Capítulo 2

Aurora voltou para a cobertura que um dia considerou seu lar. Parecia fria e vazia, um museu de uma vida que nunca foi realmente sua.

Júlio não estava lá. Uma mensagem de texto brilhava em seu celular: "Estela teve um ataque de pânico. Vou ficar com ela esta noite para garantir que ela esteja bem. Te vejo amanhã."

Ela não respondeu. Em vez disso, abriu o Instagram. Estela já havia postado uma foto. Um close de duas taças de champanhe, com o fundo opulento de uma suíte do Fasano inconfundível. A legenda dizia: "Algumas pessoas simplesmente sabem como cuidar de você. #AmorDeVerdade."

Aurora encarou a tela, um sorriso amargo torcendo seus lábios. Ela passou quatro anos cuidando dele, e esta era sua recompensa.

Uma energia súbita e feroz percorreu-a. Ela não seria uma vítima. Ela não seria um fantasma em sua própria vida.

Ela começou no quarto. Puxou os ternos caros e feitos sob medida de Júlio do armário, jogando-os no chão. Seus frascos de perfume, sua coleção de relógios, suas fotos — tudo foi para sacos de lixo. Ela trabalhou com uma fúria metódica, limpando o espaço de sua presença. Cada item que ela descartava era uma corrente que ela estava quebrando.

Quando o sol nasceu, o apartamento estava nu. Todos os vestígios de Júlio Alencar haviam desaparecido.

Ele entrou pouco depois das nove da manhã, segurando uma caixa de doces como uma patética oferta de paz. Ele parou abruptamente na sala de estar, seus olhos arregalados de choque.

"Aurora? O que... o que aconteceu aqui?"

Ele olhou ao redor, sua confusão genuína. Ele realmente não entendia.

"Eu estava redecorando", disse ela, sua voz plana e desprovida de emoção.

Ele forçou uma risada, tentando ignorar a estranha tensão. "Ok... bem, acho que precisávamos de uma mudança. Podemos ir às compras neste fim de semana. Eu compro o que você quiser."

Ele pensou que poderia consertar isso com dinheiro. Ele pensou que um sofá novo poderia remendar o buraco enorme que ele rasgou na vida dela.

"Júlio", disse ela, sua voz firme. "Precisamos falar sobre a Estela."

Ele enrijeceu, seu sorriso fácil desaparecendo. "Não há nada para falar. Eu te disse, ela é apenas uma amiga. Ela precisava da minha ajuda."

"E nós vamos nos casar", ele acrescentou rapidamente, como se as palavras fossem um feitiço mágico que poderia consertar tudo. "Nosso casamento é em três semanas. Está tudo certo."

Ela apenas o encarou, o silêncio se estendendo entre eles. Ele não conseguia encontrar seus olhos.

"Minha família está dando uma festa de gala esta noite", disse ele, mudando de assunto. "Você tem que estar lá. Temos que apresentar uma frente unida."

Ela não queria ir. Ela queria trancar a porta e nunca mais ver nenhum deles. Mas ela sabia que uma cena pública agora só pioraria as coisas.

"Tudo bem", ela concordou.

A festa de gala foi um pesadelo de lustres cintilantes e sorrisos falsos. Assim que chegaram, Júlio foi engolido por um mar de associados de negócios. Aurora foi deixada sozinha, uma pária em um mundo ao qual ela nunca pertenceu. As outras mulheres, todas de famílias tradicionais, olhavam através dela, seus olhos se fixando nas linhas tênues de suas cicatrizes.

Ela encontrou um canto tranquilo em uma varanda com vista para a cidade. Ela precisava de ar.

"Ora, ora, veja o que o vento trouxe."

Aurora se virou. A irmã mais nova de Júlio, Janete, estava lá, um sorriso cruel no rosto. Estela estava logo atrás dela, uma sombra de seda.

"Você não deveria estar em casa, polindo os sapatos do meu irmão?", zombou Janete. "Ou isso é demais para suas mãos com cicatrizes?"

Estela colocou uma mão gentil no braço de Janete. "Janie, não seja má. Aurora é nossa convidada." Sua voz era doce, mas seus olhos eram frios.

"Convidada? Ela é uma enfermeirazinha glorificada que prendeu meu irmão", cuspiu Janete, sua voz se elevando. As pessoas estavam começando a se virar e olhar. "Ela não passa de uma golpista com um passado de dinheiro novo. Ela não pertence a este lugar."

