Capítulo 2

Ponto de Vista de Alina Campos:

Uma semana depois, entrei na reluzente torre de vidro da Éter, o império tecnológico de João Ricardo. Meu coração era um peso morto no peito, um espaço oco onde antes havia amor.

A recepcionista, uma jovem que sempre fora gentil comigo, ergueu os olhos com pena. "Sra. Monteiro, sinto muito, mas o Sr. Monteiro está em uma reunião muito importante. Ele não pode ser incomodado."

Claro que estava. Ele estava sempre ocupado. Ocupado demais para uma sogra moribunda, ocupado demais para sua esposa de luto. Mas nunca, eu suspeitava, ocupado demais para Gênesis.

Afundei em um sofá de couro macio no saguão, minhas mãos agarrando um envelope pardo. Eu não sentia nada. A dor era uma pontada constante e surda, mas as arestas afiadas da dor haviam sido suavizadas. Eu estava apenas... vazia.

As portas do elevador se abriram com um som suave, e Gênesis saiu. Ela estava vestida de seda creme, parecendo radiante e serena. Ela me viu e seu sorriso se alargou.

"Alina, que surpresa", disse ela, sua voz pingando falsa preocupação. "Você está se sentindo melhor? O universo nos testa, mas apenas para nos tornar mais fortes."

"Estou tão bem quanto jamais estarei", respondi, minha voz monótona.

Estendi o envelope para ela. "Preciso que você entregue isso para o João Ricardo. Eles não me deixam entrar."

Suas sobrancelhas perfeitamente esculpidas se ergueram ligeiramente. "Claro. O que é?"

"Os papéis do divórcio", eu disse, as palavras com gosto de cinzas na minha boca. Uma risada amarga escapou dos meus lábios. "Acontece que até as chamas gêmeas precisam lidar com as legalidades terrenas."

"Por que você não entrega a ele pessoalmente?" ela perguntou, um toque de desafio em seu tom. Ela estava gostando disso, gostando de seu poder sobre mim.

Encontrei seu olhar, meus próprios olhos frios e mortos. "Porque ele não vai me ver, Gênesis. Mas ele sempre verá você."

Um lampejo de triunfo cruzou seu rosto antes que ela o mascarasse com um suspiro de compaixão. "Pobrezinha. Claro, eu ajudo."

Ela pegou o envelope e caminhou em direção à sala de reuniões, seu vestido de seda sussurrando contra o chão. Ela não bateu. Apenas empurrou as pesadas portas de vidro e entrou.

Através do vidro fosco, pude ver a silhueta de João Ricardo na cabeceira de uma longa mesa, cercado por seus executivos. Ele ergueu os olhos quando Gênesis entrou, e a tensão em seus ombros imediatamente se suavizou. Ele sorriu. Um sorriso real e caloroso.

Gênesis se inclinou e sussurrou algo em seu ouvido, entregando-lhe o envelope.

Ele o pegou sem desviar o olhar dela. Ele não o abriu. Nem sequer olhou para as palavras estampadas na frente. Ele simplesmente pegou uma caneta da mesa, virou para a última página e assinou seu nome.

Então ele a puxou para seu colo, bem ali na frente de todo o seu conselho, e a beijou.

Eu assisti, meu corpo completamente imóvel, meu coração uma pedra. O homem que uma vez jurou que não poderia viver sem mim tinha acabado de assinar o fim do nosso casamento sem pensar duas vezes, sua atenção totalmente voltada para outra mulher.

Gênesis saiu um momento depois, os papéis assinados em sua mão. Ela me ofereceu outro sorriso de pena. "Está feito. Lembre-se, Alina, deixar ir é o primeiro passo para a cura. O universo tem um novo caminho para você."

Peguei o envelope de sua mão, nossos dedos se roçando. A pele dela estava quente. A minha estava gelada.

Virei-me e saí do prédio sem dizer mais uma palavra.

O advogado confirmou que a assinatura era válida. Havia um período de reflexão de trinta dias. Mais trinta dias naquela casa, um fantasma assombrando as ruínas da minha própria vida.

Todos os dias, eu via João Ricardo mimar Gênesis. Ele levava café da manhã para ela na cama. Comprava presentes extravagantes. Ele se agarrava a cada palavra dela sobre energia e iluminação. Eu era invisível.

