Capítulo 2

Karla POV:

Karla! Por que você não me avisou que a ativação da nossa aliança de companheiros precisaria de tanto ritual? Eloá está completamente confusa com a complexidade! A voz de Vítor, em minha mente, era um sussurro distorcido de fúria.

Eu era a Escolhida. A companheira destinada de Vítor Ramos. Essa era a verdade que Vítor, no auge de sua arrogância, se recusou a aceitar quando descobriu. Era um choque para ele, o herdeiro de um império, estar ligado a uma mulher de origens tão "humildes", como ele gostava de frisar.

Lembro-me do dia em que o contrato foi assinado. Seus olhos dourados, que um dia eu imaginei cheios de amor, estavam frios e calculistas. "Eu não a amo," ele disse, as palavras cortando o ar como lâminas. "Mas a tradição exige. Para a estabilidade de nosso povo, para a prosperidade do conglomerado, eu aceito."

Ele me olhou de cima a baixo, um escrutínio que me fazia sentir menor que um grão de areia. "Você não é o tipo de companheira que eu esperava. Mas, se é o que os anciãos querem, que seja. Você ficará comigo por três anos. Três longos anos. Após esse período, o contrato será dissolvido, e você estará livre. Com uma generosa compensação, é claro. Dinheiro nunca será um problema para você."

Ele deixou claro que eu era um fardo, uma obrigação. "Não espere nada além do essencial. E não tente se apegar. Eu nunca serei seu."

Ainda assim, como membro de um povo oprimido, eu concordei. Era pela minha comunidade, pela chance de ascensão social que Vítor poderia involuntariamente proporcionar. Eu me agarrava à ideia de ser útil, de fazer a diferença. Minha comunidade. Essa era a minha motivação.

Nos primeiros meses, Vítor, surpreendentemente, me orientou. Ele me ensinou sobre o conglomerado, sobre as complexidades da política inter-clãs, sobre como navegar no mar traiçoeiro da alta sociedade. Ele tinha uma paciência que eu não esperava.

Ele explicava cada detalhe, cada nuance dos eventos que eu teria que organizar, das alianças que eu precisaria manter. Ele verificava meu progresso diariamente, testando meus conhecimentos, corrigindo meus erros. Eu via um vislumbre do homem que ele poderia ser, e, por um breve período, uma chama de esperança se acendeu em meu coração. Talvez, eu pensava, talvez ele pudesse me amar, afinal.

Mas a chama logo se apagou. À medida que eu me tornava mais competente, mais independente em minhas funções, Vítor começou a se afastar. As verificações diárias se tornaram semanais, depois mensais. Eventualmente, ele parou de perguntar. Ele simplesmente esperava que eu fizesse meu trabalho, e eu fazia.

Eu me tornei a sombra nos bastidores, a organizadora impecável, a anfitriã perfeita. Eu era a responsável por todos os eventos sociais da empresa, aqueles que ele negligenciava para se concentrar no "trabalho de verdade".

Ele nunca comparecia aos eventos sociais comigo, exceto quando era absolutamente necessário. "Você não tem o sangue para isso, Karla," ele costumava dizer. "Você não entende a importância de uma verdadeira linhagem."

Mas eu me recusava a me curvar. Eu me recusava a decepcionar as poucas pessoas que acreditavam em mim. Eu não queria envergonhar a si mesma, nem a Vítor, nem tampouco a minha comunidade que tanto havia investido para que eu pudesse estar ali. Eu queria que eles prosperassem.

Eu me dedicava de corpo e alma. Começava a planejar os eventos com meses de antecedência, supervisionando cada detalhe, desde o cardápio até a lista de convidados mais intrincada. Eu garantia que tudo fosse impecável, que cada evento fosse um sucesso retumbante. Eu me esforçava para que não houvesse uma única falha, uma única mancha no nome de Vítor Ramos ou do conglomerado.

Eu queria provar meu valor. Não para ele, não mais. Mas para mim mesma. Para a comunidade que eu representava. Eu queria que Vítor, um dia, percebesse o que estava perdendo.

Ah, como eu fui tola.

A voz de Vítor, em minha mente, continuava. Você sabia que era assim tão complicado! Eloá está em prantos porque não consegue entender os símbolos antigos necessários para a ativação! O que você fez, Karla? O que você fez para que isso fosse tão difícil para ela?

Eu fechei os olhos. A raiva dele era quase palpável, mesmo à distância. Ele estava me culpando pelo que a incompetência de Eloá causou. Eu estava cansada. Cansada do desprezo, das acusações, da cegueira dele. Eu estava tão, tão cansada.

