— Uma curiosidade, Anya. — Disse Joe enquanto preparava meu café atrás do balcão.
Para não correr o risco de repetir o atraso de ontem, cheguei ainda mais cedo que o comum, mesmo lutando contra uma dor de cabeça terrível graças a última taça de vinho. Neste momento, éramos apenas Joe e eu na cafeteria enquanto os outros funcionários batiam cartão. Ele é quem abria então por isso se tornou a primeira pessoa com quem tenho contato dentro da empresa. Assim como eu, Joe não é funcionário direto da Archer, portanto podíamos falar mal da empresa sem correr o risco de ser pego por algum supervisor ou responsável.
Bem, não tinha muito o que falar, já que a remuneração é ótima e os benefícios são vários. — Minha saúde bucal que o diga. — Então, nosso único assunto de manhã era falar mal de Cohen Archer.
— Pode falar.
— Ele ressarce os cafés que caem no seu salário? — Perguntou, passando meu crachá no leitor de comandas. Meu cérebro não estava a todo vapor, por isso demorei um pouco para raciocinar a sua pergunta, e para obter uma resposta, eu também precisava de uma.
— Joe, depois de todo esse tempo, você me diz agora que passa os dois cafés na minha comanda, sabendo que um deles é para o dono desse prédio inteiro?! — O garoto sorriu, mas não de um jeito animado.
— Eu preciso lançar de alguma forma, e você nunca me deu outra comanda senão a sua. — Explicou-se receoso. Outros longos segundos antecederam meus cálculos mentais de quanta grana eu perdia para alguém que pode ter uma cafeteria inteira por dia.
— Ele nunca me deu um crachá, ele só me deu uma ordem, e eu achei que ser o dono era suficiente pra você descontar em sei lá... no aluguel.
— Ele pode ser o dono, mas eu não. — Gargalhou depois de me empurrar dois cafés e meu crachá de volta.
— Eu vou pedir o ressarcimento. Joe são quase dois anos bancando o café diário de um cara que ainda precisa de uma colher do meu café, para ter o seu adoçado. — Mais uma vez ele sorriu, riscando algo que eu sabia ser seu número de telefone na luva de copo, antes de encaixa-la.
— Veja pelo lado bom, você fez sem querer, uma economia.
— Tem razão. Se ele me devolver com juros e correção monetária eu ainda posso pagar pela minha formatura. — Acrescentei com falso entusiasmo.
— Você não vai pedir de volta né? — Neguei com também um sorriso tímido.
— Preciso desse trabalho. É bem capaz dele dizer, tudo bem, aqui está seu ressarcimento e suas prestações de contas. — Tentei imitar seu jeito presunçoso de dizer que não precisava das pessoas.
— Até parece. — Desdenhou, apoiando seus cotovelos no balcão entre nós. — O cara lá de cima não vive mais sem você.
— Com o dinheiro dele, ele paga dez secretárias simultâneas se quiser. Mas, ele ainda não paga pelo meu café. Joe você precisa prometer que jamais vai vender a minha mistura exclusiva pra outra pessoa. Esse vai ser o castigo do Cohen por tomar café as minhas custas.
— Eu prometo. — Garantiu com a mesma entonação dramatizada que a minha. — Mas, como você disse, com grana dele, ele pode contratar todos os baristas de Seattle até acertarem no gosto. — Relaxei os ombros, contraindo os lábios com lamentação.
— Felicidade de pobre dura pouco, eu sei. Está na minha hora. Até mais tarde Joe. — Me despedi descendo da banqueta sob o olhar atento do barista.
— Até mais tarde... Anya.
Não precisei correr dessa vez, estava com tempo livre, portanto meu caminho até o andar presidencial foi tranquilo, ou, teria sido se eu não tivesse dividido elevador com umas secretárias pomposas dos andares inferiores que invadiram o mesmo em uma conversa nada discreta. Parecia ser um trio sob encomenda, sendo uma ruiva, uma morena e uma loira.
— A Andrea já deu pro Zack, eu já dei pro Bill, você é a única que ainda não deu pro seu chefe Hannah. — Uma delas disse à garota de cabelos castanhos.
