Capítulo 2

Sofia descansou a cabeça sobre o travesseiro e fechou os olhos. Grata por finalmente poder descansar. Depois de atender Noah, um menino meigo, educado, que trouxe a ela uma consulta bem mais tranquila que aquela de João Pedro.

Saiu da Granja Comary tarde. Fez anotações, depois saiu pra jantar sozinha.

Ela vivia com uma amiga em Vitória. Morou em Salvador durante a infância, mas aos sete anos foi para Cachoeiro de Itapemirim, lá se fez, pegou o sotaque da região e nunca mais largou. Foi para Vitória com uma amiga estudar, mesmo quando a tia dizia que Campos dos Goytacazes, no estado vizinho, era mais próximo.

Sofia gostava de agitação, por isso foi pra Vitória, foi para a bagunça de uma capital porque quis e aquele friozinho de Teresópolis e a solidão do quarto vazio parecia querer consumi-la.

Ligou o celular, abriu o aplicativo de músicas e apertou na opção aleatório.

A vida sempre era sarcástica e brincalhona com Sofia, exatamente como João Pedro naquela tarde, e ironicamente a música que começou a tocar foi “Olha Só Moreno” da cantora Mallu Magalhães cujo primeiro verso era “Olha só moreno, do cabelo enroladinho...”.

Um frio tomou conta do corpo dela. Ela sentiu sua pele esfriar definitivamente e mordeu o lábio inferior.

- Mas que porra! – Xingou baixinho e desligou o aplicativo colocando o celular o mais longe possível dela. Ficou um tempo encarando o aparelho jogado do outro lado do colchão e voltou para ele. Sua garganta tinha um bolo, ela não conseguiu segurar aquela sensação de agonia. Era simplesmente uma mistura de sentimentos.

Ela se conhecia muito bem, seu lado ruim e seu lado bom e não sabia dizer se isso era uma virtude ou uma maldição. Ela sabia como algumas pessoas que simplesmente havia acabado de conhecer poderiam afetar perdidamente, e para sempre, sua perspectiva de mundo. E era aquilo que João Pedro tinha causado nela.

A forma de olhar, as piadinhas, tudo. E mesmo depois do “fora”, se é que se podia chamar assim, que Sofia lhe deu ele ainda insistiu um pouco.

Por outro lado o garoto tinha umas coisas boas, aparentemente era esforçado, religioso e que amava crianças. Seria um bom pai, ela sabia disso. Segundo ele namorava uma portuguesa chamada Sara. “Então por que estava dando em cima de mim?” Auto-afirmação? Não estava satisfeito com o relacionamento? A distância quem sabe?

Antes que tivesse noção de seus atos Sofia estava digitando o número de Clara.

Clara era o Robin do Batman dela, o Catatau de seu Zé Colméia, o Salsicha do seu Scooby-Doo... Enfim, Clara era a melhor pessoa que Sofia poderia ter conhecido.

Era a amiga de todas as horas, aquela que carregava a amiga na volta para a casa durante as bebedeiras, que defendia de caras chatos, que ouvia as mágoas, que dava conselhos e poderia ir até o inferno para ajudar.

Clara nunca deixou Sofia na mão e vice-versa. Ela era a imagem que psicóloga formou de sua falecida mãe. Cuidadosa, bem-humorada, sorridente, amorosa, amiga.

Clara era médica em Vitória e nem namorado tinha. Sofia a via como uma grande destruidora de corações que cada fim de semana estava com um.

Oh, e Sofia tinha tanta inveja nesse sentido da amiga. Queria ela ser tão fria, queria ela dar de ombros quando perguntada sobre algum cara do final de semana. Clara nem ligava se eles não soubessem seu nome, Sofia chorava se não ligassem, mas uma complementava a outra.

- Fala, meu bom! – Clara saudou a amiga. – Me diz que você ficou responsável pelo Miguel, vai.

A amiga fez graça no telefone e Sofia soltou aquela risada gostosa que prendeu o dia inteiro. Sentiu vontade de bater na amiga por ser a única fonte de diversão para ela. Por ser a única pessoa que conseguia tirar o ar de sobriedade de seu rosto e fazer o mundo ao seu redor ficar mais leve.

