Capítulo 2

Os dias seguintes foram passados em uma ala médica particular que fazia o último hospital parecer uma clínica de beco. Meu pai, Horácio Monteiro, havia trazido sua própria equipe de médicos. Eles examinavam meu prontuário, seus rostos sombrios. Meu corpo era um mapa da crueldade de Júlio.

Eu não falava muito. Apenas ficava deitada, me recuperando, planejando. A dor física era um zumbido constante e surdo sob a superfície de uma raiva fria e clara.

Meu celular vibrou. Uma mensagem de um número desconhecido. Era um vídeo. A miniatura era um close do rosto de Kênia Dantas, a cabeça apoiada em um travesseiro que eu reconheci. Meu travesseiro. Ela estava na minha cama. De novo.

Apertei o play. O vídeo era trêmulo, claramente filmado por ela. Ele passava de seu rosto sorridente para Júlio, dormindo ao seu lado. Ele parecia exausto, mas em paz.

"Ele é todo meu agora", uma mensagem de texto apareceu abaixo do vídeo.

Outra mensagem se seguiu.

"Ele diz que nunca se sentiu assim por ninguém antes. Ele diz que fazer amor com você sempre foi uma obrigação. Como transar com um cadáver."

Outra.

"Ele odeia seu corpo pós-parto, a propósito. Todas aquelas estrias. Ele diz que eu sou perfeita. Firme e nova."

Lembrei-me de Júlio traçando aquelas mesmas estrias com o dedo depois que Eva nasceu. Ele as chamou de lindas. Ele disse que eram a prova da vida que havíamos criado.

Mentiras. Tudo.

A dor que me atravessou foi aguda, mas não era luto. Era a morte final e agonizante de uma memória. Eu não apaguei o vídeo ou as mensagens. Eu os salvei. Evidência.

Júlio não me visitou. Ele não ligou. Li nas notícias financeiras que ele havia dado uma festa luxuosa de "recuperação" para Kênia, comemorando seu transplante bem-sucedido. Ele comprou para ela um colar de diamantes negros que custou mais do que meu primeiro apartamento.

Ele estava comemorando o assassinato do nosso filho.

Fiz meus planos. Eu iria embora. Levaria Eva e desapareceria na segurança do império Monteiro, e de lá, eu soltaria o inferno.

No dia em que eu estava programada para receber alta, ele finalmente apareceu. Ele parou na porta do meu quarto branco e estéril, impecável em um terno Ricardo Almeida. Ele olhou para mim, não com preocupação, mas com a avaliação fria de um homem inspecionando mercadoria danificada.

"Você está com uma aparência horrível, Flora."

Eu não respondi.

"Está pensando no que fez?", ele perguntou, a voz gotejando condescendência.

"Estou pensando", eu disse, minha voz baixa.

"Bom. Você fez a Kênia passar por um inferno. Pressionando-a, estressando-a. Os médicos dela disseram que o estresse quase fez o transplante falhar."

Ele se aproximou. "Você deve a ela. Você me deve. Você fará a coisa certa e doará novamente quando ela precisar de um reforço. É o mínimo que você pode fazer para se redimir pelo seu comportamento."

Eu quase ri. A arrogância pura e de tirar o fôlego. Ele estava ali, o assassino do meu filho, o homem que me deixou para morrer, e exigia que eu mutilasse meu corpo novamente como um pedido de desculpas.

Naquele momento, qualquer sombra remanescente da mulher que eu costumava ser desapareceu. A mulher que o amou, que construiu uma vida com ele, se foi para sempre. Tudo o que restou foi um diamante frio e duro de ódio.

Olhei para ele e sorri fracamente. "Claro, Júlio."

Ele piscou, surpreso com minha concordância fácil. "O quê?"

"Você está certo", eu disse, minha voz suave. "Eu farei."

Ele me encarou, um lampejo de confusão em seus olhos. Ele esperava uma briga. Ele veio armado para uma batalha e me encontrou me rendendo.

"Afinal, eu te devo minha vida", continuei, as palavras com gosto de cinzas na minha boca. Lembrei-me da noite em que nos conhecemos, um incêndio em uma galeria, uma multidão em pânico. Ele me tirou da fumaça, um estranho, um herói. Ele me salvou. Eu me apaixonei por aquele homem.

