Capítulo 2

POV de Elisa Ferraz:

Grávida. Joyce estava grávida. A palavra ecoava em meu crânio vazio. Depois de cinco anos de casamento, de tentativas, de esperança, Caio e eu não tínhamos conseguido. E essa mulher, essa garçonete "simples", conseguiu em questão de meses. A ironia era um gosto amargo na minha boca, queimando minha garganta.

Caio voltou para casa alguns dias após o acidente. Seus olhos estavam escuros, indecifráveis, como um mar tempestuoso. Ele não falou, não ofereceu conforto, apenas caminhou até mim, sua presença gelada.

Ele agarrou meu braço com força, me puxando para ele. Seu toque, antes uma fonte de conforto, agora parecia uma violação. Ele me beijou, um ato brutal e possessivo que me deixou ofegante. Não havia ternura, nem amor, apenas uma necessidade desesperada, quase selvagem.

Por semanas, ele continuou. Ele tratava nossa cama como um campo de batalha, um lugar para ele afirmar uma forma distorcida de domínio. Não era sobre conexão, era sobre controle, sobre algo que eu não entendia. Eu me sentia como um recipiente vazio, esvaziada de meus próprios desejos, de mim mesma. Eu suportei, esperando, em minha desesperança, que essa atenção intensa e perversa fosse um sinal de afeto remanescente, um caminho tortuoso de volta para nós. Eu estava tão completamente quebrada que até mesmo essa aparência de sua presença parecia uma tábua de salvação desesperada.

Deixei que ele fizesse o que quisesse, meu corpo uma casca entorpecida, minha mente uma observadora distante. Eu ansiava por um vislumbre do antigo Caio, um toque terno, uma palavra gentil, mas não havia nada. Apenas essa punição implacável e silenciosa.

Então, um enjoo familiar. Uma leve tontura. Uma suspeita floresceu na paisagem árida do meu coração, frágil, mas persistente.

Saí escondida, uma estranha em minha própria casa, para uma clínica a quilômetros de distância. A confirmação veio em um sussurro abafado do médico. Grávida. Eu estava grávida. Meu próprio filho. Uma pequena fagulha de esperança se acendeu dentro de mim, uma crença desesperada e ilógica de que este bebê poderia consertar tudo. Isso poderia trazer Caio de volta.

Tracei a curva da minha barriga, uma leve ondulação ainda quase imperceptível. Meu coração batia com uma mistura de medo e uma alegria frágil e tola. Esta era a nossa chance. Esta era a minha chance.

Contei a ele naquela noite, minha voz tremendo com uma esperança que eu não sentia há semanas. Ele ouviu, seu rosto impassível, seus olhos ainda indecifráveis. Um longo silêncio se estendeu entre nós, denso de pensamentos não ditos.

Então, um brilho em seus olhos. Não de alegria, nem mesmo de surpresa. Algo frio, duro e absolutamente aterrorizante. Ele pegou o telefone.

"Tragam a Elisa para baixo", ele ordenou, sua voz desprovida de emoção. "Agora."

Meu sangue gelou. "O que você está fazendo, Caio?", sussurrei, um arrepio de medo começando a subir pela minha espinha.

Ele olhou para mim então, uma expressão assustadoramente calma em seu rosto. "Olho por olho, Elisa. Você tirou meu filho. Agora vou tirar o seu."

"Não!", gritei, um som desesperado e cru. "Você não pode! Este é o nosso bebê, Caio! Nosso bebê!"

Minha garganta se fechou, as palavras presas. Dois de seus seguranças corpulentos avançaram, seus rostos inexpressivos.

O pânico explodiu. Lutei, arranhando seus braços, gritando até minha voz rasgar. "Caio! Por favor! Não faça isso!" Meus apelos foram recebidos apenas com seu silêncio frio e inflexível. Ele nem mesmo olhou para mim. Ele simplesmente virou as costas, seus ombros largos uma muralha contra meu desespero.

Eles me arrastaram, uma boneca quebrada e em luta, para o topo da grande escadaria. A madeira polida brilhava, refletindo a luz fria e dura. Vi sua figura no final da escada, uma silhueta de traição.

Então, um empurrão. Um baque doentio. Eu rolei, cada degrau um impacto brutal, uma dor lancinante que rasgou meu corpo. Gritei, um som que era metade grito, metade soluço, enquanto o mundo se transformava em um caleidoscópio de agonia.

Um jorro de calor. O horror pegajoso e visceral de sangue. Tanto sangue.

Suas palavras, de tanto tempo atrás, ecoaram em minha consciência desvanecente: "Eu sempre serei sua âncora, Elisa. Sempre." A ironia foi uma reviravolta cruel e final da faca.

Uma lágrima fria, depois outra, traçou um caminho pelo sangue e sujeira em meu rosto. A realidade de tudo, nítida e inescapável, finalmente se instalou. Ele pretendia me destruir. E ele conseguiu.

Quando acordei novamente, o cheiro estéril de um quarto de hospital encheu minhas narinas. As luzes fluorescentes zumbiam acima. Meu corpo doía com uma dor surda e generalizada. Meu filho se foi. As palavras do médico eram um eco distante e abafado.

Eu não chorei. Não havia mais lágrimas, apenas uma vasta e vazia extensão onde minha alma costumava estar. Uma dormência se instalou sobre mim, uma paz arrepiante que engoliu toda a dor.

Chamei a empregada, minha voz surpreendentemente firme. "Traga-me a caixa de sândalo da minha penteadeira." Ela me olhou, seus olhos cheios de pena, mas obedeceu.

