Capítulo 2

Ponto de Vista de Helena Martins:

O frio do chão de concreto penetrava em meus ossos, mas era a frieza em meu coração que realmente me congelava. As palavras de Davi, sua indiferença arrepiante, ecoavam em minha mente. Ele havia me forçado a agir, literalmente.

A porta rangeu ao se abrir, e um guarda corpulento, com o rosto uma máscara de indiferença, entrou. "Hora do seu compromisso, Dra. Martins."

Meu compromisso. A cirurgia. Na mãe de Kyara. A mulher cuja filha matou minha própria mãe. A ironia era um gosto amargo em minha boca.

Fui arrastada, não levada, para uma sala de cirurgia intensamente iluminada. O cheiro estéril de antisséptico lutava com o odor persistente de cachorro, um lembrete constante da minha humilhação. Minha mão esquerda, enfaixada e inútil, era um peso morto.

Davi estava lá, encostado em uma parede, observando com a mesma diversão distante. Ele nem se deu ao trabalho de tirar seu terno caro. Kyara estava ao seu lado, agarrada ao seu braço, com os olhos arregalados e inocentes, interpretando a filha preocupada com perfeição. Ela me olhou com uma mistura de medo e triunfo.

"Você não vai agradecê-la, Kyara?", Davi incitou, sua voz pingando falsa preocupação.

Os lábios de Kyara tremeram ligeiramente. "Obrigada, Dra. Martins. Por salvar minha mãe." Sua voz era doce como mel, uma performance para Davi, para quem quer que estivesse assistindo. Meu estômago se revirou.

Eu a ignorei, meu olhar fixo em Davi. Minhas mãos, minhas lindas e precisas mãos, eram minha vida. Meu propósito. E ele havia tirado uma delas de mim.

"Você está satisfeito, Davi?", perguntei, minha voz plana, desprovida de emoção. "É isso que você queria?"

Ele se afastou da parede, caminhando em minha direção. Ele estendeu a mão, seus dedos roçando minha bochecha. Eu recuei, enojada com seu toque.

"Helena, não seja assim", ele murmurou, sua voz um ronronar baixo e persuasivo. "Nós podemos superar isso. Podemos voltar a ser como éramos."

Suas palavras eram um eco distorcido de um passado que não existia mais. Um passado onde eu acreditava em suas promessas, em seu amor.

Ele tentou me abraçar, me puxar para seus braços. Eu enrijeci, cada fibra do meu ser recuando. Seu toque parecia uma violação.

"Não me toque", cuspi, recuando dele com uma força que surpreendeu até a mim mesma.

Seu sorriso vacilou, um lampejo de irritação cruzando seu rosto. "Ainda se fazendo de difícil? Mesmo depois de tudo?"

"Tudo?", zombei, uma risada amarga escapando dos meus lábios. "Você quer dizer depois que você destruiu minha vida? Depois que você deixou minha irmã sofrer? Depois que você aleijou minha mão?"

Seus olhos se estreitaram. "Estou te oferecendo um caminho de volta, Helena. Uma chance de perdoar, de esquecer. Podemos reconstruir. Vou garantir que você seja cuidada. Financeiramente. Profissionalmente. O que você quiser."

Ele gesticulou vagamente para a opulenta sala de cirurgia. "Você terá o melhor cuidado. Os melhores especialistas. Talvez possamos até encontrar uma maneira de consertar sua mão, eventualmente."

Minha risada foi oca, desprovida de humor. "Consertar minha mão? Você sabe o que essa mão significava para mim, Davi. Não era apenas uma mão. Era minha identidade. Meu propósito."

Eu o encarei, meus olhos ardendo. "Você acha que dinheiro pode consertar isso? Você acha que uma nova carreira, uma gaiola dourada, pode substituir o que você roubou?"

Minha mente voltou aos nossos primeiros dias, quando ele me perseguiu com uma intensidade implacável que me arrebatou. Ele era charmoso, atencioso, me fazendo sentir a mulher mais importante do mundo. Ele me prometeu segurança, um futuro, um amor que conquistaria tudo.