Embalei os pertences da minha mãe, que finalmente haviam sido entregues de seu apartamento. Eles chegaram em uma única caixa pequena. Segurei sua xícara de chá de porcelana favorita em minhas mãos, seu delicado padrão uma dolorosa lembrança de seu espírito gentil. A dor, aguda e crua, me invadiu, e eu caí no chão, agarrando a caixa e soluçando.

"Por que você está chorando?"

Eu ergui os olhos. Gênesis estava na porta, uma carranca marcando seu rosto perfeito.

A governanta, Maria, que estava conosco há anos, respondeu suavemente. "A mãe dela, Srta. Luz. Ela está de luto."

A expressão de Gênesis se suavizou naquela familiar máscara de sabedoria espiritual. "Oh, Alina. Você não deveria estar triste. Sua mãe foi libertada de sua forma física. Sua alma está livre. Você deveria estar celebrando a libertação dela."

"Ela foi assassinada", engasguei, minha voz grossa de lágrimas e raiva. "Você e sua dívida kármica a assassinaram."

Abracei a caixa com mais força, virando-me para longe dela. Eu não suportava vê-la, não suportava o som de sua voz. Eu só queria ser deixada em paz com os últimos pedaços da minha mãe.

Gênesis observou minhas costas se afastando, e pela primeira vez, vi um lampejo de algo além de iluminação serena em seus olhos. Era frio, duro e malicioso.

Um novo pensamento pareceu se formar em sua mente. Uma maneira de me "ajudar". Uma maneira de purgar minha "energia escura".

Mais tarde naquela noite, ouvi-a falando com um dos jardineiros em voz baixa e urgente.

"Preciso que você encontre algumas cobras. Várias delas. Não venenosas, claro. Vamos ajudar a Sra. Monteiro a confrontar seus medos mais profundos."

O jardineiro hesitou. "Mas, Srta. Luz... a Sra. Monteiro tem pavor de cobras. Pavor."

"João Ricardo quer que ela se cure", disse Gênesis, sua voz endurecendo, tingida com a autoridade que ela sabia que agora possuía. "E eu sei o que é melhor para ela. Faça isso."

O jardineiro baixou a cabeça, derrotado.

Naquela noite, caí em um sono exausto, agarrando a xícara de chá da minha mãe.

Em algum momento no meio da noite, eu estava vagamente ciente da porta do meu quarto se abrindo. Eu estava dormindo muito profundamente para acordar completamente.

Então, eu senti. Algo frio, liso e pesado deslizando pela minha perna nua.

Capítulo 3

Ponto de Vista de Alina Campos:

Meus olhos se abriram de repente. Um grito primal ficou preso na minha garganta. Tateei em busca do interruptor da lâmpada na mesa de cabeceira, meus dedos tremendo tanto que precisei de três tentativas.

A luz inundou o quarto, e o grito rasgou meus pulmões, cru e rouco.

Elas estavam por toda parte.

Cobras. Dezenas delas. Deslizando sobre os lençóis de seda, enroladas no tapete felpudo, penduradas na poltrona no canto. Suas escamas brilhavam à luz da lâmpada, suas línguas bifurcadas se movendo para dentro e para fora, provando o ar. O meu ar.

O pânico, frio e absoluto, me dominou. Saí da cama às pressas, cambaleando para trás até minhas costas baterem na parede. Tentei a maçaneta da porta. Trancada. Claro que estava trancada.

"Gênesis!" gritei, batendo na madeira pesada com os punhos. "Gênesis, sua psicopata, me deixe sair! Me deixe sair daqui!"

Meus gritos desesperados foram recebidos com silêncio. Bati novamente, meus nós dos dedos gritando em protesto. "Me deixe sair! Por favor, alguém me ajude!"

Uma voz suave e calma veio do outro lado da porta. "Alina, você está perturbando a paz da casa. João Ricardo está meditando."

Era ela. Gênesis.

"Você fez isso!" gritei, minha voz rachando de histeria. "Sua monstra doente, tire-as daqui!"

"Eu fiz isso por você, Alina", disse ela, seu tom irritantemente gentil. "O medo é um bloqueio de energia. Você deve confrontá-lo para liberá-lo. Abrace as cobras. Sinta a conexão delas com a terra. Elas estão aqui para te curar."