"E você me protegeu", acrescentei, pensando em um rival de negócios antigo que tentou manchar meu nome. Júlio ficou ao meu lado, uma muralha feroz e protetora.

Ele me salvou. Ele me protegeu.

E então ele me destruiu. Ele pegou meu amor, meu corpo, meu trabalho, a segurança da minha filha e nosso filho ainda não nascido. Ele pegou tudo.

"Então, sim", eu disse, encontrando seu olhar. "Mais uma cirurgia. Pela Kênia. Vamos chamar de quitação." Deixei as palavras pairarem no ar. "Depois disso, Júlio, estamos quites. Você e eu, estamos acertados."

Um lampejo de inquietação cruzou seu rosto. Ele não entendeu a finalidade em minha voz. Ele pensou que ainda estava no controle.

"Bom", ele disse, recuperando a compostura. "Fico feliz que você finalmente esteja sendo razoável."

Meu celular vibrou. Era uma mensagem do chefe de segurança do meu pai. "O carro está esperando."

O telefone de Júlio tocou. Seu rosto se suavizou instantaneamente. "Kênia. Sim, querida, estou terminando... Já estou indo."

Ele se virou e saiu sem outra palavra. Ele não olhou para trás.

Eu o observei ir.

Uma hora depois, as enfermeiras vieram me buscar. Elas me levaram de volta para a sala de cirurgia. As luzes eram tão brilhantes, o cheiro de antisséptico tão forte.

Deitei na mesa e fechei os olhos. Isso não era uma redenção. Não era uma rendição.

Era um pagamento final de uma dívida. A última parte de mim que eu daria a ele. Depois disso, eu não lhe devia nada.

E ele me deveria tudo.

Capítulo 3

Uma semana depois, saí da clínica. O sol estava forte e, pela primeira vez em muito tempo, não me encolhi diante dele. Meu pai já havia resgatado Eva da babá com quem Júlio a deixara. Ela estava segura, escondida em um dos complexos seguros de nossa família, cercada por terapeutas e rostos amorosos.

Minha primeira parada não foi para vê-la. Minha primeira parada foi o escritório. Nosso escritório.

Carvalho & Magalhães.

Entrei no lobby elegante e minimalista que eu mesma projetei. A recepcionista, uma jovem que eu contratei, ergueu os olhos, que se arregalaram de surpresa.

"Sra. Carvalho! Você voltou!"

Dei a ela um sorriso pequeno e tenso e caminhei em direção ao meu escritório. Aquele com a vista de canto para o horizonte. Meu nome ainda estava na porta, mas meu cartão de acesso apitou em vermelho. Acesso negado.

De dentro, ouvi a risada leve e tilintante de Kênia.

Abri a porta. Kênia estava sentada atrás da minha mesa, na minha cadeira, com os pés apoiados na minha rara mesa de carvalho. Ela mostrava um projeto em seu tablet para alguns arquitetos juniores que eu havia orientado pessoalmente.

"Ah, Flora", disse ela, a voz escorrendo falsa simpatia. "Você saiu do hospital. Você parece... cansada."

"Este é o meu escritório", eu disse.

Um dos jovens arquitetos, um rapaz chamado Léo, teve a decência de parecer envergonhado. "Flora, nós não sabíamos... Júlio disse..."

"Está tudo bem, Léo", eu disse, minha voz uniforme. "Não é sua culpa."

Léo pareceu aliviado. "É bom ter você de volta. Honestamente, este novo projeto é um desastre. A Kênia ofendeu o planejador-chefe da prefeitura. Um homem que tentamos conquistar por seis meses. Ele disse que está encerrando todas as futuras considerações com nossa empresa."

O rosto de Kênia se contraiu. "Ele era um porco! Não parava de olhar para o meu peito."

"Ele também é o homem que detém as licenças de zoneamento para metade da zona sul de São Paulo", eu disse secamente. "Um fato que você poderia ter aprendido se tivesse se dado ao trabalho de ler o arquivo."

Eu não me importava mais com a empresa. Era um navio afundando, e eu estava apenas aqui para salvar meu bote salva-vidas. O fato de Kênia ser quem estava fazendo os furos no casco era apenas um bônus.

Kênia se levantou, o rosto uma máscara de indignação. "Como você ousa falar comigo assim! Depois de tudo que você fez!"