As três se olhavam e arrumavam alguma parte do corpo no espelho. Me empertiguei discretamente para o lado, me encolhendo mais ao canto do elevador enquanto elas conversavam como se eu nem estivesse ali.
— Fazem apenas duas semanas que estou com o Winter, não vou arriscar meu emprego. Além do mais, ele nem me olhou diferente ainda. — Protestou a garota
Eu sabia quem eram as três. Mesmo que meu contato com os funcionários seja um pouco limitado, por falta de tempo e disposição, Andrea, Hannah e Ruby são conhecidas por serem as ratinhas dessa empresa. As que tudo sabem, e as que tudo veem. E isso acontecia pela troca constante de setores e departamentos.
— Ele não vai olhar diferente pro seu rostinho, linda, ele vai olhar diferente pra sua bunda! — Estreitei meus olhos franzindo a testa, expulsando o desejo repentino, quase incontrolável, de olhar para minha própria bunda.
— Se olha eu não sei, estou de costas, e olhar para bunda é uma obrigação universal dos homens, mas você sabe que existe interesse somente quando eles olham para o seu decote.
Inconscientemente olhei para o meu decote inexistente, e sem querer funguei com deboche, atraindo olhares do trio.
— Está com alergia docinho? — Perguntou Ruby, a mais alta entre elas.
— Ao machismo enraizado em mulheres? Desde sempre. — Sintetizei, arrancando uma risadinha unissono delas.
— Isso não é machismo gata, é a realidade. — Rebateu a ruiva, Andrea.
— A sua realidade. Meu chefe não olha para minha bunda, tampouco para o meu decote. — Dessa vez elas reprimiram uma risada.
— Deve ser porque não tem muito o que olhar. — Disse a morena, Hannah, me olhando dos pés a cabeça. Encolhi-me e apertei a bolsa debaixo do braço.
— Não tem a ver com minha aparência, tem a ver com integridade. — Defendi.
— Não estou falando da sua aparência gata borralheira, mas o jeito como você não ressalta ela. — Soltei uma risada nasal forçada.
— Será que é por que estou em um ambiente de trabalho?! — Sugeri o óbvio.
— Escuta, leva isso como um conselho para vida tá? — Disse Hannah.
— Assim como nós, você não vai ficar nessa empresa a vida toda. Se quisesse crescer de cargo estaria aqui como estagiária, não como secretária. Sabe qual vai ser a sua chance de transar com alguém como o seu chefe? Nenhuma, sua única oportunidade de ter a melhor foda da sua vida está dentro daquela sala, e você desperdiça isso com esse monte de pano que esconde o que você tem ai embaixo. Não tenha medo de perder o emprego, quando ele pensar em te demitir é só oferecer umas coisinhas. Me diz ai gracinha, pra quem você trabalha?
Nesse momento, a porta do elevador se abriu no andar presidencial, e por algum motivo, as expressões das três mulheres cederam. Horrorizada, sai do elevador abraçando ainda mais a bolsa contra meu corpo, sabendo que isso bastava como resposta.
É claro que eu não guardei uma só palavra do que elas me disseram. Muito embora aquele discurso seja coincidentemente parecido com o conceito da Holly de aproveitar a vida antes de realmente começa-la. Conselhos que com toda certeza não serviam pra mim, nem se aplicavam a minha realidade. Meu chefe ser um pedaço de mal caminho, não diminui meu senso de juízo e integridade. Eu jamais arriscaria meu emprego por uma transa, principalmente porque conheço Cohen em seu modo CEO ativo, sei o que ele pode fazer com quem arrisca manchar a sua imagem, é inclusive o motivo de demissão da última funcionária.
Os rumores são de que a coitada hoje trabalha em uma lanchonete, pois teve a ficha manchada no mercado de trabalho corporativo. É por esses e outros motivos que eu mantenho minha admiração por Cohen Archer no mais profundo devaneio, sonhos eróticos que eu sequer tinha controle, pois, estando em sã consciência, não há nada mais importante do que me formar na universidade para poder voltar para minha cidade.
