O "período para esfriar a cabeça" foi tudo, menos isso. Foi um cerco.
Helena se trancou em seu quarto, mas Damião era implacável. Ele acampou do lado de fora de sua porta por horas, sua voz um murmúrio baixo e suplicante.
"Lena, por favor. Apenas fale comigo."
Ele enviou presentes. Buquês de lírios, sua flor favorita. Caixas de chocolates caros que ela não tinha mais estômago para comer. Um livro de poesia de primeira edição que ele sabia que ela amava. Cada presente era uma memória cuidadosamente escolhida, uma arma projetada para amolecer sua determinação.
No terceiro dia, ele deslizou um bilhete por debaixo da porta.
*Sei que você está com raiva. Você tem todo o direito. Mas a Juliana... ela é frágil. A mãe dela morreu quando ela era jovem, e seu pai estava sempre ocupado. Eu só senti que tinha que cuidar dela. Ela é como uma irmã para mim. É só isso. Eu juro.*
Helena leu o bilhete e sentiu um nó frio de nojo no estômago. A frágil Juliana. A garota que sorriu enquanto o ateliê de Helena queimava.
*Lembra quando tínhamos dez anos?*, dizia outro bilhete. *Você caiu daquele carvalho grande no seu quintal e quebrou o braço. Eu te carreguei até em casa. Eu te disse então que sempre te protegeria.*
Sim, ela se lembrava. Era uma bela memória, uma que ela havia guardado com carinho. A sensação de seus braços pequenos e determinados ao redor dela, seu rosto manchado de sujeira e lágrimas enquanto ele prometia nunca deixar nada machucá-la.
Aquela memória era real. O garoto que fez aquela promessa era real.
Mas ele se fora. Ele havia sido substituído pelo homem que ficou parado e a viu morrer. O homem que escolheu seu caso em vez da vida dela.
O passado era um poço lindo e envenenado. Beber dele agora só a mataria novamente.
Ela sabia de algo que ele não sabia. Em sua vida passada, apenas algumas semanas após o incêndio, Juliana anunciara sua gravidez. O filho era de Damião. A meia-irmã "frágil" estava carregando o herdeiro dele enquanto ele ainda estava noivo de Helena.
O pensamento fez suas mãos se cerrarem. A linha do tempo estava gravada em seu cérebro. Juliana estava grávida agora mesmo.
"Lena, eu te amo", ele chamou através da porta, a voz embargada de emoção. "Eu juro pela minha vida, sempre foi você. Sempre será você. Vou passar o resto da minha vida compensando isso."
Suas palavras eram um eco vazio. Ela finalmente abriu a porta.
Damião estava lá, seu rosto bonito marcado pelo cansaço e pela esperança. Ele segurava uma única e perfeita rosa branca. Um símbolo de pureza. A ironia era sufocante.
Ela não pegou a rosa. Em vez disso, seus olhos se desviaram para o colarinho dele.
"Você esteve com ela", ela afirmou, a voz seca.
Ele pareceu confuso. "O quê? Não, eu estive bem aqui."
"Você tem o cheiro dela", disse Helena, aproximando-se. Ela não precisava. O perfume enjoativo de jasmim de Juliana estava por todo ele. "E você tem uma mancha de batom no colarinho. O tom dela. 'Rosa-Pétala'."
A mão de Damião voou para o pescoço. Ele esfregou a leve marca rosa, o rosto corando de culpa e pânico.
"Não é... Ela só estava chateada, eu estava acalmando-a..."
Helena apenas o encarou, seu silêncio mais condenador do que qualquer acusação.
Nos dias seguintes, os presentes se tornaram mais extravagantes. Uma pulseira de diamantes. Um carro novo. Passagens para Fernando de Noronha. Helena deixou todos intocados no corredor do lado de fora de seu quarto, um monumento às suas tentativas desesperadas e desajeitadas de suborno.
Finalmente, ela o deixou entrar. Ele pareceu aliviado, um sorriso esperançoso tocando seus lábios.
Ela se sentou na beira da cama, as mãos cruzadas no colo. "Você disse que passaria o resto da sua vida me compensando."
"Sim", disse ele ansiosamente, aproximando-se dela. "Qualquer coisa, Lena. Eu farei qualquer coisa."
"Qualquer coisa?", ela repetiu, a voz suave, mas com um toque de aço.
"Eu juro."
Ela o olhou diretamente nos olhos. "Tudo bem. Vou considerar continuar noiva de você. Com uma condição."
Ele praticamente desabou de alívio. "Diga. É seu."
"Eu quero que você mande a Juliana embora", disse ela.
Seu sorriso desapareceu. "O quê?"
"Mande-a embora", repetiu Helena, a voz endurecendo. "Para outro país. Eu a quero longe. Nunca mais quero ver ou ouvir o nome dela. Quero que você corte todo o contato com ela. Bloqueie o número dela. Apague-a da sua vida. Completamente."
Damião a encarou, sua expressão se transformando em angústia. "Lena, eu não posso fazer isso. Ela... ela não tem ninguém. Ela é tão delicada. Para onde ela iria?"
Helena se levantou. "Entendo. Então sua promessa de 'qualquer coisa' tem seus limites."
Ela caminhou em direção à porta. "Então não temos mais nada para conversar."
