Eu não fui embora imediatamente. Havia uma última coisa que eu precisava fazer.
A avó de Caio, a formidável matriarca do clã Alencar, estava comemorando seu octogésimo aniversário em dois dias. Era um evento que eu não podia perder. Não porque eu quisesse ver Caio, mas porque a Sra. Alencar era a única pessoa no mundo dele que já tinha sido gentil comigo. E, mais importante, porque minha mãe havia me deixado um bloco significativo de ações de sua empresa, que estavam sendo administradas por meu pai e só seriam transferidas para mim no meu vigésimo quinto aniversário — um evento que ainda estava a meses de distância. A festa de aniversário era a oportunidade perfeita, e talvez final, de apelar à Sra. Alencar por ajuda para garantir minha herança antes de eu desaparecer para sempre.
A Sra. Alencar tinha um carinho especial por mim, um fato que tanto Caio quanto Kássia detestavam. Ela me convidou pessoalmente, e recusar ir teria sido um insulto.
Na noite da festa, me vesti com cuidado. Não para impressionar Caio, mas para me armar.
A propriedade dos Alencar estava deslumbrante, cheia da elite da cidade. Encontrei a Sra. Alencar no jardim, parecendo majestosa.
"Bia, minha querida", disse ela, seus olhos se enrugando nos cantos. "Você está adorável."
Entreguei a ela meu presente, uma roda de oração de sândalo esculpida à mão que passei um mês procurando.
O rosto dela se iluminou. "Oh, isso é primoroso. Você sempre sabe exatamente do que eu gosto." Ela deu um tapinha na minha mão e então fez um gesto para Caio, que estava parado rigidamente por perto. "Caio, seja um bom anfitrião e pegue uma bebida para a Bia. Não a deixe aqui parada sozinha."
A mandíbula de Caio se contraiu. Ele olhou para mim como se eu fosse algo que ele tivesse raspado do sapato.
"Ela não é criança, vovó. Ela pode pegar a própria bebida."
"Caio!" A voz da Sra. Alencar foi afiada.
Mas ele foi salvo pelo celular. Ele olhou para a tela, sua expressão se suavizando por uma fração de segundo antes de se virar e ir embora sem outra palavra.
A Sra. Alencar suspirou. "Não sei o que deu nesse menino."
"Está tudo bem, Sra. Alencar", eu disse, forçando um sorriso. Eu apreciava sua gentileza, mas isso não podia mudar a realidade dos sentimentos de seu neto por mim.
Alguns minutos depois, um murmúrio percorreu a multidão. Caio estava de volta.
E Kássia estava em seu braço.
Ela estava vestida com um vestido branco cintilante, parecendo um anjo. Um anjo muito frágil e delicado.
O rosto da Sra. Alencar endureceu. "O que ela está fazendo aqui? Eu não a convidei."
Kássia agarrou o braço de Caio, seu rosto pálido. "Caio, eu... eu não estou me sentindo muito bem." Ela começou a tossir, uma tosse pequena e teatral.
Caio imediatamente entrou em modo de proteção, seu braço envolvendo a cintura dela. "O que há de errado?"
Os convidados sussurravam entre si, seus olhos dardejando entre mim, a noiva-boato-mas-desprezada, e Kássia, a bela mulher no braço de Caio. Era óbvio quem eles achavam que era a verdadeira dama da casa.
Eu apenas fiquei ali, um gosto amargo na boca, tentando me tornar invisível.
A noite inteira foi uma performance. Caio nunca saiu do lado de Kássia. Ele buscava suas bebidas, segurava sua mão e ria de suas piadas, uma visão tão rara que era como ver uma estátua ganhar vida. Eu os observei, um estranho distanciamento se instalando sobre mim. Eu via tudo tão claramente agora — toda vez que ele tinha sido frio comigo, era porque Kássia estava por perto. Toda vez que ele me mostrava um pingo de bondade, era porque ela não estava.
Meu amor tinha sido tão cego. Eu tinha sido tão estupidamente, arrogantemente certa de que era especial para ele.
De repente, Kássia ofegou, agarrando a garganta. "Eu não consigo... não consigo respirar."
Caio empalideceu de pânico. "O que é? O que está acontecendo?"
Ele a segurou enquanto ela balançava, seus olhos percorrendo o salão freneticamente.
Kássia olhou para mim, seus olhos arregalados e inocentes. "O... o presente que a Bia deu para sua avó. Sândalo. Eu sou... sou alérgica."
A acusação pairou no ar, espessa e venenosa.
A cabeça de Caio virou-se bruscamente em minha direção. Seus olhos não estavam mais frios; eles ardiam com uma fúria assassina.
Ele se moveu tão rápido que não tive tempo de reagir. Em duas longas passadas, ele estava na minha frente. Sua mão disparou e se fechou em volta da minha garganta.
"Você fez isso de propósito", ele rosnou, seus dedos cravando na minha pele, cortando meu ar.
O pânico explodiu no meu peito. Arranhei sua mão, mas seu aperto era como ferro. Pontos pretos dançavam na minha visão.
"Caio, não!" engasguei, minha voz um ruído inútil.
Kássia soltou um grito fraco ao fundo. "Ah, não... não fique bravo com ela, Caio. Tenho certeza de que ela não sabia."
Então, com um suspiro delicado, ela desabou contra ele, desmaiando graciosamente em seus braços.
Isso foi tudo o que precisou.
O foco de Caio voltou para ela. Ele me soltou tão abruptamente que cambaleei para trás, ofegante, minha garganta ardendo.
Ele ergueu Kássia como se ela não pesasse nada.