Antes mesmo de entrar na sala do Cohen, senti meu celular vibrar em uma mensagem da Holly, dizendo estar eufórica com a chegada de Stella Valêncio no ateliê onde trabalha. Seria a grande chance da minha amiga de mostrar o seu trabalho. Respondi que estava na torcida e, como sempre, dei duas batidinhas na porta do Cohen antes de entrar. Avistei-o de relance no mesmo lugar de sempre, em seu contraste com a vidraça atrás da sua cadeira.
O cumprimentei de longe, mas não percebi que continuei na mira do seu olhar intrigado enquanto eu adoçava o seu café, com uma colher do meu misturado, que logo após dei uma grande golada, pois uma dor de cabeça irritante estava começando a latejar, indicando uma leve ressaca.
Com meu copo em uma mão, e a xícara do Cohen na outra, caminhei até sua mesa fitando aquela bagunça. Deixei a xícara sobre a superfície a sua frente e comecei a recolher os papeis bagunçados na mesma como todos os dias, me perguntado quanto tempo antes de mim ele chegava para conseguir fazer essa bagunça, dado que antes de ir embora, logo depois que ele também vai, eu confiro e deixo tudo em ordem.
Não percebi que no meio dos meus cálculos mentais, Cohen pescou meu copo para ler a inscrição na luva, até que sua voz chegou em mim com um tom engraçado.
— Dessa vez ele acertou o copo. — Fitei rapidamente meu café entre seus dedos e o peguei, arrancando a luva de copo com o número do Joe e o jogando no lixo junto com as bolinhas de papeis que juntei encima da mesa.
— Ele erra de propósito. Já disse, dá um emprego para o pobre coitado. — Ele riu empilhando mais uma pasta na pilha que eu deveria levar para minha mesa.
— Joe, Joe, Joe... Não lembro desse nome, mas se ele está todos os dias na cafeteria significa que ele já é um contratado. Devia ligar pra ele, me parece bem empenhado. — Parei de manusear as pastas para observa-lo de escanteio com a testa franzida.
Não me lembro de quando nossa relação patrão e funcionária ganhou uma nota subjacente de amizade para ele opinar na minha vida pessoal dessa forma. Quando eu digo que estabeleci limites, estou dizendo que Cohen também só conhece uma única versão da Anya, a profissional, ainda que vez ou outra nos cutucássemos com piadinhas de trabalho, ironias e sarcasmo, nunca ultrapassamos esses limites.
— Você tem uma reunião em dez minutos na sala de conferência com a equipe de marketing e organizadores da festa. — Mudei descaradamente de assunto.
Uma linha apareceu no canto da sua boca, quando ele a repuxou em um sorriso de lado.
— Bem lembrado. Você vai né? Por que não chama o Joe pra ir com você? — Eu finalmente parei o que estava fazendo para encara-lo. Mais do que meter o bedelho, Cohen parecia querer desafiar a personagem que eu sustentava todos os dias diante dele, a versão da Anya que jamais falaria de assuntos pessoais.
Não é a primeira vez que ele faz isso, ele parecia testar meu profissionalismo quebrando a barreira da amizade que não deveria existir entre nós, me deixando sempre insegura acerca da sua confiança, e consequentemente, minha estabilidade nessa vaga, algo que eu prezava com minha própria vida.
— Eu não vou, acho que isso responde as duas perguntas. — Respondi apenas, notando seu meio sorriso sumir dando lugar a um vinco intrigado entre as sobrancelhas.
— Pensei ter sido claro quando disse que queria presente todos os funcionários da Archer. Acontece que eu não sou funcionária da Archer, sou agenciada. E não se preocupe que seja lá qual for seu lançamento, eu vou estudar sobre. — Eu fiz isso ano passado.
— Tudo bem. — disse depois de longos segundos. — Não vou perguntar porquê e correr o risco de ouvir que sua vida pessoal não me diz respeito.
— Eu jamais lhe daria uma resposta dessas, tenho amor ao meu emprego. — Brinquei.