Estela suspirou dramaticamente. "É verdade que Júlio merece alguém... inteira. Alguém do seu próprio mundo. Mas ele fez uma promessa. Ele é um homem de palavra."

Cada palavra era um golpe cuidadosamente calculado.

Janete, incentivada pela atuação de Estela, deu um passo mais perto. "Meu irmão sente pena de você. É só isso. Pena. Você realmente acha que alguém poderia amar um monstro como você?"

Antes que Aurora pudesse reagir, a mão de Janete disparou. Ela agarrou a gola alta do vestido de Aurora e a rasgou.

O tecido rasgou com um som doentio. A extensão total de suas cicatrizes no pescoço e no ombro foi subitamente exposta sob as luzes duras do salão de baile.

Um suspiro coletivo percorreu a multidão. As pessoas encaravam, seus rostos uma mistura de choque e curiosidade mórbida. Sussurros se espalharam como fogo.

A humilhação tomou conta de Aurora, quente e sufocante.

Janete não havia terminado. Ela estendeu a mão novamente, como se para apontar para as cicatrizes. "Vejam! É isso que ela é!"

Algo dentro de Aurora estalou. Ela se moveu por puro instinto, sua mão subindo e conectando com a bochecha de Janete em um tapa alto e forte.

A sala ficou em silêncio. Janete ficou congelada, a mão na bochecha vermelha, os olhos arregalados de incredulidade.

Estela ofegou, correndo para a frente. "Meu Deus, Aurora! Como você pôde?" Em sua pressa fabricada, ela "tropeçou", caindo no chão em um monte de seda e dor fingida. "Meu tornozelo!", ela gritou.

Foi quando Júlio apareceu. Ele viu a cena em um único relance: Aurora de pé sobre uma Estela chorando, e sua irmã segurando a bochecha. Ele não hesitou.

Ele se moveu em direção a Estela, seu rosto uma máscara de fúria. Ele passou por Aurora, empurrando-a e fazendo-a perder o equilíbrio. Ela tropeçou para trás, batendo com força no parapeito da varanda. Ele nem olhou para ela.

"Tela! Você se machucou?", ele perguntou, sua voz cheia de preocupação frenética.

Janete, vendo sua oportunidade, começou a chorar. "Irmão, ela me atacou! E empurrou a Estela! Ela está louca!"

Júlio gentilmente levantou Estela em seus braços, embalando-a como se ela fosse feita de vidro. Ele se virou, seus olhos finalmente pousando em Aurora. Estavam frios, cheios de acusação e decepção.

Ele não disse uma palavra para ela. Ele apenas se virou e levou Estela embora, deixando Aurora sozinha no centro da multidão silenciosa e observadora.

Capítulo 3

Janete se aproximou, o rosto triunfante. "Viu? Ele sempre vai nos escolher. Você não é nada."

Os olhos da multidão estavam em Aurora, um peso sufocante de pena e desprezo. Ela ficou ali, seu vestido rasgado um símbolo de sua dignidade em frangalhos, o ar frio da noite um beijo cruel em suas cicatrizes expostas. Ela não sentiu nada. Era como se estivesse assistindo a um filme sobre a vida de outra pessoa.

Ela se lembrou de uma vez, antes do acidente, quando um investidor bêbado foi rude com ela em uma festa. Júlio, com calma, mas com firmeza, acompanhou o homem para fora e passou o resto da noite com o braço protetoramente ao redor dela.

Aquele Júlio se foi. Ou talvez ele nunca tenha existido.

Ela saiu da festa de gala, um fantasma deixando sua própria assombração. Não se preocupou em chamar um carro. A longa caminhada pelas ruas da cidade pareceu uma penitência necessária, embora pelo quê, ela não soubesse mais.

Ela estava a uma quadra de seu apartamento quando uma van escura parou bruscamente ao seu lado. Dois homens grandes pularam para fora.

"Aurora Tucker?", um deles grunhiu.

Antes que ela pudesse responder, eles a agarraram, arrastando-a para um beco escuro. O fedor de lixo encheu suas narinas. Um homem a jogou contra uma parede de tijolos, a superfície áspera arranhando sua bochecha.

"Isso é um aviso", ele rosnou, seu hálito quente e fétido. "Estela Matarazzo mandou você ficar longe do homem dela."

