Ponto de Vista de Helena:
O ar em meu antigo apartamento estava viciado, pesado com memórias das quais eu ansiava me livrar. Cada item que eu tocava parecia imbuído de uma dor fantasma. Meu coração era um tambor oco, ecoando o vazio dentro de mim. Eu estava fazendo uma pequena mala, apenas o essencial, quando a porta da frente se abriu com um estrondo. Heitor. Seu rosto era uma máscara de fúria, seus olhos cuspindo fogo.
"O que você pensa que está fazendo, Helena?", ele rugiu, sua voz ecoando pelas paredes. Ele não foi convidado. Ele não era convidado em lugar nenhum perto de mim há dias.
"Indo embora", afirmei, minha voz plana, desprovida de emoção. Eu nem sequer vacilei. Eu estava além do medo. Eu estava além de tudo.
Ele deu um passo ameaçador para mais perto. "Indo embora? Depois do que você fez? Registrando aquele boletim de ocorrência ridículo? Tentando incriminar o Caio?" Suas palavras estavam carregadas de nojo.
Parei de fazer as malas, virando-me lentamente para encará-lo. Meu olhar era firme, inabalável. "Você sabe exatamente o que ele fez, Heitor. Ele matou minha mãe. Ele me sequestrou. Ele tentou me agredir."
Heitor zombou, passando a mão por seu cabelo perfeitamente penteado. "Não seja dramática. Um acidente menor. E quanto às suas alegações de... agressão, Anita me garante que não passou de sua tentativa desesperada de chamar atenção."
"Minha mãe está morta, Heitor", disse eu, cada palavra um caco de gelo. "Você sequer sabia disso? Você sequer se importou?"
Ele fez uma pausa, um lampejo de surpresa em seus olhos. Apenas um lampejo. "Sua mãe? Do que você está falando? Pensei que ela estivesse... doente."
Uma risada amarga escapou dos meus lábios. "Doente? Ela foi atropelada. Por Caio Tavares. Ele a atingiu, depois deu ré e a atropelou de novo. Duas vezes. Ele a assassinou, Heitor. E você sabia. Você sabia e o protegeu."
Seu rosto endureceu instantaneamente. "Absurdo. Caio nunca faria isso. Foi um acidente trágico."
"Um acidente que você ajudou a encobrir", contrapus, minha voz se elevando. "Um acidente que você usou sua influência para enterrar. Um acidente que deixou meu pai em uma cama de hospital, precisando de uma cirurgia que você se recusou a financiar! O dinheiro que você congelou! E por causa disso, ele também morreu, Heitor. Meu pai está morto!"
Uma veia pulsava em sua têmpora. "Não ouse tentar colocar a morte do seu pai na minha conta, Helena. Você sempre foi tão mesquinha. Se tivesse vendido algumas daquelas bugigangas bregas que você acumula, talvez ele ainda estivesse vivo."
Meu queixo caiu. A audácia pura, o descaso cruel pela vida humana, pela minha família. "Mesquinha? Você congelou todas as minhas contas! Você me cortou completamente! O que eu deveria vender? Meu próprio sangue?"
Ele zombou. "Talvez. Você sempre valorizou mais os bens materiais do que o afeto verdadeiro. Você é como qualquer outra mulher que se casou por dinheiro."
"Você acha que me casei com você por dinheiro?", sussurrei, minha voz grossa de incredulidade. "Eu te amei, Heitor! Eu tentei. Eu realmente tentei. E você... você me reduziu a isso." Meu olhar caiu sobre o relicário quebrado na cômoda. As vidas da minha mãe e do meu pai se foram. Meu amor por ele, uma memória distante e dolorosa. Não restava nada além de um desejo frio e ardente de retribuição. "Eu vou ver Caio Tavares na cadeia, Heitor. Vou vê-lo pagar pelo que fez à minha família. E você... você vai se arrepender de cada momento que ficou ao lado dele."
Seu rosto se contorceu em uma carranca feia. Nesse momento, a porta do apartamento se abriu novamente, e Anita entrou deslizando, seus olhos arregalados com falsa preocupação. "Oh, Heitor, querido, o que é toda essa gritaria? E Helena, por que você ainda está aqui?"