— Então por que não vai ao evento de lançamento? — Desafiou-me sério, esperando mais do que alguém como ele geralmente esperava para uma resposta.
— Tenho prova na faculdade. — Menti, voltando ao que eu estava fazendo, chutando minha curiosidade por saber se acreditou ou não para longe.
Cohen escondeu seu semblante com a xícara, e levantou-se indo deixar a mesma já vazia sobre o bar entre algumas garrafas de Whisky, onde todos os dias a faxineira do andar presidencial sabia que haveria uma xícara. Terminei de pegar as pastas e deixei sua sala abraçando as mesmas. Larguei tudo sobre minha mesa e me sentei pronta para começar meu dia, se não fosse pelo Cohen versão CEO saindo daquela sala.
— Você vem comigo, Anya. — Anunciou passando por mim.
— Aonde? — Perguntei ainda sentada.
— A reunião, sinto muito se está de mau humor, mas preciso de você naquela sala, então vamos. — Chamou fechando o blazer. Bufei discretamente e pesquei minha agenda, táblet e caneta na mesa, acompanhando Cohen, prestes a atravessar sua própria empresa.
Odiava quando tinha que acompanha-lo até uma dessas salas, geralmente ele me avisa previamente que necessitaria da minha presença, eu já o aguardava na mesma, mas como não tenho bola de cristal aqui estou eu, andando com a cara colada no táblet fazendo anotações que ele me pedia enquanto pela minha visão panorâmica eu notava os olhares sobre Cohen. Alguns cumprimentos e até pessoas desviando do seu caminho para não ficar no dele.
Eu costumava dizer que esse era o ápice da minha rotina humilhante, pois com Cohen ao meu lado, eu me tornava uma insignificante e invisível assistente.
Estar dentro de uma sala repleta de subordinados dele só piorava, pois, ele literalmente só me trazia para ser sua anotação ambulante. E nessa tarefa não dava para selecionar o que era ou não importante para ele, portanto eu precisava anotar tudo o que era mencionado e somente depois, quando precisasse de alguma dessas informações é que eu deveria estar preparada. Até tentei ser mais seletiva uma época, mas o que parecia ser importante para mim, não era para ele, então decidi que era mais fácil ter tudo do que ter metade.
O assunto resumiu-se no baile de máscaras que seria em preto e cinza devido ao lançamento de algum projeto que já estava sendo testado por algumas empresas, e a tabela de cores é realmente um conceito fúnebre de enterrar os antigos para o nascimento do novo. Uma era digital mais rápida, eficiente, interativa e blá, blá, blá.
Isso podia ser interessante aos outros, mas para mim parecia ser sempre a mesma coisa com um 2.0 ou upgrade na frente.
No fim da tarde, quando Cohen já estava de volta no silêncio da sua sala me deixando sozinha com uma pilha de pastas acumuladas, pensei que teria um minuto de paz, mas um trio de mulheres entraram no hall a minha procura.
— Você é a Anya Amstrong, não é? — Perguntou a ruiva apoiando-se no balcão que limitava o acesso a minha mesa. As três estavam com suas expressões exasperadas.
— Sim. — Ponderei em confirmar.
— Ah, minha nossa. Sabe, aquilo que você ouviu no elevador, amiga, esqueça completamente. — Pediu a ruiva, com uma entonação conselheira. — Olha, não é que você não tenha requisitos para ser uma de nós, mas o problema aqui é o seu chefe, que vem a ser o chefe de todas nós. Entende o que eu digo?
A medida que eu me lembrava, sentia meu rosto esquentar, enquanto elas tratavam daquilo com uma importância veemente.
— Aqueles conselhos são válidos para qualquer pessoa, menos Cohen Archer. — Completou a loira. — A última pobre coitada que tentou usa-los, acabou demitida e seu nome foi para um banco de más recomendações.
— Eu não considerei...
— Escuta. — Me interrompeu a morena. — Algumas pessoas dizem que ele é gay.
Meu queixo despencou a medida que aquela conversa ficava cada vez mais estranha. Meus olhos arregalados, e o estarrecimento por minha parte era evidente.