Lembrei-me da noite em que ele me pediu em casamento, em um terraço com vista para a cidade, as luzes brilhando como diamantes espalhados. Eu me senti tão incrivelmente feliz, tão certa de que havia encontrado meu para sempre. Eu realmente acreditei que era sortuda.

Mas isso foi antes de Kyara. Antes de eu perceber que era apenas uma substituta, uma substituta conveniente.

Uma batida na porta quebrou meu devaneio. O advogado de Davi, um homem escorregadio em um terno sob medida, entrou, com uma pasta grossa na mão.

Davi franziu a testa. "O que foi, Ricardo?"

"Os papéis do divórcio, Sr. Lacerda", disse Ricardo, sua voz seca e profissional. "A equipe jurídica da Dra. Martins está pressionando por um processo acelerado. Eles estão alegando... má conduta conjugal extrema."

Davi olhou para mim, uma mistura de choque e raiva em seu rosto. "Divórcio? Helena, o que é isso?"

Eu encontrei seu olhar, meus olhos firmes. "Acabou, Davi. Nós acabamos."

Ricardo deu um passo à frente, colocando uma pilha de papéis em uma mesa próxima. "Dra. Martins, se você pudesse apenas assinar... é um acordo de separação padrão. Compensação financeira. Pensão alimentícia."

Olhei para os papéis, depois de volta para Davi. Um plano começou a se formar em minha mente, uma aposta desesperada e perigosa.

"Eu vou assinar", eu disse, minha voz calma, quase serena. "Mas com uma condição."

Davi parecia desconfiado. "Que condição?"

"Eu assino isso, e realizo a cirurgia", eu disse, olhando-o diretamente nos olhos. "Mas você assina também. Agora mesmo. E você liberta Fabiana. Completamente. Sem mais ameaças. Sem mais vídeos. Ela sai livre, e eu assino esses papéis."

Ele hesitou, seu olhar alternando entre mim e os papéis do divórcio. Ricardo parecia desconfortável. Kyara, sentindo uma mudança na dinâmica de poder, sussurrou algo urgentemente para Davi.

Nesse momento, o telefone de Kyara tocou. Ela atendeu, seu rosto empalidecendo. "Mãe? O que há de errado?" Seus olhos correram para mim, depois para Davi. "Os médicos dizem que há complicações. Ela está... ela está piorando."

A atenção de Davi mudou imediatamente para Kyara. Ele pegou o telefone dela, falando urgentemente. "Que tipo de complicações? O que aconteceu?"

Ele me fuzilou com o olhar, seu rosto contorcido em uma máscara de acusação. "O que você fez, Helena? Você sabotou a cirurgia?"

Encontrei seu olhar furioso com uma expressão calma, quase distante. "Complicações acontecem, Davi. Especialmente em neurocirurgias complexas. É um risco, como eu te expliquei. Não é minha culpa se a mãe da sua amante tem uma fraqueza predisposta."

Kyara, sempre a atriz, começou a chorar, agarrando-se a Davi. "Por favor, Dra. Martins", ela soluçou, sua voz carregada de falso desespero. "Por favor, salve minha mãe. Ela é tudo que me resta."

O aperto de Davi em Kyara se intensificou. Ele se virou para mim, seus olhos ardendo com uma mistura de medo e raiva. "Você vai consertar isso, Helena. Ou eu juro, você vai se arrepender."

Eu estendi minha mão enfaixada, um gesto que dizia muito. "Minha mão, Davi. Lembra? Você garantiu que eu não pudesse operar."

Ele rangeu os dentes. "Então você vai supervisionar. Você vai guiar outro cirurgião. Você vai fazer o que for preciso."

Eu balancei a cabeça. "Não. Eu vou realizar a cirurgia. Mas apenas se você assinar esses papéis de divórcio. Agora mesmo. E Fabiana for libertada, incondicionalmente. Caso contrário, a mãe da sua preciosa Kyara morre."