- Que mané Miguel. Aquele homem horroroso! – Se Sofia pudesse ver do outro lado perceberia que sua amiga estaria fazendo um biquinho.

- Ah ele não é horroroso. Ele é um fofo. – A psicóloga nunca questionava o gosto da médica, principalmente quando ela havia passado de primeira no vestibular da faculdade que queria quando parecia ter passado o terceiro ano inteiro sem nem ligar para a escola. Segundo as teorias de Sofia, Clara era um ET disfarçado de gente.

- Só se ele raspar o cabelo. – Ela ouviu um barulho de panelas batendo do outro lado da linha e supôs que a amiga estivesse fazendo alguma coisa na cozinha, e começou a rezar para que quando ela voltasse, em duas semanas, a casa tivesse arrumada.

- Enfim, me conta logo. Quem você está atendendo? Qual é o esquema? - Sofia suspirou e se jogou na cama. Olhou para o teto, só de pensar em sua resposta já sentia aquela coisa daquela tarde voltar em sua cabeça e se sentia muito mal, como uma sensação de náuseas. Respirou fundo e começou a falar.

- Hoje foi João Pedro e Noah. Amanhã é Danilo. E eu só vou ficar duas semanas aqui, depois eles vão voltar para os times deles, é só uma temporada de testes. Se os resultados forem satisfatórios eu volto no ano que vem para a Copa do Mundo.

Tentou focar um pouco mais no tempo que ficaria lá, tentou focar em outras coisas e dar uma respirada profunda antes da amiga começar a falar, sabia que ela ia falar alguma coisa sobre algum deles. E pelo que ela sabia...

- Porra, essa seleção não está precisando de uma médica, não? – Clara havia se especializado em ouvidos e garganta, que acabava sendo uma área que as pessoas precisavam bastante. Fazendo com que Sofia entendesse bem a piadinha. – Putz João Pedro! Ah ele é um anjinho! Meu Deus, ele é tudo isso, mesmo? Ele é bonito ao vivo? – Sofia deu de ombros e virou a cabeça para o travesseiro, com vontade de gritar, mas se o fizesse a amiga repararia que havia algo de muito errado.

- É... Só que, amiga... Eu preciso desabafar. – Clara estava tentando fazer uma panela de brigadeiro do outro lado. Ela estava jogando tudo na panela quando ouviu o tom de voz triste da amiga. Mordeu o lábio inferior e percebeu que a coisa era séria. Sentiu seus músculos retraindo e os olhos se fecharem. Era péssima com conselhos.

-A psicóloga é você, mas pode falar. Eu vou te escutar. – E ela sabia que era só isso que Sofia precisava. Alguém para escutá-la, um ombro amigo.

Ela não precisava de conselhos. Até porque não seguia nenhum.

Mas Sofia era tão sinestésica, tão humana. Gostava tanto do calor das pessoas, da presença de algo vivo que a olhasse nos olhos e dissesse “Tudo bem, isso acontece. Eu estou do seu lado, você nunca estará sozinha.”

- Eu estou querendo largar o João Pedro. Quer dizer, não atendê-lo mais. – Sofia virou a cabeça para o lado e viu a hora no relógio ao lado da cama. Pensou em ir pegar o laptop enquanto falava com a amiga, mas ficou com preguiça de levantar.

- Você pirou? Sério? Olha que chance, amiga! – Sofia revirou os olhos. Tudo era uma chance para Clara.

E se não fosse?

Talvez nunca tivesse ido tão longe em sua vida como médica, como tudo. Se tivesse aceitado que seu terceiro ano havia sido uma bosta e que ela não teria chance de passar no vestibular, talvez nunca tivesse tentado, passado e hoje teria a vida boa que tinha.

Clara arriscava. Sofia temia. Novamente ambas se mostravam completos avessos uma da outra e mesmo assim se completavam.

- Vou ser sincera, ele é muito infantil. E mesmo que eu rompesse essa barreira de psicólogo e cliente eu realmente não conseguiria nada por muito tempo com ele. Sabe aquela coisa infantil e até que assusta um pouco? Ele deu em cima de mim descaradamente sem nem me conhecer direto. Tá certo que ele é aparentemente um amor de pessoa, mas olha só, um cara que tem namorada ficar dando em cima de uma mulher que mal conhece, e fazer umas piadinhas sem graça, sinceramente, eu não aguento.