— Mas a verdade é que nós sabemos que ele só não se envolve com a ralé. E com ralé eu quero dizer, nós... ratinhas secretárias, acredite, nós somos os olhos e ouvidos da Archer, então por favor, continue sendo exatamente quem você é, porque os nossos conselhos não são válidos para quem só come magrelas da alta sociedade.
— O-olha essa conversa está bem inapropriada. — Me desesperei, e até me atrapalhei com o porta canetas que nem vi ter esbarrado. — A-a-a vida pessoal do meu chefe não me diz respeito, e esses conselhos, se é que posso chamar isso de conselho, não servem pra mim ainda que ele não fosse o Cohen.
— Claro que servem! Nos vemos na festa Anya, lá sim nós vamos encontrar alguém pra você.
— Eu não... — Tentei dizer que não ia, mas elas não me deram oportunidade. Deram meia volta conversando entre si como se eu fosse uma experiência a ser testada e comprovada. — Espero que publicidade não tenha tanta gente bizarra.
Levei outro susto quando a porta do Cohen se abriu. Seus olhos caíram sobre mim com aversão, não sabia exatamente o motivo, portando não ousei perguntar, o que não precisou pois ele logo disse:
— Ligou pro cara do acústico? — Perguntou, dando a entender que ele tinha ouvido absolutamente tudo.
— Eu vou ligar. — Garanti sem reação alguma. De uma coisa eu sabia, não tentaria explicar!
A lua já despontava no céu escuro, enquanto uma garoa fina caia. Eu estava de frente para a enorme porta giratória do paredão de vidraça fumê que compunha a fachada da Archer, protegida no canto da extensão de lona preta que protegia o manobrista dos carros, mas ainda assim fui golpeada por uma rajada de vento que trouxe a garoa quase vaporizada e embaçou meus óculos. Quando o limpei e coloquei novamente, percebi que a luz não era da lua, e sim do poste.
Ri sozinha me dando conta disso, não percebendo que bem ao meu lado passou Cohen Archer, direto para o seu carro que o manobrista estava estacionando. Quando ele finalmente pegou suas chaves, prestes a entrar no carro, seus olhos me encontraram, e pude jurar que ele diria alguma coisa se uma buzina familiar não tivesse me assustado. Era Holly, seu carro estava há alguns metros de distancia e uma corridinha foi necessária para chegar até ela e entrar com pressa no seu automóvel preto.
— O Ateliê está uma loucura! — Se explicou, me pegando em frente ao prédio da empresa. Era caminho para ela vir me buscar no fim do seu expediente e assim irmos juntas para a faculdade. — Desculpa pelo atraso, trouxe sua janta.
Apontou para o embrulho de um restaurante mexicano, e pelo cheiro eu presumia que fosse taco.
— Tudo bem, acabei de descer, pelo mesmo motivo. Meu trabalho dobrou igual ao ano passado agora que estamos na semana do evento. — Murmurei saboreando a primeira mordida. E quando me dei conta, Holly me olhava de escanteio reprimindo um sorriso catatônico. — O que foi?
— O que foi que eu tenho uma novidade, e não vou aguentar você terminar de comer pra contar então segura esse taco na boca, porque sua melhor amiga recebeu uma oferta de produção da Stella Valencio.
Não cuspir tudo foi quase uma missão, e a surpresa boa me fez esquecer como engolia.
— Holly! — Gritei de boca cheia. — Isso é incrível! — E eu sabia o quando minha amiga estava esperando por essa oportunidade.
— Eu sei! — Concordou com um gritinho estridente. Se não estivéssemos as duas presas por cintos de segurança, uma com a atenção na estrada e a outra em não morrer engasgada, estaríamos agora gritando, pulando e comemorando.
— Como aconteceu? — Inquiri após engolir.
— Bem, ela passou no ateliê mais cedo, e acabou encontrando meus croquis. Ela se encantou por um modelo e quer vê-lo pronto em alguns dias, disse que tinha uma proposta de lançamento e se seu feeling não falhar, aquele modelo seria perfeito. — Despejou entusiasmada.