Dentro, aninhado em veludo, havia um pedaço de papel em branco. Estava assinado, com uma caligrafia ousada e confiante: "Caio Azevedo." Uma promissória. Uma promessa, dada no meu aniversário de dezoito anos, de que ele realizaria todos os meus desejos, não importando quão grandes ou pequenos fossem.

"O que você quiser, Elisa", ele havia dito, seus olhos brilhando com adoração juvenil. "Qualquer coisa. Apenas preencha os espaços em branco."

Olhei para o espaço em branco, depois para minha mão trêmula. Era isso. O desejo final. O fim de nós. A criança, minha criança, me comprou essa clareza. Essa liberdade absoluta e inegável de um homem que assassinou meu amor e minha esperança. Eu era Elisa Ferraz novamente, independente e inteira. E eu permaneceria assim.

Capítulo 3

POV de Elisa Ferraz:

Minha mão, firme apesar do tremor em minha alma, escreveu duas palavras simples na promissória em branco: "Divórcio Imediato." Pressionei a caneta com finalidade, a tinta uma declaração escura e inflexível. Então, liguei para meu advogado.

"Eu quero o divórcio", disse a ele, minha voz tão calma e plana quanto um lago parado. "Eu tenho a promissória assinada. Quero que seja agilizado."

Ele pigarreou, um som nervoso. "Sra. Azevedo, há um período obrigatório de reflexão para divórcios neste estado. E então o processo em si pode ser demorado, especialmente com ativos da sua magnitude."

"Eu sei", respondi, meu olhar fixo na chuva que escorria pela janela do hospital. "Apenas faça acontecer. O mais rápido possível."

Ele saiu, seus passos ecoando no corredor estéril. Eu estava sozinha novamente, um vazio no peito onde meu coração costumava estar. O silêncio era ensurdecedor.

A porta se abriu com um rangido, quebrando o silêncio. Joyce. Ela estava ali, uma visão de mansidão em um vestido pálido, carregando uma pequena cesta coberta. Uma onda de repulsa, aguda e visceral, me invadiu.

"Elisa? Como você está se sentindo?" Sua voz era suave, tingida com uma preocupação fingida que irritava meus nervos em frangalhos. "O Caio me contou o que aconteceu. Eu sinto muito, muito mesmo."

Ela se aproximou, colocando a cesta na mesa de cabeceira. "Ele está tão arrasado, Elisa. Ele se culpa. Ele me disse que nunca quis que as coisas chegassem a esse ponto. Ele só... ele me ama tanto, sabe, e perder nosso bebê, isso o quebrou." Ela enxugou os olhos com um lenço de papel impecável, mas seu olhar era estranhamente triunfante. "Ele disse que você era tão forte, tão independente, que conseguiria lidar com qualquer coisa. Ele nunca imaginou que você... passaria por isso."

Eu a interrompi, minha voz um rosnado baixo e perigoso. "Saia."

Ela se encolheu, um movimento ensaiado. Mas então, seus olhos endureceram. Ela pegou a cesta. "Eu trouxe uma sopa para você. Para sua recuperação", disse ela, sua voz enjoativamente doce. "É uma receita especial. Muito nutritiva."

"Eu disse, saia!", rosnei, me erguendo, meu corpo gritando em protesto.

Sua delicada fachada se estilhaçou. Seus olhos se estreitaram, brilhando com algo frio e afiado. "Você acha que pode simplesmente me dispensar? Depois de tudo que você fez?"

Antes que eu pudesse reagir, ela avançou. Sua mão agarrou meu queixo, surpreendentemente forte, e ela inclinou minha cabeça para trás. O cheiro doce e enjoativo da sopa encheu minhas narinas, então um líquido grosso e morno estava sendo forçado entre meus lábios. Engasguei, lutei contra ela, mas estava fraca, meu corpo ainda se recuperando do trauma. A sopa escorreu pelo meu queixo, queimando minha pele com seu calor perturbador.

Ela me soltou, observando enquanto eu tossia e vomitava, minha garganta ardendo. Ela limpou as mãos em um guardanapo, um pequeno sorriso satisfeito brincando em seus lábios.

"Qual o gosto?", ela perguntou, sua voz um sussurro arrepiante.

Meu estômago se revirou. Um pensamento súbito e horrível passou pela minha mente. "O que você colocou nisso, sua monstra?", ofeguei, minha voz rouca.

Seu sorriso se alargou, uma visão verdadeiramente grotesca. "Apenas algo para te ajudar a se recuperar, Elisa. Um lembrete do que você perdeu. Do que nós perdemos." Ela se inclinou mais perto, seus olhos brilhando com uma satisfação maníaca. "É o sangue e a carne do seu monstrinho, Elisa. A vingança do meu bebê."

Minha cabeça pendeu para trás. Uma onda de náusea, tão intensa que minha visão turvou, me invadiu. Tive ânsia de vômito, a bile queimando minha garganta. O horror de suas palavras, a depravação absoluta, revirou minhas entranhas. Esta não era apenas uma mulher; era uma víbora.

Lágrimas, quentes e raivosas, brotaram em meus olhos. Ela me observava, sua expressão uma paródia grotesca de pena, seus próprios olhos agora marejados.

"Você merece isso", ela soluçou, mas seus olhos estavam frios, cheios de algo antigo e venenoso. "Você tentou tirar minha família, meu futuro. Seu filho foi um castigo, Elisa. Uma dívida cármica."

Um grito furioso e primitivo rasgou minha garganta. Toda a dor, a traição, a humilhação, se uniram em uma única e explosiva fúria. Minha mão disparou, alimentada por uma adrenalina que eu não sabia que possuía, e a esbofeteei no rosto. O estalo agudo ecoou na sala silenciosa.

A porta se abriu com um estrondo.

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