Minha mente se fragmentou. Eu não conseguia mais formar palavras, apenas sons desesperados e animais de terror. "João Ricardo! João Ricardo, me ajude! Por favor, João Ricardo!"

Ouvi seus passos se aproximando no corredor. Um fio de esperança, agudo e doloroso, perfurou meu pânico. Ele iria parar com isso. Ele tinha que parar. Ele não deixaria isso acontecer.

"O que está acontecendo?" Sua voz estava pesada de sono e irritação.

"João Ricardo, graças a Deus!" solucei, pressionando meu rosto contra a porta. "É a Gênesis! Ela encheu meu quarto de cobras! Por favor, faça ela me deixar sair!"

Ouvi o murmúrio suave de Gênesis. "Querido, eu só estava tentando ajudar. A aura dela está tão nublada pela dor e pela raiva. Pensei que uma terapia de imersão natural ajudaria a purgar a negatividade."

"Ela está tentando me matar!" gritei. "Eu tenho pavor de cobras, você sabe disso!"

Houve uma longa pausa. Eu podia ouvir minha própria respiração ofegante, o sussurro suave e sinistro de escamas no tapete. Prendi a respiração, esperando que João Ricardo ordenasse que a porta se abrisse. Esperando que ele me salvasse.

Sua voz, quando veio, era fria e distante, filtrada pela madeira grossa da porta.

"Gênesis sabe o que é melhor, Alina."

O mundo parou. O ar saiu dos meus pulmões em uma corrida.

"O quê?" sussurrei, minha voz quase inaudível.

"Ela é uma curandeira", disse ele, sua voz ganhando convicção. "Se ela diz que isso vai te ajudar, então vai. Você só precisa se acostumar."

Se acostumar.

As palavras ecoaram no silêncio aterrorizante do quarto. Se acostumar.

Ouvi-o colocar o braço em volta de Gênesis. Ouvi seus passos se afastando pelo corredor.

Ele estava me deixando. Ele estava me deixando aqui dentro.

Um desespero tão profundo que parecia afogamento me puxou para baixo. Deslizei pela porta, minhas pernas cedendo, e me encolhi em uma bola apertada no chão. Eu estava soluçando, mas nenhum som saía. Meu corpo era sacudido por convulsões silenciosas e agonizantes de terror.

Uma das cobras, uma grande píton escura, deslizou lentamente em minha direção. Ela se enrolou em minha perna, seu corpo grosso e musculoso. Fechei os olhos com força, meu corpo inteiro rígido de medo.

Então senti uma dor aguda e penetrante na minha panturrilha.

Olhei para baixo. A cobra tinha me picado. Duas pequenas perfurações estavam vertendo sangue.

O mundo inclinou, as bordas da minha visão ficando cinzas e embaçadas. Meu último pensamento coerente foi em João Ricardo. No homem que me tirou de um carro em chamas, que jurou me proteger.

Que acabara de me sentenciar à morte em um poço de cobras.

Acordei na enfermaria na ala oeste da casa. Minha cabeça latejava, e minha panturrilha estava enfaixada e pulsando.

João Ricardo estava sentado em uma cadeira ao lado da cama, rolando o feed do celular. Ele ergueu os olhos quando me mexi.

"Você acordou", disse ele, seu tom neutro. "O médico disse que foi uma picada não venenosa. Você apenas desmaiou com o choque."

Eu o encarei, minha garganta arranhando. "Você me deixou lá para morrer."

Ele suspirou, um lampejo de aborrecimento cruzando seu rosto. "Não seja dramática, Alina. Eu sabia que não eram venenosas. Gênesis nunca te colocaria em perigo real."

Ele se levantou e caminhou até a janela, de costas para mim. "Preciso que você entenda uma coisa. Gênesis será uma parte permanente da minha vida. Das nossas vidas. Preciso que você aceite isso. Preciso que você pare de tornar as coisas tão difíceis."

Eu apenas encarei suas costas, um nó frio e duro de algo novo se formando em meu peito. Não era amor. Não era nem mesmo ódio. Era uma certeza arrepiante e absoluta.

Eu tinha que sair. Mas primeiro, eu tinha que sobreviver.

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