Capítulo 2 - O Banquete Final
O Salão das Mil Chamas não recebia esse nome apenas por metáfora. O teto abobadado, sustentado por pilares de ouro maciço, era cravejado com cristais solares que capturavam a luz do meio-dia e a multiplicavam até que o ambiente se tornasse um forno de opulência e brilho insuportável. Para os nobres de Aethelgard, aquilo era a glória. Para mim, com os olhos ardendo e a pele latejando sob o peso da Coroa de Vidro, era uma antecâmara do inferno.
Eu estava posicionada em um estrado elevado, ao lado do trono vazio do Rei Solar. Eu não era uma convidada, eu era a peça central. O banquete final não era para me alimentar, eu não tocava em comida sólida há três dias, parte da "purificação", mas para que a elite do reino pudesse se banquetear enquanto admirava o cordeiro que seria levado ao matadouro.
O cheiro de carne assada com especiarias caras, vinhos doces e perfumes florais densos misturava-se ao odor constante do meu incenso ritual, criando uma névoa nauseante. Abaixo de mim, mesas quilométricas transbordavam com iguarias que poderiam alimentar vilas inteiras do cinturão de pobreza por um ano. Cisnes de açúcar, frutas vindas de estufas aquecidas por magia e pães tão brancos que pareciam feitos de nuvens.
- Sorria, Aurora - sibilou a Irmã Vesper, parada logo atrás de mim, fundida às sombras da tapeçaria. - O povo precisa ver a alegria do martírio.
Eu forcei os cantos da boca para cima. O movimento fez a ponta da coroa cravar ainda mais fundo na minha têmpora esquerda. Eu sentia um filete quente de suor descer lentamente pela lateral do meu rosto, mas não podia erguer a mão para limpar.
Foi então que as portas se abriram e o barulho de risadas e talheres de prata silenciou-se por um breve, porém pesado instante.
O Príncipe Kael entrou.
Ele não caminhava, ele possuía o espaço. Vestido em um uniforme de seda branca com dragonas de ouro que pareciam chamas esculpidas, ele era a personificação de tudo o que a Igreja pregava como perfeição. Seus cabelos eram claros como o sol da manhã e seus olhos, de um azul gélido e cortante, varreram o salão com um desdém que ele nem se dava ao trabalho de esconder.
Ele era belo, de uma beleza que machucava, como olhar diretamente para um eclipse.
Kael ignorou os nobres que se curvaram à sua passagem e subiu os degraus do estrado com uma elegância predatória. Ele parou a poucos centímetros de mim. O cheiro dele era diferente do resto do salão, cheirava a ozônio e a algo metálico, como uma espada recém-afiada.
- Nossa pequena salvadora - disse ele. Sua voz era aveludada, mas sob a superfície havia uma vibração de escárnio. - Você parece ainda mais frágil de perto, Aurora. Como um passarinho de vidro prestes a estraçalhar.
Eu inclinei a cabeça minimamente, o máximo que o peso permitia.
- É meu dever servir ao reino, Alteza.
Kael soltou uma risada curta, um som seco. Ele estendeu a mão e, com uma audácia que fez a Irmã Vesper prender a respiração, tocou uma das pontas afiadas da minha coroa. Ele pressionou o dedo contra o vidro até que sua própria pele ficasse branca.
- Dever. Uma palavra tão útil para manter os fracos na linha - ele sussurrou, aproximando-se tanto que eu podia sentir o calor que emanava dele. - Diga-me, você realmente acredita que seu sangue vai segurar a escuridão? Ou você é apenas inteligente o suficiente para saber que não tem escolha?
Eu não respondi. Meus olhos se fixaram nos dele, buscando qualquer traço de humanidade, mas encontrei apenas uma ambição vasta e fria.
Nesse momento, um jovem criado, tremendo visivelmente, aproximou-se para servir vinho ao príncipe. No nervosismo de estar tão perto da "Noiva" e do herdeiro, sua mão vacilou. Uma única gota de vinho tinto caiu sobre a bota impecável de Kael.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
O garoto caiu de joelhos instantaneamente, o rosto colado ao mármore.