Eu abri a boca para responder, mas as palavras pareciam presas em minha garganta. O que eu poderia dizer? Que ele nunca se importou em aprender os rituais, nem em me explicar a fundo? Que ele me deixou organizar tudo sozinha, sem nunca se importar com a verdadeira complexidade?

Mas qual era o sentido? Três anos. Três anos de tentativas falhas de me fazer entender. Não. Eu não gastaria minha energia.

Vítor, eu pensei, deixando que a minha voz fosse tão fria e distante quanto a dele. É um ritual ancestral. Não é algo que se aprende em um dia. Ou em uma semana. Ou em um mês. Eu os adaptei, na medida do possível, para serem mais compreensíveis. Mas a essência... a essência exige dedicação.

Houve um silêncio em nossa conexão. Ele não esperava que eu lhe respondesse com tal frieza. Ele esperava a subserviência, a Karla de sempre, pedindo desculpas por algo que não havia feito. Ele esperava a mulher que imploraria por seu carinho, por sua atenção, por sua mínima consideração.

Mas aquela Karla havia morrido. Morreu um pouco a cada dia, durante os últimos três anos. Morreu de vez quando ele exibiu Eloá como um troféu, enquanto eu estava de pé, invisível, no canto do salão.

O silêncio dele me deu força. Eu não precisava mais me explicar. Não precisava mais justificar a minha existência.

Se Eloá está tendo dificuldades, eu continuei, minha voz um fio de gelo, talvez ela não seja a pessoa certa para isso. Ou talvez, Vítor, a dedicação dela não seja tão grande quanto você pensa.

Eu sabia que minhas palavras o atingiriam. Não pela verdade, mas pela audácia de quem as proferia. Eu, a mulher humilde, ousando questionar as escolhas dele? A mulher que ele via como um nada, ousando dar conselhos?

O silêncio se prolongou. Eu podia quase ver seu rosto contorcido em fúria. A satisfação momentânea de ter quebrado sua compostura foi a única coisa que me manteve calma.

Não... não adianta. Não vou me justificar mais. A aliança de companheiros ainda estava ativa. Três dias. Três dias para o fim. Três dias para a minha liberdade.

Eu me virei da parede com as fotos rasgadas, sentindo uma leve brisa vinda da janela aberta. Olhei para a paisagem noturna. O mundo estava lá fora, esperando por mim.

Eu não o amava mais. Não havia mais nada para amar.

Eu ouvi um som vindo do corredor. Passos apressados. Pesados. Vítor. Ele estava vindo. E ele não estava feliz.

Eu respirei fundo. Meus lábios se curvaram em um sorriso amargo. Que venha a tempestade. Eu não tinha mais nada a perder.

O contrato estava no fim. E a minha paciência também.

Capítulo 3

Karla POV:

Vítor, eu pensei, minha voz mental soando fria e distante, é um ritual ancestral. Não é algo que se aprende em um dia. Ou em uma semana. Ou em um mês. Eu os adaptei, na medida do possível, para serem mais compreensíveis. Mas a essência... a essência exige dedicação.

Houve um silêncio na nossa conexão mental. Ele não esperava que eu lhe respondesse com tal frieza. Ele esperava a subserviência, a Karla de sempre, pedindo desculpas por algo que não havia feito. Ele esperava a mulher que imploraria por seu carinho, por sua atenção, por sua mínima consideração. Mas aquela Karla havia morrido.

Se Eloá está tendo dificuldades, eu continuei, minha voz um fio de gelo, talvez ela não seja a pessoa certa para isso. Ou talvez, Vítor, a dedicação dela não seja tão grande quanto você pensa.

Eu sabia que minhas palavras o atingiriam. Não pela verdade, mas pela audácia de quem as proferia. Eu, a mulher humilde, ousando questionar as escolhas dele? O silêncio se prolongou. Podia quase sentir sua fúria crescendo.

Então, recebi um lampejo de memória. A voz de Vítor, meses atrás, quando eu estava planejando a festa final do nosso contrato. Ele havia me dado total liberdade. "Faça o que quiser, Karla. É o seu último evento. Apenas garanta que tudo seja impecável, como sempre."

Eu queria que fosse um adeus elegante. Uma despedida digna. Eu decorei o salão com as cores que ele uma vez disse que gostava, tons de azul escuro e prata, criando uma atmosfera de sofisticação discreta, como a nossa relação deveria ter sido. Eu organizei um menu que incluía seus pratos favoritos, e os meus também, na esperança de um último momento de partilha.

