Cenas dela gemendo sob ele inundaram sua mente, fazendo com que um enorme aborrecimento inexplicável surgisse em seu coração.
Na manhã seguinte, às nove horas no Café Westside...
Embora não fosse o primeiro encontro às cegas de Chelsey, seria a primeira vez em que ela o levava seriamente.
O candidato diante dela, Tim Hussain, tinha trinta e seis anos e parecia um homem decente. Ele acabara de voltar do exterior e agora trabalhava como engenheiro sênior em uma empresa de eletrônicos.
Sua personalidade era mais tranquila e reservada, provavelmente devido ao seu ramo de trabalho.
Portanto, durante todo o encontro, Chelsey assumiu a liderança da conversa.
Ela mencionou a futura casa, o carro da família... tudo o que sua mãe, Sylvia Ellis, havia determinado anteriormente. O homem, por sua vez, concordou com todos esses termos.
Em dado momento, Chelsey se deu conta de que não havia motivos para não tentar. No entanto, seu coração estava sobrecarregado por uma sensação de vazio e peso ao mesmo tempo.
Chelsey recordou que, mais cedo em casa, sua mãe, assumindo o papel de mãe carinhosa e atenta, dispensou seu irmão que estava na quinta série e deu a ela todo tipo de conselho sobre o que observar em um encontro às cegas. No final, sua mãe também fez questão de enfatizar como o casamento era incrível.
Sobretudo, Sylvia lembrou Chelsey de se beneficiar do casamento, como exigir um generoso presente de casamento, para que seu irmão não tivesse que se preocupar com as mensalidades no futuro e para que ela também pudesse desfrutar de uma vida feliz e confortável.
Chelsey não pôde deixar de sorrir ironicamente ao pensar nisso. Convenientemente, Sylvia parecia ter se esquecido de que tinha se casado seis vezes no total e fracassado em cada uma delas.
Há dois anos, Sylvia aparecera com um menino de dez anos na frente da antiga casa da sua mãe em meio às lágrimas. Ela praticamente exigiu que Chelsey, a filha que abandonara por dez anos, ajudasse ela e seu filho.
Ocasionalmente, Chelsey perguntava a si mesma se, naquela época, poderia simplesmente renegar a mãe afirmando que não fazia ideia de quem Sylvia era.
Mas infelizmente, sua realidade a privou de sonhar acordada com outros caminhos da vida. Isso incluía suas fantasias de algum dia ser digna do menino de ouro da família Martin, que crescera com uma colher de prata na boca.
Chelsey foi tirada dos seus devaneios pelo som da cadeira raspando no chão no momento em que Tim se levantou abruptamente. Ele tinha um olhar respeitoso enquanto cumprimentava alguém atrás dela. "Senhor Martin, mas que coincidência."
No próximo segundo, o perfume familiar de sândalo atingiu Chelsey em cheio e ela ficou tensa na cadeira. Ao virar a cabeça, ela encontrou um par de olhos intensos e frios. Seu coração por pouco não pulou do seu peito.
'O que Jason está fazendo aqui?'
Ele não costumava tomar café em cafeterias como essa e, ao invés disso, bebia somente o que ela preparava.
"Olá", disse Jason, o desdém evidente em sua voz. Desviando o olhar de Chelsey, ele ofereceu um aceno de cabeça para Tim antes de ir até o balcão.
Sua reação deixava claro que ele não fazia ideia de quem Tim era, no entanto, este último não cabia em si de tanta animação.
Tim começou a falar sobre um artigo que Jason publicara enquanto Jason ainda estava estudando no exterior. Sua adoração pelo homem era evidente e intensa, deixando Chelsey mortificada.
Ela arriscou um olhar na direção de Jason, esperando que ele estivesse fora do alcance da voz.
Nesse momento, ele estava em uma ligação, dizendo com voz estranhamente gentil: "Sim. Desde que você goste. Nos vemos mais tarde."
Depois de pegar uma xícara de chá com leite de coco, ele saiu.
Essa bebida era conhecida por ser popular entre as garotas. Chelsey apostaria uma grande quantia que ele o comprara para sua noiva.
Sentindo uma pontada de dor no coração, ela não conseguiu mais prestar atenção ao que Tim falava.