— Proposta de lançamento?
— Sim, e pasme, tem a ver com o baile de máscaras preto e cinza da Archer. — Disse, ganhando totalmente minha atenção. — Se chama projeto Cinderella. Basicamente, ela quer consignar o modelo a uma pessoa oculta, visando enaltecer somente o vestido e a figura de uma mulher sexy dentro dele. O conceito baile de máscaras era, na verdade, o que ela estava esperando para o seu próximo lançamento de passarela, modelos sexys que fazem uma mulher se sentir desejada e ser dentro dele quem ela quiser, como se sua identidade não importasse. E é nesse momento que eu conto que preciso da sua ajuda.
Prestei atenção enquanto devorava um taco que seria então minha última refeição do dia.
— Quer que eu consiga alguém que aceite o consignado pra você? — Perguntei de boca cheia. O que não era muito difícil já que eu tenho a lista de contato inteiro da Archer no meu computador da empresa.
— Na verdade, eu disse a Stella que tinha a pessoa perfeita. — Pontuou. — Digamos que todos os convidados vão estar mascarados, então algumas identidades vão ficar ocultas, a menos é claro, por celebridades inconfundíveis. Ela quer uma pessoa anônima, convidada porém, que ninguém cogite sua identidade por baixo do vestido. — Ainda com a boca cheia, comecei a listar umas dezenas de funcionárias da Archer que topariam fazer isso. — E essa pessoa é você.
Me engasguei com pedaços de tomate que desceram pela minha garganta sem minha autorização. E foi após longas tossidas nada femininas que me recuperei com os olhos cheio de lagrimas.
— Eu usar aquele vestido? Nunca, Holly, essas coisas não são pra mim não. — Vi os ombros da minha melhor amiga cederem.
— Anya, por favor, você é a única pessoa que conheço que toparia fazer isso por mim, e quando a Stella explicou o que queria eu imediatamente pensei em você.
— É loucura, amiga, eu disse que não queria ir. Aquele lugar não é pra mim, só vai ter gente chique e eu... Sou só uma secretária.
— Não é loucura quando absolutamente todos os funcionários, fornecedores, parceiros e prestadores de serviço da Archer foram convidados. E é justamente por isso que você é tão perfeita, ninguém nem espera mais que você apareça, tem alguém mais improvável e oculta que você? Eu duvido.
— Olha, eu prometo pensar tá legal? Mas, por favor procura outra pessoa porque se você tiver um plano b, eu não vou me importar. — Ela me olhou com um sorriso sem graça.
— Eu garanti a Stella que conseguiria te convencer.
Soprei uma risada desacreditada e anui verdadeiramente compreensiva. Não era falta de vontade, eu faria qualquer coisa para ajudar minha amiga que já me ajudou inúmeras vezes, inclusive me chamando para morar com ela quando me viu desempregada há dois anos atrás. Eu devia muito a Holly, e mesmo que não devesse, ela merece, somente por isso prometi pensar.
É claro que nesse meio tempo eu procuraria outra pessoa para ir no meu lugar, mas quando me vi dentro do vestido prata, dias depois para seus ajustes, foi inevitável não me sentir tentada, principalmente com uma mascara de dominó cobrindo meus olhos e metade da face em uma renda misteriosa.
Pela primeira vez na vida, me senti outra pessoa, ainda que o vestido não estivesse pronto, eu podia admirar seu tecido cintilante e o caimento perfeito que valorizava minhas curvas. Aceitei provar para ajudar a Holly em uma sexta-feira movimentada na hora do meu almoço, o único horário que ela teria para finalizar o vestido digno de um conto de fadas erótico, pois, marcando meus seios em um caimento leve e as costas nuas, eu me sentia sexy.
— Holly, é lindo! — Minha voz saiu macia, o mundo dentro dele parecia girar mais lentamente, como se ele pedisse para ser apreciado. O toque do tecido não parecia ser digno da minha pele, ele me acariciava e o movimento era tão sublime, que eu me sentia excitada. A iluminação ajudava, pois ela quis simular o salão de festas que eu sabia que estaria em baixa iluminação com uma fumaça predominante deixando o ambiente ainda mais obscuro e atraente.