Ela se virou para mim, sua voz pingando uma doçura falsa. "Helena, ouvi sobre seu... infeliz incidente com o Caio. Sinto terrivelmente. Aqui, deixe-me oferecer algo por seus problemas." Ela pegou um talão de cheques, rabiscando rapidamente. "Pela sua... dor e sofrimento. Vamos apenas deixar tudo isso para trás, que tal?"
Ela estendeu o cheque, um brilho triunfante em seus olhos inocentes. Heitor, sua raiva momentaneamente desviada pela atuação de Anita, me observava, uma expressão presunçosa no rosto.
"Ela está te oferecendo um acordo, Helena", disse Heitor, sua voz carregada de desdém. "Aceite. É mais do que você merece."
Anita acrescentou: "E, por favor, não diga que eu nunca tentei ajudar. Sabe, estas últimas semanas foram tão difíceis para o Caio. Ele é tão sensível. E com toda a... reestruturação financeira da empresa", ela olhou de forma pontual para Heitor, "estivemos sob imensa pressão."
Heitor arrancou o cheque da mão de Anita, seus olhos queimando nos meus. "Esta é uma oferta generosa, Helena. Uma oferta muito generosa. Aceite e desapareça. Esqueça essa busca absurda por justiça. É infantil. É tolo. Está abaixo de você." Ele mencionou um valor astronômico, muito mais do que Anita havia escrito inicialmente. Ele pensou que o dinheiro poderia comprar meu silêncio. Ele pensou que o dinheiro poderia comprar minha humanidade.
Permaneci em silêncio, meu olhar inabalável.
"Não é suficiente, Helena? Quanto você quer? Diga seu preço." Ele estalou a língua, o aborrecimento gravado em seu rosto. "Cinco milhões? Dez? Você sempre foi gananciosa."
Lentamente, me abaixei, pegando o cheque. A expressão presunçosa de Heitor se aprofundou. "Bom. Finalmente, um pouco de bom senso."
Mas em vez de segurá-lo, eu o rasguei ao meio. E de novo. Até que se tornou uma chuva de papel sem valor caindo no chão. Olhei para Heitor, depois para Anita, meus olhos mais frios que as lápides que marcavam o local de descanso dos meus pais. Não disse uma palavra. Não precisei.
O rosto de Heitor ficou de um tom perigoso de vermelho. "Sua mulher tola! Você tem alguma ideia do que está fazendo?" Ele apontou um dedo para mim, sua voz tremendo de raiva. "Eu vou te arruinar, Helena! O negócio da sua família? Acabou. Sua carreira? Terminada. Cada último resquício da sua reputação? Aniquilado. Você não terá mais nada!"
"Eu já não tenho nada, Heitor", respondi, minha voz assustadoramente calma. "Você se certificou disso. Mas eu ainda tenho a minha verdade. E vou expor a sua."
Seu sorriso de escárnio voltou. "Sua verdade? Não me faça rir. Ninguém vai acreditar em você. Você é uma mentirosa desgraçada. Uma sedutora. Uma interesseira." Ele pegou o celular, seus dedos voando pela tela. "Quer jogar duro, Helena? Tudo bem. Vou garantir que esse boletim de ocorrência desapareça. E seus advogados? Eles se verão com a licença cassada por sequer contemplar sua insanidade." Ele levou o telefone ao ouvido, latindo ordens. "Livre-se disso. Diga a eles que ela é instável. Não confiável." Então ele desligou, um sorriso triunfante no rosto. "Agora, o que era aquilo sobre a sua verdade?"
Meu coração afundou, uma pedra fria e pesada. Ele estava certo. Ele tinha o poder. Ele tinha a influência. Ele já havia me silenciado uma vez.
Momentos depois, meu celular vibrou. Uma mensagem do delegado-chefe. "Caso encerrado. Provas insuficientes. Preocupações com instabilidade mental levantadas." Minhas mãos se fecharam, o pequeno aparelho parecendo um peso de chumbo. Então outra ligação. Meu ex-chefe. "Helena, sinto muito. Estamos cortando os laços. Seus... problemas recentes... estão afetando nossa audiência. Os patrocínios estão se retirando." A linha ficou muda.