"Espere!", ele agarrou o braço dela, o aperto forte de pânico. "Ok! Ok, eu faço."
Ele olhou nos olhos dela, os seus próprios arregalados e sinceros. "Eu vou mandá-la embora. Eu prometo. Juro pela minha vida, Lena. Vou me livrar dela. Por você."
Ele a puxou para seus braços, mas ela permaneceu rígida e fria. Ela não acreditou nele. Nem por um segundo. Mas ela tinha a promessa de que precisava.
Damião concordou com os termos dela com uma ânsia desesperada que era quase patética.
"Eu farei isso, Lena. Vou providenciar para que ela estude no exterior. Uma nova vida, um novo começo. Ela terá partido até o final do mês", ele prometeu, a voz sincera.
Na semana seguinte, ele foi o noivo perfeito e arrependido. Trazia o café da manhã na cama, a levava para passeios tranquilos pela costa e sentava-se com ela em seu ateliê enquanto ela desenhava, nunca pressionando, nunca exigindo.
Para o mundo exterior, parecia uma reconciliação. Seu pai estava aliviado. Sua madrasta elogiava a devoção de Damião. "Viu?", ela dissera a Helena com um sorriso presunçoso. "Ele te ama. Foi tudo um mal-entendido bobo."
Helena sabia a verdade. Ela o observava, o coração uma pedra fria e imóvel em seu peito. Ela via como seus olhos se desviavam para o celular a cada poucos minutos. Ela notou os presentes que ele lhe trazia — um lenço de seda num tom de azul que Juliana adorava, um romance de um autor de quem Juliana sempre falava. Ele estava tentando agradar Helena com coisas que agradariam sua rival. O homem era um tolo.
A farsa terminou numa tarde de terça-feira.
Helena estava em seu ateliê, limpando os pincéis, quando a porta se abriu com um estrondo. Damião estava lá, o rosto uma máscara trovejante de fúria. Ele respirava pesadamente, o peito arfando.
"O que você fez?", ele rosnou, caminhando em sua direção.
Helena calmamente colocou o pincel no pote de aguarrás. "Não faço a menor ideia do que você está falando."
"Não minta para mim!", ele rugiu, a voz ecoando no espaço grande e arejado. "Juliana! O que você disse a ela?"
Ele a agarrou pelos ombros, os dedos cravando em sua pele. "Ela está no hospital, Helena! Ela tentou se matar! Tomou um frasco de pílulas!"
As palavras pairaram no ar entre eles. Juliana tentou se matar. O mesmo truque cansado e manipulador.
Helena não sentiu nada. Nenhum choque, nenhuma pena. Apenas um vazio profundo e cansado.
"Ela está morrendo, Helena", a voz de Damião falhou, sua raiva dando lugar a um som cru e quebrado. "E a culpa é sua. Você e suas exigências cruéis e perversas. Você a empurrou para isso."
Helena olhou para ele, para o homem que um dia amou, seu rosto contorcido de dor por outra mulher. "É mesmo?"
Seus olhos, cheios de lágrimas não derramadas, ardiam de ódio. "Como você pode ser tão fria? Ela é sua irmã! Você não tem coração? Você é humana?"
Ele a estava acusando de ser sem coração, enquanto ele era quem a deixara para queimar. A hipocrisia era de tirar o fôlego.
"Então, o que você vai fazer?", perguntou Helena, a voz um sussurro clínico e distante. "Vai me punir?"
"Punir você?", ele riu, um som áspero e feio. "Isso não é suficiente. Você vai se redimir. Você irá até ela, se ajoelhará e implorará por seu perdão."
Ele não havia terminado. Seu aperto se intensificou, o rosto a centímetros do dela.
"E você continuará implorando, todos os dias, pelo resto da sua vida. Você será a serva dela. Fará o que ela pedir. Esse é o preço pela dor dela."
Uma dor aguda e inesperada apertou o peito de Helena. Era uma dor fantasma, um espectro do amor que ela costumava sentir. Por quê? Por que, depois de tudo, suas palavras ainda tinham o poder de machucá-la? Ela havia morrido. Ela havia renascido. Essa dor deveria ter sido queimada de dentro dela.
Ela sentiu uma onda de tontura, sua visão embaçando nas bordas. Ela não conseguia encontrar as palavras para se defender. Qual era o ponto? Ele não acreditaria nela de qualquer maneira.
"Você confia tanto nela?", ela conseguiu sussurrar, as palavras com gosto de cinzas. "Você acredita em tudo que ela diz?"
"Sim", disse ele sem um segundo de hesitação, a voz soando com convicção absoluta. "Juliana é pura. Ela é inocente. Ela nunca mentiria. Não como você."
Ele pareceu se conter então, um lampejo de algo — talvez consciência de sua própria crueldade — passando por seus olhos. Ele afrouxou um pouco o aperto. "Lena, eu..."
Mas era tarde demais.
Uma risada amarga e quebrada borbulhou do peito de Helena. Começou como um tremor e cresceu até se tornar uma gargalhada cheia de lágrimas. O som era selvagem e descontrolado. Era o som de um coração se partindo pela segunda e última vez.
A sala começou a girar. As cores de suas pinturas na parede se borraram em um redemoinho sem sentido. A última coisa que ela viu foi o rosto de Damião, sua raiva substituída por um pânico súbito e crescente.
Então, o mundo ficou preto.