O outro homem riu. "Uma vadia toda cicatrizada como você deveria saber o seu lugar."

Eles não se contiveram. A dor explodiu em seu estômago, depois em suas costelas. Eram profissionais, seus golpes precisos e brutais, destinados a machucar, mas não a matar. Eles a jogaram no chão, chutando-a até que sua visão começou a escurecer nas bordas.

"Fica aí no chão, lixo", disse um deles, cuspindo perto de sua cabeça. Então eles se foram.

Ela ficou no chão imundo por um longo tempo, a dor uma batida surda e latejante que combinava com seu coração. Com um gemido, ela pegou o celular. Suas mãos tremiam tanto que foram necessárias três tentativas para discar 190. Antes de ligar, ela apertou o botão de gravação em seu aplicativo de memorando de voz. Apenas por precaução.

Ela conseguiu chegar ao pronto-socorro. A polícia veio, pegou seu depoimento. Ela tocou para eles a gravação dos bandidos mencionando o nome de Estela. O policial pareceu simpático, mas evasivo.

Ela estava deitada em uma cama de hospital, um mosaico de hematomas e bandagens, quando Júlio finalmente apareceu. Ele parecia cansado e cheio de um remorso fabricado.

"Aurora. Meu Deus. Acabei de saber. Sinto muito."

Ele se sentou ao lado da cama dela, tentando pegar sua mão. Ela a puxou de volta.

"Eu já lidei com a Janete", disse ele, sua voz pesada com falsa autoridade. "Cortei os cartões de crédito dela e a mandei para a fazenda da nossa família no interior. Ela não vai mais te incomodar."

Ele olhou para ela, esperando gratidão.

"E a Estela?", perguntou Aurora, a voz rouca.

O rosto de Júlio se contraiu. "A Tela não teve nada a ver com isso. Foi tudo a Janete. Ela é apenas uma pirralha mimada que se descontrolou."

"Eles disseram o nome dela, Júlio", disse Aurora, sua voz se elevando com uma força que ela não sabia que tinha. "Os homens que me atacaram. Eles disseram que a Estela os enviou." Ela pegou o celular. "Eu tenho uma gravação."

Ele não a deixou tocar. Ele se esticou e desligou o celular, seus movimentos bruscos e autoritários. O garoto charmoso e imaturo se foi, substituído pelo CEO frio e implacável do império Alencar.

"Para com isso, Aurora", disse ele, sua voz baixa e perigosa. "Você não acha que eu já tenho o suficiente com que lidar? Minha irmã está um caos, a imprensa está fazendo a festa, e você está fazendo essas acusações malucas. Estou decepcionado com você."

Decepcionado. A palavra foi um tapa na cara.

"Nós vamos nos casar", ele continuou, como se isso fosse o fim da discussão. "Eu já falei com a polícia. A queixa foi retirada. Vamos lidar com isso internamente. É melhor para a família."

Ele se levantou, sua autoridade absoluta. Ele estava protegendo seu mundo, e ela era apenas uma complicação bagunçada dentro dele.

Nesse momento, o celular dele tocou. A tela se iluminou com o nome de Estela.

"Júlio, querido", veio a voz chorosa de Estela, alta o suficiente para Aurora ouvir. "Estou com tanto medo. Acho que alguém está me seguindo."

Toda a postura de Júlio mudou. Ele instantaneamente voltou a ser o protetor dela, o herói dela. "Onde você está? Não se mexa. Estou a caminho."

Ele desligou e começou a ir para a porta.

"Júlio, espere", disse Aurora. Foi a primeira vez que ela pediu algo a ele. Sua voz era pequena, quebrada. "Por favor. Não vá. Fique comigo."

Ele hesitou na porta, de costas para ela. Por um único momento de parar o coração, ela pensou que ele poderia ficar.

Então ele se virou, seu rosto uma máscara de paciência forçada. "Aurora, eu tenho que ir. Estela está apavorada. Você está segura aqui no hospital. Eu volto mais tarde."

Ele saiu.

A porta se fechou atrás dele, o som ecoando na sala silenciosa.

Aurora encarou a porta vazia, e uma única lágrima traçou um caminho pela sujeira em sua bochecha. Depois outra. Logo, ela estava chorando, mas também estava sorrindo. Um sorriso estranho, quebrado e libertado.

Ele sempre escolheria Estela. E agora, finalmente, ela podia escolher a si mesma.

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