Meu celular vibrou novamente, desta vez com uma mensagem da minha tia. "Helena, por favor, querida. Não lute contra ele. Ele é muito poderoso. Apenas pegue o dinheiro e vá embora. Para o seu próprio bem."
Um frio profundo se instalou sobre mim, mais frio que qualquer noite de inverno. Olhei do celular em minha mão para o rosto presunçoso e vitorioso de Heitor. Ele viu minha devastação, meu desespero. Ele pensou que havia vencido. Ele pensou que havia me quebrado completamente.
Um som estranho e gutural escapou da minha garganta. Uma risada. Uma gargalhada aguda e histérica que se transformou em soluços angustiados. Lágrimas escorriam pelo meu rosto, mas não eram lágrimas de fraqueza. Eram lágrimas de pura e inalterada fúria. Eu ri e chorei, meu corpo tremendo com a força disso.
Heitor me observava, um lampejo de algo indecifrável em seus olhos – inquietação? Pena? Ele deu um passo hesitante para frente. "Helena, talvez... talvez possamos discutir isso racionalmente. Posso te oferecer uma pensão generosa. Um novo apartamento. Você não precisa viver assim."
Lentamente, levantei a cabeça, meus olhos ardendo. Minha mão foi para minha bolsa, tirando um documento dobrado. Alisei-o com os dedos trêmulos, depois o estendi para ele. Era uma escritura de propriedade, ou assim parecia. Minha advogada a havia redigido perfeitamente. Eu havia escondido meticulosamente o cabeçalho "ACORDO DE DIVÓRCIO" sob um post-it estrategicamente colocado, que eu havia retirado momentos antes. As únicas palavras visíveis eram sobre transferências de propriedade.
"Assine isso, Heitor", disse eu, minha voz estranhamente calma. "E você pode ter tudo o que quiser." Virei para a página com a linha de assinatura, obscurecendo o resto do texto com minha mão.
Ele olhou para o papel, depois para mim, um sorriso condescendente no rosto. "Então, era uma casa de praia que você queria o tempo todo, não é? Tudo bem. Apenas assine e vá embora." Ele pegou a caneta, rabiscou sua assinatura sem um segundo olhar, depois a jogou de volta para mim. "Pronto. Agora você tem sua preciosa propriedade. Assim como eu sempre soube que você preferiria ganhos materiais a mim." Ele riu, um som frio e zombeteiro.
Agarrei o papel assinado ao meu peito, um pequeno sorriso triunfante brincando em meus lábios. "Você pode me dar todas as casas de praia do mundo, Heitor", disse eu, minha voz mal um sussurro, "mas não pode me devolver a vida dos meus pais. Não pode me devolver a minha paz. E não pode apagar o que você fez."
Ponto de Vista de Helena:
O escritório da advogada parecia um santuário. A pesada porta de carvalho, os sussurros abafados dos assistentes jurídicos, o cheiro de papel velho e café fresco – era um mundo distante da grandiosidade sufocante da mansão de Heitor. Observei enquanto minha advogada, Dra. Matos, uma mulher cuja calma escondia uma mente afiada como uma navalha, revisava cuidadosamente o documento que Heitor havia assinado. Meu coração martelava contra minhas costelas, um ritmo nervoso contra o tique-taque silencioso do relógio de parede.
"É válido, Helena", disse Dra. Matos finalmente, sua voz suave, mas firme. Ela empurrou os papéis de volta pela mesa polida. "Ele assinou o acordo de divórcio. Sob coação, talvez, mas legalmente vinculativo. Você está oficialmente livre."
Uma onda de alívio, tão profunda que quase dobrou meus joelhos, me invadiu. Livre. A palavra tinha gosto de oxigênio depois de anos de sufocamento. "Obrigada", consegui dizer, minha voz crua de emoção.
"Qual o próximo passo?", ela perguntou, seus olhos perscrutando os meus.