No momento em que o encontro às cegas chegou ao fim, Tim expressou sua satisfação, o que surpreendeu Chelsey. Com isso, os dois concordaram em tentar.
Quando ele estava prestes a perguntar sobre o próximo encontro, recebeu uma ligação da sua empresa. Algo urgente tinha acontecido e precisavam dele. Ele se desculpou inúmeras vezes e eles combinaram o próximo encontro antes de ele sair rapidamente.
Chelsey também seguiu seu caminho, saindo da cafeteria e chamando um táxi. Ela não sabia ao certo se era porque não havia tomado café da manhã ou se tinha bebido café demais, mas seu estômago começou a revirar assim que entrou no veículo. Embora tivesse se esforçado para conter a náusea, acabou perdendo a luta.
"Senhor, será que poderia, por favor, encostar..."
Sem conseguir terminar a frase, ela começou a vomitar violentamente. Por sorte, ela conseguiu pegar um saco de lixo e vomitar nele ao invés de sujar todo o carro.
O motorista parou no acostamento e entregou um pacote de ameixas em conserva para ela. "Enjoo matinal, certo? O da minha esposa também foi terrível. Alimentos azedos podem ajudar com isso, mas será assim durante o primeiro trimestre. Uma vez passado esse período, você conseguirá comer e dormir como antes."
Chelsey ficou completamente pasma com tudo aquilo que estava ouvindo, ao mesmo tempo em que tentava calcular seu período menstrual. Para seu completo horror, sua menstruação estava atrasada há uma semana.
Não, isso não poderia ser possível. Afinal, ela sempre tomava suas pílulas anticoncepcionais...
Pensando em algo, ela congelou em seu assento.
Três semanas atrás, Jason precisou comparecer a um evento social que durou a noite toda. No caminho para casa, eles fizeram sexo duas vezes no carro sem proteção.
Chelsey tinha a intenção de tomar os comprimidos na manhã seguinte, mas acabou esquecendo quando recebeu uma ligação dizendo que Sylvia foi detida por jogar. Sua fúria foi tão grande que os comprimidos caíram no esquecimento e, quando ela se lembrou de tomá-los, a janela já tinha expirado.
Lentamente, ela levou sua mão ao abdômen.
Logo após o encontro às cegas, ela descobriu que estava grávida?
Em um hospital no centro da cidade, Chelsey pegou seu comprovante de registro e entrou na fila do departamento de ginecologia.
Quando ela virou a esquina do corredor, se deparou com uma figura familiar a alguns metros de distância.
Mesmo em um ambiente tão cheio e agitado como um hospital público, ela ainda foi capaz de reconhecê-lo imediatamente.
O terno preto feito sob medida, que destacava seus ombros largos e cintura fina, combinava perfeitamente com a maneira imponente com que ele se portava.
Nesse momento, Jason entregou a xícara de chá com leite de coco que acabara de comprar à mulher ao seu lado. Ao fazer esse movimento, suas abotoaduras de diamantes brilharam contra a luz, fazendo com que Chelsey estremecesse.
Embora seu coração batesse forte dentro do peito, ela disse a si mesma para não desviar o olhar, pois queria ver como era a outra mulher.
No entanto, Jason se virou abruptamente na direção dela e os olhares deles se encontraram.
Mesmo com alguns metros os separando, ela conseguiu ver o desgosto cruzar o rosto dele.
Chelsey forçou um sorriso e ofereceu um aceno de cabeça para ele. Ela insistia em dizer a si mesma que esse encontro repentino nada mais era do que uma coincidência. No próximo segundo, seu estômago começou a revirar outra vez, fazendo com que ela corresse para o banheiro mais próximo.
Quando ela estava se afastando de Jason e da mulher, seus olhos avistaram a placa pendurada no corredor, que dizia: Escritório de Planejamento Familiar.
Então isso significava que eles estavam ali para fazer os exames pré-casamento. Ela não pôde deixar de ficar surpresa por Jason ter tempo para ir até ali.
Então Chelsey se lembrou do chá com leite de coco e um sorriso amargo surgiu em seus lábios.
Ele obviamente era carinhoso e atencioso com a sua futura esposa.
Era um contraste gritante com a forma como ele costumava tratá-la. Durante os três anos em que Chelsey compartilhou a cama com Jason, ela duvidava que ele soubesse sobre suas preferências de comida ou bebida.