- Perdão, Alteza! Por favor, a luz me perdoe, eu...
Kael nem sequer olhou para baixo. Ele continuou encarando meus olhos, mantendo o sorriso gélido enquanto falava com o capitão da guarda que estava na base do estrado.
- Capitão, este rapaz parece não ter o equilíbrio necessário para servir na luz. Leve-o para as masmorras externas. Talvez a escuridão o ensine a ser mais cuidadoso com o que toca.
- Alteza, foi apenas uma gota! - o grito do rapaz foi sufocado quando dois guardas o agarraram pelos braços, arrastando-o para fora. O vinho derramado no chão brilhava como sangue sob a luz dos cristais.
Os nobres nas mesas voltaram a rir e beber um segundo depois, como se nada tivesse acontecido. Para eles, a vida de um servo era tão descartável quanto a casca de uma fruta.
- Viu só, Aurora? - Kael voltou sua atenção para mim, sua mão agora descendo para o meu queixo, forçando-me a encará-lo. - A luz é exigente. Ela não tolera manchas, nem gotas de vinho, nem dúvidas... e certamente não tolera fraqueza.
Ele se inclinou, seus lábios roçando minha orelha em um gesto que, de longe, pareceria uma benção íntima, mas que era uma ameaça pura.
- Amanhã, quando você estiver naquele precipício, lembre-se de que você está morrendo por um mundo que nem sequer se lembrará do seu nome em uma semana. Eles não amam você. Eles amam a segurança que o seu cadáver proporciona.
Ele se afastou, deixando um rastro de frio onde seus dedos haviam tocado minha pele. Ele desceu para o salão, pegando uma taça de vinho e brindando ao nada, o centro de um universo que ele mesmo pretendia queimar se isso lhe desse mais poder.
Eu olhei para a mancha de vinho no chão. Olhei para as centenas de bocas mastigando, rindo e celebrando minha morte iminente.
A "Luz" não era calor. A Luz era um incêndio que consumia tudo o que fosse pequeno demais para se defender. E, pela primeira vez, eu senti que a escuridão que vinha do sul talvez não fosse o monstro que eu deveria temer. Talvez o verdadeiro monstro estivesse bem aqui, vestindo seda branca e sorrindo com dentes de pérola.
Capítulo 3 - O Sacrifício
O caminho até o Precipício das Almas era uma subida lenta através da névoa. A estrada de pedra branca serpenteava a montanha mais alta de Aethelgard, um lugar onde o ar era tão rarefeito que cada respiração parecia um esforço de vontade. Eu não estava mais em uma carruagem. Eu caminhava, descalça, sentindo os cascalhos afiados cortarem a sola dos meus pés, deixando um rastro de sangue que a Irmã Vesper chamava de "o caminho carmim da redenção".
Atrás de mim, uma procissão de túnicas brancas e armaduras douradas entoava cânticos em uma língua morta. Na frente, o Príncipe Kael liderava montado em um garanhão branco, sua capa de seda flutuando como uma bandeira de rendição ao destino.
Quando finalmente chegamos ao cume, o mundo parecia se dividir em dois.
À esquerda, as terras que eu conhecia, o Reino Solar, banhado por uma luz eterna e doentia.
À direita, o abismo.
O Véu de Ébano não era apenas uma barreira, era uma parede de sombras vivas que se contorciam, um oceano de escuridão absoluta que engolia a luz a poucos metros de distância. O som que vinha de lá era um lamento baixo, como o vento soprando em cavernas profundas.
- Chegou a hora - a voz do Príncipe Kael ecoou, desprovida de qualquer emoção que não fosse o tédio ritualístico.
Fui levada até a borda.
Meus dedos dos pés ficaram suspensos sobre o nada. Abaixo, apenas o vazio negro.
A Coroa de Vidro parecia pesar toneladas agora. A Irmã Vesper se aproximou com uma adaga de obsidiana. O plano era simples, um corte em cada pulso, o sangue vertido no abismo para "alimentar" o Véu por mais cem anos, e então o empurrão final. O corpo da Noiva era o selo.
