Ponto de Vista: Elara
Não saí do meu quarto pelo resto do dia. Ignorei as batidas suaves da empregada e a mensagem de Dante que dizia simplesmente: "Jantar. 20h." Ele esperava obediência. Ele sempre a conseguia.
Esta noite seria diferente. Esta noite, eu começaria a agir.
Às 19:55, ele abriu a porta do quarto sem bater. Era um lembrete sutil de que eu não tinha privacidade, nenhum espaço que não fosse dele. Ele estava vestido com um terno preto feito sob medida, seu poder uma presença física no quarto, sugando o ar dos meus pulmões. Ele governava o submundo desta cidade com mão de ferro, um legado de violência passado de geração em geração.
Ele segurava uma xícara pequena e fumegante. "Você perdeu o jantar. Beba isso. É uma mistura de ervas da minha irmã. Ela diz que faz bem para você."
Seus olhos, da cor de nuvens de tempestade, estavam fixos em mim. Não havia calor neles, apenas avaliação. Ele estava olhando para seu investimento, verificando sua propriedade.
O vapor carregava um cheiro amargo e terroso. "Não estou com sede", eu disse, minha voz mal um sussurro.
Sua mandíbula se contraiu. Foi um movimento minúsculo, mas eu sabia que era um sinal de que sua paciência estava se esgotando. Ele se aproximou, o cheiro de colônia cara e algo perigoso preenchendo o espaço entre nós.
"Eu disse, beba." Não era um pedido. Era uma ordem, apoiada pela ameaça não dita do que ele era capaz.
"Não", eu disse, uma centelha de desafio que eu não sabia que possuía surgindo dentro de mim. Isso era pelo meu bebê. Eu não consumiria nada que eu mesma não tivesse preparado.
Sua expressão não mudou, mas o ar ficou denso de ameaça. Ele pousou a xícara e, em um movimento rápido, agarrou meu queixo, seus dedos cravando em minha mandíbula. Ele forçou minha cabeça para trás, sua força esmagadora. Com a outra mão, ele pegou a xícara e a levou aos meus lábios.
"Você vai aprender a obedecer, Elara", ele sussurrou, sua voz uma promessa fria. Ele inclinou a xícara, e o líquido quente e amargo inundou minha boca. Eu engasguei, tentando cuspir, mas ele manteve minha mandíbula fechada até que fui forçada a engolir.
Ele me soltou, e eu desabei de volta na cama, tossindo e engasgando. Ele me observou, seu rosto uma máscara indecifrável. "Não foi tão difícil, foi?"
Uma onda de tontura me atingiu quase instantaneamente. As bordas do quarto começaram a borrar. A figura imponente de Dante vacilou, dividindo-se em duas, depois três. Uma sensação pesada e entorpecente se espalhou por meus membros.
A última coisa que vi antes de meus olhos se fecharem foi o leve e satisfeito curvar de seus lábios.
Acordei horas depois com uma dor de cabeça latejante e um gosto seco e fétido na boca. A escuridão me pressionava. Meu corpo parecia pesado, violado.
O pânico arranhou minha garganta, mas eu o forcei para baixo. Lembrei-me da câmera minúscula que eu havia escondido na estante semanas atrás, um ato desesperado de autopreservação.
Minhas mãos tremiam enquanto eu recuperava o pequeno cartão de memória e o inseria no meu tablet. Encolhi-me sob as cobertas, o brilho da tela iluminando meu rosto. Avancei rapidamente por horas de um quarto vazio até encontrar o momento depois que desmaiei.
O vídeo mostrava Dante de pé sobre mim. Isabela entrou no quarto.
"Ela apagou?", ela perguntou, sua voz afiada.
"Completamente", respondeu Dante. "A dosagem foi perfeita."
Meu coração parecia estar sendo espremido por uma mão invisível. Dosagem. Ele estava me drogando.
Isabela caminhou até a cama e olhou para minha forma inconsciente com puro desprezo. "Ela te desafiou por causa do chá? A vadiazinha está ficando ousada."
"São os hormônios da gravidez", disse Dante com desdém. "Não importa. Mais algumas semanas disso, e ela estará perfeitamente dócil. Submissa. Exatamente como deveria ter sido desde o início."
O ar que eu estava segurando escapou em um suspiro irregular. Ele queria me drogar até a submissão durante toda a minha gravidez.