Sua mandíbula se contraiu, seus olhos queimando nos meus. Ele estava encurralado. Entre sua obsessão por Kyara e a mãe dela, e sua necessidade desesperada de me controlar.

"Tudo bem", ele rosnou, pegando uma caneta da mão de Ricardo. Ele rabiscou sua assinatura nos papéis, sua mão quase rasgando a página. "Agora conserte-a."

Eu assenti, uma sensação fria de triunfo florescendo em meu peito. "Ricardo, por favor, garanta que Fabiana seja libertada imediatamente. E que esses papéis sejam protocolados."

Ricardo, parecendo aliviado, assentiu. "Sim, Dra. Martins. Imediatamente."

Ele pegou os papéis assinados de Davi, seus movimentos rápidos e eficientes. "O divórcio será finalizado em algumas semanas, Dra. Martins."

Algumas semanas. Uma vida inteira de dor, se desfazendo em algumas semanas. Era um começo. Uma pequena vitória em uma batalha perdida.

Davi, ainda furioso, virou-se para Kyara. "Vá com ela, Helena. Não a perca de vista."

Caminhei em direção à sala de cirurgia, os soluços de Kyara ecoando atrás de mim. Meu coração era um deserto congelado, mas um lampejo de algo novo, algo perigoso, havia se acendido dentro de mim.

O caminho para a vingança.

Ao entrar na sala de cirurgia, Kyara agarrou meu braço, seu aperto surpreendentemente forte. "Você vai pagar por isso, Helena. Você acha que venceu? Você não viu nada ainda."

Eu a encarei, meus olhos desprovidos de emoção. "Nem você, Kyara."

Capítulo 3

Ponto de Vista de Helena Martins:

A sala de cirurgia era um borrão de luzes brilhantes e vozes sussurradas. Minha mão boa, a que ainda funcionava, movia-se com uma precisão distante. Eu instruía o outro cirurgião, minha voz calma e firme, mesmo enquanto minha mente cambaleava com os eventos da última hora. A mãe de Kyara, uma figura pálida e sem vida na mesa, era um peão neste jogo distorcido.

A cirurgia foi longa, complexa e exaustiva. Quando finalmente terminou, senti um cansaço profundo se abater sobre mim, uma exaustão física e emocional que ia até os ossos.

Ao sair da sala de cirurgia, vi Davi andando de um lado para o outro na sala de espera, Kyara agarrada a ele, suas lágrimas ainda fluindo livremente. Meu olhar encontrou o dele, e por um momento fugaz, vi um lampejo de algo que se assemelhava a gratidão. Mas foi rapidamente substituído por sua habitual indiferença fria.

"Ela está estável", eu disse, minha voz rouca. "Ela vai se recuperar."

Davi assentiu, depois dirigiu sua atenção de volta para Kyara, murmurando palavras de consolo. Ele não me deu outro olhar.

Afastei-me, minhas pernas pesadas, minha cabeça latejando. Eu precisava ver Fabiana. Precisava saber que ela estava segura.

Mas antes que eu pudesse chegar à saída, um grito agudo cortou o silêncio estéril do corredor do hospital.

"Fabiana!"

Meu sangue gelou. O grito veio da direção do quarto onde minha irmã estava presa.

Corri, meu coração batendo forte no peito, uma terrível premonição me dominando.

A porta estava entreaberta. Eu a empurrei.

Fabiana estava no parapeito da janela, seus olhos vazios, seu rosto manchado de lágrimas. Seu cabelo estava desgrenhado, suas roupas rasgadas. O vídeo. A humilhação. Tinha a quebrado.

"Fabiana!", gritei, minha voz crua de terror. "Não! Por favor, não!"

Ela olhou para mim, um sorriso fraco e desolador em seus lábios. "Acabou, Helena. Finalmente acabou."

Eu me lancei em sua direção, minha mão ferida gritando em protesto. "Não! Fabiana, não faça isso! Por favor!"

Mas eu cheguei tarde demais.

Ela pulou.