- Pela Luz, o mundo vive - recitou Vesper, erguendo a adaga.
Eu fechei os olhos e esperei pela dor do aço. Esperei pela queda.
Mas o que veio foi o silêncio.
Um silêncio súbito, denso e frio. Tão frio que a névoa ao nosso redor congelou instantaneamente, transformando-se em agulhas de gelo que caíam no chão. O cântico dos sacerdotes morreu em suas gargantas. O cavalo de Kael relinchou, empinando-se em terror.
Abri os olhos.
As sombras do Véu não estavam mais apenas "lá". Elas estavam avançando. Elas rastejavam pelo chão como serpentes de tinta, subindo pelas pernas dos guardas.
E então, do centro da escuridão, ele emergiu.
Não era um monstro de chifres ou uma fera disforme como as escrituras descreviam. Era um homem. Um homem cujas vestes pareciam feitas de fumaça sólida e cuja armadura era negra como o coração de uma estrela morta. Ele não tinha uma coroa de vidro, ele tinha uma presença que esmagava a luz ao redor.
- O Rei das Sombras... - o sussurro de Vesper foi um suspiro de horror puro.
- A Luz sempre foi muito generosa com o sangue alheio - a voz dele era um barão profundo, vibrando no ar como um trovão distante.
Kael desembainhou sua espada de ouro.
- Atrás de mim, Noiva! Guardas, matem a abominação!
Os guardas avançaram, um mar de metal dourado e gritos de guerra. Foi uma carnificina silenciosa.
O Rei das Sombras não precisou de uma espada, ele ergueu a mão, e as próprias sombras sob os pés dos guardas se ergueram como lanças pretas, atravessando as armaduras de placas como se fossem papel de seda. Em segundos, o topo da montanha, antes branco e imaculado, estava pintado de escarlate.
Vesper caiu de joelhos, rezando freneticamente, até que uma fita de sombra selou seus lábios.
Eu estava paralisada. Minha coroa de vidro escorregou e caiu, estilhaçando-se nas pedras. O som do cristal quebrando pareceu quebrar também o meu transe.
O estranho caminhou entre os corpos, passando por Kael, que havia sido arremessado contra as rochas por uma onda de força, e parou diante de mim. Ele era alto, muito mais alto que qualquer homem no convento. Seus olhos não eram vermelhos, eram de um cinza prateado, como a lua que eu nunca tinha visto, apenas lido sobre.
Havia uma cicatriz fina que descia de sua têmpora até o maxilar, e seu rosto era uma escultura de angústia e poder.
- Você é o monstro? - eu perguntei, minha voz mal passando de um sopro.
Ele inclinou a cabeça, observando o sangue nos meus pés e a marca do óleo queimado na minha testa.
- Neste reino, sim - ele respondeu. Ele estendeu a mão enluvada. - Mas eu não vim para beber seu sangue, Aurora. Vim para levar o que eles jogaram fora.
- Você vai me matar?
- Se eu quisesse você morta, teria deixado que terminassem o ritual.
Antes que eu pudesse protestar, ele envolveu minha cintura com um braço de ferro. O calor que emanava dele era o oposto do gelo das sombras, era como o núcleo de uma fogueira.
- Solte-a! - Kael gritou, tentando se levantar, o rosto distorcido pela fúria de ter seu prêmio roubado.
O Rei das Sombras olhou para o príncipe com um desprezo que fez o ar tremer.
- Diga ao seu pai que o tributo acabou. Se quiserem luz, terão que aprender a gerá-la sem cadáveres.
Ele se virou e, comigo em seus braços, saltou no abismo.
O grito morreu na minha garganta enquanto o mundo desaparecia. Não houve impacto, houve apenas a sensação de ser envolvida por uma seda fria e infinita. Pela primeira vez na vida, a luz não estava me cegando.
Eu estava nas sombras e, estranhamente, eu conseguia respirar.