Quando terminou de falar Sofia sentia que estava até sem ar. O que acabou lhe surpreendeu. Falava pouco sobre seus problemas, reclamava menos ainda e isso a deixava completamente sufocada. E quando colocava tudo para fora sentia como se tivesse soltado algo muito pesado que tivesse em suas costas. Era de se admirar que ela ficasse assustada quando tinha reações do gênero, já que lutava tanto para que seus pacientes tivessem as mesmas reações e se libertassem de seus demônios.

- Ei, calma. Você não acha que tá levando tudo isso super a sério, não? – Clara simplesmente desconstruiu toda uma imagem que Sofia tinha com apenas uma frase. Aquilo que ela já sabia sobre a coisa da diferença e já sabia que esse era o lado da amiga que ela deveria carregar consigo. O lado que não liga para nada.

- Isso é uma coisa tão sua... Eu queria conseguir.

- Oh e quem disse que você não consegue? Eu hein! Vou rasgar esse seu diploma de psicologia se você repetir isso. Faz o seguinte, não quer nada? Ignora, segue em frente. Vê no que vai dar. Apesar de eu achar que você é meio louca.

Ela mordeu o lábio inferior.

-E você não vai desistir de nada não. E já que você tá reclamando vou aparecer aí no sábado pra gente sair.

Sofia riu, não conseguiu resistir as palhaçadas da melhor amiga de novo. Só de pensar que as duas estariam juntas no fim de semana para jogar as mágoas fora, como nos velhos tempos, aquilo parecia acalmá-la.

João Pedro repousou a cabeça na borda da cama.

- Aquela menina, a Sofia, ela é bem legal, o que você achou? – Noah parecia esgotado quando sentou na cama ao lado da de João Pedro, o jogador estava digitando alguma coisa no computador quando olhou para o amigo.

- Ela é muito bonita, mas muito séria. Qual o problema dela? - Noah levantou uma das sobrancelhas indicando que não havia entendido alguma coisa, como se ele tivesse dito algo que não fazia sentido para ele. – Quer dizer, ela não riu de nenhuma das piadinhas, não riu nem nada.

- Que estranho, comigo ela deu umas risadinhas, mas nada alto. – João Pedro arqueou as sobrancelhas, coçou a cabeça, mas deu de ombros.

- Comigo ela só sorriu. Nem risadinha teve. – Noah deu de ombros e deitou na cama, pegando o celular na cabeceira e digitando nervosamente. E olhando para o lado com cautela.

- Você me desculpa, mas eu acho que sou eu que vou dar uns pegas nela. – João Pedro mudou sua expressão no que parecia ser de calma para raiva em questão de segundos. – O que foi, menino? A menina tá solteira, eu também, não tem nada de errado nisso.

João Pedro tinha fama de bom moço, e realmente era um bom moço. Quando ia pro culto, o pastor falava de influencias ruins do demônio. Que fosse. Talvez Sofia fosse realmente uma influência demoníaca, uma mulher que veio na vida dele só para tentá-lo, disfarçada de anjinho que poderia ajudá-lo com seus conflitos mentais.

Olhou para o amigo Noah, que estava tirando uma selfie para postar na internet, já imaginava até a legenda “Dia de treino pesado #maiscansadoqueopentedopedro”, conhecia tão bem o amigo que distraidamente cogitou olhar seu instagram logo depois para ver se era algo assim que ele havia postado, mas de qualquer maneira, foi só respirar fundo que o ar que invadiu suas narinas o fez lembrar-se da psicóloga. Lembrou do seu perfume doce de mais cedo, não era nenhum Angel do Thierry Mugler como o da sua namorada portuguesa, nem beirava a um Victoria’s Secret, estava mais para um desses da Boticário, mas ficava tão bem nela.

Que ele começou a fantasiar como seria fazer com que ela risse para ele.

