitar e estava preparada pra isso. A avó tinha lhe dado de presente toda sua formação. Ela só não sabia como faria para convencer Denny, seu namorado há três anos, a continuarem um relacionamento à distância pelos próximos três anos para ela se formar!

Capítulo 3

Quando falou com o pai sobre se mudar para estudar, ele muito nervoso conversou com ela, à mesa do jantar, com toda a família presente:

— Você não pode fazer isso comigo, Maya. O menino Denny vai te pedir em casamento nesse final de semana.

— Gosto muito de Denny papai, e se ele me pedir em casamento, vou aceitar, mas se ele concordar de que minha formação e carreira são mais importantes nesse momento. Somos jovens, temos toda uma vida pra formar uma família, mas depois que eu for independente e auto suficiente! Samuel já está providenciando minha matrícula e moradia.

— Você não pode fazer isso! Denny não vai aceitar ficar três anos afastado de você!

— Cinco, papai. Depois tem capacitação e eu pretendo concluir todas as fases antes de voltar pra cidade. E se Denny não aceitar isso, paciência…

— Não! Você não vai. Você vai ficar, se casar com Denny e salvar sua família!

— Salvar minha família? Do que está falando, papai?

— Não me associar à cooperativa de Toronto quatro anos atrás foi uma decisão mal tomada. Agora eles estão prosperando, e quem não se associou não consegue acompanhar. Quase todos nossos clientes estão debandando para a cooperativa. Perdemos contratos milionários e mercado.

— Mais um motivo para eu estudar, me capacitar e levantar a empresa, papai!

— Não temos cinco anos! Se Toronto não nos aceitar nos próximos seis meses, vamos a falência!

— Porque não previu isso antes, papai?

— Eu previ. Estou há um ano em negociação, mas aquele velho gaga disse que não é interessante associar mais ninguém agora.

— Se ele não vai te aceitar de qualquer jeito, qual a utilidade de eu ficar e me casar?

— O velho vai se aposentar. Vai passar tudo para o filho, inclusive a presidência da cooperativa. Mas exigiu que ele se casasse antes, para mostrar respeito e que não é só um boyzinho que vai gastar tudo o que o pai construiu.

— Querido, acho que você está exigindo demais de nossa filha! Não pode obrigar ela a se casar para nos salvar!

— Você não entende, Jenny. Não estou sacrificando Maya! Não é como se tivesse vendendo ela! O menino Denny é louco por ela, trata ela como uma princesa! Ela acabou de dizer que também o ama! O que custa ela adiantar esse casamento e adiar os estudos por uns dois anos? Até que o menino Denny se estabilize no cargo e ela possa se ausentar da cidade?

Maya pensou muito na situação do pai e de sua família. Pesou seus sonhos e projetos versus tudo o que Hannah perderia se não aceitasse ficar. Para ela, dinheiro, riqueza e o status não valiam nada! Mas para Hannah, com 16 anos, seria a morte ficar sem os seus luxos.

Viu durante os quatro dias seguintes o pai e a mãe discutindo, pela primeira vez na vida! Ela ia fazer 19 anos. Já fazia mais de ano que tinha terminado o ensino médio, Samuel saiu da cidade com a desculpa da faculdade assim que terminaram. Ele conheceu um rapaz de São Francisco e ficaram namorando a distância por um tempo. Quando acabou a escola, o rapaz o convidou a morar com ele e estudar por lá. Samuel agarrou a oportunidade e nem olhou pra trás. Não visitava Napa, seus pais que o visitavam. E Maya não tinha mais ninguém para conversar. Não era a mesma coisa falar por telefone. E mesmo assim, Samuel foi categórico em chamada de vídeo:

— Pare de loucura, mulher! O que esse velho tem na cabeça de obrigar o filho a se casar assim, do nada, pra assumir os negócios que já vão ser dele? Agora ou depois do velho bater as botas! Isso não existe mais, Maya. Vem pra cá, tem um apartamento lindo e simpático te esperando. Sua avó depositou uma fortuna pra eu arrumar um canto pra você e te ajudar a sobreviver nos primeiros meses, mas a família do Steve vai te arranjar um emprego na própria universidade pra você sobreviver. É de puro egoísmo seu pai querer que você abra mão dessa liberdade agora.

Maya ainda não estava convencida e foi conversar com a avó:

— Nunca vi meus pais brigando, vó. Agora eles vivem aos gritos pela casa. Mamãe não quer aceitar de jeito nenhum que ele atrapalhe meu futuro pra me casar. Disse que ele é um troglodita, homem das cavernas.

— Jenny tem meu respeito depois de quase 20 anos. Eu pensei que ela quem exigiria você se sacrificar pra não perder a vida boa, mas vejo que ela está te defendendo!

— Vó, ela me criou e sempre foi muito boa pra mim. Te falei milhões de vezes que ela nunca me tratou diferente de Hannah. Somos uma família, vó. E meu pai quem está sendo intransigente.

— Maya. Aquela empresa é muito importante para seu pai. Ela representa todo um trabalho de sua mãe, e seu pai pode ter casado e tocado a vida, mas ele ainda a ama! E se você for honesta, vai perceber que Jenny nunca tratou você diferente da filha dela, mas seu pai sim. Você sempre foi a queridinha dele, a protegida, a amiga. Você mesma me disse que quando pergunta pra ele sobre essa diferença, ele diz que você requer mais cuidado porque sua mãe morreu e a dela está viva! Hannah cresceu tendo tudo o que o dinheiro pode comprar, mas carinho e amor de pai, só você teve! Se ele está te pedindo algo tão sério agora, é porque deve estar desesperado e você é a única saída dele. E como ele te disse, não é como se tivesse te sacrificando. Você mesma expressou o desejo de casar com Denny muitas vezes. Só não está acontecendo no momento que você queria, mas pense se quem está sendo intransigente não é você, abrindo mão do que quer por não ser na hora que quer!

Com esse conselho no coração, no dia seguinte, quando Denny a pediu em casamento, ela aceitou e então começaram os preparativos e todo mundo parecia muito feliz, exceto Samuel, que ficou irritado que além de ela não ir morar perto dele, ainda o obrigaria a visitar Napa em dois meses pra ser o padrinho dela…

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