O grito que rasgou minha garganta foi primal, gutural, um som de pura agonia e desespero. Corri para a janela, olhando para baixo, mas ela havia sumido. Apenas um espaço vazio onde minha irmã estivera.

Davi, atraído pelo meu grito, apareceu na porta, Kyara atrás dele. Seus olhos se arregalaram, um lampejo de choque genuíno em seu rosto pela primeira vez.

"Fabiana...", ele engasgou, sua voz carregada de um horror incomum.

Eu me virei para ele, meus olhos ardendo com uma fúria tão intensa que ameaçava me consumir. "Você fez isso! Você a matou, Davi! Seu monstro!"

Minhas mãos, minha mão boa, alcançaram sua garganta, meus dedos cravando, desesperados para espremer a vida para fora dele. Ele cambaleou para trás, surpreso com meu ataque súbito e visceral.

Kyara gritou, puxando meus braços. "Pare com isso, Helena! Você está louca!"

Mas eu não a ouvi. Tudo que eu via era o rosto de Davi, o arquiteto da minha destruição. Tudo que eu sentia era a dor lancinante da perda da minha irmã.

"Ela se foi, Davi! Ela se foi por sua causa!", gritei, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. "Você tirou tudo de mim! Minha mãe! Minha carreira! E agora minha irmã!"

Guardas entraram correndo, me afastando de Davi. Lutei contra eles, chutando e gritando, um animal selvagem em seu domínio.

"Me soltem! Me soltem, seus desgraçados!"

Eles me contiveram, me prendendo contra a parede. Meu corpo era sacudido por soluços, meu espírito estilhaçado em um milhão de pedaços irreparáveis.

Davi, se recuperando, alisou seu terno, seu rosto recuperando sua máscara de controle frio. Ele me encarou, seus olhos agora desprovidos até daquele lampejo de choque. Apenas uma avaliação fria e calculista.

"Levem-na", ele ordenou, sua voz firme. "Sedem-na. E certifiquem-se de que ela fique longe de qualquer janela."

Sedem-na. Mantenham-na longe de janelas. Como se eu fosse a verdadeira louca.

O mundo ficou turvo, as paredes brancas do hospital se fechando sobre mim. Senti a picada de uma agulha, a sonolência familiar se aproximando.

Escuridão. Bendita, misericordiosa escuridão.

Quando acordei novamente, o mundo ainda estava escuro, mas diferente. Eu estava em uma cama macia, o cheiro de lavanda enchendo o ar. Minha cabeça parecia pesada, meu corpo fraco.

A porta se abriu, e um homem que eu não via há anos entrou. Breno Costa. O recluso bilionário de biotecnologia que tentou me recrutar anos atrás.

"Helena", ele disse, sua voz suave, compassiva. "Eu soube."

Eu o encarei, meus olhos ardendo com lágrimas não derramadas. "Ele tirou tudo, Breno. Tudo."

Ele se sentou na beira da cama, seu olhar firme. "Eu sei. E eu sinto muito, Helena."

Ele estendeu a mão, pegando minha mão funcional na sua. Seu toque era gentil, respeitoso. Não como o de Davi.

"Eu te fiz uma oferta uma vez, Helena", ele disse, sua voz baixa. "Uma chance de mudar o mundo. De construir algo novo."

Encontrei seu olhar, um único e potente pensamento se cristalizando em minha mente estilhaçada. Vingança.

"Eu aceito", eu disse, minha voz firme, inabalável. "Mas eu tenho uma condição."

Ele assentiu. "Qualquer coisa."

"Eu quero fazê-lo pagar, Breno", eu disse, minha voz carregada de uma resolução fria e implacável. "Eu quero fazer Davi Lacerda se arrepender do dia em que me conheceu."

Seus olhos, sempre tão inteligentes, pareceram brilhar com compreensão. "Considere feito, Helena."

Ele apertou minha mão. "E primeiro", ele acrescentou, um toque de aço em sua voz, "vamos tirar você desse casamento. Para sempre."

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