No entanto, ela não tinha tempo ou energia para se preocupar com assuntos inúteis. Respirando fundo, ela suprimiu a náusea antes de secar o rosto com lenços de papel. Em seguida, abriu a cabine do banheiro e saiu.
Para o completo horror dela, Jason estava encostado casualmente na lateral da pia, fumando um cigarro, com as sobrancelhas franzidas. Era evidente que ele não estava gostando do odor do banheiro.
Será que sua noiva também estava ali?
Chelsey abaixou a cabeça no mesmo segundo, fingindo não vê-lo.
Lamentavelmente, o banheiro do hospital era incrivelmente básico, tendo apenas uma fileira de pias. Se ela quisesse lavar as mãos, não teria outra opção a não ser passar por Jason.
Quando ela continuava pensando no que fazer a seguir, a voz fria dele cortou o ar. "Você está grávida?"
Chelsey se virou, um misto de pânico e dor a dominando.
Para Jason, a forma como ela reagiu foi a confirmação.
"Me responda!"
Ele começou a se aproximar dela, cada passo a deixando mais tensa. Ele era tão alto, imponente e... cruel.
Chelsey sabia que se estivesse mesmo grávida, o homem a arrastaria pessoalmente até a mesa de cirurgia.
Não existia uma realidade em que Jason permitiria que alguém como ela desse à luz seu filho. Ademais, ter um filho fora do casamento só colocaria em perigo seu tão estimado noivado e seu casamento iminente.
O fato de ele amar ou não sua noiva não tinha importância. Ele nunca iria mudar de ideia por nada nem por ninguém.
"Não", respondeu Chelsey, endireitando os ombros e mantendo as costas retas. "É somente uma dor estomacal. Vim apenas buscar um remédio."
"Bem, mas o departamento de gastroenterologia não está neste andar." Jason estreitou os olhos, não acreditando por um segundo no que ela dizia.
Chelsey por pouco não zombou dele.
Quão avesso ele seria à ideia de ela estar grávida?
"O elevador neste andar costuma ser menos lotado. Se não acredita em mim, senhor Martin, fique à vontade para me acompanhar até o departamento de ginecologia e pedir para que me examinem."
Chelsey tinha confiança de que Jason não perceberia que ela estava blefando. Afinal, não havia como ele arriscar que sua noiva o visse ir ao departamento de ginecologia com outra mulher.
Como ela esperava, ele apenas zombou enquanto agarrava o queixo dela com a mesma mão que segurava o cigarro. Ela ficou completamente paralisada quando ele passou o polegar em seu lábio inferior pálido, a ponta do cigarro a apenas um sopro de distância de sua pele.
"Você provavelmente sabe o preço que terá que pagar se eu descobrir que está mentindo para mim. Seja uma boa garota e se comporte. Além disso, venha trabalhar amanhã."
Com essas palavras, Jason a soltou tão rapidamente quanto a prendera.
No momento em que ele a soltou, Chelsey sentiu um ligeiro cheiro de perfume. Isso trouxe mais uma pontada de dor em seu coração.
Depois de três anos dividindo a mesma cama, ela estava plenamente ciente das coisas que o deixavam irritado. O que Jason mais odiava era o cheiro de perfume feminino. Mas agora...
Chelsey apertou os dentes. Na realidade, ele não era tão rígido assim com as suas regras, que valiam somente para algumas pessoas.
"Estou apresentando a minha demissão", disse ela antes que pudesse pensar melhor.
Jason, que já estava perto da porta, parou ao ouvir essas palavras. Se virando, ele lançou um olhar irônico para ela. "O que disse?"
"Estou apresentando a minha demissão", repetiu Chelsey, parecendo mais tranquila dessa vez.
Era a primeira vez, pelo que ela se lembrava, que ele realmente olhou para ela.
Em seguida, um sorriso zombeteiro surgiu em seus lábios. "Está planejando ser dona de casa?"
Embora estivesse irritada, Chelsey se mantinha firme. "Não existe nenhum problema em ser dona de casa. O que importa é que ele irá me fazer sua esposa."
"Você gosta mesmo dele?", perguntou Jason abruptamente, sua voz extremamente fria.
Chelsey sentiu seu peito apertar.