“Pense no bom moço que você é, mantenha sua cabeça boa. Você é um cara bom, não pode magoar a Sara. Você ama ela, não ama?” João Pedro repetiu o pensamento várias vezes na sua cabeça, mas a dúvida pairava “amo mesmo?”, mas ele tentava se convencer que sim.

Olhou para Noah e sorriu.

- Vai que é tua, menino Noah! Esse gol é seu, moleque! – o amigo riu e piscou para o amigo, grato, mas sem entender a mudança de humor. João Pedro nunca torceu tanto para que um gol de seu time batesse na trave.

Capítulo 3

Na sexta-feira Sofia não tinha quem atender e ficou a toa na Granja. Por algum motivo resolveu fazer o que ela chamava de “pesquisa de campo”, só que naquela tarde tinha um sentido quase que literal. Ela simplesmente sentou na arquibancada e ficou assistindo o treino particular da seleção de camarote.

Os garotos corriam de um lado para o outro seguindo as ordens do treinador, que por um ato inesperado de simpatia acenou para Sofia, que acenou de volta.

Do lado de fora ela conseguia ouvir um grupo grande de pessoas gritando, não num sentido ruim, mas dando força a seleção. Ela ficou feliz, e começou a anotar no papel o que deveria. Anotou num papel o nome dos pacientes e suas ações, como eles demonstravam seus papéis em um meio social. Quem eles eram em seus locais de trabalho e com seus amigos. Era engraçado pensar naquilo, principalmente porque tinha que entregar um resumo de seus quatro pacientes para a CBF no final de seu curto tempo lá. Após anotar os nomes ela começou a caçar os rostos pelo campo. Danilo não foi difícil de ser encontrado. Era um pouco mais focado do que os outros. Pensando sempre em fazer um bom gol, em manter posição e ensaiar suas jogadas. Noah estava conversando com técnico sobre alguma coisa, mas parecia que era uma dúvida, estava nítido em seus olhos e em sua postura como o ambiente ao seu redor tinha influencia em seus pensamentos. Talvez por seu tamanho, ele era bem mais baixo que a maioria dos jogadores, e inclusive Sofia havia apelidado-o secretamente de “chaveirinho” em suas conversas particulares com Clara.

João Pedro estava fazendo palhaçada com um grupo de jogadores. Não foi difícil encontrá-lo, até pelo cabelo e pela altura, antes mesmo que pudesse pensar em alguma coisa para que mais tarde pudesse transformar em um texto para seu caderninho, os olhos dele se encontraram com os dela. O olhar dele tinha uma coisa que mexia profundamente com Sofia, e por mais que isso soasse completamente clichê, era uma sensação que ela já conhecia e muito comum nas pessoas. Ela sentia um arrepio tomar conta de todo seu corpo, um gelado em seu interior e aquela sensação psíquica de desconforto. Rapidamente ela buscou algo para se distrair, olhou em seu caderno, mas já era tarde demais, o jogador estava fazendo uma brincadeira que era direcionada a ela.

Ele foi em direção a bola, que tudo indicava que seria chutada por Marcelo, antes de ele pedir licença e apontar para ela na arquibancada. João Pedro fez sinal que era para Sofia manter seus olhos atentos no que ele estava prestes a fazer e ela não conseguiu nem piscar, ficou um pouco assustada e logo viu que em seguida o zagueiro chutou a bola e acertou em cheio na rede. Se aquilo fosse um pênalti num jogo de verdade ele teria feito um belo gol. E como se aquela fosse a final de alguma competição ele saiu correndo pelo gramado fazendo uma comemoração muito boba e com o braço encostado na cabeça, de forma que seu pulso ficasse a mostra ele apontou para Sofia e para o pulso, imitando uma comemoração muito comum de alguns jogadores, como se ele tivesse uma homenagem para ela tatuada naquela região.

Sofia ficou observando a cena, tentando entender o que João Pedro quis dizer com aquilo e revirou os olhos em seguida. Poucos segundos depois o jogador foi parado pelo Thor, um jogador muito famoso com nome de super-heroi, e levado para o grupo com outros jogadores, onde provavelmente eles perguntariam “que merda foi essa?”.