"O próximo passo", disse eu, minha voz endurecendo, "é expô-lo. E a eles. Para o mundo." Eu já havia planejado minha fuga. Um voo reservado para o Rio de Janeiro. Uma nova vida, longe do alcance sufocante da elite de São Paulo. Mas primeiro, um ato final de justiça. Eu vinha secretamente reunindo cada pedaço de evidência, cada confissão coagida, cada mensagem de texto manipuladora. Estava tudo criptografado, carregado e pronto para ser liberado.
Saí do escritório da Dra. Matos, o decreto de divórcio assinado um fardo leve como uma pena em minha bolsa, mas mais pesado que ouro. Meu plano estava traçado. Eu estava começando de novo. Um novo estado, um novo nome, uma nova vida. Eu só precisava finalizar algumas coisas.
Naquela noite, voltei à mansão uma última vez para pegar alguns itens pessoais. A grande sala de jantar estava iluminada por velas, o tilintar dos talheres ecoando pelo espaço cavernoso. Heitor e Anita estavam à mesa, seus rostos próximos, uma imagem de felicidade doméstica. Eles olharam para cima quando entrei, suas risadas morrendo.
"Helena! Querida! Você chegou bem a tempo!", Anita ronronou, seu sorriso muito largo, muito doce. "Junte-se a nós! Heitor fez sua famosa moqueca baiana super picante. Sua favorita, não é, Heitor?" Ela piscou para ele.
Heitor apenas grunhiu, sem encontrar meu olhar. Minha favorita? Meu estômago revirou. Heitor sabia que eu não tolerava comida apimentada. Ele também sabia que a pressão arterial dele não aguentava. Era a favorita dele. Uma pequena e insidiosa provocação.
"Não, obrigada", respondi, minha voz firme. "Só vim pegar algumas coisas."
Heitor finalmente olhou para mim, seus olhos frios. "Ainda se fazendo de vítima, vejo. Sempre tão dramática." Ele se virou de volta para Anita, sua mão tocando suavemente a bochecha dela. "Minha doce Anita, você está absolutamente radiante esta noite. Você me faz esquecer toda a desagradabilidade." Ele me lançou um olhar pontual.
Anita se envaideceu sob sua atenção. "Oh, Heitor, você é tão gentil." Ela então se virou para mim, sua falsa preocupação de volta. "Helena, você parece um pouco pálida. Tem certeza de que não deveria comer algo? Ou talvez uma boa e quente tigela de sopa?" Ela pegou uma tigela fumegante, sua superfície brilhando com óleo de dendê. Meu estômago se contorceu.
"Não, obrigada. Sou alérgica a... drama", disse eu, minha voz seca. Tirei o celular do bolso, tocando sutilmente no botão de gravação. Apenas por precaução.
O sorriso de Anita se apertou. "Oh, Helena, você é sempre tão difícil." Ela se levantou, tigela na mão, e caminhou em minha direção. "Aqui, você realmente deveria comer um pouco. É tão bom para você." Ela tentou pressionar a tigela em minhas mãos.
"Eu disse não", avisei, dando um passo para trás. Minhas alergias eram reais, uma reação severa a certas pimentas. Isso não era um acidente.
Mas Anita era implacável. Ela se lançou, forçando a tigela contra minhas mãos. "Não seja boba, Helena. Só um gostinho." Seu aperto era surpreendentemente forte.
A sopa fervente espirrou em minhas mãos, queimando minha pele. Eu arquejei, derrubando a tigela. Ela se estilhaçou no chão de mármore, o líquido picante espirrando por toda parte. A dor foi imediata, aguda e lancinante.
"Ah!", Anita gritou, segurando o braço, embora nem uma gota de sopa a tivesse tocado. Ela desabou nos braços de Heitor, lágrimas instantaneamente brotando em seus olhos. "Ela fez de propósito! Ela me queimou!"
"Anita! Minha querida, você está bem?", Heitor rugiu, seu rosto uma máscara de preocupação por ela. Ele nem sequer olhou para minha pele avermelhada e empolada. "Chame o médico! Imediatamente!"