Eu até preparei um vídeo. Um vídeo com os raros momentos que compartilhamos, os poucos sorrisos genuínos, os momentos em que ele me ensinou, os vislumbres de uma conexão que eu tanto desejei. Eu queria que ele se lembrasse do que construímos juntos, dos sacrifícios que fiz. Queria partir com dignidade, com a cabeça erguida, mostrando a ele que eu havia tentado.

Mas quando cheguei ao salão, tudo havia mudado. As decorações em azul e prata foram substituídas por um dourado berrante e um rosa choque. Os arranjos de flores que eu escolhera com tanto carinho foram trocados por lírios caros e ostentosos. E o vídeo. Ah, o vídeo.

No lugar das minhas memórias, um novo vídeo rodava. Nele, Vítor e Eloá riam, dançavam, se beijavam. Ele a abraçava com uma ternura que eu nunca experimentei. Era um vídeo que celebrava o novo romance deles, sobrepondo-se impiedosamente ao meu adeus silencioso.

Eu pensei que não haveria mais lágrimas. Que meu coração estava seco. Mas quando vi a imagem de Vítor beijando Eloá, o vídeo que eu fiz para ele, o último resquício da minha esperança, se espatifou dentro de mim. Uma lágrima solitária escorreu pelo meu rosto.

Lembrei-me dos poucos momentos em que Vítor não era Vítor. Lembrei-me quando ele me ensinou a caçar pela primeira vez. Sua voz era paciente, suas mãos firmes enquanto me guiavam. Ele sorriu quando acertei o alvo. Um sorriso raro, que me fez sentir que eu poderia mover montanhas.

Lembrei-me da primeira vez que saímos em uma caçada real, logo após o casamento. Um lobo selvagem nos surpreendeu. Vítor me empurrou para trás, seu corpo forte me protegendo enquanto ele enfrentava a fera. "Você está segura," ele sussurrou, e eu acreditei.

Lembrei-me do meu primeiro aniversário de casamento. Ele me deu uma pequena pulseira de prata, simples, elegante. "Para as suas responsabilidades," ele disse. Não havia amor em suas palavras, mas havia um reconhecimento. E para mim, naquele tempo, isso era suficiente.

Agora, meu "adeus" havia se transformado na celebração do "olá" deles. Meu coração doeu. Uma dor aguda, familiar, mas que pensei ter superado.

Ele se lembrava do contrato? Ele se lembrava que em apenas três dias seríamos completamente estranhos? Ou a presença de Eloá já havia apagado de sua mente qualquer vestígio da minha existência?

Eu me virei da parede, as fotos rasgadas a meus pés. Elas eram as provas do meu esforço, da minha dedicação, da minha ingênua esperança. E agora, elas eram apenas lixo.

Eu estava prestes a jogar os pedaços no lixo quando a voz de Vítor ecoou novamente em minha mente. Karla! Por que você não me avisou que a ativação da nossa aliança de companheiros precisaria de tanto ritual? Eloá está completamente confusa com a complexidade! Sua voz estava cheia de uma raiva familiar.

Ele continuou: Isso é um absurdo! Os rituais são insanos! Você não poderia ter simplificado isso? Eloá não consegue entender os símbolos antigos! Ela está apavorada e não pode com isso! A preocupação em sua voz, o pânico por Eloá, era um contraste gritante com a indiferença que ele sempre me mostrou. Ele estava preocupado com ela. Com a inexperiência dela.

Eu não conseguia acreditar. Ele estava me culpando pela incompetência dela. Pela falta de dedicação dela. Ele estava me culpando por algo que eu havia trabalhado tanto para simplificar, apenas para facilitar a vida dele.

Meus lábios se curvaram em um sorriso amargo. Ele estava realmente me testando, não estava? Estava testando os limites da minha paciência.

Mas eu não tinha mais paciência.

Karla, sua voz mental soou novamente, impaciente. Você está me ouvindo? Eu preciso de uma solução agora. Eloá está chorando.

Eu permaneci em silêncio. Sem resposta. Sem emoção. Apenas o vazio. Eu não lhe devia mais nada. O contrato estava no fim. E eu, finalmente, estava pronta para ir embora.

Eu ouvi os passos pesados no corredor novamente, desta vez mais próximos. A maçaneta rangeu. A porta se abriu com um estrondo. Vítor estava ali, seus olhos dourados em chamas, seu rosto contorcido em fúria. A mesma fúria que me acompanhou por três anos.

Mas desta vez, não era mais poderosa do que a minha indiferença. Era apenas um barulho. Um barulho que eu estava prestes a deixar para trás.

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