— A Stella quer ver. — Estalei meus olhos observando minha amiga com o semblante apreensivo. Ela roía uma unha enquanto uma fita métrica circundava seu pescoço e uma pulseira de alfinetes abraçava seu pulso.
— Stella Valencio? Ela está aqui? — Perguntei boquiaberta.
— É a chance da minha vida amiga. Se ela decidir etiquetar um croqui meu, vai ser o dia mais feliz da minha existência. — Seus olhos castanhos se encheram de lágrimas enquanto eu queria pular nos braços da minha melhor amiga e parabeniza-la, e só não fiz isso, pois a cortina da sala de ajustes foi aberta, e ninguém menos que a estilista Stella Valencio adentrou a sala, detendo seu olhar sobre o vestido, analisando-o dos meus pés a cabeça.
Seu olhar foi indecifrável, o silêncio deixava tudo mais agonizante. A testa da Holly suava enquanto sua chefe com as chaves principais da porta do seu futuro me circundava. Sem dizer nada, Stella foi até uma mesa de apoio, onde pescou um palito de cabelo e o trouxe até estar atrás de mim, dividindo o reflexo do espelho comigo. Ali ela juntou meu cabelo em um coque despojado e o prendeu no alto da minha cabeça, deixando meu colo livre.
— Perfect! Holly, isso é uma obra de arte no corpo de uma sedutora. Sabe o poder que esse vestido tem? — Perguntou com a voz no meu ouvido, olhando fixamente em meus olhos através do espelho. Arfei levemente tremula e neguei com a cabeça.
Pela visão no canto do olho vi uma lágrima emocionada da minha amiga que continha sua comemoração e empolgação exagerada, mas ela a reduziu em um único sorriso.
— O poder de deixar qualquer homem de joelhos, implorando para te proporcionar prazer dentro dele.
Esvaziei o ar dos meus pulmões pela boca.
— Isso foi um sim? — Indagou Holly, foi quando Stella, conhecida por seus modelos exuberantes e sexys sorriu soltando meu cabelo.
— Eu etiqueto seu vestido Holly, ele poderá ser vendido aqui no ateliê com sua assinatura. — Anunciou cruzando os braços, ainda namorando o modelo. — Mas ele precisa estar no corpo dela na festa!
***
Não pude esperar para comemorar com a Holly como ela merecia, mas prometi me render ao seu pedido de comemoração em um bar depois que sairmos do trabalho, já que hoje não teríamos aula na faculdade.
Meu cabelo se manteve preso como Stella havia deixado, e confesso que eu estava até animada para sair mais tarde depois da dose de auto estima que ganhei no ateliê da mesma. Eu me sentia bem, de uma forma estranha. Um pouco mais confiante, até considerando realmente usar aquele vestido contradizendo minha vontade. Mas tudo caiu por terra quando cheguei novamente no andar presidencial e dei de cara com Drizella aguardando sentada no sofá de couro preto para espera.
Ela notou quando me aproximei, e se levantou com uma risadinha.
— A porta está trancada, porteira, e antes que impeça minha passagem, eu coloquei meu nome na agenda. Ou seja, você deve me anunciar ao Cohen. — Despejou andando em passos precisos em minha direção.
— Anunciar é uma coisa, se ele vai permitir sua entrada é outra. — Falei, dando a volta no balcão discando o ramal da sala do Cohen. Longos segundos se passaram sem que ninguém respondesse. — Ele não deve ter voltado ainda, ninguém atende.
— Fala a verdade gata borralheira, você nem ligou. — Desdenhou dando a volta no balcão tentando discar ela mesma, mas soquei o telefone no gancho não permitindo.
— Não me chama assim! — Ordenei olhando no fundo dos seus olhos azuis que eu morreria sem saber se eram lentes. Drizella soltou uma risada forçava ficando praticamente cara a cara comigo.
— Como? Gata Borralheira? Mas é isso que você é, ou prefere rata subordinada?