Isabela riu, um som como vidro se quebrando. "E na festa de aniversário, vamos nos divertir. Depois que a fizermos beber o champanhe comemorativo, ela não se lembrará de nada. Finalmente poderemos mostrar a todos o que acontece com uma noiva que não conhece seu lugar."
Dante não respondeu. Ele apenas olhou para mim, sua expressão fria, calculista. Ele era um monstro, mas não do tipo que se esconde nas sombras. Ele era do tipo que constrói impérios e destrói vidas silenciosamente no conforto de sua própria casa.
Desliguei o tablet, a tela escurecendo. A fúria dentro de mim era uma coisa silenciosa e fria. Ele não queria apenas um herdeiro. Ele queria quebrar o receptáculo que o carregava.
E eu o deixaria pensar que estava ganhando, até o momento em que eu pegasse seu legado e desaparecesse para sempre.
Ponto de Vista: Elara
Na manhã seguinte, fingi uma dor de cabeça, uma desculpa plausível depois do "chá de ervas". Dante já tinha saído. O silêncio que ele deixou para trás era minha chance.
Usei o tempo para investigar. Eu sabia a senha do laptop dele — a data em que seu pai foi assassinado, um lembrete constante do trono que ele havia herdado. No fundo dos arquivos criptografados, eu o encontrei. Um chat em grupo privado chamado 'O Canil'.
Minhas mãos tremeram quando cliquei para abrir. Os membros eram seus homens mais próximos. O assunto da discussão era eu.
Eles me chamavam de 'A Égua'.
Rolei por meses de mensagens, meu estômago se revirando. Havia fotos minhas dormindo. Havia comentários avaliando meu corpo. Havia um calendário grotesco detalhando meu ciclo de ovulação, com apostas sobre em que mês ele "teria sucesso".
'A Égua parece fértil hoje.'
'Já domou ela, chefe?'
'Ouvi dizer que ela finalmente está grávida. Hora de cobrar minhas apostas.'
Esta galeria representava minha vida — minha alma — reduzida a piadas grosseiras entre homens violentos. Eles me viam como gado.
Minha repulsa foi interrompida por um bipe do meu celular. Era uma mensagem de grupo de Isabela.
'Você está cordialmente convidada para celebrar o terceiro aniversário do meu irmão, Dante, e sua adorável esposa, Elara. Vamos brindar ao futuro deles e ao legado que está por vir.'
Anexada estava uma foto de Dante e eu no dia do nosso casamento. Ele parecia poderoso. Eu parecia apavorada.
Uma premonição fria desceu pela minha espinha. A festa de aniversário. Este era o palco para a humilhação que ela havia planejado. O champanhe.
Agindo por puro instinto, encaminhei cada arquivo, cada captura de tela de 'O Canil' para uma conta na nuvem sob um nome falso. Fiz backup duas vezes. Evidência era poder.
Assim que terminei, a porta do quarto se abriu. Dante estava lá, segurando uma caixa de veludo. Meu coração martelava contra minhas costelas. Empurrei o laptop para debaixo das cobertas.
"Pensei que você tivesse saído", eu disse, tentando manter minha voz firme.
"Eu voltei. Por você", disse ele. Ele se sentou na beira da cama.
"Um presente. Pelo nosso aniversário", disse ele, abrindo a caixa.
Dentro, aninhado em um leito de cetim preto, havia um colar de diamantes. Era uma coleira de pedras brilhantes que gritava posse.
"É lindo", menti, as palavras com gosto de cinzas.
Ele o tirou e o prendeu em volta do meu pescoço. Seus dedos estavam frios contra minha pele. "Você vai usá-lo esta noite."
Não era uma pergunta.
"Não estou me sentindo bem, Dante", tentei, minha última tentativa de fuga. "A dor de cabeça..."
"Você vai ficar bem", disse ele, seu tom endurecendo. "Você estará lá. Você vai sorrir. E você será a esposa perfeita e dedicada. Você me entende?" Sua mão moveu-se do fecho para minha garganta, seu polegar pressionando levemente meu pulso. Era um aviso.
Eu assenti, a palavra 'sim' presa na minha garganta.
Ele se levantou, satisfeito. "Vou mandar a estilista em uma hora."
Quando ele saiu, coloquei a mão sobre minha barriga ainda lisa. Eu tinha que suportar isso. Pelo meu filho. Eu interpretaria o papel da esposa perfeita e dócil uma última vez. E então nós estaríamos livres.