Por um momento a psicóloga quase se esqueceu do último nome que faltava em sua lista. Saiu com seus olhos pelo campo procurando por Mateus quando ouviu um barulho alto, como se algo houvesse caído em seu lado direito.

Ela deu um salto, num susto inegável e viu que havia encontrado quem procurava.

- Fala, doutora! – O garoto cumprimentou e ela acenou com a cabeça positivamente.

- E aí, Mateus! Só pra constar, eu não sou médica, nem tenho doutorado para ser chamada de doutora, mas se preferir... me faz até me sentir importante. – Sorriu timidamente e o garoto olhou pro campo antes de voltar o olhar para ela.

- Vai fazer alguma coisa no fim de semana? – Sofia achou um pouco suspeita a pergunta, chegou a levantar uma sobrancelha em dúvida, mas deu de ombros enquanto se encolhia na arquibancada.

- Minha amiga vai vir me ver. Eu estava justamente procurando um lugar pra sair com ela. – Mateus sorriu, ela deu de ombros, ainda achou a pergunta bem duvidosa, mas estava tentando seguir o conselho da amiga de não ligar para as coisas e simplesmente deixar rolar.

- Tem um bar maneiro no centro, se quiser eu te passo o endereço. Faz o seguinte, me dá seu número que eu te mando mensagem com tudo direitinho. – Ela acenou com a cabeça enquanto pegava o celular no bolso.

- Qual o seu? Eu te mando um oi pra você salvar o número. Aí você me passa. – Ele concordou e disse os números enquanto a garota digitava e acenava com a cabeça, deixando claro que entendia. Mandou um “oi” pelo WhatsApp e voltou a encarar o rapaz.

- Eu vejo quando chegar no vestiário. – Mateus observou enquanto Sofia pareceu olhar fixamente para um ponto no céu antes de voltar seu olhar para o jogador.

- Aliás, por que a pergunta? – Ela deu um sorrisinho bobo e ergueu uma das sobrancelhas. Era uma expressão que ela sempre usava para convencer as pessoas de contar para ela algo que ela queria saber.

- Um amigo meu quer saber. – Ela ergueu ainda mais as sobrancelhas e deu uma risada.

- Que amigo? – Ele mordeu o lábio inferior, se levantou e deu de ombros enquanto ia embora e dizia:

- Um desses meus amigos aí ué. – E aquela resposta mal dada pareceu consumi-la. Geralmente o “amigo não identificado” era algo que poderia significar: “sou eu, mas não quero admitir”, ou parecia muito mais uma das brincadeirinhas de João Pedro.

Sofia olhou pro campo na esperança de ver algo que pudesse incriminá-lo, mas o dono da camisa número 4, o João Pedro, já tinha ido para o vestiário.

Clara pagou seu próprio quarto, mas não saiu nem um segundo do de Sofia naquele sábado.

- Eu disse que viria você não acreditou. Já sabe pra onde a gente vai? – A médica estava animada colocando uma saia na frente de seu corpo, dando três pulinhos e analisando seu visual.

- O Mateus me indicou um bar legal que fica no centro. Eu vou pra lá. Não conheço nada daqui. – Clara veio andando em direção a amiga e jogou a camiseta de paetês no rosto dela.

- Não tem a chance de você encontrar certa pessoa lá não? – Sofia queria dizer a verdade, mas andou pensando sobre o assunto e pensando que talvez aquilo pudesse ser coisa do Mateus mesmo. Não tinha mal nenhum se ele tivesse interessado nela, ou tinha?

- Até onde eu sei João Pedro não bebe. – Clara olhou para ela incrédula para Sofia e começou a rir. Ela já imaginava que a amiga poderia vir a ter essa reação. Era de se esperar. Revirou os olhos. Parecia que seu globo ocular já estava cansado de tanto repetir aquele movimento. E tudo por causa da mesma pessoa.

- Aham, até parece. Esses jogadores de futebol são tudo uma raça só. Não muda. Por acaso ele te disse que não bebe ou você ouviu falar? – Sofia deu um suspiro pesado. Outra coisa que ela deveria acrescentar em seu caderninho sobre sua melhor amiga é o fato de ela adorar fazer a rainha do mundo, a que estava sempre certa, era um defeito, mas era algo completamente aceitável, principalmente quando a psicóloga buscava um histórico ou algo que explicasse determinados comportamentos.