A Sra. Alencar correu para frente. "Caio, o que você está fazendo? Coloque-a no chão!"
Ele parou, seu corpo rígido de fúria. Ele não olhou para sua avó. Ele olhou para mim.
Sua voz era uma promessa baixa e aterrorizante.
"Isso não acabou, Bia. Você vai me pagar por isso."
Então ele se virou e saiu da festa, deixando-me ali, humilhada, aterrorizada e completamente sozinha em uma sala cheia de olhos curiosos.
Fugi da festa, a vergonha queimando minhas bochechas mais quente do que as marcas vermelhas dos dedos que floresciam no meu pescoço. Eu só queria voltar para o meu apartamento, trancar a porta e esperar pelo meu voo para fora daquele inferno.
Mas nunca cheguei em casa.
Quando virei na minha rua tranquila, uma van preta parou com um rangido ao meu lado. A porta lateral deslizou, e dois homens grandes pularam para fora. Antes que eu pudesse gritar, uma mão tapou minha boca, e outro braço envolveu minha cintura, me levantando do chão.
Fui jogada na parte de trás da van. A porta bateu, me mergulhando na escuridão. Um golpe forte na nuca, e então, nada.
Acordei com o choque de água gelada atingindo meu rosto.
Engasguei, ofegante, meus olhos ardendo. O mundo era uma bagunça turva e escura. Eu estava em algum tipo de galpão abandonado, o ar cheirando a ferrugem e decadência. Minhas mãos estavam amarradas atrás das costas a uma cadeira de metal.
Uma risada baixa e sórdida ecoou no vasto espaço. "Olha só quem finalmente acordou."
Pisquei, tentando clarear minha visão. Dois homens estavam diante de mim, seus rostos obscurecidos pelas sombras.
"Quem são vocês? O que vocês querem?" perguntei, minha voz tremendo.
"Você irritou a pessoa errada, moça", disse o primeiro homem. Ele segurava um chicote longo e fino. Ele o passava por suas mãos sujas. "E agora, é hora da sua punição."
O medo, frio e agudo, perfurou meu torpor.
"Isso é sequestro! É ilegal!" Tentei soar forte, mas minha voz saiu como um guincho patético.
O segundo homem riu. Ele mergulhou a ponta do chicote em um balde do que parecia ser água salgada. "Estamos apenas seguindo ordens. Uma pequena lição para uma vadia ciumenta que tentou machucar a garota do nosso chefe."
Meu coração parou. "Seu chefe?"
O chicote assobiou pelo ar antes que eu pudesse processar suas palavras. Atingiu minhas costas com uma força incrível.
Um grito rasgou minha garganta. A dor foi imediata, uma linha ardente e branca de agonia. A água salgada em que eles mergulharam o chicote tornou tudo cem vezes pior, um fogo químico se espalhando sob minha pele.
Mordi o lábio para não gritar de novo, sentindo o gosto de sangue.
"Quem mandou vocês?" ofeguei, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. "Foi... foi o Caio Alencar?"
O homem segurando o chicote sorriu, um flash de dentes amarelos na penumbra. "O chefe é um homem esperto. Ele sabia que você tentaria se fazer de vítima depois do seu teatrinho. Isso é por ter machucado a Srta. Leonard."
O mundo inclinou. Caio. Ele tinha ordenado isso. Porque ele achava que eu tinha machucado Kássia. O homem que tinha sido minha luz, meu salvador, tinha acabado de contratar homens para me torturar.
O chicote desceu de novo, e de novo, e de novo. Perdi a conta. Minhas costas eram uma massa retalhada de carne viva. Cada chicotada era uma nova onda de agonia, me puxando para baixo.
Eles gravaram. Um deles segurou um celular, o flash me cegando. "Grite mais alto", ele zombou. "O chefe quer ouvir."
Gritei até minha garganta ficar em carne viva, até não ter mais voz.
Em algum momento, a dor se tornou insuportável, e meu corpo desistiu. Caí para frente na cadeira, minha consciência se desvanecendo em uma dormência abençoada e escura.
Não sei quanto tempo fiquei desacordada. Quando voltei a mim, estava no chão de concreto frio, desamarrada. Os homens tinham ido embora. Eles simplesmente me deixaram lá, um monte quebrado na escuridão.
Eu estava queimando. Uma febre assolava meu corpo, a tentativa desesperada do meu organismo de lutar contra a infecção que certamente estava se instalando em minhas feridas.
Então eu ouvi. Um toque fraco e metálico.
Meu celular. Eles tinham deixado minha bolsa no chão a alguns metros de distância.
Uma onda desesperada de adrenalina percorreu meu corpo. Eu tinha que pegá-lo.
Comecei a rastejar. Cada movimento enviava relâmpagos de dor pela minha espinha. A pele rasgada das minhas costas raspava no concreto áspero, e um novo grito rasgou minha garganta em carne viva.
Mas continuei, meus olhos fixos na bolsa. Era minha única esperança.
Meus dedos, desajeitados e trêmulos, finalmente se fecharam na alça. Puxei-a para mim, remexendo dentro até sentir a superfície fria e lisa do meu celular.
A tela se iluminou com o rosto de Helena. Ela estava me ligando.
Com um soluço de alívio, deslizei para atender, minha mão deixando uma mancha de sangue na tela.
"Bia? Onde você esteve? Você está bem? Comprou sua passagem?" Sua voz era uma torrente de perguntas preocupadas.
Abri a boca para responder, para gritar por ajuda, mas apenas um som fraco e rouco saiu.
"Me... ajuda..."
E então a escuridão me engoliu por completo.