Nesse momento, Júlio entrou, atraído pelo som de sua voz elevada. Ele imediatamente foi para o lado dela, envolvendo-a com um braço protetor.

"O que está acontecendo? Flora, por que você está assediando a Kênia?"

"Ela está tentando me culpar por sua própria incompetência!", lamentou Kênia, enterrando o rosto no peito dele. "A equipe não me ouve. Eles ainda a veem como chefe. Não é justo."

Ela se afastou, olhando para ele com os olhos cheios de lágrimas. "Talvez... talvez eu devesse ir embora. Esta era a empresa dela primeiro. Eu sou apenas uma estranha."

"Besteira", acalmou Júlio, acariciando seu cabelo. Ele olhou para mim, os olhos duros como pedra. "Flora, isso é inaceitável. Kênia é a nova diretora criativa. Você se reportará a ela."

Eu apenas o encarei.

"E por sua insubordinação", ele continuou, um sorriso cruel no rosto, "você está suspensa por um mês. Sem pagamento. Talvez isso lhe ensine algum respeito."

Senti os olhos de todo o escritório em nós. A humilhação era espessa, palpável. Ele estava fazendo um show para me quebrar.

"Júlio", eu disse, minha voz perigosamente baixa. "Esta empresa é metade minha. O nome na porta é Magalhães."

"Um nome que você está prestes a perder", ele zombou.

Eu sorri. Foi uma coisa fria e afiada. "Tudo bem. Você quer a empresa? Pode ficar. Compre a minha parte."

Ele foi pego de surpresa. Isso não fazia parte do plano dele.

"O quê?"

"Eu vendo minha participação de quarenta e nove por cento", eu disse. "Mas eu quero um prêmio. Digamos... quinhentos milhões de reais."

Era um preço ultrajante, muito acima do valor de mercado. A empresa já estava sangrando com os escândalos e a má gestão de Kênia.

Os olhos de Kênia se iluminaram. "Júlio, faça isso! Então ela irá embora para sempre!"

Júlio hesitou, me encarando. "Você está fazendo isso por ciúmes, não é? Você não suporta ver a Kênia ter sucesso no seu lugar."

Eu ri alto. Foi um som cru e sem humor. "Sucesso? Júlio, ela está levando a empresa à falência. E você? Você não é digno de limpar meus sapatos, muito menos de dirigir minha empresa."

Seu rosto se contorceu em uma máscara de fúria. "Sua vadia!"

Ele se virou para seu assistente. "Chame o jurídico aqui. Prepare os papéis. Quinhentos milhões. Eu a quero fora da minha vista."

Ele se virou para mim, os olhos brilhando. "Agora, pelo seu desrespeito." Ele olhou para Kênia. "Kênia, querida, ela te insultou. Acho que ela te deve um pedido de desculpas."

Ele então acenou para os dois grandes seguranças que haviam se materializado na porta. "Segurem-na."

Os guardas agarraram meus braços, seus apertos como ferro. Eles me prenderam contra a parede.

"Kênia", disse Júlio, sua voz um ronronar suave e maligno. "Ela é toda sua."

Kênia pareceu assustada por um segundo, um lampejo de sua verdadeira natureza fraca aparecendo. Mas então ela olhou para Júlio, para seu sorriso encorajador, e uma excitação doentia encheu seus olhos.

Ela se aproximou de mim e me deu um tapa no rosto. O som estalou pelo escritório silencioso.

Minha cabeça virou para o lado. Minha bochecha ardia.

Ela me bateu de novo. E de novo. Ela era desajeitada, fraca, mas Júlio a guiava. "Mais forte, querida. Ela aguenta."

Ele ordenou que os guardas se juntassem. Um por um, eles me esbofetearam, seus rostos em branco e profissionais. Todo o escritório assistia. Meus ex-colegas, as pessoas que eu treinei, ficaram em silêncio enquanto eu era pública e brutalmente humilhada.

Meu rosto passou de ardente para dormente. Eu não sentia mais a dor. Tudo o que eu podia sentir era uma frieza glacial profunda se espalhando por mim. Olhei para o rosto de Júlio, torcido de prazer. Olhei para o de Kênia, iluminado por um triunfo vicioso.

Eu tenho que me lembrar disso, pensei. Tenho que queimar este momento na minha memória.

Tenho que me lembrar de como foi ser nada, para que eu possa me lembrar de como é destruir tudo o que eles são.

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