- Ele me disse. – O tom saiu grosso, Clara já imaginava aquela reação. Sofia andava impaciente o que era de se esperar.

O assunto começou a mudar a partir daí, a médica resolveu respeitar a psicóloga e vice-versa. Clara sabia quando deveria parar de fazer as coisas que fazia geralmente. Ela sabia quando deveria parar com as brincadeiras e respeitar Sofia, o que era completamente invejável vendo a personalidade da amiga.

- Você disse que um amigo seu lá da CBF iria fazer companhia pra gente. – Clara observou enquanto entravam no táxi. Sofia concordou com a cabeça. Havia feito um amigo. Um dos psicólogos, o cara era um amor total, era gay, mas não deixava isso transparecer na frente dos jogadores até porque poderia deixar alguns deles desconfortáveis.

E foi numa dessas conversas entre um atendimento e outro que Sofia conheceu Lucas, que por acaso era o nome dele. Quando ele viu a saia que a psicóloga usava não conseguiu deixar de dizer que ela estava “di-vi-na”. Era engraçado para ela pensar naquilo, mas fez uma amizade instantânea com o homem. E como, assim como ela, ele estava sozinho em Teresópolis, o convite foi feito.

- É, mas antes que a senhorita fique toda animadinha saiba que ele é gay. – A amiga fez um biquinho e virou a cabeça para o lado, simulando uma tristeza com a notícia.

- É bonito? – Sofia riu, e fez sinal que “mais ou menos”. – Porque se for bonito eu dou meu jeito.

Ela não conseguia prender a risada com a amiga. “Dou meu jeito”, ela sempre dizia isso para as amigas e para o cara que ela estava interessada, que no caso não poderia ter, ela inventava uma piadinha ou uma cantada e em quase 90% dos casos não conseguia o que queria.

- Imagina um cara gay. Desses que soltam a franga, sabe? Esse é o Lucas. Então, nem vem com essa de “finja que eu sou o Zac Efron” que ele não vai se convencer e acho que ele também não é esse seu tipo de cara.

- De qualquer maneira, os gays me amam. – Clara acrescentou antes das duas entrarem no bar e respirar fundo.

Era um lugar bonito, bem decorado, bem arrumado e parecia que tinha um bom serviço também. No fundo tocava aquele tipo de hip-hop bem calminho, quase que romântico, sexy e que preenchia o ambiente. Lucas esperava pelas meninas em uma mesa próximo ao DJ.

- Olha a diva da CBF chegando, gente. Abram alas para ela! – Lucas se levantou para receber Sofia se levantando, estendendo a mão para beijar a mão dela e fazer com que a garota desse uma voltinha. – E como toda rainha anda sempre bem acompanhada, essa veio com uma bela amiga a tira colo. Você é a princesa da onde, querida?

Clara já imaginava como seriam as piadinhas com Sofia de quanto ele parecia ter ouvido Lady Gaga ou Beyoncé demais.

- Sou de Cachoeiro de Itapemirim, mas to reinando em Vitória. – Ela piscou enquanto o psicólogo fazia a mesma brincadeirinha com ela. Beijar a mão, girar e tudo mais.

- Pode ficar tranquila que essa capivara baiana aqui já falou muito bem de você pra mim. – Clara não pode deixar de dar uma risada sonora com o apelido que ele havia dado para sua melhor amiga. Sofia riu com vontade, pela primeira vez naquela semana não fazia aquilo só por causa da amiga.

- É você que atende o Miguel? – “Putz, eu sabia que ela ia perguntar isso.” Foi tudo o que Sofia pensou enquanto começava a rir novamente. Uma garçonete se aproximou e ambas pediram suas bebidas, Sofia sempre pedia um drink, Clara sempre pedia cerveja. E pra acompanhar a clássica porção de batata frita, porque beber de barriga vazia nunca dava certo para aquelas duas.

- Sou eu sim. – Clara tapou a boca depois de soltar o que viria a ser um início de um grito. – Ih, amorzinho, uma palavra pra você: desiste.