"Estou bem, Heitor, só um pouco abalada", Anita choramingou, seus olhos se voltando para mim com um olhar triunfante. "Mas a Helena... ela é tão violenta. Sempre foi."
"Ela não te queimou, Anita! A sopa estava quente, espirrou!", gritei, minha voz tremendo de dor e incredulidade.
"Oh, Helena, não tente mentir para sair dessa", disse Anita, sua voz ainda um sussurro teatral. "Eu sei que você está chateada, mas me machucar deliberadamente... eu te perdoo, é claro, mas foi uma coisa terrível de se fazer." Ela se virou para Heitor, seus olhos nadando em lágrimas. "Ela precisa de ajuda, Heitor. Ela está claramente instável."
Meu estômago revirou, não de dor, mas de puro nojo. Sua atuação era doentia e brilhante. Eu queria gritar, arrancar seus cabelos perfeitos, mas me contive. Eu tinha a gravação. Era o suficiente.
Virei-me e saí da mansão, deixando os gritos e as lágrimas falsas para trás. O ar fresco da noite era um bálsamo em minha pele queimada. Chamei um táxi, minha mente já no próximo passo.
Mas o destino, ao que parece, tinha uma última e cruel reviravolta reservada. Antes que o táxi pudesse sequer virar a esquina, um sedã escuro nos fechou. Dois homens fortes, com os rostos mascarados, me arrancaram do veículo. Gritei, mas foi abafado, perdido no rugido da cidade. Uma mão áspera cobriu minha boca, um cheiro doce e enjoativo enchendo minhas narinas. A escuridão me reivindicou mais uma vez.
Acordei com a umidade arrepiante da pedra sob minha bochecha. Minha cabeça latejava. Eu estava em um porão, uma escuridão fria e opressiva me pressionando. O ar estava pesado com o cheiro de mofo e algo mais... algo vivo e rastejante. Minha respiração ficou presa. Meu coração começou a bater com um ritmo frenético e doentio.
Então, uma voz familiar, distorcida por um alto-falante, ecoou pelo espaço cavernoso. Heitor. "Então, Helena. Ainda acha que pode me desafiar? Ainda acha que pode ir embora?" Sua voz era assustadoramente calma. "Você tentou machucar a Anita. Você tentou arruinar minha família. Esta é a sua punição."
Um gemido escapou dos meus lábios. Eu não conseguia ver nada, mas podia sentir. Os pequenos movimentos rastejantes. Meu coração era um pássaro frenético preso em meu peito. Meu medo mais primitivo. Aranhas. Ele sabia. Ele se lembrava.
"Não... por favor..." Tentei falar, mas minha voz era um soluço engasgado. Encolhi-me em posição fetal, meu corpo tremendo incontrolavelmente.
"Grite o quanto quiser, Helena", a voz de Heitor continuou, fria e inabalável. "Ninguém vai te ouvir. E ninguém se importa."
Eu podia ouvi-las agora, os sons suaves e farfalhantes. Chegando mais perto. Podia sentir perninhas na minha pele, subindo pelos meus braços, meu pescoço. Um grito agudo rasgou minha garganta, cru e desesperado. Debati-me descontroladamente, minhas mãos batendo na minha pele, tentando desalojar as criaturas imaginárias. Ou eram imaginárias? Eu não conseguia mais dizer. Cada sombra se movia, cada partícula de poeira se transformava em um aracnídeo monstruoso. O terror era avassalador.
Minha mente se fragmentou. Implorei. Supliquei. Chorei por minha mãe, por meu pai, por qualquer um. As palavras eram incoerentes, perdidas no barulho do meu próprio terror. Mas ninguém veio. O silêncio de Heitor era um julgamento, uma confirmação da minha total insignificância.
Então, uma dor aguda e lancinante. Uma picada. No meu tornozelo. Meu grito foi interrompido quando uma onda de tontura me atingiu. O mundo inclinou, girou. Escuridão. Ela me engoliu por inteiro. Mas naquele breve e agonizante momento antes da inconsciência, um único pensamento perfurou o terror: Ele matou minha mãe. Ele matou meu pai. Ele fez isso comigo. Eu vou fazê-lo pagar.