— Ele não está, vai embora Drizella. — Pedi, engolindo minha raiva cada vez mais evidente.
— Prendeu o cabelo e está se sentindo gente? — Zombou, puxando do meu cabelo o palito personalizado do ateliê Stella Valencio, e por ler sua inscrição, a loira riu enquanto meu coque se desmanchava nos ombros. — Isso aqui não é pra gentinha como você, Anya, mas... guarda de recordação. — Disse colocando o prendedor palito no meu porta canetas. — É tudo o que seus valiosos centavos que sobram no fim do mês podem comprar.
Fechei os olhos quando uma ardência indicou que em breve eles estariam turvos.
— Quer que eu anote recado? — Perguntei, tentando não me rebaixar.
— Quero, diz ao Cohen que eu volto de noite para bagunçarmos a mesa que você arruma todos os dias. — Disse me olhando com acidez enquanto meu rosto esquentava em raiva. A palma da minha mão ardeu para esfolar aquela cara pálida.
— Anotado. — Declarei, apertando o telefone contra o gancho com ainda mais força ao vê-la sumir do hall com seu andar apelativo.
Dessa vez, não controlei a vontade de me olhar pelo reflexo da vidraça, e encarar uma temporária fracassada que vivia em prol dos outros. Me sentei sem vontade na cadeira, espalhando meu cabelo pelo ombro, e arrumando meus óculos que escorregavam constantemente pelo nariz. Fitei o porta retrato sobre minha bancada com a foto da minha família e sorri, mesmo que muito desanimada. Era por eles, sempre foi e sempre vai ser.
Mamãe, papai e Tom, meu irmão caçula de apenas 9 anos de idade que estava sendo beneficiado com o plano de saúde da Archer. Com o tratamento avançado, em breve meu garotinho teria a oportunidade de escutar pela primeira vez na vida, e era por ele que eu saia da cama todos os dias, sabendo que a cada passo mais perto de me formar, mais perto eu ficava de voltar para Minnesota e cuidar de todos eles.
Estava pronta para me entregar a lágrimas frustradas quando o aparelho do ramal tocou, ascendendo em uma luz que indicava estar vindo de dentro daquela sala.
— Tá de brincadeira com a minha cara! — Protestei me levantando as pressas, abrindo a porta gigantesca agora destrancada, invadindo a sala dando de cara com Cohen sentado na sua poltrona de CEO empoderado que só ele tinha. — Com todo respeito senhor Cohen, mas eu não sou paga pra levar esporro das suas amantes enquanto você finge que não tem ninguém na sala. — Despejei sob o olhar avido de Cohen Archer e sua postura autoritária. — Adoraria dizer que sou paga para anotar recado, mas graças a sua porta sem acústico eu suponho que isso não seja necessário, o que me livra da vergonha de dizer que sua amante incapaz de me chamar pelo meu curto nome com apenas quatro letras que dispensa apelidos como os que ela me batiza, marcou presença em cima dos relatórios que eu organizo e folheio todos os dias.
Um silêncio perdurou por longos minutos enquanto eu me recuperava e admitia que descontei no meu chefe, minha fodida vida.
— Anya. — Começou, soprando meu nome. — Não atendi a senhorita Hummer porque eu posso sim, fingir que não tem ninguém na sala, e eu faria isso pela tarde toda, se não tivesse acabado de receber uma resposta da agencia que você trabalha.
Dei um passo para trás apreensiva com seu tom sério e o semblante endurecido.
— Uma resposta... — Repeti, agora dez tons abaixo de quando entrei nessa sala. — Para qual pergunta?
Meu coração tamborilava contra as costelas em um aviso de mau presságio.
— Não sou o cara que pergunta, sou o cara que pede. E eu pedi para que você fosse desligada da agencia. — Declarou, arrancando todo o calor do meu sangue, que eu já nem sentia mais correr pelo meu corpo paralisado.
A única coisa que consegui pensar, foi no meu último ano da universidade, eu estava no meu fodido último semestre, com os pés na minha formatura, recebendo praticamente a noticia de que eu não poderia mais paga-la.