Por um instante, ela quase acreditou que ele estava com raiva porque ela iria casar com outro homem.
Mas quando ele continuou falando, seu tom soou provocador. "Você realmente acha que ele será capaz de te excitar como eu?"
Chelsey sentiu seu rosto esquentar.
Durante os encontros apaixonados deles, Jason normalmente deixava seu comportamento indiferente de lado e agia como uma fera, falando coisas sujas sem se importar. Ele gostava de morder a orelha dela e apertar a cintura dela, e adorava quando ela gemia e suplicava.
Como ele nunca mostrara esse seu lado em público, ela ficou completamente boquiaberta ao ouvir as palavras dele.
"Para falar a verdade, eu conheço aquele cara", continuou Jason calmamente. "Vocês não são compatíveis. Termine isso o quanto antes."
Chelsey observou quando ele apagou o cigarro no cinzeiro e o jogou no lixo. Seu rosto era inexpressivo, como se ele tivesse acabado de lhe entregar mais uma tarefa que precisava ser realizada imediatamente.
No passado, ela teria aceitado isso sem questionar. No entanto, esses dias tinham acabado. Chelsey não poderia permitir que os fragmentos restantes de sua dignidade fossem mais esmagados e completamente arruinados por esse homem.
Reunindo toda a sua força de vontade, ela imitou o mesmo tom zombeteiro que ele usara e até mesmo conseguiu oferecer um sorriso malicioso.
"Bem, eu realmente quero dar uma chance para ele. Afinal, talvez ele seja melhor."
Com essas palavras, ela lavou as mãos e saiu, sem olhar para Jason uma segunda vez.
Ao sair do hospital, Chelsey estava tremendo. Devido ao medo que sentia de Jason, ela não se atreveu a voltar para a fila do check-up.
Ela raramente tinha confrontado ou desafiado ele, e dessa vez definitivamente se deu mal. Mas ela não fazia ideia de quais seriam as consequências dos seus atos. A única coisa que ela tinha certeza era de que precisava largar o emprego e manter distância dele.
Na manhã seguinte, Chelsey ficou no banheiro por um longo tempo, pensando se deveria ir trabalhar ou não. Menos de duas horas depois, ela estava batendo na porta do escritório de Jason, entrando em sua sala e lhe entregando sua carta de demissão.
"Por favor, preciso que assine isso, senhor Martin", disse ela respeitosamente, estendendo o envelope para ele.
Até esse momento, Jason não tirou os olhos dos documentos que estava lendo. No entanto, as palavras dela finalmente o fizeram parar.
Ele olhou para ela incrédulo, como se nunca tivesse imaginado que ela pudesse ser tão corajosa.
Eles se encararam enquanto os segundos se arrastavam e, vendo que ele não fez nenhum movimento para pegar a carta, Chelsey a colocou calmamente sobre a mesa e recuou um passo, aguardando em silêncio.
Trinta minutos se passaram até que Jason esboçasse qualquer reação. Seus olhos profundos e escuros permaneciam fixos nela, fazendo o coração dela bater furiosamente em uma mistura de medo e antecipação.
"Já pensou sobre isso com cuidado?", perguntou ele pausadamente, sua voz a envolvendo como um cobertor pesado.
"Sim", respondeu Chelsey calmamente.
Inesperadamente, ele sorriu enquanto a chamava com o dedo indicador. "Venha aqui."
Chelsey pressionou os lábios juntos e ficou onde estava.
"Você quer que eu assine a sua demissão ou não?", perguntou Jason, conseguindo parecer convidativo e ameaçador ao mesmo tempo.
Suspirando internamente, Chelsey se aproximou cautelosamente.
O cheiro de sândalo a envolveu, a fazendo se sentir sufocada.
Jason estreitou os olhos diante do comportamento cauteloso dela e riu baixinho.
Ele não era o tipo de homem que ria, no máximo, ele sorria. No entanto, essa pequena risada não queria dizer que ele estava de bom humor. Na verdade, era o sinal de que uma tempestade estava prestes a desabar.
Chelsey sentiu sua cabeça girar quando Jason entrou em ação. De forma suave, ele a trouxe para junto de si e a prendeu contra a mesa com seu corpo musculoso, fazendo com que uma pilha de contratos multibilionários desabasse no chão, como se nenhum deles parecesse importante.