Lucas piscou um olho para a garota. Sofia riu, aquela cena estava ficando hilária. Ela sabia que aquela ideia maluca de Clara não ia dar certo.

- Eu andei pesquisando sobre ele, é você e mais milhares de “miguelzetes”, isso sem contar aquela atriz lá que ele namora. – Clara cruzou os braços na frente do peito.

- Esperança não falta, né gente? Além do mais, vai lá que ele aparece aqui hoje. Foto pode né? – O celular de Sofia começou a tremer na bolsa, de primeira ela achou que fosse uma ligação, mas eram mensagens. Duas eram insignificantes, de grupos de conversa que ela deveria ter excluído há muito tempo, mas o que sobrou foi a mensagem de um número desconhecido com um código de outro país. Assim que o celular se conectou com o wi-fi do bar ela conseguiu ver a imagem de quem estava enviando aquelas mensagens. Noah.

Ela achou estranho, mas era uma mensagem dele avisando que estava do lado do balcão olhando para ela.

Sofia tentou se conectar a mesa e viu que Lucas e Clara estavam completamente animados com a história “babados sobre o Miguel”, era visível que Lucas não falava nada além do que se lia nos tablóides. Ele não era louco, era um cara respeitado no Rio de Janeiro, um dos melhores, por isso atendia logo “o jogador estrela”. Como os dois pareciam interessados demais numa fofoca ela apenas pediu licença para ir ao banheiro e foi em direção pra onde Noah parecia estar.

Ela não sabia do interesse do garoto por ela, mas descobriu no exato momento que ele olhou para ela. E soube para quem o Mateus estava bancando o X-9, mas ela começou a considerar dar um mole para o menino, principalmente porque via nele tudo aquilo que não via em João Pedro, isso poderia ser algo bom, vendo que os dois eram opostos. Noah era mais tímido, mais fofo. João Pedro era fofo, mas não fazia o tipo menino que se tem vontade de ficar abraçada o tempo inteiro.

- Boa noite, Sofia. É bom te encontrar de repente por aqui. – Ele disse com um sorrisinho bobo no rosto. Ela mordeu o lábio inferior, por algum motivo ela sentiu que aquilo não era lá muito certo.

- Como é que você soube? Aliás, como você conseguiu meu número? – Noah deu uma risadinha e deu de ombros.

- Mateus. – Ela revirou os olhos e deu uma risadinha, não tinha como.

- Ah! Pensei que ele estava... – O garoto levantou uma de suas sobrancelhas fazendo uma expressão que era típica da menina. Ela estranhou, mas achou legal ter uma expressão secreta de desafio em comum com ele.

O celular vibrou de novo. Ela pegou o aparelho para desligar quando viu que era outro número desconhecido. “Quem mais falta?” ela perguntou a si mesma por puro costume, mas sabia que já tinha a resposta. Era João Pedro. E ele estava numa mesa com outros cinco jogadores.

“Não sabia que você gostava de caras baixinhos. Acho que eu não tenho chance :(“

Ela estranhou a pergunta e olhou para trás, João Pedro estava rindo com os amigos e fazendo uma palhaçada supostamente imitando o amigo, Noah enquanto ele conversava com a psicóloga.

- Por que a gente não senta ali com seus amiguinhos? – Sofia disse enquanto olhava fixamente para mesa, mas foi só voltar o olhar o Noah que notou que ele estava rindo. – Espera aí! Ele tá te zoando! – A psicóloga era o tipo de pessoa que não levava desaforo para casa, mas o menino parecia achar tanta graça, que ela ficou confusa.

- É o João Pedro, cara... Quer sentar lá? Vamos! – Ela ficou sem reação.

- Meus amigos... – O garoto deu de ombros, ela não conseguia terminar a frase, estava sem palavras.

- Pode chamar eles também. – Sofia deu de ombros, não se sentia bem, sentiu um enjoo tomar conta de seu estômago, mas não poderia negar o convite. Fez sinal para os amigos, que a essa altura estavam olhando para o casal e se entreolhando indicando que estavam se perguntando sobre que estava acontecendo .

- Ah, pra mim ok.

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